As medidas anunciadas pela nova administração Trump, designadamente a ameaça de taxas alfandegárias agravadas no comércio externo, estão a ser mais desestabilizadoras do que a incerteza que se abateu sobre as economias no início da pandemia de Covid-19, defende Luis de Guindos, espanhol que é vice-presidente do BCE.
Em entrevista ao britânico Sunday Times, publicada neste domingo, Luis de Guindos considerou que, além das tarifas, também os planos de desregulação do sistema financeiro e mudanças nos impostos cobrados às empresas – tudo medidas em que a administração Trump estará a trabalhar – são fatores que estão a provocar grande incerteza nos mercados financeiros.
“Temos de atentar ao atual nível de incerteza, que é ainda maior do que era durante a pandemia“, afirmou De Guindos, continuando: “O que estamos a ver é que a nova administração dos EUA não está muito aberta a continuar com o multilateralismo, que, basicamente, é a cooperação entre diferentes jurisdições e a tentativa de encontrar soluções comuns para problemas comuns”.
Para De Guindos, este que considera ser o fim do “multilateralismo” é “uma mudança muito importante e uma grande fonte de incerteza”.
Neste contexto, o vice-presidente do BCE diz que cabe ao banco central não atuar de forma demasiado reativa, à medida que geram dúvidas sobre o impacto das políticas de Trump para a inflação na Europa e noutros locais. “Se nós formos tão voláteis quanto os mercados, isso não dará muito conforto” aos agentes económicos.
BCE vê menos espaço para que as taxas de juro continuem a cair. Mercados preveem 2% no fim do ano
Ao cabo de seis descidas consecutivas da taxa de juro, que a levaram do “pico” de 4% para os atuais 2,5%, o BCE sinalizou no dia 6 de março que pode ter chegado a altura de fazer uma pausa.
Christine Lagarde fez uma mudança importante na orientação dada aos mercados financeiros, notando que a política monetária já está num nível “significativamente menos restritivo” da atividade económica, e sublinhou que a “incerteza” causada pelas tarifas de Trump, os conflitos geopolíticos e os novos planos de investimento público na Alemanha e na UE obrigam o BCE a “desligar o piloto automático” e, a partir de agora, navegar à vista.
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