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Durante os últimos meses, Donald Trump e a sua administração sustentaram que a subida no tom das acusações e ameaças, o reforço militar nas Caraíbas e, por fim, a captura do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tinham um único objetivo: travar o fluxo de drogas que, segundo a Casa Branca, estaria a “inundar” os Estados Unidos a partir da Venezuela. Os dados oficiais e os especialistas internacionais mostram incongruências nesta narrativa: a Venezuela não é um produtor relevante de cocaína, não desempenha qualquer papel no tráfico de fentanil — o principal produto responsável pelas mortes por overdose nos EUA — e surge, sobretudo, como país de trânsito de droga destinada à Europa.
Mas Maduro é acusado de narcoterrorismo, foi considerado como fazendo parte de um cartel de droga e a Venezuela assinalada como um Estado terrorista pelos EUA. Além disso, não é uma acusação nova, esta da ligação do Cartel de los Soles ao poder venezuelano. Jeremy McDermott, cofundador do InSight Crime, fala de uma “rede de redes” composta por militares e políticos que facilitam o tráfico e lucram com ele. Após a morte de Chávez, em 2013, Nicolás Maduro herdou um país mergulhado numa crise económica profunda. Para garantir a lealdade das Forças Armadas, o regime tolerou e regulou a associação de militares ao tráfico, permitindo-lhes complementar rendimentos perante o colapso do poder de compra. “Nesse contexto, o Cartel de los Soles evoluiu para um sistema de patrocínio criminoso no qual a cocaína ajuda a sustentar o Governo”, pode ler-se num dos relatórios do InSight Crime.
Para muitos analistas, contudo, a explicação para o ataque dos EUA vai muito além do combate às drogas. As maiores reservas de petróleo do mundo, concentradas na Venezuela, e o objetivo político de mudança de regime ajudam a explicar o porquê de Caracas se ter tornado o alvo de uma ofensiva militar e judicial norte-americana.
Tráfico de cocaína: a principal acusação dos EUA. Mas, afinal, onde é produzida?
A principal acusação feita por Washington é a de que Nicolás Maduro, através do Cartel de los Soles, de que fará parte, teria “inundado” os Estados Unidos de cocaína. O problema, sublinham os especialistas e dados das organizações internacionais, como as Nações Unidas, é que a Venezuela não produz cocaína.
“A Venezuela quase não produz drogas ilícitas, se é que produz alguma”, refere ao Observador Jenaro Abraham, especialista em política externa dos Estados Unidos em relação à América Latina e professor na Universidade de Gonzaga, acrescentando que já “houve tentativas isoladas e em pequena escala de produção — principalmente ao longo da fronteira entre a Venezuela e a Colômbia —, mas estas são limitadas em alcance e frequentemente desmanteladas pelas autoridades venezuelanas”.
Segundo Abraham, a Colômbia, o Peru e a Bolívia são os três maiores produtores de cocaína, e, por isso, as rotas começam por aí. É nestes três países que se cultiva a folha de coca e onde se concentram os laboratórios responsáveis pela transformação da matéria-prima em cloridrato de cocaína.
Dados do Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC) confirmam que a produção global está quase totalmente concentrada nestes territórios. Entre 2019 e 2023, a Colômbia (considerada a maior produtora mundial) desmantelou cerca de 26.400 laboratórios ilegais. No mesmo período, a Bolívia desmontou 3.200 e o Peru cerca de 2.400 instalações ilegais. Este é, assim, um dado estrutural: a Venezuela não integra o “núcleo duro” da produção global de cocaína, nem em termos agrícolas nem industriais (químicos).
▲ Principais rotas de tráfico de cocaína na América por via marítima (2023-2024)
UNODC
No entanto, apesar de não produzir cocaína, a Venezuela está envolvida no narcotráfico. Devido à sua localização estratégica, com uma extensa fronteira terrestre com a Colômbia, desempenha um papel fulcral como país de trânsito em determinadas rotas.
“O que ocorre na Venezuela é o trânsito e o tráfico, não a produção. A maior parte da atividade de tráfico concentra-se ao longo da fronteira entre a Venezuela e a Colômbia e está ligada a redes que surgiram na década de 1990, bem como a rotas marítimas entre a Venezuela e partes das Pequenas Antilhas — muitas vezes passando por Trinidad — antes de continuar para os Estados Unidos ou a Europa”, sublinhou Abraham.
