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No início desta semana, um pequeno grupo de congressistas republicanos e democratas reuniram-se. A paralisação governamental que começou no dia 1 de outubro estava prestes a tornar-se na mais longa da História dos Estados Unidos e congressistas moderados dos dois lados dos espectro político decidiram trabalhar em conjunto para encontrar um meio termo e pôr fim ao “shutdown” antes da semana acabar. Contudo, a expressiva vitória do Partido Democrata na noite eleitoral de terça-feira pode ter deitado por terra os poucos avanços que tinham sido feitos.
No mesmo dia em que cumpriu o 35.º dia de paralisação — igualando assim a extensão do “shutdown” que se prolongou de dezembro de 2018 a janeiro de 2019, também durante a presidência de Donald Trump —, realizou-se a primeira noite grande eleitoral desde que Trump foi reeleito Presidente dos Estados Unidos, um ano antes. Apesar de já ter havido eleições isoladas, foi a primeira vez que múltiplos governos e tribunais estaduais e câmaras municipais foram a votos de uma só vez. Os resultados — com foco para a conquista do governo estadual da Virgínia e de Nova Jérsia e da Câmara Municipal de Nova Iorque e para a aprovação da reconfiguração distrital na Califórnia — representam uma vitória inequívoca dos democratas.
O chefe de Estado encontrou duas principais justificações para a derrota do Partido Republicano: o facto de o seu nome não estar nos boletins, mas também a paralisação governamental. Ao fim de várias semanas, esta foi a primeira vez que o “shutdown” pareceu incomodar Donald Trump. Os estudos de opinião confirmam, em parte, a sua leitura: mais de metade dos norte-americanos (52%) responsabilizam o Partido Republicano e o Presidente pela paralisação mais longa da História, segundo uma sondagem da NBC News realizada no final de outubro.
Os congressistas republicanos não tardaram a utilizar o desconforto de Trump a seu favor. Encorajados pela vitória, deram um passo atrás nas negociações bipartidárias, procurando forçar os republicanos a fazerem cedências. “Donald Trump finalmente apercebeu-se de que tem um problema em mãos. Ele claramente viu [a paralisação] como um risco nas eleições de ontem à noite, por isso devia sentar-se à mesa e resolver isso“, criticou Chris Van Hollen, um dos senadores democratas que tomou esta posição.
▲ Da Câmara de Nova Iorque, à governadora da Virginia, as eleições de terça-feira foram um sucesso para os democratas
Getty Images
Os Estados Unidos estão habituados a lidar com paralisações, que só terminam quando uma das partes cede nas suas exigências. Até esta terça-feira, a pressão era imposta pelos republicanos, uma vez que controlam a Casa Branca, o Senado e a Câmara dos Representantes, e os democratas pareciam estar prestes a ceder. Mas, para muitos, as eleições pintaram um novo contexto, em que os democratas mostraram ainda ter poder para ditar as regras da política norte-americana. “Os resultados vão criar mais pressão para pôr fim ao frente-a-frente porque a eleição produziu um claro vencedor e uma narrativa sobre porque é que isto aconteceu“, argumenta ao Observador Berwood Yost, diretor do centro de pesquisa da Franklin & Marshall College, na Pensilvânia.
“Não foram fortes no passado, permaneçam firmes agora”. O apelo que os democratas tentam generalizar dentro do partido
Os jornalistas esperavam pelo início da conferência de imprensa de Chuck Schumer desta quarta-feira, quando, no fundo da sala de imprensa do Capitólio, se ouve uma questão: “Vai juntar-se à conferência de imprensa? Quer dizer-nos o que pensa sobre a noite passada?”. A questão era colocada a Bernie Sanders, que assistia à conferência na última fila, e o senador independente do Vermont não se fez rogado e subiu ao púlpito, para alertar que colocar fim à paralisação nos termos atuais seria “uma terrível decisão”.
“Por todo o país, as pessoas estão a dizer ‘Por favor, Democratas, não foram fortes no passado, permaneçam firmes agora‘. Os Democratas estão a vencer por que estão do lado da classe trabalhadora”, argumentou. A crítica ao histórico democrata é frequente, baseada na visão de que o partido prefere facilitar o bom funcionamento das instituições a defender algumas das suas políticas. Desta vez, contudo, o partido desafiou o “estereótipo [e] e não cedeu imediatamente, mostrando aos apoiantes que tem espinha dorsal”, escreveu o repórter da CNN, Stephen Collinson, numa análise às primeiras duas semanas de paralisação.
