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A Agência Espacial Portuguesa anunciou e a Unbabel anunciaram na Web Summit o lançamento da segunda edição do Moonshot Challenge, um concurso para financiar projetos relacionados com a monitorização de detritos espaciais, gestão de recursos terrestres e vigilância dos oceanos.

O vencedor, que será anunciado na Web Summit do próximo ano, receberá 500 mil euros para desenvolver o projeto. O prémio pode ser entregue a mais do que uma equipa e, nesse caso, o valor será dividido pelo número total de projetos vencedores. O dinheiro terá de ser aplicado em investigação realizada ao longo de um máximo de dois anos em Portugal.

De resto, só se pode candidatar quem transferir os projetos para instituições portuguesas ou se os membros se estabelecerem em Portugal. “A equipa não tem de estar já estabelecida em Portugal, mas tem de desenvolver trabalho relevante relacionado com Portugal ao longo do projeto”, esclarece a página do prémio. Os autores dos projetos podem candidatar-se já  a partir desta quinta-feira até 2 de maio de 2022.

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O prémio foi anunciado por Zita Martins, astrobióloga no Instituto Superior Técnico e diretora do programa MIT Portugal; e pelo diretor de inovação da ESA, Pierre Philippe Mathieu em conversa com o gestor de produto da Unbabel, Gil Coelho. O objetivo é que os projetos conjuguem a exploração de dados de satélites e inteligência artificial para contribuírem para a sustentabilidade do espaço e da Terra.

A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a Agência Nacional de Inovação (ANI), a Agência Espacial Europeia (ESA) e a própria Web Summit também estão a apoiar este concurso, que no ano passado premiou o projeto CERENA, uma spin-off do Instituto Superior Técnico dedicada à exploração sustentável de recursos naturais.

“A ciência é internacional”, defendem cientistas na Web Summit

Zita Martins e Pierre Philippe Mathieu defenderam ambos que “a ciência é internacional” e elogiaram que os dados recolhidos pelo programa Copérnico da ESA, uma constelação de satélites que observam a Terra, estejam em domínio público. A vantagem é que os dados, estando ao acesso de qualquer pessoa de modo gratuito, podem ser trabalhados por investigadores em todo o mundo para obter mais informação.

Essas informações podem ser especialmente úteis para colmatar as alterações climáticas e podem ser testadas numa aplicação da ESA, a “Digital Twin Earth”, também ela disponível para download no site da agência espacial europeia, que mimetiza o ambiente terrestre e serve como um laboratório virtual. “Não temos planeta B”, notou Pierre Philippe Mathieu, mas esta aplicação é o mais próximo disso.

Questionados sobre que startups criariam neste momento para contribuírem para a sustentabilidade da exploração da Terra e do espaço, o diretor de inovação da ESA sugeriu uma empresa que servisse de ponte entre as “empresas de newspace— as que estão a contribuir para a viragem do setor espaço para fins comerciais — e as empresas tradicionais, voltadas para a investigação.

Zita Martins, cuja investigação concentra-se na possibilidade de corpos celestes como meteoros e asteroides terem colidido com a Terra primitiva e trazido as moléculas que permitiram o desenvolvimento de vida, falou da criação de uma empresa que permita descobrir se há vida noutros planetas.

A astrobióloga apontou especificamente para as luas de Júpiter e Saturno, que estão cobertas por uma camada espessa de gelo debaixo da qual existem oceanos de água em estado líquido. Como na Terra os oceanos foram o berço da vida, Zita Martins sugeriu a criação de uma empresa que explore a ligação entre a investigação em torno dos oceanos em Terra e o espaço. “Não o vou fazer”, sublinhou: “Mas se fosse o caso, era isso que faria”.