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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Carpool com Pedro Duarte. "Em termos autárquicos não faz sentido linhas vermelhas [com o Chega]"

Em entrevista no Carpool Autárquicas, Pedro Duarte, candidato no Porto, conta como se passou o episódio do Mercado do Bolhão e fala em "coincidência". Se perder, não promete assumir cargo de vereador.

Antes de o carro arrancar, Pedro Duarte chega ao ponto de encontro, mesmo ao lado da sede da autarquia que quer conquistar, à hora certa. Durante a entrevista no Carpool do Observador — que partiu dos Aliados e foi gravada em pleno agosto — fala sobre os caminhos que os resultados podem ditar. Nessa estrada há, no mínimo, uma bifurcação de cenários: a vitória (com ou sem maioria) e a derrota.

Se vencer sem maioria, Pedro Duarte admite que não tem mágoas (nem de quem lhe deu negas, como aconteceu com Filipe Araújo), mas o aparente fair play não vai ao ponto de preferir o atual vice-presidente da autarquia a Manuel Pizarro. Mas faz uma ressalva: ainda é “prematuro” falar do tema. Uma coisa é certa: não recusa falar com ninguém e acredita que as linhas vermelhas não fazem sentido nas eleições autárquicas. Ou seja: não exclui entendimentos com o Chega. No caso de derrota, sugere que dificilmente ficará como vereador e que todos compreendem que é a “presidente da câmara” que se está a candidatar.

Durante mais de uma hora pelas ruas do Porto — cidade do coração e do clube que o faz palpitar —, Pedro Duarte fala sobre o Futebol Clube do Porto e a relação com a autarquia, recorda os tempos menos felizes com Rui Rio e promete que será mais adepto dos clubes pequenos que não têm o peso de um dragão.

Irritado com a obra do Metrobus, não descarta a possibilidade de reverter o projeto. Vai colocar uma task force a pensar no assunto mal vença as eleições — assim o espera. Até lá, faz planos para que a cidade passe a ter transportes gratuitos para todos os portuenses, com a ambição de que aqueles que podem circular de carro se sintam tentados e motivados a contribuir para o ambiente. Na VCI, não recua na ideia de ter portagens para pesados. Em matéria de segurança, quer mais polícias nas ruas, mais iluminação e mais câmaras de videovigilância. Dispensa o patrulhamento com cavalos, prometidos pelo adversário socialista. Além disso, promete ter “mão firme” no que ao crime diz respeito.

Pedro Duarte conta ainda peripécias da candidatura e da pré-candidatura, desde o admitir de conversas com Filipe Araújo até ao polémico Conselho de Ministros do Bolhão que “jura” não ter sido previamente planeado.

“Fiz tudo o que era razoável para contar com Filipe Araújo”

Depois de correr muita tinta sobre o candidato que o PSD ia apresentar à Câmara Municipal do Porto, é o escolhido, conseguiu selar uma coligação com a Iniciativa Liberal e com o CDS. Após um ciclo de Rui Moreira e de haver muitos candidatos no Porto, qual é a importância dessa coligação e de poder contar com esses parceiros?
Assumi desde o início que esta candidatura tinha que ter algumas características para ser genuinamente aberta à cidade e uma plataforma de cidadania e para isso era importante que de facto fosse para além da lógica estritamente partidária do meu partido, o PSD, mas também daquilo que é a lógica de todos os partidos. É uma coligação que tem o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal, muito alargada, original, ainda não aconteceu em nenhuma circunstância, mas também que junta muito independentes. Temos até um movimento que se gerou espontaneamente, chamado Independentes do Porto, e que estão também a apoiar ativamente. São cerca de 1000 pessoas que subscreveram um documento de apoio e que se tem organizado também no sentido de dar o seu apoio. Cumpriu-se aquilo que queria, que é de facto ser uma candidatura muito abrangente, uma candidatura da cidade, mais do que uma candidatura partidária.

Além desta coligação há muitas candidaturas no Porto, um recorde de candidaturas. Esta dispersão de votos, principalmente com a existência de vários candidatos no espaço de centro-direita, pode prejudicá-lo?
Teoricamente sim, é uma questão quase matemática. Na prática, estou a sentir e tenho essa expectativa, no tempo que ainda falta até às eleições, que se gere uma dinâmica de dentro desta candidatura que seja suficientemente agregadora para ultrapassar um pouco essa lógica mais teórica dos espaços políticos e das ideologias. Uma candidatura a uma Câmara Municipal é diferente de uma candidatura, por exemplo, à Assembleia da República ou à governação do país. As pessoas mobilizam-se muito pelas pessoas, pelos projetos e, portanto, independentemente daquilo que teoricamente pode ser uma dificuldade, que é haver uma fragmentação de candidaturas, nomeadamente no espaço político em que me integro, estou convencido que se vai gerar uma dinâmica que vai ultrapassar isso.

Houve muitas notícias à volta de Filipe Araújo, que é o atual vice-presidente da Câmara do Porto e que fazia parte do movimento de Rui Moreira. Deu lhe uma nega? Entende que vá a votos sozinho?
Eu próprio e muitas pessoas da minha candidatura temos tentado sempre mostrar que esta é uma candidatura aberta a toda a gente. Houve e há sempre um espírito muito aberto de querermos agregar, somar pessoas e ideias à nossa candidatura. Portanto, houve contactos, é verdade, com o atual candidato Filipe Araújo e com outros candidatos também. E portanto, não houve qualquer vontade de negar seja o que for a ninguém.