Passadas outras duas semanas, Sanders procura manter esta mesma verticalidade. “Alguns de vocês podem ter ouvido a expressão ‘Quando lutamos, ganhamos”. Já ouviram isso?”, questionou no púlpito de Schumer, fazendo eco do lema de campanha de Kamala Harris no ano passado. “Ora, quando cedem, perdem“, rematou, antes de o líder democrata no Senado ter entrado na sala e ter tomado as rédeas da conferência, em que também ele não se mostrou tentado a ceder, antes encorajado pelos bons resultados.
Apesar de se alinhar com o Partido Democrata na maior parte das votações no Senado, Sanders concorre como independente e mantém posições mais à esquerda, que o separam de muitos dos senadores democratas. Mas não neste tema. Um grupo de pelo menos nove senadores democratas, avança o Axios, parece estar totalmente alinhado com o veterano e procura, neste momento, manter uma frente unida. No grupo estão nomes como Chris Murphy, do Connecticut, e Elizabet Warren, do Massachusetts.
Desde a reeleição de Trump, Murphy tem-se alinhado com os democratas mais progressistas que procuram combater ativamente Trump, ao mesmo tempo que dão respostas à sua base eleitoral. “Acho que seria estranho se, na sequência de o povo americano ter recompensado os democratas por fazerem frente [a Trump] e lutarem, nos rendêssemos sem conseguirmos nada por aquilo que temos lutado”, argumentou depois de uma reunião dos democratas.
Nessa mesma reunião, Warren foi vista a ter uma “discussão animada” com Gary Peters, o democrata que lidera o grupo de negociação com os republicanos, relatou o The Hill. Peters, assim como os senadores do Colorado, New Hampshire e Nevada, mostraram-se disponíveis para continuar negociações com os republicanos, que consideram “positivas”, independente dos resultados das eleições. “A eleição não mudou a minha posição. Ainda sinto que quero sair do shutdown“, declarou o senador do Colorado, John Hickenlooper, no dia a seguir às eleições, Porém, esta quinta-feira, depois de nova reunião bipartidária, Peter admitiu estar menos positivo com o fim do bloqueio.
Na distribuição atual de forças no Senado, é preciso que oito democratas votem ao lado dos republicanos, que têm maioria. Contudo, o ponto fulcral de divisão entre os democratas estará na proposta apresenta pelos republicanos para chegar a esse voto, que não dá resposta à principal exigência democrata — o que ajuda a perceber que muitos no partido não caracterizem o fim da paralisação como uma negociação, mas como uma cedência.
Os trunfos dos democratas: a defesa da saúde e as campanhas focadas no custo de vida
Nos últimos 37 dias, mais de 650 mil funcionários federais foram colocados de licença sem vencimento, enquanto outros 600 mil, considerados trabalhadores essenciais, continuaram a trabalhar sem receber salário. Agora, também está em risco o financiamento do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP), que assegura senhas de alimentação a milhões de norte-americanos, e o funcionamento de dezenas de aeroportos por todo o país — numa altura em que a celebração do dia de Ação de Graças e a época natalícia se aproximam a passos largos.
Não é a primeira vez que os Estados Unidos passam por este fenómeno de paralisação governamental. Contudo, nunca uma paralisação foi tão longa. O bloqueio começou no início de outubro, quando o Partido Democrata recusou aprovar um orçamento temporário que mantivesse a máquina do Estado a funcionar. Os democratas utilizaram a ameaça de um shutdown para pressionar os republicanos a prolongarem a entrega de fundos reforçados do Affordable Care Act — o chamado Obamacare, que garante acesso à saúde a uma grande parte da população, e cujo reforço está previsto ser suspenso a partir do próximo ano — e a voltar atrás no fim do seguro de saúde Medicaid, previsto no grande projeto orçamental de Trump, a One Big Beautiful Bill.
Neste contexto, democratas e republicanos negociaram nos últimos dias um plano considerado intermédio, segundo o que várias pessoas com conhecimento das negociações avançaram à imprensa norte-americana. O plano prevê, na mesma, a aprovação de um orçamento temporário, mas prevê a reversão do despedimento em massa de funcionários federais e assegura aos democratas que a extensão do Obamacare poderá ser votada em separado — contudo, não apresenta qualquer garantia que será aprovado, num Congresso que mantém uma maioria republicana.
Ainda que Donald Trump e os republicanos tentem acusar os democratas de manter a paralisação, a defesa intransigente do acesso a cuidados de saúde terá funcionado a favor dos democratas. “Os democratas têm estado bastante unidos em manter o foco na saúde, que é um tema em que os eleitores historicamente confiam nos democratas”, analisa Seth Masket, diretor do Centro de Política Americana da Universidade de Denver. “Isto ajudou-os a manter algum apoio entre a população”, acrescenta ao Observador.
