Filmes e telefilmes sobre Elvis é coisa que não falta. Temos a biografia convencional (o pioneiro Elvis, de John Carpenter, com Kurt Russell, ou o recente Elvis, de Baz Luhrmann); temos Elvis na Casa Branca (Elvis Meets Nixon, de Allan Arkush, com Rick Peters, Elvis & Nixon, de Liza Johnson, com Michael Shannon); temos vários documentários (caso de This is Elvis, de Andrew Solt e Malcom Leo), e temos até o Elvis fantasioso (Heartbreak Hotel, de Chris Columbus, em que o cantor, interpretado por David Keith, é raptado por um grupo de adolescentes, ou Bubba Ho-Tep, de Don Coscarelli, onde Elvis, personificado por Bruce Campbell, não morreu e vive num lar algures nos EUA, tendo que enfrentar uma múmia maléfica que anda a matar idosos).  

Sobre Priscilla Presley, que esteve casada com Elvis entre 1967 e 1973 e lhe deu a sua única filha, Lisa Marie, já há bastante menos produções, naturalmente. Uma delas é o telefilme Elvis and Me (1988), baseado no livro de memórias homónimo da própria, escrito com Sandra Harmon e onde é interpretada por Susan Walters. O novo filme de Sofia Coppola, Priscilla, com Cailee Spaeny, baseia-se no mesmo livro e pode ser visto como o reverso do entusiástico Elvis de Baz Luhrmann. É contado do ponto de vista de Priscilla Presley, e nele Elvis (um baço Jacob Elordi, que soa a Elvis mas não faz bem a figura dele) ou está ausente, ou é o Elvis íntimo e doméstico, namorado e depois marido e pai, que raras vezes vimos retratado desta forma em filme, e nunca o Elvis público, artista incensado e lenda do rock (não há sequer canções dele na banda sonora).

[Veja o “trailer” de ‘Priscilla’:]

A fita começa em 1959, quando Priscilla tinha 14 anos e vivia na então Alemanha Federal, onde o pai, militar de carreira, estava colocado, e conheceu Elvis, que tinha 24 anos e era já uma estrela, numa festa; e acaba em 1973, quando deixou Graceland para se divorciar dele, levando a filha. Pelo meio, testemunhamos o florescer e o definhar de um estranho romance entre uma adolescente até aí anónima transportada para o mundo do espectáculo e da fama, e uma vedeta da música de primeira grandeza e dimensão mundial, e ainda muito imatura, e que debaixo da aparência de conto de fadas, revela uma realidade bem mais prosaica e crescentemente dececionante.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Priscilla é um filme à imagem da biografada, pequeno, sossegado e recatado, cuja protagonista partilha algumas características de outras figuras femininas do cinema de Sofia Coppola, como as irmãs Lisbon de As Virgens Suicidas, a Charlotte de O Amor é um Lugar Estranho ou a Maria Antonieta de Marie Antoinette. Instalada no conforto e no luxo novo-rico de Graceland, privada durante largos espaços de tempo da companhia de Elvis, que anda em digressão ou a fazer filmes (e a enganá-la com outras celebridades), impedida de conviver com os familiares dele, que lhe gerem a carreira, Priscilla Presley vive como uma ave rara, frágil e mimada numa gaiola de ouro que tem a porta aberta, mas a qual é persuadida de não deixar.

[Veja uma entrevista com Sofia Coppola, Cailee Spaeny e Jacob Elordi:]

Sofia Coppola filma o casal na intimidade do quarto (onde a princípio Elvis se abstinha de sexo, ou por razões morais e pruridos religiosos, ou por Priscilla ser ainda menor, o filme não deixa claro, e onde também a iniciou nos fármacos para dormir ou permanecer ativo, que consumia em contínuo), festejando com a família e os amigos dele (Elvis vivia rodeado por um clã masculino que nunca lhe dizia “não” ou o contrariava), ou em público, entre Las Vegas e saídas para compras em que Elvis lhe dava carros, roupas e até armas a condizer — mas sempre de acordo com a sua opinião sobre o que ficava melhor à mulher.

[Veja Priscilla Presley comentar canas do filme:]

Este Elvis é menos um ogre da opressão masculina do que um simplório, produto do meio em que nasceu e dos preconceitos da época, e habituado a ser obedecido, que só o seu empresário, o “coronel” Tom Parker, vergava (ver a cena em que o cantor atende um telefonema dele). Sofia Coppola mostra que Elvis amava a mulher e se preocupava com ela (Priscilla Presley continua a dizer que ele foi o grande amor da sua vida). Mas submetia-a a uma vida de tédio e solidão, tratando-a como uma delicada boneca viva, uma Barbie de carne e osso para usufruto pessoal. Elvis cobria-a de presentes para a manter agradada e distraída, e queria-a obediente e sem o incomodar ou questionar sobre as suas possíveis infidelidades, tornando a existência pessoal, conjugal e familiar de Priscilla cada vez mais instável, frustrante e infeliz. Até ela não poder mais.

[Veja uma sequência do filme:]

Que a realizadora faça tudo isto com serenidade e justeza, abstendo-se de espalhafatos melodramáticos, de alvoroço cinematográfico e sobretudo dos estremecimentos de indignação e condenação do feminismo militante, é o principal mérito de Priscilla. O filme tem ainda em Cailee Spaeny (Melhor Atriz no Festival de Veneza) uma Priscilla Presley verosímil e consistente da primeira à última imagem, desde a adolescência ingénua à maturidade decidida, do momento em que vê Elvis pela primeira vez e ele lhe diz que ela “parece um bebé”, até à altura em que percebe que o “King” se lhe tornou quase totalmente indiferente, e é altura de abandonar o seu reino.

O final da fita, com Priscilla Presley a deixar Graceland de carro enquanto Dolly Parton canta I Will Always Love You em fundo, é desnecessariamente óbvio e piroso. Mas tem a piada (involuntária?) de Parton ser grande fã de Elvis Presley, e dele gostar muito da canção e lha ter pedido para o seu reportório. Não fosse o inevitável Tom Parker exigir metade dos direitos a Parton e ela haver recusado, com grande mágoa sua. Vinte anos mais tarde, Whitney Houston cantou-a no filme O Guarda-Costas, e o seu colossal sucesso foi tão lucrativo em direitos para Dolly Parton, que ela notou: “Ganhei tanto dinheiro, que podia ter comprado Graceland”. Como diria o Elvis de Bubba Ho-Tep: “What about that?”.