378kWh poupados com o Logótipo da MEO Energia Logótipo da MEO Energia
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Poupe na sua eletricidade com o MEO Energia. Simule aqui.

Entrevista ao ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Lisboa, 22 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
i

O socialista está disponível para integrar listas do PS a legislativas e para continuar a ser Governo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O socialista está disponível para integrar listas do PS a legislativas e para continuar a ser Governo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Augusto Santos Silva. "Rio puxou o PSD para mais longe da herança da troika. E toda a gente pode ver quem está com Paulo Rangel"

O ministro e dirigente do PS admite "todos os cenários necessários" para um Governo estável. Mas traça linhas vermelhas à esquerda e marca distâncias à direita — especialmente com Rangel.

Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Augusto Santos Silva vem direto do Porto, depois do fim de semana, para os estúdios do Observador. Senta-se na cadeira para a entrevista e logo dispara que não gosta de perguntas que comecem por “se”, quando o tempo é de todos os “ses” em matéria de cenários de governabilidade do país no pós-autárquicas. O ministro dos Negócios Estrangeiros e dirigente do PS garante que os eleitores “sabem o posicionamento político” do partido, mas traça diferenças face a 2015. E também no PSD.

Diz não querer imiscuir-se nas eleições internas dos sociais-democratas, embora assuma que Rui Rio está mais próximo do PS do que Paulo Rangel, que “toda a gente pode ver com quem está”. Mas nem com Rangel, que este mesmo Executivo já acusou de ter feito “campanha internacional contra Portugal”, recusa poder entender-se, se a governabilidade o exigir. Quanto ao cenário desejado, esse é o da maioria absoluta, com Santos Silva menos preocupado do que António Costa com o passado Sócrates quando a pede: “Não é desconfortável”.

Se o PS ganhar sem maioria absoluta, admite uma situação em que o Orçamento de um governo do PS seja viabilizado pelo PSD?
Não gosto de perguntas começadas por “se” porque isso é especulação. As eleições vão ser marcadas para 30 de janeiro, haverá uma campanha eleitoral, nós nem sequer ainda sabemos quem é o candidato do PS, portanto é prematuro responder a cenários que se colocarão de uma forma ou outra consoante a votação das pessoas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas os eleitores têm de saber com o que contam, aliás o próprio primeiro-ministro orgulha-se de ter avisado antes das eleições de 2015 que ia tentar um governo à esquerda. Não era bom os eleitores potenciais do PS também saberem com o que contam?
Sim e sabem que a questão essencial que se coloca aqui é haver condições de governação, sabem qual o programa do PS, sabem qual o posicionamento político do PS, sabem que o que motivou este percalço foi o facto de o PS não ter abdicado de combinar medidas sociais avançadas com disciplina orçamental, com contas certas, e não ter abdicado de continuar a preservar lugar essencial do diálogo e a concertação social no sistema político e institucional português. E os portugueses também sabem o que o PS está a pedir: uma maioria que seja estável para que se forme um governo duradouro e também sabem que o PS assumirá todas as responsabilidades que o eleitorado lhe quiser dar.

Ouça aqui a entrevista.

Santos Silva em entrevista: “Maioria de Sócrates não é desconfortável para PS”

Só não sabem uma coisa: se havendo um governo minoritário do PS admite que tenha o seu Orçamento viabilizado pelo PSD.
O sistema político partidário português organiza-se segundo a clivagem esquerda direita. De todos os partidos representados na Assembleia da República, só um, o PAN, é que recusa essa organização do sistema partidário, por isso coloca-se na topografia parlamentar entre o PS e o PSD. Portanto, é útil para que haja alternância democrática em Portugal que os dois blocos, esquerda e direita, sejam concorrentes entre si. Se houver uma maioria formada à direita no Parlamento isso significará que o Governo será liderado pelo PSD, se houver uma maioria à esquerda — como julgo que vai haver — será um Governo liderado pelo PS. Apurados esses resultados, os partidos políticos têm obrigação de se conformar com eles. Por isso, formar-se-à um Governo liderado pelo PS, se o PS vencer as eleições, e encontrará certamente as condições de governação, incluindo as de aprovação do Orçamento do Estado. Não vejo que na eventualidade de o Governo ser liderado pelo PS e o PS não ter maioria por si só, os partidos políticos à esquerda se predisponham a chumbar imediatamente o Orçamento do novo Governo, porque isso significaria que não tinham compreendido a posição do eleitorado.