Sente que fez tudo o que podia para contar com Filipe Araújo?
Tudo o que era razoável, racional e principalmente tudo aquilo que era do interesse da cidade. Agora, também é legítimo, mas às vezes as pessoas colocam muito aquilo que são as suas motivações pessoais, os seus interesses e ambições individuais acima de outras ideias e respeito isso.

Fica alguma mágoa para o dia seguinte ou, se por acaso ganhar a Câmara Municipal do Porto e precisar de um vereador da oposição, poderá contar com o Filipe Araújo?
Mágoas não, porque não me movo por isso, a minha forma de ser é muito tolerante desde logo. E, mesmo se assim não fosse, quando estamos a assumir responsabilidades institucionais, as questões pessoais têm de ficar para trás. Mesmo que ficasse muito incomodado e muito magoado do ponto de vista pessoal, isso tinha que ficar para trás. Mas não é o caso. É muito importante que fique claro que no dia seguinte não vou atrás de acordos políticos só por ir. É sempre a cidade que está em primeiro lugar e se, em última circunstância, for preciso governar em minoria, vamos governar na mesma e vamos conseguir transformar a cidade como queremos. Não vou às compras, não vou andar a negociar lugares para troca de votos. Isso está completamente fora de hipótese.

Apresentação da candidatura no dia do Conselho de Ministros no Mercado do Bolhão? "Sei que isto é muito difícil de perceber, mas a verdade é que foi mesmo uma coincidência"

Já vamos voltar a esse tema, mas vamos aproveitar que estamos a chegar ao Mercado do Bolhão para recordar o momento em que confirmou que era candidato à Câmara do Porto. Houve alguma polémica e críticas à volta da escolha desse momento. A esta distância teria feito diferente? Teria escolhido um espaço que não um intervalo de um Conselho de Ministros para confirmar essa candidatura a Câmara?
Genuinamente não, teria feito igual. Vou contar uma história que daqui a uns anos toda a gente vai acreditar porque é de facto um episódio daqueles que ficam para a história. Hoje admito que seja difícil as pessoas interpretarem desta maneira, mas foi mesmo uma coincidência. Tinha previsto escrever um artigo num jornal da cidade, no Jornal de Notícias, em que iria manifestar a minha decisão de me candidatar. Combinei com o jornal a publicação desse mesmo artigo e já estava tudo a ocorrer quando me foi dito pelo primeiro-ministro que tinha intenção de fazer um Conselho de Ministros e tinha-se lembrado da hipótese de fazer no Mercado do Bolhão. E coincidiu exatamente no mesmo dia. Sei que isto é muito difícil de perceber, nem fiz questão de dizer isto porque podia parecer tudo uma encenação, mas a verdade é que foi mesmo uma coincidência. Mas foi uma coincidência feliz. Temos que ser transparentes na vida e na vida política. E a partir do momento que eu assumi a decisão de me candidatar à Câmara do Porto também o fiz para todo o país e para que o próprio Governo percebesse que eu estava a tomar aquela opção.

Não considera que foi demasiado festivo, no meio de um Conselho de Ministros, fazer essa apresentação?
Não foi bem no meio de um Conselho Ministros. Nessa manhã, através de um artigo de jornal, a decisão foi comunicada e quando vim para o Bolhão, a comunicação social naturalmente interrogou-me porque era de facto o tema do dia. Mas eu próprio não promovi nada.

Tem-lhe valido algumas acusações. O seu principal adversário, Manuel Pizarro, já disse que é o delegado do Governo a estas eleições autárquicas. Como é que vê essas acusações, não o chateia ouvir estas coisas?
Não. Já tenho demasiado anos de vida política para perceber que estas coisas fazem parte e, para ser completamente honesto, quando a crítica que me fazem é essa, eu sorrio porque é bom sinal. É porque não há nada de mais complicado para me atacarem, nem há críticas a apontar, porque é de facto uma crítica um bocadinho absurda. Fiz parte do governo do país e não temos de ser provincianos no Porto ao ponto de achar que uma pessoa do Porto não pode assumir uma função de ministro. Era só o que faltava. Ou só porque o faz de repente passa a ser um emissário de Lisboa. Deus me livre! Até que o próprio Manuel Pizarro também já o fez e acho que isso é um motivo de orgulho da cidade. Nesse aspeto, acho que cumpri uma missão no Governo e agora resolvi empenhar-me numa outra missão, que faço com mais gosto. E tenho essa particularidade: decidi deixar de ser ministro para ser candidato à Câmara do Porto. Na história da nossa cidade nunca aconteceu nada parecido, aconteceu o contrário. Há presidentes de câmara que quiseram dar um salto para Lisboa e até candidatos à Câmara, que depois foram para Lisboa. Como é o caso, aliás, de Manuel Pizarro, que depois de se dedicar à cidade, foi para Lisboa. No meu caso, não é isso. Decidi, por minha vontade, voluntariamente, dedicar-me à minha terra, à minha cidade e é isso que estou a fazer.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ainda estamos aqui no coração da cidade do Porto. Após as obras, o Mercado do Bolhão tem sido bastante criticado por alguns comerciantes por terem perdido alguma da clientela habitual. Este tipo de obras pode apagar um bocadinho a alma da cidade, fazer com que o ADN mude e se torne muito focada nos turistas?
Em teoria, sim, claramente. Mas neste caso concreto, o Mercado do Bolhão é um exemplo interessante porque, independentemente de haver [problemas] — e reconheço que pode haver um caso ou outro de pessoas que estão insatisfeitas e há sempre espaço para melhorias, há muita gente que diz que deveria haver um espaço um bocadinho maior para o mercado dos frescos e manter a traça mais original do mercado —, mas no essencial o mercado estava degradado, estava abandonado e aquela memória que tínhamos do Mercado do Bolhão já não existia antes de haver turistas. E o turismo permitiu haver uma reconversão que, evidentemente não mantém o mercado exatamente como era na sua origem, mas que, apesar de tudo, mantém o fundamental. Hoje continuamos a ter ali, de facto, mercados de frescos, vemos muito Porto ali. Claro que é um Porto aberto e cosmopolita e que é visitado porque é um ícone da cidade.

