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Assim que aterraram na Florida, os dois irmãos asseguraram que serão "completamente ilibados" das suspeitas que recaem sob eles
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▲Assim que aterraram na Florida, os dois irmãos asseguraram que serão "completamente ilibados" das suspeitas que recaem sob eles

AFP via Getty Images

▲Assim que aterraram na Florida, os dois irmãos asseguraram que serão "completamente ilibados" das suspeitas que recaem sob eles

AFP via Getty Images

A saga dos irmãos Tate. Mesmo acusados de violação e tráfico sexual, Trump terá ajudado a que fossem para os EUA? E agora?

Da fama online, alcançada pelo conteúdo misógino, os irmãos saltaram para o mundo dos crimes sexuais. Chegaram os EUA, sob a capa protetora de Trump, mas têm contas a prestar em dois países.

“Nunca fomos condenados por qualquer crime durante toda a nossa vida e não temos registo criminal em nenhum sítio do planeta”, garantiu Andrew Tate na chegada aos EUA. A informação é factualmente falsa. Ele e o irmão, Tristan Tate, chegaram na quinta-feira ao estado da Florida, a bordo de um jato privado, depois de a administração Trump ter pressionado a Roménia a levantar as restrições aos dois irmãos com dupla nacionalidade britânica e norte-americana, até então impedidos de sair daquele país por ordem do tribunal.

Além do caso judicial que deixam pendente onde são acusados de tráfico de pessoas e dezenas de crimes sexuais, e em relação ao qual serão supostamente vigiados pelas autoridades romenas, os irmãos, de 38 e 36 anos, já foram alvo de um pedido de extradição por parte do Reino Unido, enquanto ainda estavam na Roménia. Antevê-se agora que o pedido seja repetido e remetido à Justiça norte-americana para nova apreciação.

Andrew referiu mesmo que o caso contra si e Tristan “foi arquivado, no dia 19 de dezembro, na Roménia, durante a administração Biden”, outra informação incorreta, que avançou provavelmente para relativizar o peso da influência política que Trump teve no regresso dos dois aos EUA. Mas a verdade é que os irmãos pisaram solo norte-americano depois de vários funcionários da nova administração terem abordado o governo romeno para discutir o seu caso, há poucas semanas, incluindo um enviado especial com relevante força diplomática.

O caso pendente na Roménia não foi oficialmente arquivado, como disse Andrew. Voltou sim para trás, para que a acusação fosse reformulada, depois de um Tribunal de Bucareste ter decidido que o processo contra os Tate e outras duas mulheres romenas, detidas com eles em 2022, não podia ir a julgamento nos trâmites em que se encontrava devido a múltiplas irregularidades legais e processuais.

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▲ Os dois irmãos

AFP via Getty Images

Aliás, as provas encontradas nas casas dos Tate e outros locais frequentados por eles foram suficientes para os dois irmãos serem detidos mais do que uma vez e para lhes ser aplicada a medida de coação de prisão domiciliária de forma intermitente. Em 2022 e 2023, as autoridades romenas encontraram armas de fogo, armas brancas e grandes quantidades de dinheiro na posse de ambos.

Na mesma altura, foram apreendidos vários bens dos irmãos na Roménia, incluindo 15 carros de luxo e 14 relógios de grandes marcas. Mas quem são estes homens que levaram a que as mais altas instâncias diplomáticas norte-americanas, e há até quem diga o próprio Trump, a olhar por eles? A ida para os EUA é um passo que os coloca mais próximos da liberdade, ou da extradição ansiada para o Reino Unido?

Quem são Andrew e Tristan Tate e como acabaram conhecidos em todo o mundo?

Há vários anos que a presença online de Andrew Tate se fez notar ao nível global. O ex-kickboxer popularizou-se sobretudo entre o público masculino mais jovem, pela divulgação de conteúdo misógino e de demonstração de riqueza — apresentava-se como um alpha male, uma espécie de coach motivacional, que queria treinar rapazes para serem como ele.