"Admito todos os cenários que sejam necessários para que o país tenha um Governo estável e esse tenham um instrumento tão fundamental para a ação do Governo como o Orçamento do Estado."

Mas se não compreenderem? Preferem cair ou ter um Orçamento que passe com o apoio do PSD?
Não, o país não precisa de crises de governação sucessivas nem de crises políticas sucessivas. O país já paga um preço por esta crise política completamente fora de tempo e de qualquer razoabilidade.

Portanto, admite.
Admito todos os cenários que sejam necessários para que o país tenha um Governo estável e esse tenha um instrumento tão fundamental para a ação do Governo como o Orçamento do Estado.

E o contrário, se o PSD precisar?
Isso ainda é mais especulativo.

Rui Rio deu uma entrevista recente onde disse esperar que o PS estivesse aberto a fazê-lo caso fosse necessário.
Uma parte considerável da discussão interna do PSD, na qual não me quero meter, é sobre cenários especulativos. Mas isso é uma opção que o PSD faz, a nossa opção é outra. A nossa é apresentarmo-nos aos portugueses pedindo condições de governação para executarmos o nosso programa. Portanto, se a maioria do Parlamento se formar à esquerda, certamente não haverá um Governo de direita.

Está dependente do voto do BE e do PCP, é isso?
Não, não estamos dependentes no sentido em que não estamos reféns. Queremos reforçar a nossa posição e é assim que vamos a eleições, não estaremos reféns, nem admitiremos chantagens, como aliás bem demonstra o nosso comportamento nesta crise que levou ao chumbo do Orçamento do Estado.

Procurar condições de governabilidade venham elas de onde vieram. O PS ao colocar-se nesta posição não está a fazer o oposto de 2015 em que nem sequer levantou esta possibilidade, de viabilizar um Governo de direita? Porque é que hoje já admite procurar a direita?
Devemos abordar as questões de governação tendo em conta os programas apresentados pelos diferentes partidos políticos. Em 2015 era inconcebível que houvesse qualquer possibilidade de o PS viabilizar um Governo de direita quando havia uma maioria de esquerda no Parlamento, esse Governo era a continuação do Governo que quis ir além da troika e os próprios partidos à esquerda do PS diziam que o PS pode formar Governo com o nosso apoio.

"Não sabemos ainda qual a liderança do PSD. Certamente não direi nenhuma novidade se disser que toda a gente percebe que a liderança de Rui Rio procurou puxar o PSD mais para o centro e mais longe da herança do ir além da troika. E toda a gente pode ver quem está com Paulo Rangel."

Este PSD é diferente desse?
Não sabemos ainda qual a liderança do PSD. Certamente não direi nenhuma novidade se disser que toda a gente percebe que a liderança de Rui Rio procurou puxar o PSD mais para o centro e mais longe da herança do ir além da troika. E toda a gente pode ver quem está com Paulo Rangel.

Mas Rui Rio foi o líder do PSD nos últimos anos e o PS nunca o procurou para coisa nenhuma, a não ser para dois acordos concretos.
Isso não é verdade.

Procuraram o PSD para questões pontuais importantes que permitissem ao país, por exemplo, viabilizar um Orçamento do Estado?
Para além dos dois casos que referiu, o acordo sobre a linha de ação em relação aos fundos comunitários e o acordo relativo à descentralização, fizemos a reforma da organização das Forças Armadas com o PSD, entendemo-nos com o PSD e consultámos o PSD sobre as grande candidaturas internacionais que o país propôs, desde logo a de Guterres a secretário-geral das Nações Unidas. Entendemo-nos com o PSD na definição da nossa posição relativamente à cooperação reforçada da Defesa no âmbito da União Europeia. E aprovámos com o PSD medidas tão importantes como do combate à corrupção e é bom que esses acordos se façam porque são importantes, dizem respeito à ação internacional do país, aos domínios típicos de soberania e políticas que beneficiam de uma estabilidade para além da alternância de governos. Agora há outras áreas não menos importantes, aliás ainda mais importantes do ponto de vista da política interna, em que o PS e o PSD apresentam propostas que não só são diferentes como são contraditórias: na política orçamental, económica, educativa, segurança social e saúde. Aqui o PSD ainda está muito sob influência daqueles que acham que o remédio é privatizar.