Tem alguma proposta para melhorar o espaço do Bolhão ou agrada-lhe a forma como está feito?
No essencial, não é tempo para se estar a fazer alterações estruturais. Faz sentido uma avaliação regular para podermos eventualmente introduzir algumas melhorias, mas tenho ido lá com muita regularidade nos últimos tempos e a generalidade dos comerciantes está muito satisfeita com o que ali está. Até porque o excesso de turismo de que às vezes é acusado o mercado, do ponto de vista económico, é bom e está a criar uma dinâmica ali muito interessante. Claro que há coisas que podem ser melhoradas.

As lojas históricas do centro do Porto devem ser protegidas e, se necessário, a autarquia deve pagar por isso por esses custos de manutenção desses espaços?
É fundamental haver uma estratégia e uma política pública para a manutenção das lojas tradicionais, porque fazem parte da identidade da cidade. E as lojas tradicionais passam por isso. Deve haver uma política pública equilibrada, sensata, evidentemente, de repente não vamos nacionalizar ou municipalizar essas lojas, mas pode haver um conjunto de incentivos e de apoios. Sem dúvida nenhuma.

E faz sentido aumentar o valor da taxa turística do Porto?
Faz e tenho a intenção de o fazer, até porque uma das minhas propostas é termos transportes públicos gratuitos para todos os portuenses e a forma de o financiar vai ser através do aumento da taxa da taxa turística. Na cidade do Porto não temos um problema de quantidade de turismo, já temos turistas em número muito interessante, mas, usando esta expressão com muitas aspas, a qualidade do turista, do ponto de vista daquilo que é o retorno para a cidade, pode melhorar. Precisamos que os turistas que vêm à cidade deixem mais dinheiro na cidade do que aquilo que têm vindo a deixar, precisamos de aumentar a receita do turismo, não precisamos de aumentar o número de turistas na cidade. E uma forma de o fazer é, de alguma maneira, através da taxa turística, que é uma espécie de uma regulação do mercado que queremos em termos turísticos. E, apesar de tudo, acho que o Porto hoje em dia tem peculiaridades do ponto de vista turístico que justificam que possamos ter uma taxa que se aproxime, para não dizer que ultrapassa, a taxa de Lisboa ou Cascais.

Tem um valor pensado?
No curto prazo vamos aumentar um euro, de três para quatro euros, mas não ponho de lado a hipótese de chegarmos aos cinco euros, até porque este dinheiro vai ser alocado para os transportes públicos e vai depender um pouco daquilo que vai ser a resposta das pessoas na utilização dos transportes públicos. Portanto, se precisarmos de mais receita, nós aumentaremos dois euros a taxa turística.

E em termos de hotéis e alojamento local, deve haver um travão no número de construção de hotéis. Em termos de alojamento local, deve haver um limite?
No Porto encontrámos uma solução para já equilibrada, que vale a pena avaliar. Temos um filtro, nomeadamente de zonas da cidade, onde há uma limitação ao número de novos alojamentos locais e também a quartos de hotelaria. E este é o momento para pararmos para avaliar. Acho que se estagnou porque houve um boom gigantesco e, no caso dos hotéis, ainda há em pipeline um número muito significativo e, portanto, temos de começar a atenuar este crescimento para podermos avaliar. O turismo foi fundamental para a cidade do Porto e hoje em dia, do ponto de vista económico, é vital para a cidade, mas tudo tem que ter o seu peso certo.

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“Em termos autárquicos não faz sentido [haver] linhas vermelhas quanto a forças partidárias”

Vamos aproveitar este trânsito que estamos a atravessar  para voltar à conversa sobre o dia seguinte às eleições. Nas câmaras municipais basta um voto a mais para ser presidente e estava a dizer há pouco que poderá governar em minoria, que isso não será um problema, mas está disposto a falar com todos?
Sim, isso estou, tenho essa obrigação. Independentemente daquilo que são as minhas motivações pessoais, os meus gostos, a minha maior ou menor empatia com determinado tipo de pessoas ou de partidos, a partir do momento que for eleito presidente da Câmara do Porto tenho uma responsabilidade institucional e acho que devo falar com todos aqueles que tiverem sido escolhidos pelos portugueses, quer eu goste, quer não goste.

E podemos assistir a uma movimentação à la Rui Moreira para tentar ir buscar um vereador chamado Manuel Pizarro. Ou está fora de questão?
É muito prematuro. O Manuel Pizarro é um candidato socialista, é do Partido Socialista e, objetivamente, está longe daquilo que é o meu espaço político ideológico. É muito prematuro estar-se a especular, até porque eu não faço ideia qual seria a disponibilidade de Manuel Pizarro continuar a dedicar-se à cidade do Porto como vereador.

Preferia, por exemplo, contar com o Filipe Araújo?
Não, não preferia, genuinamente não preferia.

Não preferia Filipe Araújo a Manuel Pizarro?
Não, não tenho nenhuma razão para preferir.