Acabou por impulsionar um movimento online de homens “influenciadores” que replicavam a sua fórmula: a defesa de valores tradicionais, de extrema-direita, em que o homem é superior à mulher, tese que justificava com alegadas provas biológicas.

Em 2016, participou na edição britânica do Big Brother e acabou expulso do reality show por terem sido divulgados vídeos seus alegadamente a cometer uma violação e a bater com um cinto na vítima. Foi o rebentar do primeiro grande escândalo que o relaciona com crimes sexuais. Mas estava longe de ser o último.

Tristan Tate, o seu irmão mais novo, começou a surgir ao seu lado nos vídeos que publicava online e seguiu-lhe cada passo — dos negócios online em que os impostos não eram assunto, até ao envolvimento em redes de tráfico sexual.

"Aquelas que tentam fazer tudo o que os homem fazem apenas insistem nesse disparate porque não são bonitas o suficiente para serem sugar babys"
Andrew Tate na rede social X

Em 2022, já tinha sido banido do Facebook, Instagram, TikTok e YouTube pelas publicações de cariz discriminatório contra mulheres. Mesmo após a expulsão das redes sociais, clipes de vídeos, que tinha publicado anteriormente e em que surge a defender que “as mulheres não devem trabalhar” e que “não têm capacidade de controlo emocional em situações de stress”, continuaram a circular por meio de contas dos seus fiéis seguidores — muitos deles adolescentes. E a cadeia era contínua: estas publicações encontravam assim o seu caminho até à cabeça de mais jovens, ainda em processo de formação da personalidade, e por isso também mais vulneráveis ao conteúdo motivacional.

Andrew Tate tem hoje conta oficial no X, rede social detida por Elon Musk, e a linha de publicações segue a mesma lógica. A propósito do acidente de aviação no Canadá da semana passada, em que a piloto era uma mulher, por exemplo, escreveu que as “mulheres são amplamente incompetentes”.

“Aquelas que tentam fazer tudo o que os homem fazem apenas insistem nesse disparate porque não são bonitas o suficiente para serem sugar babys“, escreveu, sem medo de ser banido da rede do multimilionário que é também membro da administração Trump.

Em dezembro de 2022, quando já decorriam investigações há largos meses aos dois irmãos e existiam suspeitas concretas em relação a dezenas de crimes de violação, tráfico humano e de exploração sexual, os Tate protagonizaram um episódio caricato, que favoreceu a sua detenção.

Há várias semanas que as autoridades romenas tinham um mandado de captura para os deter e foi mais um dos seus vídeos (em que provocava a ativista ambiental Greta Thumberg) que acabou por levar a que isso acontecesse. Na gravação, Andrew Tate surgia vestido com um robe da Versace, a fumar um charuto e a receber uma encomenda. Tratava-se de uma pizza embalada numa caixa com a morada do restaurante: foi assim que souberam que se escondia na Roménia e chegaram até ele.

O ex-kickboxer foi então detido pela polícia romena juntamente com o irmão e duas mulheres romenas. Passaram os últimos dois anos e dois meses naquele país, primeiro em prisão domiciliária — justificada através do perigo de fuga e da possível continuação da atividade criminosa — e mais tarde em liberdade, mas impedidos de sair do país enquanto aguardavam por julgamento.

Andrew Tate e irmão, acusados de tráfico humano e violação, deixaram Roménia em jato privado e já chegaram à Florida

De que crimes estão acusados os irmãos Tate na Roménia?

Depois de, no final de 2022, terem sido detidos preventivamente sob acusações de tráfico de pessoas, violação e formação de uma rede de exploração sexual de mulheres, um ano depois, em 2023, as autoridades romenas acusaram formalmente os irmãos, com base nos testemunho de sete alegadas vítimas.

Como recorda o The Guardian, os procuradores romenos defendem que Andrew Tate violou uma destas mulheres repetidamente. Todas as outras foram coagidas pelos dois irmãos por meio de ameaças à sua integridade física ou ao seu meio de subsistência — neste caso o dinheiro que resultava da atividade de prostituição que eram obrigadas a praticar.