Antoine Vella, investigador do UNODC e diretor da Secção de Dados, Análises e Estatísticas do organismo, citado pela BBC, reitera a visão de Jenaro Abraham. A cocaína produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia raramente segue rotas diretas: a droga cruza países como o Equador e a Venezuela, antes de seguir por via marítima (em lanchas rápidas ou barcos de pesca) em direção ao norte do continente, seja pelo Pacífico ou pelas Caraíbas.
Os dados mais recentes do Centro Internacional de Pesquisa e Análises contra o Narcotráfico Marítimo (MAOC-N) confirmam que a rota do Pacífico (ao largo da costa, parando no Equador ou no México, antes de chegar aos EUA) — e sem passar pela Venezuela, claro, que fica do lado de lá, no Atlântico —, se consolidou como a principal via de saída da cocaína sul-americana. Entre 2020 e 2024, foram apreendidas mais de 1,5 mil toneladas de droga na região do Pacífico. O Equador, por exemplo, registou um aumento de 380% nas apreensões marítimas, o que significa “um aumento do tráfico de drogas”, mas também “uma maior eficácia das operações policiais”, segundo o relatório publicado pelo organismo.
▲ Principais rotas de cocaína no mundo (2020-2023)
UNODC
Mas também as águas das Caraíbas, que na década de 1980 eram a rota clássica dos cartéis colombianos rumo à Flórida, perderam centralidade, mas não desapareceram. Lilian Bobea, investigadora da Universidade de Fitchburg, descreve à BBC um fenómeno conhecido como “efeito bexiga” ou “balão”: quando a pressão aumenta num ponto, o tráfico desloca-se para outro.
“A maior pressão dos Estados Unidos sobre o México está a revitalizar as Caraíbas”, explicou Bobea, sublinhando que países como a República Dominicana, Porto Rico e Trinidad e Tobago continuam a desempenhar um papel relevante, tanto em rotas para a Europa como para os Estados Unidos.
Para o professor e investigador da Universidade de Gonzaga, “as rotas de tráfico marítimo, particularmente via Trinidad, por vezes envolveram grupos criminosos como o do venezuelano Tren de Aragua. Mesmo nesses casos, porém, os atores envolvidos são facilitadores do trânsito, não produtores”. Ao Observador, Abraham reforça que “a produção de drogas na Venezuela é praticamente inexistente”.
Os próprios dados internacionais indicam que a maior parte da cocaína que passa pela Venezuela tem como destino a Europa e não os Estados Unidos. Os relatórios da Administração de Repressão ao Tráfico de Drogas norte-americana (DEA) reforçam esta leitura: a análise da assinatura química da cocaína apreendida em território norte-americano revela que mais de 80% das amostras têm origem colombiana.
Cartéis das Américas: “Não há evidências confiáveis de que a família Maduro esteja envolvida em cartéis de drogas”
O narcotráfico sul-americano é dominado por grupos conhecidos e consolidados. Entre eles, destacam-se o Cartel de Sinaloa, historicamente liderado por Joaquín “El Chapo” Guzmán, o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar o Cartel Jalisco Nova Geração — todos mexicanos — e o Cartel de los Soles — este sim venezuelano, e ao qual Trump acusou a família Maduro de fazer parte.
Essas organizações são, na visão de Jenaro Abraham, “responsáveis pela coordenação da produção em grande escala, dos preços e do transporte internacional para o mercado dos Estados Unidos”.
Na Colômbia, grupos como o Clã do Golfo desempenham um papel importante na cadeia produtiva, particularmente no tráfico de cocaína. “O Clã do Golfo é composto em grande parte por antigos paramilitares de direita, muitos dos quais surgiram de grupos desmobilizados que anteriormente eram apoiados — direta ou indiretamente — pelo Estado colombiano e por interesses norte-americanos durante as campanhas de contra-insurgência do início dos anos 2000”, explicou ao Observador o especialista em política externa dos EUA em relação à América Latina.