"Não sou candidato, como outros são, a serem eleitos vereadores. No meu caso e eventualmente no caso do candidato PS é muito claro que somos os dois candidatos à Câmara e é nisso que estou focado. Não seria muito sério da minha [jurar a pés juntos que ficarei como vereador]"

Quanto ao Chega, o candidato já fez parte do PSD. No Porto vai ser traçada uma linha vermelha ou não será assim?
Em termos autárquicos não faz sentido [haver] linhas vermelhas quanto a forças partidárias, faz sentido linhas vermelhas quanto a determinado tipo de princípios e políticas e há algumas de que eu não vou abdicar. Tenho um pensamento humanista desde sempre, personalista, em que a pessoa humana está acima de qualquer outra coisa e às vezes o Chega esquece-se muito desse tipo de valores e princípios e vai atrás de populismos, em que manifestamente não me revejo. Agora, isso não me dá o direito de ter caprichos ou amuos. E, portanto, tudo o que seja para o bom interesse da cidade do Porto, estarei disponível a conversar com toda a gente, não há qualquer dúvida. (…) Talvez valha a pena lembrar para não dramatizar estas circunstâncias que, por exemplo, a última vez que o PSD ganhou as eleições autárquicas na cidade do Porto, com Rui Rio, não teve maioria absoluta e fez um acordo de coligação com o Partido Comunista Português, na altura bastante radical, e governou durante quatro anos como um vereador do Partido Comunista. A realidade local é muito diferente.

Tendo em conta aquela que tem sido a política do PSD a nível nacional e apesar de estar a negociar com quem Chega, tal como com o PS, na Assembleia da República, mas ter essa linha vermelha para acordos de governação, não acha que numa câmara como o Porto isso seria motivo de polémica?
Genuinamente, não pensei nem estou a pensar muito nisso. Nesta fase a minha obrigação é pensar um projeto para a cidade, trabalhar e estudar o mais possível para o projeto ser muito consistente. Não estou nesta fase minimamente preocupado com aquilo que possam ser, a seguir, acordos ou coligações. Há uma coisa que é clara: vai ter de ser sempre qualquer outro partido ou qualquer outro vereador a adaptar-se à minha liderança e não ao contrário. Isso não faria sentido, porque eu, ganhando as eleições, serei o presidente da Câmara e serei eu a liderar uma equipa. Não vou ser eu que me vou adaptar a outras realidades.

E se não for eleito presidente da câmara, conta assumir o lugar de vereador?
É muito prematuro. Sou candidato a presidente da Câmara, o que me motiva é isso. Não sou candidato, como outros são, com toda a legitimidade, candidatos a serem eleitos vereadores. No meu caso e eventualmente no caso do candidato PS é muito claro que somos os dois candidatos à câmara e é nisso que estou focado. Nesta fase não ponho outro cenário em cima da mesa e não perco muito tempo nisso.

Isso significa que não pode jurar a pés juntos que ficará como vereador.
Não, nem seria muito sério da minha parte dizer isso. Nem acredito que o candidato do PS diga algo diferente porque somos os dois candidatos a presidentes de câmara.

E acha que é legítimo depois não ocupar esse lugar?
Depende das circunstâncias, mas acho que sim. Já vi muitos casos em que isso aconteceu e não é censurável.

O que é que acha quando o Manuel Pizarro diz que tem grande parte do moreireismo com ele?
Não tenho muitos comentários a fazer porque parece-me pouco relevante.

Rui Moreira presidente da Câmara durante 12 anos, será relevante pelo menos em termos de eleitorado.
Há um esforço grande do candidato do PS de querer esconder aquilo que é sua essência verdadeira: é um candidato que vem da esquerda mais radical. Era um fervoroso militante, aliás ativo e com grandes responsabilidades, no PCP. A sua base ideológica é  marxista leninista. E nas últimas semanas tem tentado cobrir-se de uma capa que não é verdadeira e real, o que também é normal nestas coisas da campanha. E, para esse efeito, tem dito essas coisas do Moreira e portanto, tentando normalizar-se e moderar-se, aparecer mais moderado. Mas é tático, por isso é que eu não atribuo uma grande, uma grande relevância a isso.

Mas também gostou de contar com alguns apoios vindos do movimento de Rui Moreira.
Sim, pela qualidade das pessoas. Tive a sorte de poder ser eu a escolher as pessoas que, no tal moreirismo, pudessem integrar as minhas listas, houve outros que manifestamente não escolhi e que escolheram também ir por outros caminhos e eu respeito isso.

“Há bairros no Porto que são centros de tráfico de droga e que se guetizaram porque são dominados por pessoas que não deveriam ter acesso à habitação social”

Estamos a chegar ao Bairro da Pasteleira. Relativamente à habitação, nos mandatos de Rui Moreira houve tanto construção como reabilitação e este bairro foi um deles. Qual é o seu objetivo em termos de construção de número de casas para a cidade?
Temos um problema de habitação no país, que se deve essencialmente ao preço das casas, quer seja para compra, quer seja para arrendamento. A Câmara Municipal tem responsabilidade e vamos focar a nossa política para ter casas com rendas acessíveis, em particular para os mais jovens. Não queria muito entrar nesta lógica de números, porque vamos ter que ir avaliando aquilo que é a realidade do mercado, mas vamos pelo menos quadruplicar aquilo que é atualmente a oferta da Câmara Municipal em termos de arrendamento acessível e isto dará pelo menos umas 1600 casas disponíveis. Mas isso é o limiar que posso assumir e se virmos que há mais necessidades teremos de encontrar novas respostas.

Considera que é mais fácil construir novas casas do que reabilitar edifícios devolutos?
A facilidade depende de muitas naturezas, dos próprios edifícios, mas prefiro que se recuperem edifícios devolutos, desde logo pelo espaço público, urbano e paisagístico da cidade. e a prioridade vai ser essa. Aliás, a primeira medida do ponto de vista da habitação é fazer um mapeamento daquilo que são edifícios devolutos na cidade, começando por aqueles que são municipais ou do Estado Central e aproveitando para os reabilitar e colocar no mercado.