Em 2024, foi apresentada uma segunda acusação que mencionou 35 supostas vítimas de tráfico sexual, incluindo uma que, ao tempo da prática dos crimes, tinha apenas 15 anos: era portanto menor.

As duas acusações na Roménia e os processos a elas associados ficaram marcados pelas irregularidades legais e processuais, que fizeram com que um tribunal de segunda instância, em Bucareste, tenha devolvido o caso aos procuradores, citando as falhas encontradas na acusação. O julgamento ficou, assim, em suspenso, com a acusação a aguardar reformulação.

Greta Thunberg reage à detenção de Andrew Tate: “É o que acontece quando não se recicla caixas das pizzas”

Andrew Tate considera mesmo que, no final de tudo isto, tanto ele como o irmão serão “completamente ilibados”. Foi com certeza que proferiu estas palavras aos jornalistas assim que aterrou na Califórnia. Do outro lado do oceano, no Reino Unido, as autoridades lamentavam que o avião tivesse aterrado em solo norte-americano e não em britânico.

E quais os factos criminais imputados aos dois homens no Reino Unido?

As acusações das autoridades britânicas não são muito diferentes das que levaram Andrew e Tristan Tate a serem detidos na Roménia e o elo comum fica claro — mulheres que são agredidas e/ou exploradas sexualmente.

A polícia do Reino Unido investiga, há vários anos, alegações de violação e tráfico de pessoas e, em março de 2024, emitiu um mandado para extraditar Andrew Tate e o seu irmão, para que pudessem enfrentar a justiça inglesa. A Roménia disse que não. Primeiro queria que os processos que os dois homens têm no país ficassem concluídos — só depois poderiam prestar contas a outro ordenamento jurídico.

O mandado britânico referia-se a alegações de agressão sexual que remontam a 2012, quando os irmãos viviam no país. Tate enfrenta também uma ação civil separada, interposta por quatro mulheres que alegam crimes de violação e controlo coercivo, entre 2013 e 2016, naquele território.

Estas quatro alegadas vítimas já se pronunciaram em relação à permissão de saída da Roménia dos Tate. Numa declaração conjunta, na quinta-feira, citadas pela CNN disseram que se sentiram “traumatizadas” quando descobriram a sua saída do país, não para serem extraditados para o Reino Unido, mas sim para esperarem pelo julgamento em liberdade nos EUA.

Ainda no Reino Unido, em dezembro passado, o Tribunal de Westminster deu ordem de apreensão a mais de 2 milhões de libras (2 milhões e 400 mil euros) do dinheiro e bens de Andrew Tate.

Em causa estão anos de fuga ao fisco britânico. Os dois irmãos e outros sócios não pagaram um único euro (ou libra) em impostos sobre cerca de 22 milhões de euros de receitas obtidas através dos seus vários negócios online, entre eles um curso, que colocaram à venda. E também das contas de Only Fans que exploravam, entre 2014 e 2022.

Ida para os EUA deixa os irmãos mais perto da extradição para o Reino Unido?

Pouco depois de os Tate aterrarem na Florida, nos EUA, o The Telegraph avançava que o Reino Unido está a considerar enviar um pedido de extradição para os irmãos às autoridades norte-americanas.

Segundo o jornal, Yvette Cooper, ministra da Administração Interna britânica, está a explorar opções legais para levar os dois à Justiça nacional, onde enfrentam acusações de violação e tráfico de pessoas, tendo em conta que já foram tomadas medidas de arresto de bens em relação aos crimes económicos cometidos no país.

epa11928933 US President Donald Trump (R) with British Prime Minister Keir Starmer (L) during a press conference at the White House Washington, DC, USA, 27 February 2025.  EPA/WILL OLIVER

▲ Starmer estava em Washington quando os dois irmãos, que o Reino Unido quer extraditados, chegaram aos EUA

WILL OLIVER/EPA

Por coincidência, no momento em que os Tate — que são procurados pelas autoridades britânicas — chegavam à Florida, Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico estava em Washington para se encontrar com Donald Trump a propósito da guerra na Ucrânia. Questionado pelos jornalistas sobre a presença dos irmãos no país, o Presidente dos EUA negou qualquer conhecimento da viagem. Starmer limitou-se a dizer: “É importante que a justiça seja feita.”

