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AFP via Getty Images

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Jane Goodall: “Sigam os vossos sonhos como eu segui o meu: vocês são capazes”

Nasceu numa família pobre em Londres, não tinha posses para a Universidade, mas revolucionou a forma como olhamos para os nossos parentes mais próximos, os chimpanzés. Goodall morreu aos 91 anos.

Esta entrevista foi realizada por José Manuel Fernandes para o jornal Público em 2006 e é aqui republicada após a morte, esta quarta-feira, de Jane Goodall. A investigadora de chimpazés tinha 91 anos

16 a 18 horas por dia, 300 dias por ano a percorrer o mundo. Aos 72 anos Jane Goodall mantém a mesma energia que a levou, quando tinha apenas 26, a entrar sozinha nas florestas junto ao lago Tanganica para estudar os chimpanzés. Franzina mas senhora de um olhar de imensa doçura, luta pelo que sempre lutou: por cumprir um sonho. Agora através das múltiplas frentes em que actua o Instituto a que deu o seu nome e, sobretudo, promovendo um programa, Roots and Shoots, destinado àqueles em que deposita mais esperanças: os jovens.

Uma das coisas que mais surpreende quando se lê a sua obra ou se assiste às suas conferências é a sua inesgotável capacidade de ter esperança. Contudo, quando olhamos hoje para a sua Tanzânia vemos que a sua população vive com menos de um dólar por dia, que a esperança de vida é de apenas 46 anos e uma em cada dez crianças morre antes dos cinco anos, como consegue continuar optimista?
Na Tanzânia temos um programa extraordinário que mudou completamente a forma como as comunidades da região de Gombe, onde estudei os chimpanzés, vivem. Esse programa não só as ensina a preservar o ambiente que as rodeia como lhes temos dados os instrumentos necessários para melhorarem o seu bem-estar. Têm acesso a programas de micro-crédito, a programas destinados a recuperar os solos e a sua capacidade de produzirem alimentos, têm um conjunto vasto de apoios no quadro de programa designado Takare. Assim conseguimos também criar corredores através dos quais as comunidades de chimpanzés podem circular e misturar-se com outros grupos, o que é essencial para assegurar a sua sobrevivência. E lá a natureza tem uma enorme capacidade de regeneração, uma árvore moribunda pode voltar a despontar e atingir os dez metros de altura em apenas cinco anos.

Mas está apenas a falar de um pequeno exemplo de sucesso na Tanzânia…
A Tanzânia é muito mais do que um exemplo. Para mim é, de certa forma, o meu país. Vivi lá anos suficientes para a ter visto sair do regime colonial, depois cair nas profundezas da maior depressão, via-a passar por um período em que o domínio de ideais marxistas e comunistas quase me forçaram a sair do país, via-a ultrapassar tudo isso e, agora, acabei de assistir à eleição de um novo Presidente com uma sensibilidade muito maior para os problemas do país e do ambiente. Vi lá o que não vi em muitos outros países porque foi sempre um lugar pacífico onde não ocorreu nenhuma revolução violenta, onde não houve qualquer banho de sangue. Vieram do fundo, estão a recuperar, e se hoje a sua economia favorece mais os ricos do que os pobres, estamos a tentar que isso mude.

Contudo aquilo que costuma dizer às pessoas é que não devem ficar à espera dos governos, que devem começar por mudar as suas vidas se quiserem dar corpo aos seus sonhos e ter esperança. Mas será que os que estão completamente desesperados entendem essa mensagem?
O que sinto é que os meus programas, em especial Roots and Shoots, estão a inspirar crianças e jovens em todo o mundo. Vi-os arrancar tanto na Tanzânia como na China ou nos Estados Unidos. Estamos a procurar criar uma nova geração de pessoas que entenda que os nossos hábitos de vida materialistas, que a obsessão por ter sempre mais dinheiro e mais bens materiais, não têm futuro. Mais: esses jovens entendem que viver como vivemos não vale a pena, que conduz a vidas sem sentido.

