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Depois de quatro filmes nos EUA, Woody Allen regressou à Europa em “Rifkin’s Festival”, todo ele filmado em Espanha, no Festival de San Sebastián. A Mediapro, principal financiadora do projeto, queria que Allen rodasse mais uma vez no país vizinho após “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e o realizador decidiu-se por situar a história do filme naquele festival de cinema do País Basco. Isso permitiu a Allen talhar o enredo bem à medida do cenário em que decorre e dar-lhe um embrulho de cinefilia, sendo que “Rifkin’s Festival” foi, obviamente, o filme de abertura de San Sebastián no ano passado.

Wallace Shawn interpreta a personagem do título, Mort Rifkin, um intelectual judeu novaiorquino que deu aulas de cinema e quer escrever um grande romance mas sofre de bloqueio criativo, e que, relutantemente, acompanha a mulher, Sue (Gina Gershon), que trabalha como relações públicas de cinema, ao Festival de San Sebastián. Esta tem a seu cargo a agenda do pretensioso realizador francês da moda, Philippe (Louis Garrel), que planeia rodar um filme que promova a paz entre árabes e israelitas no Médio Oriente (“Não sabia que ele fazia ficção científica”, comenta Rifkin ao ouvir a notícia).

[Veja o “trailer” de “Rifkin’s Festival”:]

Rifkin é o habitual “alter ego” e porta-voz de Woody Allen, dando corpo e verbo, aqui de forma preguiçosamente estereotipada, à sua visão pessimista, neurótica, insegura e cética do mundo, da existência e do cinema, pontuada por algumas boas tiradas (“Acho sempre que os médicos me vão dar um mês de vida, e com a minha sorte, será Fevereiro”). Sentindo que Sue está à beira de o enganar com o jovem e sedutor Philippe, Rifkin começa a sofrer de ansiedade e a ter palpitações. Vai então consultar uma médica, Jo (Elena Anaya), que viveu em Nova Iorque e se revela inteligente, cativante e tem um casamento conflituoso com um pintor adúltero, e fica pelo beicinho por ela.

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[Veja Woody Allen e os atores falaram do filme:]

O que resgata “Rifkin’s Festival” de ser uma fita indolente e auto-condescendente, um Woody Allen de juntar por pontinhos, são os sonhos de Rifkin e as fantasias que o acometem quando ele está acordado. E que tomam a forma de tão rigorosos como cómicos “pastiches” de filmes clássicos europeus admirados pelo realizador (um excelente trabalho do diretor de fotografia Vittorio Storaro e dos diretores artísticos Alain Bainée e Anna Pujol Tauler), adaptados às situações e aos estados de espírito que a personagem está a viver e a sentir, indo de “O Acossado” a “O Anjo Exterminador”, passando por “Um Homem e uma Mulher”.

[Veja uma sequência do filme:]

Destaque para os “pastiches” de “O Mundo a Seus Pés” em versão novaiorquina, passado em casa dos pais do pequeno Rifkin, na Bronx (o trenó chama-se Rose Budnick); de “A Máscara”, de Bergman, em que Sue e Jo comentam, em sueco, os defeitos do protagonista; e muito em especial de “O Sétimo Selo”, do mesmo Bergman, em plena Praia da Concha de San Sebastián, onde Rifkin joga xadrez com uma Morte (Christoph Waltz) nada solene e muito afável, que lhe dá conselhos existenciais, sugestões de nutricionismo e o avisa sobre os malefícios do tabaco. São estas mini-paródias cinéfilas que fazem com que “Rifkin’s Festival” seja mais do que ramerrame allenesco em tom menor, ambientado no festival de uma bonita cidade basca à beira-mar.