Matthew Jury, advogado a representar várias vítimas dos Tate no Reino Unido, disse ao The Telegraph que considerava “embaraçoso para o governo britânico uma abdicação completa de sua responsabilidade para com as vítimas” no caso de não fazer nada perante a deslocação dos suspeitos entre países.

Procuradores romenos alegam que os irmãos coagiam mulheres por meio de ameaças à sua integridade física ou ao seu meio de subsistência: o dinheiro que resultava da atividade de prostituição que eram obrigadas a praticar

Nick Vamos, um advogado norte-americano especializado em processos de extradição, lembrou ao jornal que Trump já ordenou pessoalmente que os casos contra seus apoiantes políticos e aliados fossem arquivados. “Se ele os quisesse proteger, há todos os motivos para pensar que poderia intervir pessoalmente para impedir a sua extradição, seja de volta para a Roménia ou para o Reino Unido”.

Chegada de Trump à Casa Branca influenciou decisão romena para deixar sair irmãos?

Trump nega uma influência direta sua, ou de outros elementos da sua administração, na decisão de a Roménia deixar Andrew e Tristan Tate voar para território norte-americano. E mesmo que Emil Hurezeanu, ministro dos Negócios Estrangeiros romeno, tenha confirmado um encontro para abordar o caso com o enviado especial de Trump, Richard Grenell, no início de fevereiro, nega que a conversa tenha servido como meio de exercer pressão e garante isenção na decisão.

É, no entanto, público que os dois irmãos são apoiantes declarados de Donald Trump, com vários membros do círculo íntimo do presidente dos EUA a criticar, ao longo dos anos, as medidas de coação aplicadas pela Roménia. Um dos que se pronunciaram foi Donald Trump Jr., o filho do Presidente norte-americano, que descreveu a detenção dos Tate, em dezembro de 2022, como uma “insanidade absoluta”.

"Quatro anos de administração Trump vão ser um tempo ótimo para vencedores e horrível para os perdedores"
Andrew Tate na rede social X

Do lado dos Tate, há uma perceção, manifestada publicamente, de que foram parte essencial para os resultados das últimas eleições presidenciais nos EUA. Mesmo retidos noutro país, conseguiram exercer influência online, apesar da revelação dos crimes pelos quais estão acusados.

Em novembro, Tristan Tate chegou a gabar-se, no X, do papel que tinham tido nas eleições americanas, afirmando que “milhões de jovens na Europa e nos EUA têm uma abordagem de direita saudável à política que não teriam se Tate nunca tivesse aparecido nos ecrãs dos seus telefones”. Disse mesmo que o irmão contribuiu para a cura para a “infeção do vírus woke”, que dava margem aos republicanos para ganhar a votação.

No seu perfil no X, Andrew tem um post fixado, que divulgou a 23 de fevereiro, em que demonstra apoio à vitória de Donald Trump e em que se diz “muito entusiasmado para os próximos quatro anos”. Considera que vai ser um “tempo ótimo para vencedores e horrível para os perdedores”. “Isto agora é uma meritocracia, não mais modo de facilitismo, sem mais simpatia”. Apela ainda ao capitalismo extremo, sem ponta de cariz social: “Os ricos ficam ricos, os pobres ficam pobres.”

Todo o conteúdo do vídeo remete para um cenário em que os irmãos permaneçam nos EUA nos próximos anos da administração Trump, num país que querem ver gerido à medida dos valores que propagam.

Apesar disso, a autorização de saída da Roménia tem uma condicionante de “supervisão judicial”. Os Tate terão de “comparecer perante as autoridades judiciais sempre que forem convocados”. Segundo vários órgãos de comunicação social romenos, deverão mesmo regressar ao país que deixaram na madrugada de quinta-feira para marcar presença numa audiência no tribunal de controlo judicial.

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