A intenção de alguns críticos do Bloco de Esquerda de antecipar a convenção do partido — e fazê-la já até junho deste ano — morreu na praia. Até porque os próprios se dividiram. Numa reunião da Comissão Política do partido, que decorreu esta quarta-feira pela noite e madrugada dentro, a proposta deu entrada mas foi chumbada com apenas um voto a favor. E a direção disparou de volta: afinal, o “único objetivo” dos críticos é o que têm negado: substituir a liderança do Bloco.

A proposta dos críticos — de alguns críticos — era clara: o documento, assinado por 120 elementos do partido, incluindo os ex-deputados Pedro Soares e Carlos Matias (da corrente crítica Convergência) argumentava que era preciso envolver “a pluralidade de todo o partido” no processo de definir o rumo estratégico do Bloco, e para isso não seria suficiente a conferência nacional que está marcada para 30 de abril.

Por isso, estes militantes e dirigentes pediam mesmo que fosse antecipada uma convenção nacional (ou seja, um congresso do partido), que normalmente estaria agendada para o próximo ano, já até ao “final do primeiro semestre em curso”, “com o objetivo de proceder ao balanço do recente ciclo político e, num novo quadro atravessado por fortes alterações, definir democraticamente a orientação política do Bloco para os próximos dois anos”.

O problema é que os críticos que têm, efetivamente, representação e voto na Comissão Política não estiveram alinhados entre si — um problema antecipável logo ao analisar as assinaturas que lançaram o documento, onde não se incluíam os nomes de vários dos críticos que fazem parte da Comissão Política. No órgão, apenas o histórico Mário Tomé votou a favor da proposta, ficando isolado. Dos outros críticos, Ana Sofia Ligeiro e Miguel Oliveira abstiveram-se, Luísa Santos votou mesmo a favor da proposta da direção e Bruno Candeias não foi à reunião.

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Em alternativa foi, aliás, votado um documento proposto pela maioria da direção em que os críticos são arrasados. Por um lado, conforme o texto a que o Observador teve acesso, a antecipação da convenção do Bloco não permitiria que se respeitassem os prazos normais no debate interno do partido, mas, mais do que isso, haveria uma “sobreposição” com os primeiros meses da maioria absoluta, “sem que os efeitos do novo orçamento pudessem ser minimamente avaliados”. Conclusão? “Seria, portanto, um grande favor
ao governo do PS”.

Por outro lado, a direção argumenta que isto expõe o verdadeiro objetivo dos críticos — que o têm sempre negado: “O objetivo desta proposta é paralisar o Bloco num processo de substituição de direção”. Para a linha oficial do partido, a conferência nacional marcada para o fim de abril só não tem mesmo esse poder — o de mudar a direção, o que só acontece nas convenções nacionais — e portanto será essa a vontade dos críticos. “Regista-se que os camaradas da Convergência/moção E pretendem trazer ao Bloco uma cultura política que nunca foi a nossa: a avaliação de orientações e dirigentes pela bitola eleitoral”.

E acusa mesmo os críticos de entrarem “num contínuo de ações irresponsáveis e causadoras de desgaste público do Bloco”, entre as quais a tentativa de impugnar listas de candidatos do Bloco (aquelas em que a direção impôs escolhas diferentes das assembleias distritais) junto do Tribunal Constitucional — “algo sem precedente na história de qualquer partido de esquerda” — e o comunicado em que a Convergência dava conta das medidas financeiras que o Bloco está a tomar para cortar custos no interior do partido (e que, ao Observador, não foram desmentidas pela direção do partido).

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A direção ainda argumenta mais: com os maus resultados políticos que teve e o “ambiente político de caça às bruxas” que diz existir “a partir da invasão da Ucrânia”, não é preciso acrescentar obstáculos ao caminho do partido — e as orientações da última convenção, no ano passado, mantêm-se atuais, assegura. O documento foi aprovado com onze votos a favor, duas abstenções e apenas um voto favorável à antecipação da convenção, que se mantém assim prevista para o ano que vem.