Tema deveras fascinante, a praça como lugar público e elemento estruturante do urbanismo citadino — aliás, como os rios, ou os grandes jardins, quando os há — diz muito das culturas nacionais entendidas como tal, e uma investigação como a que este coffee table book nos apresenta, com 32 “estudos de caso” em 23 cidades e vilas portuguesas, e um vasto preâmbulo académico sobre “as praças na Europa” (pp. 27-59) e “as praças ultramarinas”, incluindo as dos Estados Unidos da América ainda colónia britânica (pp. 62-109), constitui sem dúvida, entre nós, um raro olhar panorâmico. O livro acaba, aliás, de ser distinguido com o Prémio José de Figueiredo 2023, atribuído pela Academia Nacional de Belas-Artes.

Raro olhar panorâmico, disse e repito, porém pouco atualizado, pois seis densas colunas de bibliografia apenas registam sete referências posteriores a 2010 (e só duas delas portuguesas, sobre a cidade do Porto, e ambas de 2011). Não é preciso ser um oficial da matéria para se estar a par da existência de uma série de publicações recentes saídas em editoras de prestígio como Thames and Hudson ou Routledge, entre as quais Writing the City Square: on the history and the histories of city squares de Martin Zerlang (2023), Somewhere Over the Square: an aerial analysis of urban development de Catalin D. Constantin (Peter Lang, 2021), Urban Squares as Places, links and displays: sucesses and failures de Jon Lang e Nancy Marshall (2016), Urban Squares: spatio-temporal studies of design and everyday life in the Öresund region, editado por Mattias Kärrholm (Nordic Academic Press, 2015) ou Urban Spaces: plazas, squares and streetscapes de Chris van Uffelen (2012).

Jubilado, o professor catedrático Manuel C. Teixeira, de 73 anos — a quem o direito à preguiça também assiste, como é evidente — preferiu gerir o que viu, estudou, leu e escreveu ao longo duma vida académica dedicada à arquitetura e ao urbanismo portugueses, sem cuidar de fazer obra tão informada quanto possível, ou, sequer, como seria de esperar, referir quaisquer trabalhos seus diretamente relacionados com o tema. Apenas por inquérito rápido, refiro: “Os modelos urbanos portugueses da cidade brasileira”, incluído no volume que coordenou A Construção da Cidade Brasileira (Lisboa, 2004); um artigo na História da Cidade e do Urbanismo publicada pela UFRJ em 1997; o ensaio “Portuguese colonial settlements of the 15th-18th centuries. Vernacular and erudite models of urban structure in Brazil”, saído no volume coletivo Le ville européenne outre mers: un modèle conquérant? (Paris, 2000, pp. 15-26), ou “A evolução urbana de Vila Viçosa”, incluído em Monumentos (n.º 27, 2007), ausência esta tão mais inesperada quando o autor regista na bibliografia artigo seu na mesma publicação sobre a cidade de Silves (n.º 23, 2005)…

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