Câmara deve demolir casas ilegais? "Temos de ser implacáveis a esse respeito"

Disse que o Porto tem muita população a viver em bairros sociais que alguns casos se tornaram em “verdadeiros guetos no meio da cidade”. O que é que quer dizer com isto e como é que se resolve esse problema?
A cidade do Porto tem uma população a viver em habitação social, muitíssimo superior àquilo que é a média nacional: temos cerca de 13% da população da cidade quando a média nacional nem chega a 2%. A segunda maior cidade de Lisboa e não chega aos 8%. [Chegou-se aqui] por necessidade, naturalmente, e porque outras câmaras e outros concelhos limítrofes aproveitaram se de o Porto estar a ter esta disponibilidade. Precisamos também de equilibrar isto um pouco, tem de haver um esforço geral, pelo menos metropolitano. Não podemos querer que seja a cidade do Porto a resolver o problema da habitação no país, temos resolver o problema da habitação dos portuenses. Construímos casas, casas e casas a achar que, como já ouvi de um candidato socialista, isto é um problema económico que se resolve aumentando a oferta e [que isso] vai resolver o problema do preço. É uma ilusão de principiante porque a oferta de habitação na cidade do Porto gera mais procura só por si, porque as pessoas preferirão sempre viver numa cidade do Porto do que viver, se calhar no interior ou num concelho limítrofe.

Mas quando fala em guetos afogados no meio da cidade, está a referir-se especificamente a quê?
Temos alguns fenómenos. Felizmente estamos a falar de dois ou três bairros, temos 50 bairros na cidade do Porto e a esmagadora maioria não tem esses problemas. Estou a pensar em casos muito concretos, um deles passamos há um bocadinho, que é o da Pasteleira Nova, que são centros de tráfico de droga e que se guetizaram porque são dominados por pessoas que não deveriam ter acesso à habitação social e usam esses espaços para uma espécie de um supermercado de droga. Isto é inaceitável, na minha opinião, e seria sempre inaceitável convivermos com isto. É particularmente revoltante ser o dinheiro público que, no fundo, está a subsidiar as casas destas pessoas. Vamos ter que ter uma atitude um bocadinho diferente para resolver este problema, vamos ter que ter mão firme basicamente para ultrapassarmos este problema.

Os inquilinos que vivam em casas municipais e não paguem rendas devem ser despejados.
Há procedimentos para esse efeito e que devem ser assumidos sem hesitação. Se houver uma justificação, uma atenuante, uma circunstância em que pontualmente alguém não paga uma renda quando o deveria fazer, quando tem condições para o fazer, admito que haja uma atitude de alguma condescendência que seja razoável. Quando há uma prática reiterada de não pagamento de renda quando as pessoas têm condições para o fazer tem que haver uma consequência. Até por uma questão de justiça social, não faz sentido que algumas pessoas que trabalham e utilizam o resultado desse seu esforço para pagar rendas e depois o vizinho ao lado pura e simplesmente resolve não pagar.

E quando há casas que são construídas de forma ilegal, devem ser demolidas?
Sim, com o humanismo, devemos tratar as pessoas com toda a disponibilidade para as apoiar, mas nós não podemos ser minimamente condescendentes com ilegalidades, seja de que natureza for e construções ilegais em particular. Muitas vezes ao lado da construção ilegal estamos a pôr em causa a própria segurança das pessoas, não só das que vivem lá, mas às vezes de toda a cidade e toda a envolvência. Para mim, temos de ser implacáveis a esse respeito.

“Metrobus foi uma grande motivação do governo socialista, mas estes experimentalismos são muito irresponsáveis”

Já estamos a ver a Rotunda da Boavista e disse que não coloca de parte a hipótese de reestruturar a primeira fase do Metrobus. Este foi um projeto muito ambicioso para o Porto, que demorou vários anos, o que é que se falhou?
Não consigo explicar, é absolutamente inexplicável e parece ter sido uma alucinação que alguém teve. Isto não faz nenhum sentido do ponto de vista paisagístico e urbanístico, é um conjunto de alcatrão e parece uma espécie de uma pista de aviação.

Estamos a passar ao lado do sítio onde vai passar o Metrobus.
Mas ninguém sabe como é que vai dar a volta para inverter a marcha, que é uma coisa notável. Como é que é possível? Isto é de uma irresponsabilidade… Estamos a falar de dinheiros públicos, da vida das pessoas que foi muito perturbada com as obras que aqui tivemos durante meses e meses e meses consecutivos e, de repente, não se tratou do básico. Pelo que se vai percebendo isto foi uma grande motivação do governo socialista e do primeiro-ministro António Costa, quiseram muito empenhar-se numa solução inovadora a hidrogénio aqui na cidade do Porto, mas estes experimentalismos são muito irresponsáveis.

Mas na fase em que se está e com o dinheiro todo que já se gastou, como regressar à primeira fase e repensá-la ou reestruturar o Metrobus pode acontecer?
A partir do momento que tome posse como Presidente da Câmara do Porto vou constituir de imediato um grupo de trabalho, uma task force, entre a Câmara Municipal do Porto e a nova administração da Metro do Porto para tecnicamente se encontrar uma solução. Vai ter que ter algumas características, [desde logo] maximizar o investimento feito: não vamos deitar fora o investimento que se fez, não vamos destruir nem vamos voltar a ter obras infindáveis aqui na Avenida da Boavista, isso seria duplicar o erro, mas em cima daquilo que foi feito temos de encontrar uma solução que beneficie as pessoas e que seja sustentável.

