Venâncio Mondlane decretou a vingança da população contra agentes assassinos da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) da Polícia. Numa intervenção muito aguardada onde prometeu anunciar as suas medidas para os próximos cem dias, o auto-proclamado presidente do povo começou por indicar que a primeira medida era a paragem da violência, mas depois no ponto 13 definiu as “medidas para auto-defesa do povo moçambicano”.

“[O povo] está sendo chacinado, maltratado, fuzilado, agredido. Nestes cem dias vamos ter a chamada Lei do Talião. É aquilo a que a Bíblia no Antigo Testamento chamava de lei “dente por dente, olho por olho”. Ou, se quisermos usar um termo de que a juventude gosta, há-se ser a lei do toma lá dá cá”, proclamou Mondlane.

E especificou: “[Por] Cada elemento da população assassinado por um elemento da UIR automaticamente paga-se na mesma moeda: esse elemento da UIR é varrido da existência, vai para o inferno. É assim que temos de fazer. Chamem-me agitador. Chamem-me o que quiserem. O povo está a ser morto, sequestrado. É assim que vai ser. Lei de Talião. Toma lá dá cá. Olho por olho, dente por dente”.

“Denunciem os próprios colegas da Unidade de Intervenção Rápida”

Apelou ainda a que os próprios elementos da Unidade de Intervenção Rápida “que são sérios” para que “denunciem os próprios colegas”. Deu o exemplo do comandante que esbofeteou uma manifestante no dia da tomada de posse: “Foram os próprios colegas da UIR que deram o nome completo, a casa, o nome dos filhos, da esposa, onde vive, todos os detalhes. Estão de parabéns estes colegas da UIR, que são sérios. Agora dizem que os chefes da UIR o mandaram para Inhambane. Mas a cara dele já é conhecida: quando chegar a Inhambane também estarão à espera dele: Bem-vindo a Inhambane”.

Este apelo de Venâncio Mondlane é a resposta à repressão policial que continua a ser evidente em Moçambique e que provocou mais de quatro centenas de mortes de civis durante esta crise pós-eleitoral. Mas abre a porta a todo o tipo de vinganças violentas e linchamentos, caucionando que o povo faça justiça pelas próprias mãos e fazendo ruir ainda mais a confiança da população no dever de proteção e justiça do Estado.

Um regime de balas para o ar e cabeças perdidas. O Observador em Moçambique nos protestos contra o novo Presidente

Apesar do atraso de duas horas no arranque e dos problemas técnicos, este foi um dos diretos mais ouvidos de sempre de Mondlane, tendo chegado a ser visto por 145 mil pessoas em simultâneo no facebook, confirmando assim mais uma vez que o candidato consegue quase parar o país para ser escutado.

Fim do IVA em certos produtos, das portagens, das inspeções de carros. E corte de 50% na luz

Ao todo, Mondlane apresentou as suas 25 medidas para os primeiros cem dias de governo. Destacam-se estas medidas com impacto económico:

  • o fim do IVA para produtos básicos, como farinha, arroz, carapaus, óleos e sabões,
  • Cancelar inspeção de viaturas
  • Suspender a taxa de rádio
  • abolir todas as portagens (maioria já está desativada)
  • consumo de água potável seja gratuito
  • Fixação do preço do cimento: 300 meticais por saco
  • Baixar 50% preço da corrente elétrica
  • Financiamento de 500 milhões de dólares para apoiar pequenas e médias empresas que sofreram durante as manifestações

Entre as medidas com impacto social, sobressai a criação de um canal digital de denúncias; a compensação financeira para todas as famílias que perderam os seus parentes com até 200 mil meticais por cada família; o fim da corrupção e cobranças ilícitas na estrada a motoristas e comerciantes.

[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]

Ataque ao poder da Frelimo nos bairros e no Estado

Destacam-se ainda duas medidas com impacto político considerável num ataque ao poder da Frelimo: deixa de haver células de um partido na função pública, nos hospitais e nos municípios; e os chefes do quarteirão, que têm muito poder sobre toda a burocracia relacionada com residentes, também deixam de pertencer a um partido.

Há ainda uma medida simbólica, que é a escolha da nova bandeira de Moçambique, para deixar de ter armas.

Pastor que acusou Chapo de roubar votos foi interrogado por 14 pessoas e teve de gravar vídeo para o presidente

Que poder tem Venâncio Mondlane para implementar estas medidas sem ter o poder do presidente eleito oficialmente? A ameaça: caso as medidas não sejam cumpridas, as manifestações voltarão com mais intensidade.

O novo presidente, Daniel Chapo, foi gozado durante o direto, chegando Venâncio Mondlane a dizer que ele estava “a entrar e a sair” do direto, e dizendo: “Pode ficar e tomar notas.” Recorde-se que Mondlane já tinha acusado o presidente oficial de ter copiado as suas propostas no discurso da tomada de posse.