“Londres faz sentido porque é o que consideramos ser a nossa casa, foi onde a marca nasceu e onde tivemos todo o apoio inicialmente”, confessou Marta Marques da marca Marques’Almeida em conversa com o Observador. Quando a pandemia congelou o mundo, a designer e Paulo Almeida, com quem faz dupla e casal, estavam em Portugal e por cá acabaram por ficar durante algum tempo, mantendo sempre a marca em movimento. Esta segunda-feira apresentaram um desfile outono/inverno 2024/25 que marcou o regresso ao calendário da semana de moda de Londres. O Observador esteve lá e registou imagens do desfile, dos bastidores deste evento e também dos convidados que não o quiseram perder.

Há um ano as propostas Marques’Almeida desfilaram no Porto, no antigo parque de estacionamento que foi palco do Portugal Fashion. Para assinalar o regresso a Londres escolheram uma antiga cervejeira, um local com valor sentimental, e mostraram uma coleção de uma marca em mudança. Para fazer a “ponte com Portugal” convidaram a atriz Sara Matos para desfilar, mas também tiveram outras caras nacionais conhecidas na primeira fila. Como explicou Marta Marques ao telefone desde a capital britânica, há de facto novas inspirações e novas aspirações, ou seja, por um lado o universo couture e pelo outro o apelo de novos públicos. Mas as novidades continuam. “Lutar contra os estereótipos prejudiciais da indústria da moda” é uma das bandeiras da marca e por isso continuam a diversificar o seu público-alvo e as modelos dos desfiles, desta vez subindo a fasquia da faixa etária. Pelo meio há ainda a linha para crianças, as colaborações e outros projetos que mostram uma aposta em “diversificar” as fontes de rendimento.

A Marques’Almeida esteve no Portugal Fashion há um ano, mas na última edição já não apresentou a sua coleção na semana da moda no Porto. Agora regressam a Londres.
Nós temos aqui um percurso um bocado esquisito nos últimos anos. [Durante a] Covid, assim sem planos, acabámos por regressar a Portugal como base e reorganizámos um bocadinho a estrutura da empresa e, sobretudo, fomos fazendo aquilo que nos foi possível numa altura em que a Covid estava a pôr muitas limitações em fazer eventos, mesmo a fazer coleções. Não planeámos estar em Portugal na altura da Covid, foi um completo acidente termos ficado aí presos, mas por um lado funcionou muito bem porque conseguimos continuar a trabalhar próximos das fábricas. Se calhar, se tivéssemos ficado em Londres, tínhamos ficado muito presos. Portanto rearranjámos os nossos planos, fizemos vários desfiles em Portugal, porque nos permitiu fazer desfile/filme, ou seja, não tinham audiência alguma os que fizemos no computador.

Acho que foi muito bom, numa altura em que toda a gente estava a fazer coisas remotas, nós conseguimos fazê-lo em Portugal com bastante apoio do Portugal Fashion. Só que, entretanto, fomos confirmando aquilo que nós já sabíamos que é que nós precisamos o mais possível de “alcance” internacional. O nosso mercado é cá fora. Não temos, praticamente, mercado em Portugal e, portanto, era uma questão de tempo até nós nos organizarmos e percebermos qual era a melhor forma de voltarmos a fazer uma fashion week internacional. E Londres faz sentido porque é o que nós consideramos ser a nossa casa, foi onde a marca nasceu e onde tivemos todo o apoio inicialmente, portanto fazia sentido voltar a ser neste contexto.

