Pouco passava das 9 horas desta segunda-feira quando Soraia Moreira — de 28 anos e grávida de 40 semanas e cinco dias — começou a sentir as primeiras contrações. Estava com os pais numa pastelaria no Carregado, vila do concelho de Alenquer, cerca de 40 quilómetros a norte de Lisboa. Com o tempo entre contrações a diminuir, os pais contactaram a linha SNS24 (como recomendado), que terá sugerido que Soraia se deslocasse ao hospital pelos próprios meios.
“Liguei para a linha da Saúde 24 para mandarem uma ambulância, mandaram-nos ir de carro, disseram que era melhor”, contou Isabel Moreira, a mãe de Soraia, ao Correio da Manhã. A justificação foi que uma ambulância iria demorar tempo a chegar ao local onde estava a jovem. Do outro lado da linha, a recomendação foi que Soraia se deveria dirigir ao hospital Beatriz Ângelo, em Loures. Isto porque a urgência de Obstetrícia do Hospital de Vila Franca de Xira se encontrava encerrada (uma situação que se repetiu, aliás, durante a manhã desta terça-feira).
Depois disso, rebentaram as águas de Soraia Moreira, o que levou a mãe da jovem a contactar o 112. “Rebentaram-lhe as águas e enquanto o meu marido estava com ela, liguei para o 112, a pedir para mandarem uma ambulância, mas não sabíamos o nome da rua”, relatou Isabel Moreira ao Jornal de Notícias. A chamada terá demorado algum tempo a ser atendida. Perante a rápida sucessão de acontecimentos, Isabel Moreira diz que começou a ouvir uma gravação em inglês. “Entretanto, a minha neta já tinha a cabeça de fora e fui ajudar o meu marido a fazer o parto“, contou, “enquanto uma senhora ligava para os Bombeiros Voluntários de Alenquer”.
Alertados pela agitação — numa zona urbana com muitos prédios de habitação e comércio —, vários populares foram-se aglomerando junto da grávida e um cabeleireiro local forneceu toalhas para ajudar no parto, que acabou por acontecer em plena rua cerca de 10 minutos depois. “Foi rápido, porque o meu marido puxou a bebé”, recordou Isabel Moreira, frisando que a jovem acabou por ser depois assistida por dois profissionais de saúde que se encontravam nas imediações.
Família diz que transporte para o hospital só aconteceu 45 minutos depois do parto
“Tivemos sorte, porque depois, quando a nossa neta já estava cá fora, apareceu uma senhora na rua, que era enfermeira, e ainda um médico, que vivia no prédio ao lado. Foram eles que as assistiram, mas fomos nós, os avós, que trouxemos a nossa neta ao mundo”, disse ao CM, admitindo que toda a situação foi “uma aflição”. Se a situação já era inusitada (com um nascimento a ocorrer na via pública), ainda mais ficou quando a ambulância enviada pelos bombeiros de Alenquer teve um furo que impediu o transporte de Soraia e da bebé para o hospital. Quando se aperceberem do furo, os bombeiros pediram uma segunda ambulância.
“Depois, chegou um carro do INEM, com um médico, que deu indicações para os bombeiros transportarem a minha filha para o hospital de Santarém [onde se encontram internadas mãe e filha]. Desde que a minha neta nasceu, passaram uns 45 minutos”, garantiu Isabel Moreira. “Foi uma aflição”. O nome da bebé contrasta com tudo o que viveu ao vir ao mundo: Serena.
A partir do relato feito pela mãe de Soraia Moreira, o Observador questionou várias entidades, entre as quais o Ministério da Saúde, o INEM e os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS — a entidade que gere a linha SNS24), sendo que ainda não existem conclusões sobre o que terá falhado na assistência à grávida.
Os SPMS anunciaram, quase de imediato, a abertura de uma “averiguação interna, a fim de aferir o sucedido”. Já ao final da tarde, em comunicado enviado às redações, admitiram que houve um “erro humano” que impediu que a chamada fosse transferida para o INEM.
“Auditado o sistema da Linha SNS 24, regista-se uma chamada da utente para a opção Linha SNS Grávida, às 10h16, de 11 de agosto de 2025. A chamada foi atendida, por um enfermeiro, no espaço de 17 segundos. O processo de triagem durou cerca de 4 minutos, tendo a utente sido encaminhada para um Serviço de Urgência Obstétrico. Naquele momento, e para a área de abrangência geográfica, o prestador de saúde disponível no sistema de informação era o Hospital Beatriz Ângelo – Loures. De acordo com averiguação preliminar solicitada pela SPMS ao operador privado da Linha SNS 24, existiu um erro humano na aplicação do algoritmo de triagem e no encaminhamento, levando a que a chamada não tivesse sido transferida para o INEM”, esclarecem os SPMS, que lamentam os “factos relatados”. Segundo o Expresso, foi indicado que a grávida estava com contrações de três em três minutos, o que exigia o seu encaminhamento para uma urgência de obstetrícia.
Na altura da chamada, perante a falta de soluções disponibilizadas pela linha SNS24, a mãe da grávida decidiu ligar para o 112. No entanto, segundo o relato de Isabel Moreira, o INEM demorou muito tempo a atender a chamada. “Telefonei, então, para o 112 a pedir ajuda, mas demoraram imenso tempo a atender“, garantiu. O Observador questionou o INEM sobre quanto tempo demorou o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) a receber a ocorrência mas não obteve resposta. O INEM adiantou apenas que a chamada foi atendida pelo CODU às 10h29 e que, “durante a triagem da situação, foi possível perceber que o parto já teria ocorrido”.