Para Washington, Nicolás Maduro é o chefe do Cartel de los Soles, uma rede considerada “terrorista” pelos EUA, ligada ao narcotráfico que Donald Trump alega que é controlada pelo chefe de Estado do país sul-americano. Antes do segundo mandato do Presidente norte-americano, essa categoria estava reservada para grupos como a Al-Qaeda ou o autoproclamado Estado Islâmico. Em fevereiro de 2025, oito organizações criminais da América Latina envolvidas no tráfico de droga, no tráfico de pessoas e outras atividades foram adicionadas à lista.
Numa entrevista em novembro passado, o secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth, admitiu que esta caracterização do Cartel de los Soles podia “trazer muitas novas opções” para os Estados Unidos na forma como poderiam agir contra o regime da Venezuela. O governante não concretizou que opções seriam essas, mas deixou claro haveria “mais ferramentas” para o Presidente [Trump] “decidir se o hemisfério [ocidental]” é ou não “controlado por narcoterroristas”.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou, na altura, que o cartel “corrompeu as instituições governamentais na Venezuela e é responsável pela violência terrorista realizada por e com outras organizações designadas, assim como pelo tráfico de drogas para os Estados Unidos e a Europa”.
.@StateDept intends to designate Cartel de los Soles as a Foreign Terrorist Organization (FTO). Headed by the illegitimate Nicolás Maduro, the group has corrupted the institutions of government in Venezuela and is responsible for terrorist violence conducted by and with other…
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) November 16, 2025
A designação foi também uma proteção jurídica. Ao rotular o Presidente venezuelano como líder de uma organização “narcoterrorista”, os Estados Unidos passaram a dispor, no seu entendimento, de uma base legal para prender ou até matar Nicolàs Maduro. Aos olhos de Washington, todas as ações dirigidas contra Maduro são na lógica de se tratar de um líder um grupo terrorista — e não um chefe de Estado (até porque nem os EUA, nem a UE o reconhecem como tal). O FBI ofereceu mesmo uma recompensa de 50 milhões de dólares (cerca de 43 milhões de euros) a quem desse informações que levem à captura de Nicolás Maduro, que terá sido determinante para ter um informador dentro do seu núcleo duro.
Ainda assim, permanecem dúvidas sobre se efetivamente o Cartel de los Soles se comporta como uma organização terrorista. Para quem estuda o fenómeno, esta descrição é uma simplificação.
▲ Nicolás Maduro a chegar a Nova Iorque para ser julgado
Captura de ecrã de vídeo em direto que mostra a chegada de Maduro
Para Abraham, “não há evidências confiáveis de que a família Maduro esteja envolvida em cartéis de drogas. Estas alegações têm origem principalmente em afirmações do Governo dos Estados Unidos e devem ser entendidas dentro de um contexto político mais amplo, que visa legitimar políticas coercivas, incluindo sanções e posturas militares contra a Venezuela”.
De forma mais geral, os cartéis de drogas não serão os principais impulsionadores das atividades de tráfico dentro do próprio país. “Os cartéis são organizações altamente estruturadas que controlam preços, produção e cadeias de abastecimento globais”, explicou o investigador, sublinhando que, de acordo com o que sabe, “na Venezuela, o que existe são pequenos agentes de trânsito que prestam serviços ou fazem a interface com redes internacionais maiores sediadas em outros lugares. Essa distinção muitas vezes perde-se no discurso público e é importante para compreender as estruturas económicas do tráfico de drogas”, concluiu.
Já para Jeremy McDermott, cofundador do InSight Crime, as coisas são bem diferentes. O Cartel de los Soles não é uma organização centralizada, é a “rede de redes”, liderada por militares e políticos que facilitam o tráfico e lucram com ele. O termo surgiu em 1993, cunhado pela imprensa “para descrever membros corruptos da Guarda Nacional da Venezuela que estavam envolvidos no tráfico de drogas”, derivando das insígnias militares (os “sóis”) usadas por generais venezuelanos. “O termo passou a designar todas as atividades de tráfico de drogas enraizadas no Estado”, explicou McDermott. E as origens deste grupo são anteriores à chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999.