Mas concorda com o Metrobus? Neste momento, reverter é impensável, é isso?
Não, não é impensável. Deve ser estudada todas as hipóteses, até porque eu se tivesse, dependido de mim nunca se tinha ido para uma solução desta natureza. Há soluções muito mais simples, muito mais óbvias, que são sustentáveis do ponto de vista ambiental, que são de muito mais fácil concretização e que promoveriam uma Avenida da Boavista que tivesse um enquadramento diferente deste, nomeadamente com árvores com mais espaços verdes, com ciclovia, com capacidade para as pessoas andarem e caminharem na própria Avenida da Boavista, algo que infelizmente não se conseguiu com este projeto, pelo contrário, foi basicamente destruir aquilo que de bom tinha a Avenida da Boavista.

E por falar em Metrobus, prometeu transportes gratuitos para todos os portuenses. A medida seria para ser aplicada a partir de quando e como é que seria financiada? Falou há pouco da questão da taxa turística. Se era apenas financiada assim ou se tem outras propostas para pagar esta medida.
Vamos tentar aplicá-la de imediato, depois de ganharmos a Câmara Municipal, não posso garantir que a 1 de Janeiro de 2026 esteja a funcionar, mas é por razões meramente técnicas, porque vamos precisar de ter um meio de validação das viagens que seja muito eficaz.

Não é progressivo? Não começa, por exemplo, pelos mais idosos? Os mais jovens já têm.
A nossa ideia é de facto implementar de imediato, é apenas a solução tecnológica que nos faltará e que enquanto não ganharmos a Câmara não podemos começar a implementá-la, obviamente. Mas é uma questão de meses e, portanto, vamos conseguir rapidamente pôr isso em andamento. Na forma de financiar temos três possibilidades. A primeira é a taxa turística, que pode aumentar um euro ou dois euros, aumentando dois euros cobrirá certamente todo ou praticamente todo o custo associado.

Faz sentido oferecer transportes públicos a quem pode pagar?
Na nossa opinião, sim, porque é um incentivo. Principalmente quem pode pagar, precisa de ter esse incentivo para abandonar o automóvel e começar a utilizar transportes públicos. Esta medida tem várias virtudes: algumas são de caráter social para pessoas que têm de pagar o passe e vai ter um efeito muito positivo no seu no seu orçamento, mas tem a ver com o próprio equilíbrio e gestão da cidade e promoção de um ambiente diferente e de termos menos carros e termos mais qualidade de vida.

Encontramo-nos ao lado da Casa da Música e confirmou que iria ficar com o pelouro da Cultura se for eleito presidente da Câmara. Qual é a razão desta decisão?
Costuma-se dizer que em equipa que ganha não se mexe. E quando temos bons resultados não devemos estar a criar perturbações. A política municipal da cultura, nos últimos anos, é consensualmente considerada como positiva e tem sido o presidente da Câmara, Rui Moreira, que assumiu o pelouro da Cultura — e, portanto, há uma primeira razão que: porquê mudar quando está a correr bem? Há uma segunda que tem a ver com uma relevância primordial que eu quero dar ao setor da cultura, o meu meu pilar zero, aquilo que é base para todos os outros. Porque todas as outras políticas públicas municipais vão ter que assentar em cima desta lógica cultural. Porque o Porto se perder aquilo que é a sua identidade, a sua cultura, o resto deixa de fazer sentido. Depois, pode haver políticas para resolver problemas concretos, mas deixa de haver um projeto de cidade. Somos muito bairristas aqui no Porto e gostamos muito de ter esse projeto de cidade e isso assentará na cultura. Há uma terceira, uma vontade própria: tenho mesmo vontade de intervir naquilo que são as políticas culturais, nomeadamente de alargar o mais possível o acesso à cultura. Genuinamente acredito que a cultura, a par com o desporto, são duas áreas críticas para a inclusão social, para a integração, para resolvermos desigualdades, para darmos oportunidades a todos.

“Vamos propor ao Governo ser a Câmara Municipal a gerar um movimento de recrutamento de 100 novos polícias municipais”

Enquanto não chegamos à VCI, regressava à questão da insegurança. Em Lisboa, Carlos Moedas anunciou um plano conjunto com o Governo para aumentar a segurança na cidade e disse até que o Governo tem essa responsabilidade. Tem algo em vista?
Tenho em mente trabalhar com o Governo, nomeadamente nesta matéria da segurança. É uma responsabilidade, essencialmente do Governo central, a parte da segurança. Agora, isto não quer dizer que a Câmara Municipal não possa e não deva fazer muito a este respeito. Vamos propor, através de um protocolo com o Ministério da Administração Interna, ser a Câmara Municipal, e gerar um movimento de recrutamento de 100 novos polícias para a Polícia Municipal. Vamos assumir o encargo de pagar essa mesma formação e de criar uma abertura de vagas específico para este efeito, para podermos cativar e mobilizar jovens que queiram vir trabalhar para a Polícia Municipal e ajudar-nos neste esforço. E isso tem que ser feito, evidentemente, em colaboração com o ministro da Administração Interna. Mas a própria Câmara Municipal a assumir essa responsabilidade do ponto de vista orçamental. E, mesmo com o Comando Metropolitano da PSP, temos de ter uma relação muito mais próxima. A PSP tem que conhecer a cidade, ao nível dos comandantes. É muito importante conheçam a cidade e que deem resposta àquilo que são as necessidades da cidade. Hoje em dia temos um problema de segurança, quer queiram quer não, isto pode não ser simpático, na cidade do Porto e comigo a presidente da Câmara e esse problema vai ser invertido. Vamos passar a ter mais segurança do que temos.