O facto de ter nascido numa família sem posses, de ter tido de lutar o que lutou para conseguir realizar os seus sonhos, ajuda-a a fazer passar essa mensagem?
Ajuda imenso. Basta dizer-lhes: sigam os vossos sonhos da mesma forma que eu segui o meu. E o que noto é que me respondem que se eu fui capaz, então eles também serão capazes.

A sua mensagem é então muito simples: vocês são capazes.
Exactamente. E são mesmo capazes. Se mudarmos as nossas atitudes e comportamentos conseguimo-lo, não necessitamos de ficar à espera que todos os outros façam primeiro para nós depois os seguirmos. Ainda agora vim do Nepal onde uma das nossas organizações trabalha com crianças “intocáveis” [a mais baixa das castas em que se dividem as sociedades hindus] que estavam a ser obrigadas a trabalhar ilegalmente em minas de carvão. A única forma possível de as libertar do destino que lhes estava traçado por terem nascido em famílias “intocáveis” tem sido através da ajuda de activistas locais, jovens universitários, de um núcleo Roots and Shoots. Esses jovens puseram em risco a sua vida quando penetraram nos territórios dominados pelas guerrilhas maoistas para libertar essas crianças e, depois, conseguiram o que nunca ninguém antes tinha conseguido: que um consulado britânico abrisse as suas portas a “intocáveis”. Isto passou-se em Katmandu e não imagina como é extraordinário que essas crianças estejam agora a estudar.

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Depois de ter passado mais de 30 anos na selva, a estudar os chimpanzés, desde 1986 que percorre o mundo. Como é que se passa de uma vida isolada nas montanhas para este cosmopolitismo missionário? Foi o seu trabalho com os chimpanzés que a inspirou no lançamento deste movimento?
Fi-lo porque senti a necessidade de pagar a divida que tinha para com as comunidades que estudei.

Pagar a dívida?
Sim, agradecer-lhes tudo o que fizeram por mim e pela humanidade. Porque aquilo que aquela comunidade me mostrou, e mostrou a nós todos, é que fazemos todos parte do mesmo mundo animal, que não somos seres à parte. Aqueles chimpanzés obrigam-nos a todos a sermos muito mais humildes.

Porquê? Porque possuem um património genético praticamente igual ao nosso ou porque se comportam de uma forma quase humana?
Porque se comportam de uma forma muito idêntica à dos humanos. Quando, depois das minhas primeiras observações no terreno, fui para Cambridge, disseram-me que tinha feito tudo mal. Disseram-me que não devia ter dado nomes aos chimpanzés, que não devia falar dos seus sentimentos, que não podia pensar que cada um deles tinha uma personalidade diferente e única. Mas eu sabia que não tinham razão porque cresci com um cão extraordinário que me ensinou que os animais podem ter personalidade. Foi por isso que tive coragem para os enfrentar.

Mas se os animais têm sentimentos e personalidade, como podemos traçar uma linha a separar o que é humano do que não é humano?
Não podemos. O que nos separa dos outros animais é uma linha muito esvanecida, muito fina. É por isso que temos de ser humildes e perceber que não pertencemos a um mundo à parte.

Quando estudava os chimpanzés descobriu que estes possuíam quer um lado sombrio e eram violentos e impiedosos, como podiam mostrar carinho, amizade, mesmo amor e compaixão. Se nós, os humanos, também temos esse lado sombrio e violento, há alguma coisa na sua experiência com os chimpanzés que possa ajudar a humanidade a combater essa faceta da sua natureza mais profunda?
Há. Há ter percebido que temos a enorme vantagem de termos desenvolvido uma linguagem extremamente sofisticada. Pessoalmente acredito mesmo que foi o desenvolvimento da linguagem que esteve na origem do desenvolvimento “explosivo” das capacidades do nosso cérebro. Hoje possuímos um cérebro que tem a capacidade de controlar os nossos instintos, pelo que termos partilhado com os chimpanzés um antepassado comum com comportamentos violentos não faz de nós obrigatoriamente seres violentos.

