Ainda “maçarico” no Parlamento, como admitiu numa intervenção no Parlamento, Filipe Sousa está a conhecer os cantos à casa na política nacional. Para já, o deputado único dos Juntos pelo Povo viabilizou o programa do Governo e diz que existiram sinais de que o PSD “quer dialogar”. Mas também vai avisando: os programas são apenas um conjunto de “boas intenções”; é preciso passar das palavras aos atos.
Em entrevista ao Observador, no programa “Sofá do Parlamento”, Filipe Sousa não antecipa a estratégia do partido para a próxima legislatura. Mas diz que se forem dadas respostas às principais questões colocadas pelo JPP, e que dizem respeito sobretudo à Madeira, então “há meio caminho andado” para viabilizar o Orçamento do Estado. “Não gosto de abstenções”. Ou sim, ou sopas.
Com o novo palco que o Juntos pelo Povo ganhou, Filipe Sousa revela que já teve abordagens de pessoas que querem ser candidatas pelo partido mas recusa aproximações mal intencionadas. Diz que não deseja, nem ambiciona o crescimento exponencial do Chega. “A queda pode ser acentuada.”
[Ouça aqui o Sofá do Parlamento com Filipe Sousa]
Filipe Sousa, do Juntos pelo Povo: “Não sou homem de tribuna, sou de ação”
“Estou no Parlamento para construir, não para destruir”
Na Madeira, o Juntos pelo Povo (JPP) é oposição feroz ao PSD. Na Assembleia da República, viabilizou este Programa do Governo. Há disponibilidade para diálogo com o Luís Montenegro durante esta legislatura?
Numa resposta rápida: sim. A palavra “feroz” acho que é um pouco pesada. O JPP tem uma forma diferente de fazer política. Temos as nossas convicções, respeitamos muito os governos eleitos mas nada nos inibe de falar a verdade e acima de tudo defender os interesses e os valores que dizem respeito à nossa população. Tem sido a nossa postura de diálogo, de comunidade, de proximidade que faz com que sejamos hoje a segunda força política na região da Madeira. É sinal que todo o trabalho que se fez até hoje deu frutos e espero que seja para continuar. Viabilizei o programa do Governo porque há ali questões convergentes, embora existam situações no decorrer da legislatura que teremos que aprofundar, mas há pontos de contacto. Como autarca que fui, sei que os programas são acima de tudo intenções.
Agora é uma espécie de benefício da dúvida a Luís Montenegro
Exatamente, foi isso que disse no discurso final e agora estarei atento. Como disse, estou no Parlamento para construir, não para destruir, e estar atento principalmente aos pontos em que convergimos e ver se os sinais que o Governo dará são em linha com as nossas expectativas. Isto é uma novidade para mim. A dimensão de um Governo nada a ter a ver com um programa de uma autarquia mas estou fortemente motivado para este desafio. Há, neste programa, sinais claros, no que diz respeito à mobilidade entre o continente e as regiões autónomas, de transporte marítimo de passageiros e carga, em que o Governo adota uma proposta que é nossa há alguns anos. Já demos também entrada de um projeto de resolução sobre o subsidio social de mobilidade, que desde 2020 não foram regulamentados.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]
É também uma novidade termos um partido de cariz regional a entrar no Parlamento. Isso torna-vos exclusivamente regionalistas, ou têm projetos e bandeiras também de âmbito nacional?
Durante a campanha disse que esta missão, encabeçando o círculo da Madeira, era complicado olhar para o todo nacional, mas, com agrado, tenho recebido alguns pedidos de apoio das ilhas a que nos referimos. O nosso lema era “Voz das Ilhas por Portugal”, que não são só as geográficas, Madeira e Açores, mas todas as franjas da sociedade: os idosos que estão abandonados e marginalizados, doentes que morrem à espera da consulta. Vou ouvindo todos esses pedidos de ajuda e tenho já planeado para a próxima semana tentar encontrar soluções para um problema que aflige os pequenos e médios produtores do vinho do Porto, no Peso da Régua. Cá está uma ilha que irei visitar. Tenho também uma senhora de Coimbra que tem uma filha com enorme dependência e que diz estar fortemente discriminada.
Vai começar a procurar espaços que permitam ao JPP ir respondendo a outras questões que não só da Madeira.
É isso mesmo. Confesso, e repito, que não é fácil mas gosto destes desafios. É dessa proximidade que nos caracteriza que pretendo lançar o JPP no território nacional. O Parlamento é importante mas não sou um homem de Parlamento. Sou mais executivo. Já tive a oportunidade de dizer que vejo nas intervenções muito teatro, pouca ação. E as pessoas não estão à espera de teatro, as pessoas querem um Governo que dialogue.