Terá sido o próprio CODU a ativar a ambulância dos Bombeiros Voluntários de Alenquer. “O CODU ativou para o local uma ambulância dos BV Alenquer, às 10h33, e a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) de Torres Vedras, às 10h37, dado que a VMER de Vila Franca de Xira estava empenhada noutra ocorrência”, explica o INEM, sem, no entanto, referir quanto tempo demoraram os meios a chegar ao local.
Nas redes sociais, os bombeiros de Alenquer confirmaram o alerta do CODU mas disseram que antes, às 10h28, receberam um alerta de “um operacional” e que um minuto depois, foi acionada a ambulância. Às 10h30, dizem ter recebido o alerta do CODU de Lisboa e chegaram ao local às 10h38, depois de o bebé nascer, mas só iniciaram o transporte para Santarém às 11h20 devido ao “problema técnico” — o furo — da primeira ambulância. Bebé e mãe só chegariam ao hospital às 12h06, revelam os Bombeiros Voluntários de Alenquer.
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Gravidez era acompanhada, mas centro de saúde pediu ajuda à MAC (que não tinha vagas)
Antes do parto, Soraia Moreira esteve a ser acompanhada na Unidade de Saúde Familiar Vila Presépio, em Alenquer, assim como no Hospital de Vila Franca de Xira, explicou ao Observador a Unidade Local de Saúde (ULS) do Estuário do Tejo, garantindo que a “gravidez foi acompanhada em consultas regulares, tendo igualmente sido realizados todos os respetivos meios complementares de diagnóstico”.
À imprensa, a mãe da jovem afirmou, no entanto, que a USF pediu que a grávida passasse a ser seguida na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa — o que não chegou a acontecer por falta de vagas. “A médica ligou à minha filha, há umas duas semanas, a dizer que o pedido tinha sido recusado, que não sabia o que fazer, porque tinha muitas grávidas em fim de gestação e não tinha para onde as mandar”, relatou a mãe de Soraia Moreira.
▲ Urgência de obstetrícia de Vila Franca de Xira estava encerrada (um cenário que se repete há meses)
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Ao Observador, a ULS de São José (que integra a MAC), confirma que a “4 de julho de 2025 foi enviado para a MAC um pedido de consulta de referência, para a referida grávida, na altura com 35 semanas de gestação”, que foi recusado “por falta de vagas na consulta em tempo útil“. A ULS de São José frisa que “os recursos da maternidade são limitados” e lembra que a MAC não faz parte da rede de referenciação hospitalar que cobre a zona onde Soraia reside. “Na Rede Referenciação Hospitalar, a ULS Estuário do Tejo, em Obstetrícia e Ginecologia e Diagnóstico Pré-Natal, referencia para a ULS Loures/Odivelas [Hospital Beatriz Ângelo], que, se necessário, referencia para a ULS Santa Maria”, realça a ULS São José.
Quatro urgências de Ginecologia e Obstetrícia encerradas e cinco condicionadas
Questionada sobre o pedido — feito pela médica de família que acompanhava a jovem — para que esta fosse vista na MAC, a ULS do Estuário do Tejo refere apenas que “todos os exames realizados indiciaram que a gravidez se desenvolvia dentro da normalidade, não tendo havido indicação clínica para internamento”. Fica, assim, por esclarecer o motivo do pedido de transferência, dado que a gravidez não era considerada de risco.
Urgência obstétrica de Vila Franca de Xira estava encerrada e Soraia foi para Santarém
O Observador perguntou à ULS do Estuário do Tejo se o pedido à MAC esteve relacionado com a falta de capacidade do Hospital de Vila Franca de Xira (que se debate com uma grave carência de obstetras) mas não obteve resposta. Esta segunda-feira, a urgência de Ginecologia/Obstetrícia daquele hospital esteve encerrada, um cenário que se repetiu esta terça-feira durante a maior parte do dia (da meia noite às 21 horas). Depois disso, reabriu, mas volta a encerrar esta quarta-feira às 9h da manhã, estando encerrada de forma ininterrupta a partir da próxima quinta-feira e durante todo o fim de semana, segundo a informação que consta no Portal dos Serviços de urgência do SNS.
E o que foi feito depois de a MAC ter recusado seguir a grávida? O Observador questionou a ULS do Estuário do Tejo sobre o tema, mas esta recusou-se a prestar mais esclarecimentos por ter sido aberto um processo de inquérito pela IGAS. “Tendo em conta a abertura de um inquérito da IGAS ao acontecimento mencionado, a ULS Estuário do Tejo não fará mais qualquer declaração pública sobre o mesmo”, adiantou o gabinete de comunicação.
Como tem sido hábito nos casos noticiados pela imprensa e em que se suspeita que possa ter havido falhas no acionamento e prestação de socorro, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, pediu à Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) a abertura de um inquérito. “O procedimento foi já determinado pelo Inspetor-Geral das Atividades em Saúde para “investigar os factos relativos à assistência prestada pela Linha SNS 24” e pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), no momento da ocorrência, bem como à assistência prestada pela Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo à grávida”, adiantou o gabinete de Ana Paula Martins, em resposta enviada ao Observador.