A rodagem da segunda temporada de “House of The Dragon” (HBO Max) não vai, para já, passar por Portugal, tal como aconteceu na primeira parte da série. Esta terça-feira foi revelado que os trabalhos em volta do spin-off de “Guerra dos Tronos” recomeçaram no Reino Unido. A produção passou por Portugal país em 2018, na região de Monsanto, através da Sagesse Productions, de Sofia Noronha. Foi uma das grandes produções internacionais, a par de mais um episódio da saga “Velocidade Furiosa”, a passar pelo país nos últimos anos através do Fundo de Apoio ao Turismo e Cinema (FATC), com um incentivo fiscal que dá pelo nome de cash rebate, criado para atrair investimento nesta área.

O Observador sabe que a preparação para a nova temporada já tinha começado em novembro. No entanto, apesar das rodagens terem já arrancado em Espanha e no Reino Unido, não há qualquer indicação de que voltem a filmar em Portugal. A verdade é que a nova fase do FATC só foi lançada no início de abril, ou seja, a poucos dias de ter sido anunciado o começo da rodagem da segunda temporada de “House of The Dragon”.

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Luís Chaby, presidente do Instituto do Cinema e Audiovisual e responsável pela Portugal Film Comission, confirmou ao Observador que os produtores do “House of the Dragon” não se candidataram, este ano, à primeira fase do cash rebate, lançada a 5 de abril, nem contactaram aquela instituição, que passou a integrar o ICA, para iniciar um novo processo de rodagens. Quanto à HBO Max Portugal, esclareceu que “não existe qualquer informação” que aponte para um regresso da produção da famosa série a território nacional. O Observador tentou contactar a HBO internacional, mas não obteve qualquer resposta até ao momento.

O fundo gerido pelo Turismo, que é visto como uma das ferramentas vitais para desenvolver este setor no país — tendo originado, entre 2018 e 2022, um investimento total de cerca de 238 milhões de euros — esteve envolto em polémica depois de em 2022 ter esgotado a sua dotação orçamental em maio e de ter ficado em gestão reduzida até ao final do ano, altura em que o mandato da equipa chefiada por Sandra Neves terminaria. Após semanas de indefinição, no início de 2023, quando muitas produções já estariam a organizar ou a começar os seus projetos, ainda não estava definida a nova equipa da Portugal Film Comission, instituição responsável por gerir os contactos entre produtoras candidatas ao cash rebate e promover o audiovisual português. Além disso, um novo modelo para o incentivo fiscal estava a ser pensado desde o final de 2022, tal como noticiado pelo Observador, mas as candidaturas para o obter começaram mais tarde do que estava previsto.

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Entre relatos de atrasos de pagamentos de cash rebate, tal como noticiou o jornal Público — e onde salta à vista a HBO, que, segundo o Observador conseguiu apurar, também ainda não recebeu o apoio do FATC na totalidade — foi apresentado um estudo encomendado pelo governo para perceber o impacto deste incentivo. O sucesso do cash rebate foi uma das conclusões, mas também foram feitas propostas concretas sobre um novo modelo de aplicação, como acabar com o método first come first served, mediante o qual o único critério, independentemente da dimensão das produções nacionais ou internacionais, é a ordem de chegada.

No início de fevereiro, o ministro da Cultura anunciou a continuidade ao fundo até 2026, passou a integrar a PFC no Instituto do Cinema e Audiovisual, com Luís Chaby, seu presidente, a ser indigitado como film comissioner, o rosto principal daquela instituição. Tanto Pedro Adão e Silva como Luís Chaby negaram que Portugal tenha perdido credibilidade pelos sucessivos atrasos e indefinição à volta da PFC e do cash rebate. “Não se perderam grandes produções internacionais nas últimas semanas e outras que estão para vir”, garantiu o presidente do ICA ao Observador em março deste ano.

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Mais pessimista e contrariando o feeling das autoridades portuguesas, estava Peter Welter Soler, peso pesado da produção e que esteve envolvido em séries como “Guerra dos Tronos”, que o Observador entrevistou no início de 2023: “Portugal está a perder grandes produções porque nada nos incentivos fiscais é claro”, afirmou. Nessa altura, o produtor alemão avançava a hipótese de “House of The Dragon”, série em que também esteve envolvido, não voltar novamente a Portugal.

A verdade é que, apesar da indefinição, o governo aumentou a dotação orçamental do fundo de 12 para 14 milhões e abriu, no início de abril, a sua primeira fase de candidaturas, com um montante total de oito milhões de euros. Essa informação, que, segundo Adão e Silva, seria dada em finais de fevereiro, só foi publicada pelo ICA a 2 de abril. O ano passado, tal como anunciado pelo ministério da Cultura, o FATC teve de ser reforçado com 10,9 milhões de euros para financiar 28 produções que tinham ficado de fora. A segunda fase de candidaturas só será aberta no último trimestre deste ano, com novas regras ainda por divulgar.