Essa ideia contrasta com outra, anterior aos seus estudos, segundo a qual os seres humanos seriam os únicos animais capazes de se matarem uns aos outros sem ser para se alimentarem.
Mas não são. Os chimpanzés também o fazem. E as hienas também. No fundo aí está outro aspecto comportamental em que somos parecidos com outros animais, o que mais uma vez nos mostra que somos menos únicos, menos diferentes, do que antes acreditávamos ser. O que faz a nossa diferença é a linguagem sofisticada que conseguimos desenvolver e dominar.

É a linguagem que nos permite estabelecer regras de comportamento em sociedade, regras morais?
A linguagem permite-nos pelo menos falar sobre isso, permite-nos discutir, permite-nos aprender com a experiência do passado e preparar um futuro melhor. A coisa mais importante que nos permite termos dominado a linguagem é podermos discutir ideias.

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Costuma por isso referir que uma das razões porque mantém a esperança no futuro é porque acredita nas capacidades do cérebro humano. Mas também sublinha a capacidade de resistência e recuperação da natureza, a energia dos mais novos e a vontade de realizarmos os nossos sonhos.
Para realizar os nossos sonhos é necessário nunca desistir.

Como a Jane Goodall?
Sim, acho que sim. Quando era nova todos diziam que alimentava um sonho impossível, que era uma doideira querer ir para África. Mas não era.

Para isso foi importante a experiência que teve na sua juventude durante a guerra [nasceu em Londres em 1934]? Foi importante ter assistido à capacidade de resistência dos britânicos, à sua resposta ao apelo de Churchill para que não desistissem?
Muito importante. O que se passou foi o oposto do que hoje se passa, quando George Bush e outros líderes dizem para termos medo. Churchill disse o contrário:disse-nos para não termos medo que não seríamos subjugados. E tudo o que nos defendia dos alemães era um estreito e algumas linhas de arame farpado mais alguns aviões, mas como todo a nação se uniu, isso fez a diferença e vencemos.

As âncoras em que firma a sua esperança costuma associá-las a objectos simbólicosque traz sempre consigo. Que objectos são esses que lhe dão mais força?
Um é uma folha de uma árvore que sobreviveu em Nagasaki depois do bombardeamento atómico. A árvore está queimada por dentro mas viva por fora e nela todos os anos crescem folhas. Os cientistas tinham previsto que nada cresceria naquele lugar durante muitos anos, mas cresceu bem antes do que tinham imaginado. Aquela folha simboliza para mim a capacidade de resistência da natureza. Tenho também sempre comigo uma enorme pena de um condor da Califórnia. Há alguns anos já só havia 12 condores vivos e um grupo de cientistas sonhou que era possível evitar que se extinguissem, montou um programa especial, muito ousado, e agora já há mais de 300. Isso mostra como a vontade do homem, como a sua teimosia e persistência, podem alterar o que parece inevitável. E trago também comigo uma pequena pedra da ilha em que Nelson Mandela esteve preso durante 17 anos antes de reemergir como um extraordinário político capaz de manter unida a sua nação e derrubar o apartheid sem violência.

Há ainda o sino feito com metal de uma mina recuperada nos “killing fields” do Cambodja do tempo de Pol Pot…
Sim, é verdade, e hoje deram-me uma escultura feita a partir de peças retiradas de armadilhas para animais.

Que força lhe transmitem esses objectos de que não se separa?
Permitem-me perceber que mesmo quando enfrentamos os problemas mais difíceis, mesmo quando tudo parece perdido, se utilizarmos as capacidades surpreendentes do nosso cérebro e a força extraordinária da juventude, podemos resolvê-los.

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