“Nunca gostei da abstenção”
Este Governo tem procurado muito passar esta mensagem de que quer fazer e executar. O Juntos pelo Povo vai dar essas condições ao Governo? Ou seja, ponderam viabilizar os Orçamentos do Estado, que são instrumentos importantes para executar políticas?
Não gosto de antecipar aprovações ou reprovações. Não conheço o Orçamento para 2026, tudo vai depender da proposta. Temos esta proposta de resolução sobre o apoio às regiões autónomas, que implica uma dotação orçamental considerável da parte do Orçamento do Estado. Se o nosso propósito for considerado, há logo um sinal que faz com que possa viabilizar. Nunca gostei da abstenção. A abstenção é um lavar as mãos. Gosto do sim ou não. Isso está relacionado com a minha característica de executivo. Vou esperar para ver. Se houver situações que vão contra o que defendemos, com especial atenção a esta discriminação que afeta os madeirenses e porto-santenses que é o subsidio social de mobilidade no transporte aéreo. Se isso ficar acautelado está meio caminho andado para para poder viabilizar um Orçamento.
Luís Montenegro deve ter o PS como parceiro preferencial ou entende a estratégia de negociar com todos?
Para mim foi um bom sinal, da parte do Governo e em especial do primeiro-ministro, dialogar com todos. É claro que o Chega e o PS são os principais partidos da oposição, que poderão viabilizar um Orçamento do Estado, mas espero que o Governo não ignore as outras forças políticas. Reforço com muito agrado o facto de existirem duas ou três medidas que vêm em linha de conta com o que defendemos. Logo após a minha intervenção no encerramento do debate do programa do Governo senti essa vontade por parte do PSD, sobretudo sobre questões relacionadas com as regiões autónomas. É um sinal. Claro que, ao inicio, há sempre uma boa vontade. Agora é preciso passar à prática e tenho muitas reservas porque, no poder legislativo, isso nem sempre acontece.
“O meu irmão? Nunca estivemos desalinhados”
Foi autarca mais de uma década. O país vai ter eleições locais em setembro ou outubro deste ano. O JPP tem o objetivo de conquistar alguma autarquia fora da Madeira ou ainda é prematuro?
Ainda é prematuro. Para ter alguém ao meu lado tenho que ter confiança. Já depois de ter tomado posse, tem chegado ao pé de mim muito boa gente que não conheço e que vem com boas intenções mas em que basta fazer uma pergunta ou duas e já se percebe ao que é que vem. O JPP sempre foi acusado de centralizar decisões. Somos a segunda força política mas crescemos com sustentabilidade.
E é por isso que não querem aceitar qualquer um para não pôr isso em causa?
Exatamente. A confiança para mim é essencial, porque está em causa um crescimento sustentável deste projeto, que tem muito para dar ainda ao país e à região. Temos uma equipa muito interessante em Gondomar, outra na Maia, que já estão connosco há alguns anos. O resto, a nível nacional, temos que ir com calma.
Mas acreditam que o partido pode ganhar implantação no continente também?
A minha missão é precisamente essa: criar uma política de proximidade. Não serei um deputado de Parlamento, sentado lá na tribuna. Estarei próximo dos problemas reais. Estive a dormir durante duas semanas perto do Chiado e fazia o percurso a pé entre o Chiado e a Assembleia da República e algumas pessoas davam-me os parabéns. Até fiquei surpreendido. A uma delas perguntei se era da Madeira e a resposta foi que não, que era um eleitor de Lisboa atento à vida política que me deu os parabéns pela forma simples como se dirigia aos portugueses. São sinais. Se vai fazer com que o JPP cresça como o Chega? Acho que não, mas também não quero crescer dessa forma porque depois a queda pode ser muito acentuada. Vamos aos poucos.
Nem sempre esteve alinhado com o seu irmão, o líder do partido, Élvio Sousa. Agora que um tem assento no Parlamento regional e outro no Parlamento nacional, corremos o risco de ter um JPP a falar a duas vozes?
Nunca estivemos desalinhados. Os partidos são constituídos por pessoas que pensam de forma diferente. O meu irmão Élvio gosta muito da democracia, da diplomacia e confesso que, não sendo nenhum ditador, como executivo sou mais direto, mais de decisão. Para o bem ou para o mal, toma-se uma decisão. Nunca estivemos de costas voltadas. Existiram problemas mas ficaram sanados, até porque eram mais da estrutura do partido. É claro que estas coisas mexem sempre um pouco com a família mas nada que afetasse a minha relação com o meu irmão. Talvez houvesse quem achasse que o percurso do Filipe Sousa tinha chegado ao fim mas não virei a cara ao projeto. Lancei esta pedrinha juntamente com o Élvio e de forma nenhuma ia abandonar o barco.