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Tencionam fazer algum regresso a Portugal em breve?
Mantemos Portugal como base e a empresa cresceu imenso em Portugal. Sempre tivemos um braço da empresa em Portugal, que era o braço produtivo, mas neste momento já engloba produção, desenvolvimento, marketing, a marca de kids, e-commerce já está tudo sediado aí [Portugal]. Se calhar vamos fazer um bocado ao invés do que fazíamos antes, que estávamos três a quatro meses em Londres e passávamos um mês em Portugal a cada três meses. E, se calhar agora, podemos fazer ao contrário, estar mais tempo em Portugal e vir a Londres pontualmente. O que quer dizer que vamos manter as ligações com algumas dessas plataformas em Portugal, nomeadamente, o Portugal Fashion, porque tem sido um apoio fundamental, às vezes oficialmente, às vezes não oficialmente. E esperamos vir a trabalhar com eles em questões de internacionalização, que acho que era muito importante para o panorama da moda nacional.

Ainda trabalham em sistema de “see now, buy now”? E vamos ver uma coleção de primavera/verão? Em relação a esta coleção, como a pode apresentar?
Já não trabalhamos em sistema de “see now, buy now”. Isso foi outra questão que foi reavaliada nos últimos anos. Estes últimos quatro anos foram, de facto, de grandes desenvolvimentos e grandes mudanças e essa foi uma delas. Trabalhamos muito para o mercado de revenda, trabalhamos com uma agência em Londres que faz showrooms em Nova Iorque e em Paris quatro vezes por ano e, portanto, estamos focados para o mercado de revenda, alinhamos com esse tipo de calendário e estamos a mostrar inverno. O que temos é a coleção disponível para pré-encomenda no nosso site, porque o nosso e-commerce tem crescido muito significativamente nos últimos anos, portanto a nossa venda direta. A coleção não está completamente disponível, mas está disponível para pre-order durante uma semana a seguir à data do desfile.

Em termos de descrever a coleção, sou péssima para isso. Porque as nossas inspirações são muito variadas, são muito instintivas também. O que posso dizer é que nesta parte estamos a explorar um cliente um bocadinho diferente, um cliente que cresceu como nós crescemos, portanto, um cliente mais maduro. Voltámo-nos para materiais, para têxteis e para técnicas que, se calhar, eram descritos com palavras que eram um bocadinho tabu na marca Marques’Almeida, como “elegante”. Estamos a trabalhar com “satin” (cetim), estamos a fazer coisas com organza, coisas até um bocadinho couture que não era nada, teoricamente, o ADN da marca Marques’Almeida, mas que estamos a fazê-lo misturando com aquilo que são as coisas muito típicas da marca, tipo boyfriend baggy e boyfriend jeans, biker jacket e coisas do género. Será o ADN da marca Marques’Almeida com umas experimentações mais mais maduras, mais elegantes, mais couture, mais por aí.

Isso é uma grande reviravolta para quem está habituado a ver as vossas coleções e aguça a curiosidade.
Ainda bem. Queremos que se sinta também em termos de casting. Tentamos sempre lutar contra os estereótipos prejudiciais da indústria da moda, com a diversidade dos castings em termos de tamanho ou de etnia, mas se calhar nunca tínhamos ido à questão da idade. Foi uma coisa da qual nos apercebemos que tinha sido um erro e que estamos a tentar perceber. Temos a nossa marca de kids também. Temos o casting antigo que sempre fez os desfiles connosco e que agora vão voltar para desfilar com os seus filhos. Mesmo em termos de casting vamos ter uma experiência um bocadinho diferente que vai atravessar décadas.

A vossa comunidade MA Girls, que é muito característica do vosso trabalho, continua então a crescer e agora em termos de idade?
Exatamente. Agora referimo-nos a MA People, em vez de MA Girls. Lá está, é uma coisa que fomos corrigindo à medida que fomos aprendendo cada vez mais com a nossa comunidade e com as pessoas que nos rodeiam. E acho que agora estamos a andar umas décadas para trás e umas décadas para a frente.

Já tinham acrescentado as filhas das clientes e agora vão ter também as mães e as avós das clientes?
Exatamente. Tínhamos, por exemplo, três irmãs que fazem os nossos desfiles sempre e a mãe delas era uma modelo de Christian Lacroix e que nós, estupidamente, nunca tínhamos pedido… lá está, nunca ligámos à questão da diversidade em termos de idade e nada como o nosso crescimento para ficarmos  com mais noção disso e, portanto, a mãe delas, a Vanessa, vem desfilar com elas também. São inglesas.