Segundo o InSight Crime, vários fatores explicam a ligação entre o “chavismo” e o tráfico de drogas. A ofensiva militar do então Presidente colombiano Álvaro Uribe contra as Forças Armadas Revolucionárias (FARC) empurrou parte das operações para o território venezuelano. O golpe falhado de 2002 contra Chávez reforçou a dependência do regime em relação aos militares, que passaram a ocupar cargos estratégicos e a beneficiar de contratos lucrativos, num ambiente de crescente tolerância à corrupção.
Após a morte de Chávez, em 2013, Maduro herdou uuma crise económica profunda. Para garantir a lealdade das Forças Armadas, tolerou e regulou a associação de militares ao tráfico, permitindo-lhes complementar rendimentos.
▲ Nicolás Maduro a discursar durante uma homenagem a Hugo Chávez em Caracas no dia 4 de fevereiro de 2025
RAYNER PENA R/EPA
“Nesse contexto, o Cartel de los Soles evoluiu para um sistema de patrocínio criminoso no qual a cocaína ajuda a sustentar o Governo”, pode ler-se no relatório do InSight Crime. No final de novembro, entrou em vigor a classificação do Cartel de los Soles pelos EUA como uma organização terrorista internacional. Esta decisão deu a base legal para operações militares, segundo a jurisdição norte-americana, em território venezuelano. Que começou aliás pelo ataque a navios que alegadamente transportariam drogas.
Fentanil: o centro da crise de saúde pública norte-americana que não passa pela Venezuela
Donald Trump contradiz-se, contudo, quando se analisa o maior problema da saúde pública nos Estados Unidos em relação às drogas: o fentanil, uma droga sintética 100 vezes mais forte que a morfina, que é a responsável pela maioria das mortes por overdose no país.
Em 2024, o fentanil causou 48,4 mil mortes por overdose nos Estados Unidos, cerca de 60% do total. Os dados mostram que o fabrico desta droga não passa pela Venezuela — fazendo com que a narrativa de Trump em relação à “guerra contra as drogas” tenha falhas neste ponto. Segundo a Administração de Repressão ao Tráfico de Drogas norte-americana (DEA), o fentanil ilícito é produzido quase totalmente no México, a partir de precursores químicos vindos da China. Não há evidência de produção, nem de trânsito relevante pela América do Sul.
“O fentanil praticamente não tem papel na produção ou no tráfico de drogas na Venezuela ou a partir deste país. A produção de opióides sintéticos está concentrada noutros locais — particularmente no México, com precursores químicos frequentemente originários da Ásia. A Venezuela não é um ponto relevante nas cadeias de abastecimento de fentanil”, explicou Jenaro Abraham ao Observador.
Deste modo, as ações de Washington poderão revelar que as reservas de petróleo são o maior atrativo para os Estados Unidos. Trump, que quer governar a Venezuela “durante vários anos” até que possa ser feita uma “transição segura, adequada e judiciosa”, admitiu que as “grandes petrolíferas norte-americanas vão gastar mil milhões de dólares” e “consertar as infraestruturas degradadas” do país. Portanto, não se trata de um grande segredo.
“O que é claro é que a aplicação do quadro da “guerra contra as drogas” à Venezuela é altamente desproporcional quando comparada com países que são comprovadamente responsáveis por níveis muito maiores de produção e exportação de drogas”, disse Abraham.
▲ Donald Trump a assistir em direto à detenção de Nicolás Maduro
White House via Getty Images
No final de dezembro, Nicolás Maduro, tinha, inclusive, acusado os Estados Unidos de estarem a provocar um conflito armado com a Venezuela não devido ao narcotráfico ou à natureza do regime político, mas para se apropriarem dos recursos naturais do país. “Não é o Maduro, é o petróleo que eles querem. Não é o Maduro, é o ouro, são as terras raras. É a nossa riqueza natural”, disse o Presidente agora deposto durante uma reunião com o seu Governo.
Segundo o especialista em política externa norte-americana, “nenhuma das políticas implementadas pela administração Trump resultou na redução da disponibilidade de drogas nos Estados Unidos. Pelo contrário, a produção e o tráfico de cocaína atingiram níveis históricos, impulsionados principalmente pela produção na Colômbia e pelo trânsito pelo México e Equador”. “Do ponto de vista empírico, visar a Venezuela pouco ou nada contribui para resolver os fatores estruturais que impulsionam o tráfico de drogas”, concluiu Jenaro Abraham ao Observador.