Com esse quadro todo, fica claro como não há matérias de política interna em que se entendam. Mas pela estabilidade, agora diz todos os entendimentos são possíveis. Portanto, para o PS é indiferente governar com um Orçamento viabilizado pelo BE e PCP e um viabilizado pelo PSD?
Não, por isso mesmo é que pedimos o reforço da nossa posição eleitoral. O que pedimos é a maioria, o que queremos é ganhar as eleições porque queremos que o Governo do PS possa formar-se — e por isso é preciso ganhar as eleições…

Isso no sentido de ter uma maioria parlamentar e não ser o mais votado, é isso?
Ganha as eleições quem ficar à frente e tiver condições para formar o Governo no Parlamento.

Agora falar de maioria absoluta já não é “efabular”? Em 2019 disse numa entrevista ao Observador que não tinha nada contra a maioria absoluta “mas não vale a pena efabular sobre isso”. O PS vai passar esta campanha a efabular sobre a maioria absoluta, é isso?
Não, é preciso compreender o que quer dizer a palavra efabular. Quando vamos a eleições, pedimos às pessoas que votem por nós. A maioria absoluta depende da soma agregada dos votos, por isso é que é efabular pensar que determinamos antes e em vez do eleitorado qual vai ser a dimensão da maioria. Essa é uma decisão do eleitorado. A única coisa que nos distingue de outros protagonistas e de outras conjunturas no passado é que o PS nunca faz chantagem sobre o eleitorado, portanto nunca vamos para eleições a dizer que ou nos dão maioria absoluta ou amuamos. Ou que só formamos Governo se tivermos maioria sozinhos no Parlamento. Não, nós vamos para eleições dizendo que queremos o maior número de votos possível, queremos a maior força política possível. Se tivermos maioria no Parlamento, formaremos um Governo tendo em conta essa maioria. Se não tivermos maioria do PS sozinho, evidentemente temos de estabelecer acordos.

À esquerda ou à direita.
Insisto: é muito pouco provável que o PS tenha maioria relativa no Parlamento tendo o Parlamento uma maioria à direita. Isso é muito pouco provável.

O que é provável e possível é que o PCP e o BE não aprovem, como não aprovaram agora, um Orçamento do PS.
O seu pressuposto é que as posições políticas são imutáveis e não dependem da legitimidade eleitoral e, com toda a franqueza, esse não é um pressuposto aceitável em democracia. Portanto, vamos ver o que o eleitorado diz e se disser que quer continuar a ter uma maioria à esquerda no Parlamento sem maioria absoluta do PS, isso significa que toda a esquerda tem de perceber bem e aceitar a mensagem do eleitorado.

Entrevista ao ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Lisboa, 22 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em janeiro deste ano, António Costa acusou Paulo Rangel de participar numa “campanha internacional contra Portugal” por causa do processo de nomeação do procurador europeu. E disse também que o governo não teria “a menor complacência” com ele. Concorda com esta posição de António Costa?
Isso foram factos, aliás o decurso das coisas mostrou bem quem tinha razão nesse episódio infeliz que, aliás, abriu um precedente que não sei se vai continuar: nunca antes alguma vez algum partido político na oposição tinha usado Bruxelas e um pretexto ligado à Presidência Europeia de Portugal para atacar um Governo em funções. Não o fez o PS na primeira Presidência, era primeiro-ministro Cavaco Silva em 1992, e não o fez o PSD, nem em 2000 nem em 2007. Nunca, até agora, um partido político tinha usado Bruxelas para atacar sobre um tema de Presidência Europeia do nosso país o Governo em funções.

Mas se Paulo Rangel for eleito líder do PSD, falarão com ele?
Naturalmente, o facto de criticarmos alguém…

Não é bem criticar, é acusar de participar “numa campanha internacional contra Portugal”.
Não dê às palavras um sentido maior do que elas têm. É uma campanha porque se transformou um erro de comunicação entre serviços numa acusação gravíssima ao Governo português, era internacional porque foi conduzida a partir do Parlamento Europeu. Não sei onde está o problema.

O primeiro ministro colocou um peso nesse episódio, fez uma declaração sobre isso.
Porque foi grave até pelo precedente que representou.

Mas estão dispostos a esquecê-lo se se tiverem de entender com Paulo Rangel.
Essa ideia de que a lógica da política é uma lógica de conflito permanente, não há perdão ou ultrapassagem, remeter-nos-ia para os dramas shakesperianos e não para uma democracia madura e moderna como é a portuguesa.