Com esta questão de MA People em vez de MA Girls leva-me a perguntar, quando vamos ver propostas para homem?
Pois, nós vamos incluindo de vez em quando e temos, inclusive, uma secção no nosso site, mas é uma coisa um bocado híbrida, unissexo. Não sei se alguma vez o vamos fazer mais distintamente, porque cada vez mais caminhamos na direção da roupa sem género.

Em termos de casting temos uma novidade muito engraçada de Portugal. Uma das pessoas que vão ver e reconhecer no desfile é a Sara Matos. Trabalhámos com o Boticário e com a Sara para os Globos de Ouro do ano passado e foi uma experiência que nunca tínhamos tido. Foi um desafio que à primeira pensámos: “Não vamos conseguir fazer isto”, mas o Boticário foi uma equipa incrível e conseguiu convencer-nos e esteve sempre lá connosco. Conhecemos a Sara nesse processo e foi super inspirador e foi um processo mesmo muito interessante. Surpreendentemente, nunca tínhamos feito nada disso, nunca tínhamos feito “gowns” [vestidos de noite] ou red carpet e estávamos um bocadinho com medo, mas foi uma experiência incrível. Portanto quando começámos a fazer este desfile e estávamos a pensar em parceiros para trazer connosco e para fazer a ponte entre Portugal e Londres, que é a nossa identidade, pusemos o desafio ao Boticário, que aceitou. E à Sara, que aceitou também. Nós ficámos muito surpreendidos, eles têm todos uma agenda preenchida. A Sara será um dos looks mais marcantes do desfile.

Qual o papel do Boticário no desfile em Londres?
Neste momento são os nossos parceiros principais em termos de “sponsoring” e o que vão fazer [a Londres] é o look da Sara, um look que desenvolvemos dentro da coleção, mas inspirado nos produtos deles da gama Lily, da qual a Sara é embaixadora.

A propósito dessa experiência que tiveram, e como estamos em plena época de cerimónias com passadeiras vermelhas, este é um mundo que vos interessa começar a abordar e ver como forma de expandir a marca?
Antes do Boticário e da Sara, se calhar, dizíamos que não, mas agora não achamos que seja tão estranho quanto isso. Temos um problema com o lado muito glamourizado da moda e muito fantasioso. Nós gostamos de uma coisa muito mais realista e daí os nossos castings serem amigos e amigos de amigos e pessoas que conhecemos. E por isso as red carpets assustavam-nos um bocadinho por causa dessa glamourização da moda e nós também somos muito práticos e simples e gostamos muito mais de estar nos bastidores. Mas percebemos que isto pode ser uma experiência interessante, relaxada. A Sara foi [aos Globos de Ouro] de calças e com um vestido que tinha uma parte de cima desportiva. Conseguimos, se calhar, subverter esse tipo de trabalho e portanto acho que conseguimos ver-nos a fazer isso no futuro.

Encontraram uma estética passadeira vermelha Marques’Almeida?
É isso. Nós estamos sempre a questionar os sistemas e entender que nós podemos entrar neste sistema, mas entender que podemos subvertê-lo um bocadinho e fazer à nossa maneira já nos deixa mais confortáveis.

Têm no vosso site uma secção pre-owned. É uma aposta que está a funcionar?
Sinceramente, é um daqueles problemas de empresas pequenas, independentes e sobretudo de moda. Nós temos muitos projetos e fazemos muita coisa com muito poucos meios. A questão do pre-owned está a funcionar e só queria ter mais tempo para ter mais equipa dedicada a ir buscar mais peças, porque neste momento estamos com pouca oferta porque ela está a acabar e nós não temos, literalmente, meios, recursos humanos e tempo para conseguir editar mais ao ritmo que precisa, mas funciona.

