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Uma empresa como a CP “não pode funcionar como uma repartição instrumental do Estado”, defendeu o ex-presidente da empresa esta terça-feira no Parlamento. Nuno Freitas foi ouvido na comissão de economia e obras públicas sobre as razões que o levaram a demitir-se da presidência da operadora ferroviária a poucos meses do final do mandato.

Na sua intervenção inicial, o gestor destacou que a presidência da CP “exige enormes sacrifícios pessoais e profissionais”. Afirmou que aceitou o convite do ministro Pedro Nuno Santos porque acreditou que conseguia inverter o rumo descendente dos caminhos de ferro e porque é um ferroviário. O trabalho feito no mandato permite que o Governo possa decidir em 10 anos (quando termina o atual contrato de concessão) o que quer fazer da empresa e prepará-la para a concorrência.

A audição ao ex-presidente da CP foi pedida pelo PSD na sequência da demissão de Nuno Freitas antes do final do mandato, apontando as dificuldades da gestão da empresa por ser pública, que foram reforçadas pelo ministro das Infraestruturas. Também foram pedidas as audições de Pedro Nuno Santos e do ministro das Finanças, João Leão.

Nuno Freitas defendeu que a CP será uma empresa determinante para Portugal cumprir as metas de descarbonização, “mas se não puder concorrer em iguais circunstâncias, tudo isto irá perder-se”. E tudo isto passa pelas vários objetivos que afirma ter cumprido no seu mandato, desde a estabilização da operação que estava em rotura, passando pela reintegração da Emef na CP que “deu músculo” ao grupo e pela devolução aos trabalhadores o “orgulho em ser ferroviário”.

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Sem se referir às queixas que o ministro da tutela (que faz questão de elogiar pelo esforço pessoal para tentar ultrapassar problemas) fez dos travões do Ministério das Finanças — necessidade de autorização para comprar rodas — , Nuno Freitas frisou que quando foi assinado o contrato de concessão de serviço público em 2020 houve o compromisso de sanear a dívida histórica. O compromisso só deverá ser cumprido em 2022 — já depois da saída de Nuno Freitas — se a proposta orçamental que prevê 1,8 mil milhões de euros  for aprovada.

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Este será o primeiro passo para dar mais autonomia financeira e de gestão para que que a CP “possa ser mais eficiente”. O gestor referiu que mesmo fora do controlo orçamental mais apertado, a empresa continuará a ter um plano estratégico, um orçamento, avaliação periódica e responsabilização da gestão. Agora, “não vale a pena ir à procura de gente que percebe do negócio para a empresa ser gerida como uma repartição pública”, insistiu.

Nuno Freitas referiu ainda que a resolução da dívida da CP não terá impacto negativo nas contas públicas porque a empresa já consolida no défice e na dívida e grande parte do endividamento é ao próprio Estado. Já sobre uma divida obrigacionista de 200 milhões de euros que é detida por investidores privados, e que paga “juros exorbitantes”, ela deverá ficar na empresa porque a amortização antecipada teria um custo muito elevado.

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Concorrência virá dos grandes operadores europeus e não da Barraqueiro

A CP deve começar já a preparar-se para a assinatura do próximo contrato de serviço público e isso passa também por uma  alteração de cultura e pela compra de material circulante para aproveitar a nova geografia ferroviária. O eixo de alta velocidade entre Lisboa e Porto vai exigir redesenhar a oferta porque vão aparecer mais operadores.

Para o gestor, a concorrência virá das grandes empresas ferroviárias europeias, todas empresas públicas, que já tiveram a suas dívidas saneadas. Nuno Freitas desvalorizou ainda o plano para entrar no mercado da B-Rail do grupo Barraqueiro que se propõe ligar Braga ao Algarve, considerando que a proposta de exploração entregue não é exequível por razões de geografia ferroviária e de material circulante. Para o gestor, o objetivo do grupo privado é obter a certificação como operador ferroviário com os olhos postos na alta velocidade.

O ex-presidente da CP assinalou ainda que em quase todos os países não existe esta separação entre a roda e o carril (entre a operação da CP e a infraestrutura gerida pela Refer) que dificulta a integração dos investimentos.

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O ex-presidente da CP, que abandonou o cargo para voltar à empresa da qual é acionista e gestor, a Nomad Tech, foi questionado sobre os ajustes diretos feitos pela operadora que, segundo o deputado do PSD, Carlos Silva, subiram durante a sua gestão. Considerando que as notícias recentes sobre essas contratações resultam de uma “tentativa para denegrir a minha imagem”, Nuno Freitas lembrou que a sua participação na Nomad Tech era conhecida quando foi nomeado para o cargo, afirmando que recusou a “habilidade típica” de vender as ações para depois as recuperar porque “não tenho nada a esconder”.

A Nomad Tech já ganhou ajustes diretos da CP quando a empresa tinha outros conselhos de administração, além de que a CP tem 35% e “eu só tenho 7%”. Assegura ainda que não participou enquanto presidente da CP em decisões de adjudicação à empresa de tecnologia.