O líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa explicou que a rixa entre imigrantes, no domingo, no Martim Moniz teve como origem “desavenças políticas”, que são “normais no Bangladesh”. “Estes conflitos acontecem em quase todos os distritos, é natural lá. Na Europa e em Portugal, não”, disse ao Observador Rana Taslim Uddin.

Os confrontos, que fizeram sete feridos, estão a ser investigados pela PSP, que ainda não deteve nenhum dos envolvidos. As primeiras declarações — quer oficialmente, por parte das autoridades, quer de testemunhas ouvidas pelo Observador – davam conta de uma altercação por “motivos fúteis”, tese que é sustentada por Rana. Mas apontando já num único sentido: se domingo pessoas que tinham estado no local falaram de motivos “políticos ou de futebol”, o líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa aponta diretamente para a primeira hipótese.

Segundo Rana Taslim Uddin, o confronto aconteceu “entre duas fações do Partido Nacionalista do Bangladesh [de centro-direita]” e envolveu dois grupos — “um que veio de Vila Nova de Milfontes e outro do Martim Moniz” — que discutem “a liderança da sucursal do partido em Portugal”. No entanto, ao Observador, o líder da comunidade acrescentou que o grupo que veio da vila alentejana costuma estar no Martim Moniz regularmente. Ou seja, os confrontos não foram planeados.  Trata-se de imigrantes que normalmente, “ao fim de semana”, se dirigem à capital para “fazer compras” de ingredientes e produtos que não encontram no Alentejo e ficam naquela zona com conhecidos ou familiares. Uma informação que contraria a tese de uma deslocação extraordinária a Lisboa com o intuito de provocar desacatos.

Fonte da polícia detalhou que a rixa está a ser investigada como um desentendimento pelos tais “motivos fúteis” e que os vestígios encontrados na rua estão a ser analisados “como se fossem sangue”. No entanto, ao Expresso, Farid Partwary, correspondente em Portugal do jornal Dhaka Post, defendeu que as manchas eram de “pan-supari”, um doce popular na região asiática e que é cuspido para o chão. A PSP não abordou essa hipótese e remeteu para a investigação em aberto.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Bangladesh vive crise política

O Bangladesh, agora com um governo interino, vive uma crise política, que poderá ter fim nas próximas eleições — que serão realizadas entre o final de 2025 e o início de 2026, numa data que ainda não foi divulgada pelo líder do executivo de transição, o vencedor do prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus.

Desde 1991, quando foi realizado um referendo que levou à reinstauração da democracia parlamentar, que o governo do Bangladesh é dominado por dois partidos: a Awami League, de centro, e o Partido Nacionalista do Bangladesh, de centro-direita. O segundo, cuja liderança em Portugal terá motivado os desacatos no Martim Moniz, está afastado do poder desde 2001.

De acordo com Rana Taslim Uddin, líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa, este partido tem sucursais em vários países da Europa com imigrantes do Bangladesh, sem que isso se traduza em “confrontos violentos” como os registados em Lisboa.

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Líder da comunidade diz que confrontos “não foram no Benformoso”, mas PSP desmente

Rana Taslim Uddin alega ainda que os confrontos “não foram na Rua do Benformoso”, mas sim no “Largo do Intendente”. Contactada pelo Observador, a PSP nega essa versão: “A rixa iniciou-se no Largo do Intendente e depois alastrou-se para a Rua do Benformoso”, insiste, mantendo assim a versão que divulgou desde o início.

Ao Observador, populares que assistiram ao início dos desacatos dizem também o contrário. Segundo várias testemunhas, os confrontos começaram na Rua do Benformoso e alastraram-se ao Largo do Intendente. Mas tudo poderá ter tido início num café numa rua do Benformoso, mas muito próxima do Intendente.

Os “motivos fúteis”, as discussões recorrentes e os testemunhos da comunidade. A rixa no Benformoso

Foi na Rua do Benformoso, a 19 de dezembro, que a PSP realizou uma “operação especial de prevenção criminal”, que foi criticada por alguns partidos por ter incidido, sobretudo, em imigrantes. O próprio primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu que “não gostou de ver” as imagens das pessoas encostadas à parede.

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Moradores preocupados com confrontos

A rixa motivou alguma preocupação nas pessoas que vivem e trabalham perto do local e que não querem que a comunidade seja prejudicada pelo comportamento de algumas pessoas. “Os trabalhadores do Martim Moniz não querem problemas porque investiram milhões em negócios. As pessoas vêm para cá provocar desacatos e isso assusta os clientes”, desabafou Rana Taslim Uddin.

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Esta segunda-feira, a PSP informou que o “policiamento” na zona seria “garantido como normalmente”, sem reforço de efetivos. Ao Observador, fonte policial sustentou que rixas como esta mostram a importância de ações de fiscalização como a realizada em dezembro.

“Já vimos [confrontos] acontecer com alguma frequência nesta zona, daí ter sido programada uma ação de fiscalização. Trabalhamos com os dados e os dados disseram-nos que [o Martim Moniz] seria um local a ter em atenção”, acrescentou a mesma fonte.

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Moradores receiam que imagem dos imigrantes saia prejudicada com confrontos violentos

O líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa explicou que a comunidade tem receio que estas rixas “prejudiquem a imagem dos imigrantes” que residem no local e investem “muito dinheiro” em negócios no Martim Moniz. “As comunidades não querem conflitos, estes discursos são muito maus para a comunidade, nunca esperamos isto. Nós tentamos controlar tudo, para resolver os problemas em paz e tranquilidade. É preciso proteger as pessoas, em vez de fazer política do Bangladesh”.

O líder da comunidade entende que as pessoas que participaram na rixa não pensaram nos compatriotas que, ainda no sábado, se tinham manifestado no Martim Moniz, com a presença de “muitos partidos e organizações locais”, contra a atuação da polícia.No sábado, o movimento “Não nos encostem à parede” convocou a iniciativa à boleia de críticas à forma como a PSP realizou a rusga no Martim Moniz. Por outro lado, o Chega organizou uma vigília em defesa da atuação da polícia e da “autoridade”.

No domingo, Iúri Rodrigues, comandante da 1ª divisão da PSP, defendeu que o facto de terem sido os “quatro cidadãos estrangeiros” a deslocar-se “à quarta esquadra, na rua da Palma, onde pediram apoio à polícia depois dos incidentes revela a confiança que esta comunidade tem na polícia de segurança pública”.

O comandante detalhou ainda que as sete vítimas dos confrontos são “cidadãos estrangeiros”, que “aparentam estar de forma regular” em Portugal.