Está a falar de polícia de proximidade?
Com certeza que sim. Quando digo que vamos ter mais 100 polícias na rua é precisamente porque foi a avaliação que foi feita, nomeadamente com especialistas nesta área e que conhecem bem a realidade da cidade, [e com esse número] há uma cobertura do território que permite dar uma outra segurança às pessoas. Desde logo do ponto de vista da perceção da segurança, porque essa também é muito importante. É inaceitável que hoje em dia tenhamos idosos que não saem de casa e ficam quase aprisionados em casa porque têm medo de ir dar um passeio ou de ir ao jardim mais próximo porque podem ser assaltados.

"Toxicodependência é a causa principal da insegurança na cidade. O Porto tornou-se uma espécie de um hub, uma central de comércio de droga"

Acha que as câmaras de videovigilância foram um flop na cidade do Porto?
Não, acho que fazem sentido. Ainda não temos tempo suficiente para avaliar e, do ponto de vista empírico, falo muito com as pessoas aqui na cidade e dou um exemplo: na zona do Bonfim, do Campo 24 de Agosto, as pessoas acham que reduziu a insegurança, para não dizer a criminalidade mesmo a partir do momento em que houve câmaras de videovigilância e portanto a mim. Vamos ter que avaliar isso e estudar melhor, mas a minha perceção é que é uma boa solução e que deve ser o mais massificada possível na cidade.

Deve haver mais?
Sim, sem dúvida. Assim como há outras medidas que podem parecer detalhes, mas têm um efeito muito grande. Por exemplo, a iluminação pública, porque o facto de haver zonas que são mais escuras em determinadas horas do dia são um convite a que haja comportamentos que não são adequados.

Sobre os sem-abrigo, como é que se gere esta situação de pessoas em situação tão vulnerável?
Temos um problema grave e que tem vindo a crescer na cidade do Porto de sem-abrigo e vamos ter um plano diferente deste da segurança.

Creio que disse que gostaria de revisitar um plano de Rui Rio, que foi o último presidente da Câmara do PSD, para as pessoas em situação de sem-abrigo. Como é que quereria fazê-lo? E acredita que esse plano não deveria ter acabado?
Pelo menos hoje em dia esse plano faz muita falta. Acabou porque houve um desinvestimento na altura até da troika, se bem me recordo. Temos vários problemas, mas esse programa vai ser bastante mais abrangente, acaba também por tocar na questão dos sem-abrigo, porque vários sem-abrigo têm a sua, a sua razão de ser, tem a ver com comportamentos e dependências das próprias pessoas. Mas este problema vai ter muito a ver com um combate à toxicodependência, que é, de facto, a causa principal da insegurança na cidade. O Porto tornou-se uma espécie de um hub, uma central de comércio de droga, o que é que não pode acontecer. Vamos ter, por um lado, uma mão muito firme, musculada desse ponto de vista de combater esse fenómeno, mas, por outro lado, temos de ter também uma postura humanista, de percebermos que muitas das pessoas que caíram neste problema da droga são doentes em precisam do apoio de todos nós. Este programa vai ter essa vertente muito multidisciplinar, de, por um lado, ter uma vertente, se quisermos, mais securitária — não tenho medo de usar esta expressão: vamos ter que ser musculados e com mão muito firme para combater fenómenos de ilegalidade e fenómenos inaceitáveis de consumos de droga à porta de escolas de pessoas em estado de degradação evidente. Isto não é aceitável. Mas, ao mesmo tempo, não queremos perder o lado humanista que temos e temos dar condições a estas pessoas para elas poderem recuperar.

O seu principal adversário tem uma medida para a segurança que inclui utilização de cavalos, nomeadamente na Pasteleira, para fazer patrulhas. Acha que faz sentido?
Tenho falado com especialistas em segurança, muitos especialistas em torno do fenómeno da toxicodependência, e confesso que essa medida nunca ninguém me sugeriu, não consigo encontrar uma explicação para a mesma.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Estamos a fazer a VCI, que apelidou como um “cancro no meio da cidade” do Porto e onde admitiu colocar portagens. Onde é que seriam colocadas e quem iriam atingir?
É uma solução que está estudada e está preparada: é basicamente portajar pesados e só veículos pesados que utilizem a VCI para atravessar a cidade de norte para sul ou de sul para norte. São veículos que não têm qualquer ligação com a cidade e que nunca terão qualquer ligação com a cidade, utilizam-na apenas para atravessar. São colocados pórticos a norte e a sul da cidade. Temos de desviar o trânsito de pesados da cidade, do centro da cidade. Ouço há muitas pessoas contestarem o facto de haver sido utilizado por veículos pesados quando deveria acontecer e de ser a principal causa de problemas de trânsito na cidade do Porto. Tivemos uma governação socialista durante oito anos que não fez rigorosamente nada porque essa é gerida pelo Estado central, não é pela Câmara Municipal. Houve um Governo que não fez rigorosamente nada. Aliás, o meu principal oponente fez parte, esteve lá sentado e não fez nada. Ora, o Governo que eu fiz parte encontrou uma solução e apresentou aos autarcas locais e essa solução passa de facto por tirarmos as portagem da CREP para onde queremos desviar os veículos pesados e, por outro lado, porque precisamos desse incentivo adicional por atrasarmos os pesados que queiram atravessar aqui. E por que é que acontecem estas duas medidas? Porque a primeira sozinha não vai ser suficiente, porque se não houver portagens numa estrada e na outra vai continuar a ser mais rápido e mais curto atravessar a VCI.