Em relação à linha de crianças, é uma aposta que deu frutos? E qual é o peso que tem na marca?
Deu, sim. E acho que irá crescer mais durante este ano porque temos alinhado algum crescimento com agentes e distribuidores no mercado internacional, sobretudo no médio Oriente e nos Estados Unidos. Mas está a ter um peso bastante significativo até porque toda a nossa estratégia nestes últimos anos tem sido diversificar o “income” [fontes de rendimento], portanto todas estas formas de “income” além da revenda passaram a ser mais significativas, porque nós investimos mais nelas. Daí eu dizer que nós somos uma equipa muito pequena a fazer muita coisa, porque estamos a fazer quatro coleções por ano, oito showrooms por ano (Nova Iorque e Paris com quatro coleções), estamos a fazer kids com duas coleções por ano, estamos a fazer cápsulas exclusivas para o e-commerce, mais colaborações internacionais. Vai sair uma agora em março nos Estados Unidos. Tudo isso passou a ter peso, porque diversificar o “income” foi uma coisa consciente que nós fizemos. Agora só temos de arranjar horas nos dias para continuar a manter tudo.

Que colaborações estão a acontecer e que colaborações estão no horizonte?
Neste momento estamos com uma que vai sair agora em março com a Everlane, uma marca norte-americana de clássicos intemporais. Foi uma colaboração que fizemos com eles usando todo o “dead stock” [restos de stock] que eles tinham. Eles são uma empresa muito grande. Temos outra [colaboração] alinhada para o próximo ano com uma marca internacional, mas ainda não podemos mencionar. De resto estamos abertos a colaborações. Até de kids estamos a tentar procurar colaborações. Portugueses [por exemplo], na área do calçado e do vestuário para fazer colaborações na área de kids, que nunca fizemos. Seria interessante.

Voltando ao desfile, o que nos pode dizer da localização?
O desfile é na Truman Brewery, em Brick Lane, em East London, que agora serve como espaço de pop-up shops, de mercados, de galerias, de eventos e dos escritórios da plataforma que nos apoiou quando começamos e que apoia novos designers. E é também o sítio onde fizemos os nossos últimos desfiles antes de termos ido embora de Londres e é a cinco minutos do nosso antigo atelier e é [um espaço que nos é] muito familiar e tem uma “vibe” industrial, que nos agrada muito. É voltar às nossas raízes, mesmo.

Por falar em familiar, como é que se conjuga serem um casal, terem filhas pequenas, viverem entre Portugal e Londres…?
Estou a rir-me porque as minhas filhas acabaram de passar vestidas metade pijama e metade roupa a fazerem-me sinais sobre o que vão vestir, porque elas estão connosco em Londres.

Que idades têm?
A Maria tem seis e a Alice tem quatro. São pequenas, sobretudo a Alice. A Maria cresceu muito connosco a fazer estas coisas, desde pequenina que vai connosco aos showrooms a Paris e está connosco no escritório. A Alice não tanto, porque é um bebé pré-Covid, nasceu em janeiro de 2020. É muito importante para nós fazer isto em família, faz parte da nossa identidade. Com a marca kids, com a nossa equipa é tudo um bocado uma família, faz sentido que elas façam parte um bocadinho desse mundo também. Vamos gerindo as duas coisas. O desfile é tão essencial como o recital de piano da Maria, como ir ao pediatra, portanto elas fazem parte do nosso mundo e nós fazemos parte do delas.

Elas também têm o seu papel na marca?
Definitivamente. Elas são a razão pela qual criámos a marca de kids, sem dúvida.

Estarão no Portugal Fashion em março?
Desfile provavelmente não, mas temos falado sobre pensar em outro tipo de evento que possamos fazer em conjunto, por isso ainda está em aberto.

Vejas as imagens do desfile, dos bastidores e dos convidados na galeria no topo deste artigo.