É uma moção do “coletivo” e é o coletivo que a defende, sem falar em candidatos à liderança nem avançar nomes de hipotéticos coordenadores. Foi assim que um grupo de representantes dos críticos internos do Bloco de Esquerda quis apresentar aos jornalistas a única moção alternativa à que será encabeçada por Mariana Mortágua na convenção do partido, com um desígnio: “Descontinuar este caminho de perda de influência política, social e eleitoral” do Bloco, que acreditam que Mariana Mortágua virá perpetuar.

Mesmo assim, nesta conferência de imprensa houve porta-voz: a responsabilidade de falar aos jornalistas, ladeado por nomes como o do histórico bloquista Mário Tomé (mandatário da moção), foi do ex-deputado Pedro Soares, que defendeu a necessidade de trazer ao Bloco uma “mudança de rumo” que contribua para a sua “credibilização e reafirmação na sociedade”.

Mariana Mortágua apresenta candidatura à liderança do Bloco. “Não estamos aqui para dar sossego”

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A tal perda de influência e credibilidade, dizem os críticos, acontece devido aos “erros de orientação política” do Bloco — “proximidade excessiva” do PS à cabeça — que não são reconhecidos com “humildade” pela direção, a mesma que subscreve a moção que agora será encabeçada por Mariana Mortágua. “É sintomático que [a moção] não tenha uma linha de balanço do ciclo eleitoral e político”, atirou Pedro Soares, fazendo um jogo de palavras: isso não é “levar o país a sério” (lema da convenção bloquista).

A ideia, assegurou, não é procurar “cortar cabeças”, até porque os críticos não querem falar em nomes — o ex-deputado rejeitou por várias vezes adiantar quem encabeçará as listas e sugeriu que o sistema preferido pela moção dos críticos internos será o que já existiu no Bloco, de porta-vozes e não coordenadores, podendo existir um porta-voz a nível nacional para política geral, mas também outros responsáveis por temas setoriais. As decisões políticas deverão ser tomadas pela Mesa Nacional (uma espécie de direção alargada) como um todo, sugeriu.

O que não pode haver é uma insistência em apresentar “sucessores” para Catarina Martins, atirou, nem a “ideia liberal” de que a discussão deve ser focada em rostos: “Há setores mais interessados em obliterar o debate político na convenção, colocando em primeiro plano a ‘sucessão’. Há uma certa ansiedade de mediatismo para diluir o debate fundamental nesta convenção: um balanço do ciclo eleitoral que terminou e perspetivas sobre o futuro, tirando ilações. Se isto não for feito, qualquer solução de direção que surja é sempre diminuída”, disparou, questionado sobre Mortágua.

Combate ao PS, críticas à NATO e problemas internos. O que dizem os rascunhos das moções bloquistas

Tudo porque, se esse balanço não for feito, o discurso de ataque feroz à maioria do PS será sempre “oco”, dizem os críticos — e o Bloco, que deve concentrar-se em estar ao lado dos movimentos sociais contra a maioria absoluta socialista e em liderar uma alternativa de esquerda, continuará “diminuído” (“Se alguém tem a ilusão de que no Parlamento se põe em causa esta maioria absoluta, não é só o Governo que está enganado, é também a oposição”).

Como continuará diminuído se não ouvir as diferentes sensibilidades internas: Soares acusou a direção de querer um Bloco “fechado” e de ter “procurado que esta convenção não fosse diversificada”, mostrando não querer “colaborar” com os críticos internos. Aliás, arrancou a conferência de imprensa saudando os que ficaram “excluídos” do debate — fosse devido à regra que exige agora mais assinaturas para apresentar moções na convenção, ao aumento do valor das quotas ou à margem temporal curta para preparar moções e candidaturas.

“Tudo faremos para evitar que os apelos à democracia interna terminem no dia a seguir à convenção e que essa pluralidade seja substituída por uma espécie de cordão sanitário à volta das pessoas que têm opiniões e querem debatê-las”, avisou Pedro Soares.

Mas a verdade é que a própria moção, que se apresenta como “a moção das bases do Bloco”, emagreceu em subscritores — apesar de ter tentado federar várias sensibilidades internas, o documento tem agora menos cerca de cem assinaturas do que tinha a moção do mesmo grupo, na última convenção.

Sobre isto, Soares admitiu que a moção vai travar uma luta “desigual e difícil”, mas explicou essas dificuldades com os obstáculos de não contar com o aparelho do partido, como a moção A (de Mortágua), e não ser “a moção da cúpula”.

Só o facto de conseguir levar a moção a votos é uma “vitória”, justificou — desvalorizando depois as saídas de pessoas como Ana Sofia Ligeiro, que era a cabeça de lista da moção na última convenção e entretanto se afastou do grupo de críticos internos: a desilusão de “uma ou outra pessoa” com a linha dos críticos não o “preocupa”.

A moção que se opõe à A será, então, a E — “de Esperança”, justificou Pedro Soares. A esperança dos 410 subscritores (contra 1300 da moção da direção) será acabar com a tal continuidade e dar um novo rumo ao Bloco; a convenção, marcada para 27 e 28 de maio, será o palco do confronto interno.