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A fila, formada e organizada pela polícia, dava a volta à igreja e começava nas traseiras.
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▲A fila, formada e organizada pela polícia, dava a volta à igreja e começava nas traseiras.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲A fila, formada e organizada pela polícia, dava a volta à igreja e começava nas traseiras.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

"Foi a viagem da nossa vida." Felisbela e Ana Paula acordaram cedo e foram das primeiras a visitar o túmulo do Papa Francisco

Só na primeira manhã depois do funeral, mais de 30 mil pessoas visitaram o túmulo do Papa Francisco. Quem chegou cedo evitou as grandes filas que se formaram — e que levaram alguns a desistir.

Assim que soube da morte do Papa Francisco na manhã de segunda-feira, Ana Paula pôs-se à procura de voos para Roma. O sonho de visitar o Vaticano e ver o Papa Francisco já era antigo e tinha-se intensificado depois de ter estado, como voluntária de uma empresa, na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, há dois anos. Mas, mais do que por si própria, sentiu que tinha de o fazer pela mãe, Felisbela, de 76 anos.

“Sei que seria um dos dias mais felizes, apesar da tristeza, para a minha mãe”, conta Ana Paula, de 51 anos, ao Observador à porta da Basílica de Santa Maria Maior, a igreja romana onde Francisco foi sepultado no sábado. “Não foi barato, mas acho que foi a viagem da nossa vida.”

Fiéis fazem fila para ver túmulo de Francisco

Mãe e filha, ambas de mochila às costas porque hão de seguir diretamente para o aeroporto, acabaram de sair do interior da basílica. Levantaram-se bem cedo para estarem ali pelas 8h15 e conseguirem entrar na igreja, cujas portas abriram pelas 7h00 para deixar entrar os primeiros visitantes. Se Felisbela e Ana Paula entraram com relativa facilidade para a primeira missa do dia, quando saíram e conversaram com o Observador, a meio da manhã, a fila já dava a volta à basílica — e as autoridades italianas tinham organizado, na praça traseira da igreja, um serpenteado semelhante ao das filas de segurança dos aeroportos para controlar o avanço da multidão.

Francisco, o Papa que reformou a Igreja

Num balanço à hora de almoço, a câmara municipal de Roma revelou que já tinham passado 30 mil pessoas pela basílica, a igreja do século V que ainda conserva o estilo paleo-cristão e que é o mais antigo santuário mariano da Europa Ocidental. A poucos metros da estação central de comboios de Roma, a Basílica de Santa Maria Maior é um dos monumentos mais visitados da cidade e deverá tornar-se ainda mais atrativo para os turistas agora que recebeu o túmulo do Papa Francisco, o primeiro Papa a ser sepultado fora do Vaticano desde 1903 (Pio XIII, sepultado na Arquibasílica de São João de Latrão).

Ao lado da filha, Felisbela transborda de felicidade por ter conseguido entrar. “Assisti à missa, tirámos uma fotografia onde o Papa está. É emocionante”, diz. “Fui à missa, comunguei. Eu nunca tinha vindo a Roma, ao Vaticano.”

▲ Na manhã seguinte à sepultura do Papa Francisco o tempo de espera para entrar na Basílica era aproximadamente três horas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Vi tudo o que tinha que ver. Cumpri a missão”

Aos 76 anos, Felisbela Couceiro ainda trabalha, juntamente com o marido, de 80 anos, e com a filha, Ana Paula, de 51, na empresa da família, um armazém de materiais de construção no Montijo. Felisbela é uma católica devota; Ana Paula reconhece que não é tão devota como a mãe — mas ambas dizem ter sido profundamente tocadas pelo pontificado do Papa Francisco.

“Acho que o Papa nos deixou a humildade, a paz de espírito, mudou muito a nossa Igreja Católica”, diz Felisbela. “Acho que nos deu muita paz. Só espero que o Papa que se vai seguir siga os mesmos caminhos que o Papa Francisco, que siga as ideias dele.”

Ana Paula concorda. “Eu não sou uma católica devota, mas o Papa aproximou-me, porque acho que foi um homem que chamou à Igreja jovens, o que faz falta, porque os jovens são a alegria”, frisa. “Fui à Jornada Mundial da Juventude, não como voluntária, mas como voluntária de uma empresa. Achei maravilhoso. A multidão e o silêncio que havia lá.”

Dentro da basílica do século V onde Francisco vai ser sepultado. “Para nós, é uma grande responsabilidade preparar esta última viagem”

“Sempre disse que gostava imenso de conhecer o Papa, que era um sonho vir a Roma e pelo menos podia ter a sorte de o ver à varanda, o que nunca aconteceu”, acrescenta Ana Paula. A morte do Papa Francisco, na última segunda-feira, aos 88 anos, vítima de um AVC e depois de um longo internamento hospitalar, foi o gatilho para que Ana Paula parasse de adiar o sonho. “Pensei: esta é a altura para ir. Acho que devemos fazer o que pensamos em vida porque depois, quando vamos, já não há nada a fazer.”