▲ 15 anos depois de o Obamacare ter sido aprovado, continua a ser uma das bandeiras mais relevantes dos democratas
MICHAEL REYNOLDS/EPA
No sentido inverso, o facto de o peso da paralisação se sentir mais sobre as classes mais baixas pesou sobre o Partido Republicano. “Os inquéritos recentes mostram que o público culpa os republicanos pela paralisação e agora que está a afetar apoio às pessoas com rendimentos mais baixos e Trump está a assumir [a paralisação] com entusiasmo, faz o partido parecer um bocadinho ‘sem coração’“, continua o cientista político norte-americano.
As eleições da passada terça-feira refletiram na prática estas duas leituras distintas dos eleitores. Berwood Yost destaca que uma vitória democrata era esperada tendo em conta três fatores: as baixas taxas de aprovação de Trump, particularmente no que diz respeito à sua política económica, a direção que o país está a seguir e as “finanças pessoais associadas ao aumento dos preços”. Ou, na formulação simples que os democratas utilizaram em campanha, o custo de vida.
Apesar de todos os indicadores que apontavam para uma vitória democrata, Yost admite que “pouca gente antecipava a dimensão da onda democrata“. “Por todo o boletim e por todo o país, os candidatos democratas conseguiram vitórias expressivas e saíram-se muito melhor em cada condado do que em 2024”, elabora. A dimensão da vitória democrata não é descartável. Pelo contrário, ajuda a legitimar o argumento dos democratas progressistas, de que os eleitores apoiaram a luta do partido pela saúde e contra Trump.
Ao fim de 36 dias, Donald Trump entrou em cena — mas não para negociar
Depois dos avisos improvisados de Bernie Sanders na quarta-feira, quando Chuck Schumer finalmente subiu ao pódio também ele deixou avisos. Mas enquanto Sanders falava para os democratas, Schumer falava para os republicanos, incentivando-os a ceder. “Talvez esta eleição seja uma chamada de atenção — para eles”, declarou. Na mesma intervenção, anunciou que, juntamente com Hakeem Jeffries, o líder democrata na Câmara dos Representantes, tinha solicitado uma reunião direta com Trump.
Horas antes, o Presidente dizia aos republicanos que estava disposto a encontrar-se com os líderes democratas, mas só depois de a paralisação terminar. Ou seja, nada feito. Contudo, a reunião de Trump com os senadores republicanos na manhã a seguir às eleições marcou um ponto de viragem na postura que tem tido ao longo dos últimos 37 dias, em que o tema não tem estado no topo da sua agenda. Enquanto milhares de funcionários federais perdiam dias de salário e milhões corriam o risco de deixar de conseguir pagar comida, o Presidente manteve a sua agenda normal, com visitas de Estado ao estrangeiro, remodelações na Casa Branca e viagens regulares à Flórida.
▲ Trump falou aos senadores republicanos, instando-os a retirar obstáculos legislativos e não a negociar
YURI GRIPAS / POOL/EPA
A postura não podia ser mais diferente daquela que adotou na outra longa paralisação de 2019, como lembra a CNN. À data, apesar da época natalícia, Trump atirou-se de cabeça ao trabalho, abdicando das festas tradicionais e mantendo contactos e reuniões com congressistas para tentar reunir o financiamento para construir o seu muro na fronteira com o México. Mas os longos dias de trabalho não produziram resultados e Trump foi obrigado a abdicar do muro.
Agora, passados seis anos, o Presidente mudou de estratégia e tentou utilizar a paralisação a seu favor e como arma contra os democratas, ameaçando cortar de forma permanente o número de funcionários federais e não pagar salários em atraso, bem como travar o financiamento de projetos iniciados pelos democratas ou que estejam a ser desenvolvidos em estados e cidades democratas. A postura “destrutiva”, como escreve o analista da CNN Stephen Collinson, não tinha qualquer custo para Donald Trump. Até à noite eleitoral.
Mas, mesmo assim, Trump recusa negociar com os democratas. Em vez disso, incentivou os senadores republicanos a acabarem com o processo legislativo que obriga a que uma lei precise de uma super-maioria de 60 votos no Senado para poder ser aprovada na prática — um mecanismo chamado filibuster. Contudo, os republicanos não são particularmente adeptos desta solução, adiantou a CNN. Muitos temem que a decisão se possa virar contra os republicanos assim que os democratas conseguirem recuperar a maioria do Senado que perderam nas eleições de 2024 — o que pode acontecer já nas intercalares do próximo ano.
Depois das eleições de terça-feira, Seth Masket argumenta que “os republicanos estão mais interessados em pôr fim à paralisação”, mesmo que isso envolva desobedecer ao Presidente e ceder às exigências dos democratas na área da saúde. “Isto mostrou que o público não está do lado [dos congressistas republicanos] e que ficar do lado de Trump pode custar caro nas eleições do próximo ano“, remata.
[Há dúvidas até ao fim que acabam na vitória mais curta da História. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir o último episódio aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]