"Rui Rio negociou com boa fé os dois acordos que fez com o PS e o facto de termos conseguido esses acordos deu mais força quer à posição portuguesa na discussão europeia, quer à estabilidade da política interna"

O PS fez dois acordos com o PSD de Rui Rio: um sobre descentralização e outro sobre fundos europeus. Esse processo correu bem? Rui Rio revelou ser um parceiro confiável?
Sim, embora não queira pronunciar-me sobre qual dos candidatos a líder do PSD prefiro, não sou militante do PSD e respeitaremos o presidente eleito do PSD porque tem sempre uma posição muito importante no sistema político da democracia portuguesa. Rui Rio negociou com boa fé os dois acordos e o facto de termos conseguido esses acordos deu mais força quer à posição portuguesa na discussão europeia, quer à estabilidade da política interna. E normal que aconteça em democracia, mas em nada diminui aquilo que também é a força da democracia e haver propostas claras alternativas. O nosso adversário nestas eleições é o PSD não é nem o BE, nem o PCP. E o do PSD é certamente o PS. Vejo com muito espanto que à esquerda do PS estejam a cometer um erro crasso que é tomar o PS como se fosse o adversário, mas o PS tem uma posição clara sobre isto: concorremos com o PSD, essas são as duas alternativas possíveis. Um governo liderado pelo PS significa continuarmos neste caminho ultrapassando este percalço e dando mais força ao PS.

Rui Rio disse recentemente que se fosse hoje faria esses acordos outra vez. E o PS?
Tentaria fazer, certamente. Não posso garantir que faço um acordo quando ele depende de um terceiro. Mas posso garantir que tentarei fazer esse acordo — e isso seguramente o PS fará. Aliás, tenciona fazer outros acordos.

Entrevista ao ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Lisboa, 22 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Independentemente de quem for o líder do PSD? Não consideram Rui Rio mais confiável?
O PS não tem preferências sobre os líder do PSD. Seria, até do ponto de vista da boa convivência democrática, um atrevimento e uma falta de cortesia. Esperaremos tranquilamente até ao próximo sábado para saber quem será o nosso interlocutor. E, qualquer que ele seja, será para nós o interlocutor escolhido pelos militantes do PSD e isso é que lhe dá força e legitimidade.

Que outros acordos entre PS e PSD antevê para a próxima legislatura?
Depende dos resultados eleitorais. Podemos ter que ver com diferentes partidos acordos que garantam a governabilidade do país. Se as coisas correrem da forma como desejo, isso significará que o PS terá uma maioria muito forte no Parlamento. O facto de ter essa maioria muito forte — mesmo sendo mais de 115 deputados em 230 — isso não significará que alguma vez dispensaremos o PSD quando se tratar de questões de política internacional, que deixaremos de consultar o PSD sempre que se trate de questões de Defesa ou de compromissos na NATO ou na UE, que deixaremos de procurar o acordo do PSD quando se trata de grandes questões de regime, nomeadamente nas áreas da soberania. Agora, o que aconteceu em 2015 — foi aí que o muro que havia à esquerda caiu e não é por nós que ele tornará a erguer-se — é que nos recusámos a pensar que esses acordos de regime, sobre grandes políticas públicas, deveriam deixar de lado o PCP e o BE.

Presumo que não queira acordos com o PCP e o BE em matérias de europeias e de Defesa. Aí, haverá ainda muro.
Eu, querer, queria…

… desde que pensassem como o senhor ministro — mas não pensam.
Não, não é preciso pensarem como eu. Agora, como compreende, o PS não pode ter acordos em matéria de UE que passem por se propor abandonar a moeda comum; o PS não pode ter acordos em matéria da NATO que passem por pôr em causa a NATO, que é o nosso sistema de defesa coletiva.

Precisamente por causa dessas dificuldades, em 2019, Francisco Assis pôs de parte poder ser candidato a deputado pelo PS e agora admite voltar. Gostava de o ver nas listas do PS?
Não vejo essa necessidade de ele voltar porque nunca o vi partir.

Não viu, mas ele anunciou que se ia afastar por discordar da geringonça.
O meu camarada e amigo Francisco Assis foi um brilhante eurodeputado até 2019, é neste momento do Conselho Económico e Social e, portanto, nunca o vi partir para que agora pudesse ter de voltar.