Disse também que ambicionava que esse tivesse um enquadramento paisagístico completamente diferente. Quando olha para o futuro, como é que imagina esta zona?
O cenário ideal seria termos a VCI se enterrada e por cima podermos ter jardins, espaços verdes, e ser um túnel, como em muitas cidades europeias. Há muitos outros sítios em que este tipo de trânsito puramente urbano é feito subterraneamente.

O Estádio do Dragão está a poucos minutos de onde nos encontramos, fez questão de passar por aqui, tem uma carreira política que acabou por se cruzar com o desporto, quando ficou com esse pelouro no Ministério dos Assuntos Parlamentares. Qual é que é a ligação que o clube deve manter com a autarquia numa cidade como o Porto?
Gosto muito desta zona por duas razões: a primeira porque a Campanhã é uma zona da cidade que tem sido muitas vezes esquecida e é importante não nos esqueçamos nunca desta parte da cidade que, felizmente, está a ganhar uma dinâmica muito interessante.

O plano para o antigo Matadouro também pode ajudar a isso.
Também, entre muitas outras iniciativas que estão a ter lugar aqui, algumas até do ponto de vista cultural, como é o caso do Matadouro, mas de outra natureza. É importante, do ponto de vista empresarial, esta região ter outra dinâmica que não tem tido e acho que isso é claramente um caminho que a cidade tem de perseguir. A outra razão é mais emocional, tem a ver com o Estádio do Dragão.

É um conhecido e ferrenho portista.
Sou, sou. Já disse que apesar de eu ter esta capacidade que muita gente não tem, porque há alguma rivalidade entre os clubes, também tenho uma afinidade com o Boavista. Porque também, como disse há pouco, nasci ali, exatamente ali ao lado.

Tem lugar cativo no Estádio do Dragão?
Não, isso já não tenho há muitos anos, por várias razões. Deixei de vir ao futebol.

Se chegar a presidente da Câmara gostava de voltar a ter mais?
Como presidente da Câmara terei de deixar um bocadinho o clubismo de lado, porque vou olhar para os clubes da cidade todos de forma idêntica. Sabemos que o Futebol Clube do Porto tem um impacto muito diferente de muitos outros clubes que têm uma dimensão mais reduzida, mas se calhar vai ser mais importante o presidente da Câmara ir a um jogo do Cruz ou do Ramaldense do que propriamente ver um jogo de Futebol Clube do Porto.

Ainda assim, houve presidentes da Câmara que não tiveram relações tão boas com o clube. Considera relevante numa cidade como o Porto, em que o Futebol Clube do Porto tem uma peso tão grande manter uma boa relação?
Sim, desde que a relação seja saudável e transparente, sem dúvida. Aquilo que aconteceu há uns anos é que o Rui Rio teve uma atitude com o Futebol Clube do Porto, que eu não subscrevi, mas que eu, em certo sentido, compreendo, porque foi uma reação a um excesso de promiscuidade que existiu entre o clube e a Câmara Municipal. O facto de eu gostar muito do Futebol Clube do Porto, ter esta afinidade, respeitar muito e considerar muito aquilo que são os seus dirigentes, nomeadamente a atual direção a quem só tenho de facto elogios a prestar, isso nunca vai significar que vai haver qualquer espécie de favorecimento ou de amiguismo do ponto de vista institucional. Isso não quer dizer que ache bem que haja um corte de relações como existiu, nunca achei bem e continuo a não achar bem. A Câmara tem a obrigação, até institucional, de promover o mais possível, de congratular, de enaltecer aquilo que é o papel de um clube como o Futebol Clube do Porto na nossa cidade. É uma das marcas da cidade.

Porque é que fez questão de passar aqui no pólo universitário da Asprela?
Porque a cidade do Porto está envelhecida. É isso agrada-me genuinamente, é bom sinal que as pessoas estejam a viver até mais tarde e as pessoas têm espaço para ficar na cidade, mesmo estando vivendo até mais tarde. No Porto ainda nos mantemos numa cidade onde as pessoas de cá ficam a vir até cá, até ao fim da sua vida. Mas o facto de querermos cuidar dos mais idosos e darmos condições para terem qualidade de vida na cidade não nos pode cegar ao ponto de não percebermos a relevância de termos dinâmicas novas e jovens na cidade. E acho que a universidade, por ter esse respeito e crítica porque somos mais do que a universidade, temos instituto politécnico e, portanto, todo esta malha académica…

Estudou cá no Porto?
Estudei aqui na cidade do Porto, depois fiz mestrado e doutoramento já fora, mas estudei quer na escolaridade obrigatória, quer depois na Universidade do Porto. Conheço muito bem isto. Fiz parte até dos órgãos associativos da Federação Académica do Porto e de entre outras dinâmicas estudantis. E fiz Queimas das Fitas, tudo isso.

Que condições devem ser dadas aos estudantes que vêm de fora?
A Universidade do Porto hoje em dia já dá condições muito interessantes.

Há residências universitárias suficientes?
Não, não há, porque é um problema geral. Estamos a encontrar aqui na cidade respostas interessantes. Na Federação Académica do Porto, são os próprios estudantes da Academia que estão a promover iniciativas, nomeadamente gerindo as próprias residências universitárias, com o apoio da Câmara Municipal, mas estão a conseguir fazê-lo. É evidente que não chega, porque estamos a falar de umas dezenas quando as necessidades chegam aos milhares, mas é um caminho. Acho genuinamente que a rede transportes públicos é fundamental porque não podemos não é razoável acharmos que vamos ter o centro da cidade ao lado das universidades e se calhar os concelhos ao lado devem olhar também para uma oportunidade de poderem ter jovens estudantes a residir ali ao lado e depois com os transportes públicos podermos ter facilidades de os trazer para a cidade.

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