De imediato, pôs-se à procura de voos e de alojamentos. “E, na quinta-feira, a minha filha fez-me uma surpresa, comprou os bilhetes”, revela Felisbela. A filha interrompe para dizer que, na verdade, foi a mãe que pagou a viagem, que teve como objetivo central prestar a última homenagem ao Papa Francisco. Apanharam um avião em Lisboa às 9h00 de sexta-feira, chegaram a Roma às 13h00. Ainda tiveram tempo de visitar alguns lugares turísticos da cidade, incluindo a Fontana di Trevi e o Coliseu, para depois dedicarem todo o sábado ao funeral de Francisco.

“Ver o túmulo do Papa Francisco foi emocionante”

“Assistimos à missa no Vaticano e vimos o carro do Papa Francisco a passar na estrada. Vi tudo o que tinha que ver”, diz a septuagenária. “Já estamos prontas para ir para o aeroporto. Cumpri a missão, estou de coração cheio.”

▲ Ana Paula e Felisbela fotografadas em frente à Basílica de Santa Maria Maior.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

No interior da Basílica de Santa Maria Maior, Ana Paula e Felisbela visitaram não apenas o túmulo de Francisco, mas também a Capela Paulina, a grande capela lateral presidida pelo ícone de Maria, Salus Populi Romani. A pintura, um tesouro de valor incalculável que a tradição católica atribui ao evangelista São Lucas, é a mais importante peça da iconografia mariana — e era também o objeto de uma profunda devoção do Papa Francisco, que visitou aquela capela para rezar mais de uma centena de vezes.

Aquele lugar, que o Observador visitou alguns dias antes do funeral quando ainda eram terminados os preparativos para a sepultura, era o sítio favorito de Francisco na cidade de Roma. Era ali que o Papa se deslocava para rezar antes e depois de todas as suas viagens apostólicas — e era ali também que ia rezar sempre que sentia a necessidade de uma oração especial. Quando saiu do hospital pela última vez, terá mesmo pedido que fosse feito um desvio no percurso para o Vaticano, para que pudesse rezar durante alguns minutos no lugar onde já sabia que, um dia, seria sepultado. Este sábado, antes de ser colocado no túmulo, o caixão do Papa foi levado durante alguns minutos para diante do ícone mariano, para a última oração de Francisco em frente à imagem onde tantas vezes rezou.

Felisbela sublinha que esteve na capela “onde o Papa gostava de ir” e Ana Paula mostra-nos as fotografias que tirou no interior. “O Papa tinha uma característica que eu adorava, de que eu sempre gostei: as pessoas têm de olhar para nós a olhar, com os olhos. Ele olhava”, conta a filha. “Nós devemos falar com os olhos, para que eles sintam que nós estamos próximos. Era o olhar e o sorriso maravilhoso.”

Como pedido pelo próprio Francisco, o túmulo do Papa argentino é de uma simplicidade quase chocante. Num pequeno nicho na lateral esquerda da basílica, mesmo ao lado da sua capela favorita, é possível ver uma pedra simples, de mármore trazido de Ligúria (a região de onde são naturais os avós de Bergoglio), com uma única inscrição: FRANCISCVS. Na parede ao fundo foi colocada uma réplica da cruz peitoral que Francisco usava como bispo e que manteve como Papa — uma cruz prateada, já que rejeitou a tradicional cruz de ouro, num dos muitos sinais exteriores de simplicidade que impressionaram crentes e não-crentes logo no início do seu pontificado.

Uma multidão em silêncio no velório de Francisco. Horas na fila para breves segundos junto ao Papa

Durante este domingo, em que apenas foram autorizados a trabalhar no interior da Basílica de Santa Maria Maior os jornalistas com acreditação permanente junto da Santa Sé, o serviço de imprensa do Vaticano divulgou algumas imagens das homenagens dos peregrinos que visitaram o túmulo de Francisco. Através delas, é possível perceber como, à semelhança do que aconteceu durante o velório na Basílica de São Pedro, os fiéis que estão longas horas na fila têm poucos segundos para visitar o túmulo, já que a polícia do Vaticano está a garantir que ninguém pára em frente à sepultura de Francisco. Um vídeo também divulgado pelo Vaticano mostra como, no interior da basílica, iluminada a média luz, o ambiente é de silêncio e recolhimento — embora a maioria dos peregrinos procurem aproveitar a passagem junto do túmulo para tirar fotografias com o telemóvel.