Muitos dos pontos que levaram a esta ruptura com o PCP e o BE eram extra-Orçamento. O Presidente da República tem razão quando diz que isso mostra que as divisões dentro da geringonça são mais profundas do que a mera questão orçamental?
Na minha opinião, não foi isso que o Presidente disse. O que o Presidente disse foi que, tendo havido um chumbo do Orçamento que foi determinado por questões que nem eram de natureza orçamental, era a solução política que estava em causa e, por isso, havia que devolver a palavra ao eleitorado. E eu estou de acordo com essa leitura do Presidente.

O que o presidente disse foi que havia “divergências maiores, em áreas sociais relevantes no Orçamento ou para além dele”. E fala em divergências “inultrapassáveis”.
Exatamente. Nesta solução política, havia. Por isso é que é preciso devolver a palavra ao eleitorado e por isso é que o nosso pedido ao eleitorado é que nos dê uma maioria mais forte, que garanta um governo estável e uma solução política duradoura. O simples facto de haver eleições criará uma nova solução política, com uma nova legitimidade e, portanto, com novas responsabilidades políticas, quer para aqueles que sejam maioritários, quer para aqueles que sejam minoritários.

"O PS não podia, não pode e não poderá pagar como preço de um qualquer acordo a renúncia à lógica do diálogo social e da Concertação Social, ou a criação de condições tais às empresas portuguesas que o crescimento económico e a criação de emprego deixasse de ser possível, ou pôr em risco a sustentabilidade da Segurança Social"

Portanto, tudo o que não foi possível nesta fase final será possível num novo quadro?
Vamos ver. Agora, o que é preciso ter em conta, até porque há essa narrativa de uma suposta intransigência negocial do governo, é o que foram mesmo essas divergências que impediram que o Orçamento fosse aprovado. O PS não podia, não pode e não poderá pagar como preço de um qualquer acordo a renúncia à lógica do diálogo social e da Concertação Social. Aliás, na democracia portuguesa, essa é uma criação original do doutor Mário Soares e faz parte do ADN do PS. O PS não podia, não pode e não poderá pagar como preço de um qualquer acordo uma contrapartida que será criar condições tais às empresas portuguesas que o crescimento económico e a criação de emprego deixasse de ser possível. E o PS não pode pagar como preço de um qualquer acordo pôr em risco a sustentabilidade da Segurança Social. Vamos ver se os eleitores subscrevem esta nossa leitura. Se subscreverem, essa será uma mensagem que todos nós teremos de respeitar.

Nesse quadro que se vai redesenhar, há um dado curioso relativamente ao pedido de uma maioria absoluta. O líder do PS disse numa entrevista recente que “claramente não é perigoso” hoje o PS ter uma maioria absoluta. O que lhe quero perguntar, até porque conhecerá os meandros dessa maioria absoluta como poucos neste governo, é se foi perigoso o PS ter maioria absoluta no Governo liderado por José Sócrates em 2005?
Não usaria a palavra “perigoso”, que aliás o secretário-geral do PS também não usou para descrever o passado. Agora, quer nas dinâmicas das duas maiorias absolutas do primeiro-ministro Cavaco Silva, quer na dinâmica da maioria absoluta do primeiro-ministro José Sócrates, o país não tinha ainda o sistema de controlos, de pesos e equilíbrios tão desenvolvido como tem hoje. Nos tempos de Cavaco Silva, em parte desse percurso a independência das televisões face ao governo não era tão clara e evidente como é hoje. Temos hoje em Portugal um Presidente da República eleito diretamente, que não vem da área política do PS nem foi apoiado na sua eleição ou reeleição pelo PS.

Na maioria absoluta de José Sócrates também teve logo em 2006 um Presidente de uma área política diferente.
Como sabe, era um Presidente da República que decidiu tomar partido na dinâmica política.

Em 2006 corria tudo, como se costuma dizer, “ouro sobre azul”.
Este Presidente tem mais distanciamento face à normal conflitualidade democrática.