7 fotos

A entrada para a Basílica de Santa Maria Maior faz-se através de um posto de controlo situado na zona esquerda da fachada da igreja, na Praça de Santa Maria Maior. Este domingo, porém, quem quisesse entrar na basílica tinha de ir pela direita, para dar toda a volta à igreja e entrar numa fila organizada pela polícia italiana na praça situada nas traseiras. Dando a volta à basílica, percebemos facilmente que a espera vai ser longa. Há muitos guarda-chuvas abertos na fila — não porque esteja a chover, mas porque o sol do meio-dia é escaldante e as sombras são escassas. Multiplicam-se os grupos de jovens e de escuteiros, muitos deles presentes em Roma a pretexto do Jubileu dos Adolescentes que se celebra este fim-de-semana. A maioria destes jovens esperava testemunhar este domingo a canonização de Carlo Acutis, um jovem italiano que morreu aos 15 anos de idade e que será o primeiro santo católico da geração digital — mas a morte de Francisco obrigou ao adiamento das cerimónias.

“Tem de ser mesmo todos, todos, todos”

A dimensão da fila, contudo, também demoveu alguns. É o caso de Armando Pinto, de 46 anos, de férias em Roma com a mulher, Catarina Martins, de 44, e a filha Carolina, de 9. Encontramo-los justamente no final da fila, a hesitar entre ir ou não ir. A perspetiva de uma espera de três horas acaba por levá-los a desistir: têm bilhetes para visitar o Coliseu à tarde e não têm tempo para conciliar as duas visitas. “É pena, porque gostávamos de ver, não só a sepultura do Papa, mas a basílica em si”, diz Armando, revelando que a família tem o voo de regresso a Portugal agendado para segunda-feira. “Paciência. Já fomos à Fontana di Trevi e atirámos a moeda para trás das costas, portanto vamos cá voltar. Dizem que se atirarmos a moeda voltamos cá novamente. Vamos voltar de certeza absoluta.”

A família do Porto aterrou em Roma na sexta-feira de manhã, sabendo que ia chegar a uma cidade mergulhada no caos. “Mas já tínhamos a viagem programada há algum tempo e, quando soubemos que o Papa tinha falecido, já não havia nada a fazer. Não podíamos desmarcar, senão ainda íamos ficar a perder dinheiro”, explica Armando. “Condicionou-nos um bocadinho, porque não pudemos visitar a Capela Sistina nem o Vaticano, por exemplo. Tínhamos bilhete e vamos ser reembolsados. Fomos apanhados no meio desta confusão.”

Ainda assim, acrescenta o português, “acabámos por presenciar algo um bocadinho inédito, histórico, porque não é todos os dias que se está presente no momento em que foi enterrado um Papa, sobretudo um Papa que foi muito marcante para a Igreja Católica”.

▲ A família do Porto aterrou em Roma na sexta-feira de manhã, sabendo de antemão que ia encontrar mais "confusão".

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Armando e Catarina dizem-se católicos não praticantes que se aproximaram mais da Igreja devido a Francisco. “Nós somos católicos, estudámos ambos num colégio católico, mas, efetivamente, com o tempo e com o desenrolar da Igreja, isso afastou-nos um bocadinho. Mas este Papa aproximou-nos, e acho que a todos. Aproximou toda a gente da Igreja”, diz Armando. “Se assim continuar, se o próximo Papa seguir a mesma linha, a Igreja Católica só tem a ganhar com isso, na minha opinião.”

No sábado, dia do funeral de Francisco, a família preferiu afastar-se da grande confusão e só visitou o Vaticano ao final da tarde, quando já tinham terminado as celebrações. À noite, no alojamento, viram o filme Dois Papas (Netflix, 2019), uma ficção que imagina a relação entre Bento XVI e Jorge Mario Bergoglio e que culmina com a eleição do Papa Francisco, mas que tem também uma forte componente biográfica sobre Francisco. O filme, diz Armando, fê-los refletir sobre “a diferença entre o anterior Papa e este”, deixando evidente que existe “uma ala muito conservadora e esta ala mais liberal”.

“Levantou a sua voz implorando a paz.” O funeral de Francisco foi uma celebração da diplomacia

Armando, que diz ter acompanhado o pontificado do Papa Francisco através da comunicação social, revela que ficou especialmente impressionado com a expressão que se tornou mundialmente reconhecida a partir de Lisboa: “Todos, todos, todos.”

“A abertura que ele teve, a célebre frase do ‘todos, todos, todos’, acho que isso fez com que as pessoas se aproximassem mais”, diz, sublinhando que é na tal “ala liberal” que identifica com o Papa Francisco que está o futuro da Igreja. “Acho que é o caminho da Igreja. Tem de seguir esse caminho, porque senão vai ficar isolada. Tem de ser mesmo todos, todos, todos.”

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