Mas o primeiro-ministro falou de coisas muito concretas. Falou num “poder judicial independente”, que hoje existe e que pelos vistos considera que não existia nessa maioria; uma “comunicação social independente” e “um Presidente da República que controla” a ação do Governo. Estamos assim tão diferentes relativamente a 2005? Hoje já não é “perigoso” termos uma maioria absoluta do PS e já foi?
Não foi isso que o primeiro-ministro disse, mas também não sou o intérprete oficial, nem oficioso, das palavras do primeiro-ministro. O que é preciso ter em atenção é que as condições de governação com o exigente escrutínio e controlo do Parlamento, mas também, nas competências que lhes são próprias, do Presidente da República e de outros órgãos de soberania, incluindo os tribunais, estão muito amadurecidos em Portugal. E, portanto, o facto de um governo ser monopartidário com maioria, não representa por si só nenhum perigo para o funcionamento da democracia. Pelo contrário: pode trazer mais prejuízos para a democracia termos governos minoritários que beneficiam de apoios parlamentares, ou até de uma complacência parlamentar assente em afinidades que não são estruturais mas sim conjunturais.

Não estou a perceber bem: no tempo da maioria absoluta de José Sócrates, governo de que o senhor fez parte, não havia esse amadurecimento das instituições democráticas?
Sim. Sabe que, quando digo que estou velho, isso significa que estou velho. Mas, quando digo que estou mais velho, isso significa que continuo velho mas ainda sou mais velho. Portanto, coisas que estavam amadurecidas em 1987, na primeira maioria de Cavaco Silva, ficaram mais amadurecidas em 2005, na primeira maioria de José Sócrates, e ainda estão mais amadurecidas agora.

Não, [o histórico de maiorias absolutas do PS] não é inconveniente, não é desconfortável. O PS vive muito bem com a sua história, com os momentos mais felizes e os momentos mais perturbadores da sua história.

Mas sentia isso na altura, em 2005, quando foi ministro?
Não estamos a fazer uma entrevista sobre a história recente do país, portanto não vamos gastar o nosso precioso tempo…

… Quem falou disto foi o atual primeiro-ministro. Esse histórico é inconveniente nesta altura? É desconfortável para o PS?
Não, não é inconveniente, não é desconfortável. O PS vive muito bem com a sua história, com os momentos mais felizes e os momentos mais perturbadores da sua história.

Esse foi um dos momentos mais perturbadores?
Não, até diria que mais perturbador foi o que aconteceu a seguir.

Foi mais perturbador do que ter um primeiro-ministro que hoje em dia é acusado…
… está a ver como me está a dar razão?

Não.
Olhe para a formulação que usou: teve então X que agora se veio a revelar Y.

No tempo dessa maioria absoluta de José Sócrates havia um poder judicial independente, uma comunicação social independente e um Presidente da República que controlava o governo — é isso?
O Presidente da República não controla o governo, tem competências próprias que exerce — e este Presidente da República tem a enorme vantagem de se recusar a ser parte na disputa política que compete aos partidos fazer.

Tivemos recentemente mais um caso problemático a envolver as Forças Armadas. No caso Miríade, o ministro da Defesa fez bem ao optar por não informar o primeiro-ministro nem o Presidente da República?
Como ele já explicou, e como o Presidente da República já explicou, sim.

No Parlamento, o ministro disse que, se soubesse na altura o que sabe hoje teria informado.
Como é natural. O ministro da Defesa Nacional e o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas já explicaram com clareza o que se passou. Houve denúncias, que eram aliás localizadas e estavam muito longe de remeter para a dimensão que o caso aparentemente terá agora, a acreditar no que vai saindo na imprensa, as Forças Armadas informaram o poder político, informou-se também as Nações Unidas ao abrigo do que determina o protocolo que regula a nossa participação nessa missão de paz e o segredo de justiça foi respeitado integralmente, com as consequências positivas que podemos ver.

Estamos numa semana em que tudo se prepara para que no próximo Conselho de Ministros possa haver novidades relativamente às medidas para conter a pandemia. Em fevereiro deste ano, admitiu a responsabilidade do Governo pelo agravamento da pandemia em Portugal depois do relaxamento de medidas no Natal. O que é que o Governo deve fazer para evitar que o senhor ministro tenha de fazer declarações semelhantes depois de passarmos este Natal?
O Governo vai certamente tomar medidas no Conselho de Ministros da próxima quinta-feira. É para isso que nos estamos a preparar: realizou-se a reunião no Infarmed com os peritos, o primeiro-ministro vai receber os partidos para os consultar e na quinta-feira o Conselho de Ministros tomará decisões.

A taxa de vacinação é elevada, isso tem sido repetido pelo governo e pelos peritos. O governo age agora porque tem medo que aconteça o que aconteceu no ano passado?
Não, o Governo age agora porque é sua obrigação. Aliás, é obrigação de nós todos. Perante um aumento de novas infeções, temos de fazer duas coisas: primeiro, não entrar em pânico; e, depois, responder com medidas que possam produzir os efeitos que nós queremos, isto é, diminuir este crescimento das infeções, de modo a que possa ser gerido, e sobretudo acautelar a que as suas consequências para a saúde das pessoas e para o funcionamento do sistema de saúde, sejam as mínimas possíveis. Por isso é que acelerámos a inoculação da terceira dose aos mais idosos e também aos profissionais de saúde. Segundo os dados de domingo passado da Direção-Geral de Saúde, já há 750 mil pessoas em Portugal com a terceira dose, que reforça a sua proteção e que procura responder àquilo que os cientistas nos sugerem, de ao fim de um certo tempo o efeito protetor da vacina ir diminuindo. Portanto, nós estamos a vacinar aqueles que se vacinaram com a segunda dose há mais de seis meses e até decidimos encurtar, segundo o conselho das nossas autoridades de saúde, de seis para cinco meses, o intervalo entre doses.

Mas o processo está atrasado.
Não.

A própria diretora-geral da Saúde admitiu que sim.
Como a sr.ª diretora-geral de Saúde explicou, essa lógica de respeitar seis meses de intervalo resultava em que uma série de pessoas com mais de 65 anos só seriam vacinadas com a terceira dose depois do Natal. A decisão política, fundamentada tecnicamente, foi a de antecipar. O nosso objetivo é que todos os maiores de 65 anos sejam vacinados até ao fim deste ano.

Um agravamento nesta altura, com eleições antecipadas já no fim de janeiro, teria efeitos políticos imediatos? Isso é um assunto que preocupa o PS nesta altura?
São duas perguntas. Se preocupa, posso dizer em nome do Partido Socialista, julgo eu, que não. Não é isso, não é o efeito eleitoral da pandemia que preocupa o PS. O que preocupa o PS é o efeito deste recrudescimento desta quinta vaga, como alguns já dizem, sobre as condições de saúde do país e sobre a nossa resiliência, e as condições económicas e sociais. Quanto a ter ou não efeitos políticos, não sei responder, porque esses efeitos são muito complexos. É muito difícil isolar o efeito específico de uma variável em particular sobre uma situação, como são as situações políticas pré-eleitorais em que múltiplas variáveis intervêm. Peça desculpa pelo sociologuês.

Numa entrevista ao Expresso disse que gostaria de ser libertado até 2026 e poder regressar à sua vida civil…
Não me sinto preso… Sou muito mais ‘chão’, sou do Porto. Limitei-me a dizer que é uma ambição que ainda não perdi, a de poder terminar a minha carreira profissional no meu lugar, que é o de professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Portanto, tenho até 2026 para realizar esse sonho.

Como falta muito tempo, a nossa curiosidade é saber se vai ser candidato a deputado nas listas do PS nestas eleições?
Se os órgãos decisores do meu partido assim mo propuserem, terei todo o gosto em participar em mais esta luta.

E se o PS a seguir a estas eleições formar governo e o próximo primeiro-ministro o convidar para continuar no governo também está disponível para isso?
Já são muitos ‘ses’… Vamos esperar que o PS ganhe as eleições, que o primeiro-ministro seja António Costa… A única coisa que posso garantir é que não serei ministro em nenhuma outra circunstância.

Já é um recordista. Nesta altura não põe uma meta na sua ambição em número de pastas diferentes que ocupa e no número de dias em funções governativas, porque já é a personagem política com mais tempo de governos? Tem um limite na cabeça?
O meu limite é a vontade do eleitorado. É assim que funciona a democracia.

Mas o eleitorado não determina se é ministro.
Não. Mas a escolha do eleitorado é determinante para que todas as outras questões se possam colocar.

E admite ser ministro de um governo liderado por outro primeiro-ministro do PS que não António Costa? Por exemplo, por Pedro Nuno Santos?
Vamos lá ver. O Partido Socialista vai apresentar-se a eleições. O secretário-geral do Partido Socialista é António Costa. Não é da nossa tradição, ao contrário do que acontece com os nossos camaradas alemães, ter um candidato a secretário-geral e um candidato a primeiro-ministro. Portanto, o candidato a primeiro-ministro é António Costa. Qual é o problema? Não vejo aqui nenhum problema. Problema no sentido matemático do tema: não há nenhuma questão sobre a qual eu tenha que me debruçar.

A página está a demorar muito tempo.