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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Mário Amorim Lopes: "Suplemento das pensões é o Governo a distribuir brioches pelas populações"

Mário Amorim Lopes, futuro vice-presidente da IL, diz que partido procura ter uma "comunicação mais popular" para alargar a sua base eleitoral. Espera que Mariana Leitão fique "muitos e bons anos".

Mário Amorim Lopes diz que o suplemento que o Governo pretende dar aos pensionistas são “brioches” que são distribuídos à população, numa alusão à frase “não têm pão, comam brioches” referida no livro Confissões de Rousseau. O deputado, que deverá ser eleito vice-presidente da IL este sábado, espera que a futura líder, Mariana Leitão, fique no cargo “muitos e bons anos”.

Sobre as ligações de Mariana Leitão a uma subsidiária da Sonangol, Mário Amorim Lopes diz que “ninguém é culpado por associação”, mas que se houvesse “alguma evidência” de conduta imprópria (que diz não existir) “obviamente” que a IL teria de “repensar”.

Mário Amorim Lopes diz que se sentiu orgulhoso de os colegas o considerarem para suceder a Rocha — numa possível solução além de Mariana Leitão — mas diz que nunca tinha pensado nisso. Dentro do partido, Amorim Lopes é apontado como uma das hipóteses a líder parlamentar.

[Ouça aqui a primeira parte da Vichyssoise:]

O frouxo, o fanfarrão e o princípio sem acordo

[Ouça aqui a segunda parte da Vichyssoise:]

“Mariana Leitão não pode ser culpada por associação”

“Mariana Leitão não pode ser culpada por associação”

“Temos de ter uma comunicação popular, terra a terra”

No debate do Estado da Nação, Luís Montenegro considerou que a Iniciativa Liberal tem “um irrealismo” e “fanatismo” que “tornam muito difícil levar o seu discurso a sério”. Com a saída de Rui Rocha da liderança, o partido tornou-se menos moderado?
O PSD já disse várias vezes que nós somos pouco moderados. Até peguei nisso na intervenção do Estado da Nação e disse reiterar que, sim, somos muito pouco moderados quanto à nossa ambição para Portugal. A verdade é que Portugal há décadas que é um país adiado, comparativamente aos seus congéneres europeus. Somos um país que está lateralizado, que está na cauda da Europa. Mas não tem de ser assim. Não tem de ser o nosso fado. Isto é consequência das más escolhas que foram feitas no passado. Portanto, aquilo que nós temos é uma enorme convicção de que Portugal pode ser muito mais do que aquilo que é e nós não arredamos pé desta convicção. Somos mesmo muito ambiciosos, nada moderados quanto a essa convicção e ambição e percebo que outros partidos que têm uma postura diferente na política, mais de situacionismo, mais de viver o dia-a-dia, se coloquem numa posição que é desconfortável para eles próprios, porque não conseguem acompanhar esta visão que temos.

Quando João Cotrim Figueiredo saiu da liderança e entrou Rui Rocha, António Costa utilizou isso contra a Iniciativa Liberal. Também se dizia que era preciso alguém que estivesse mais confortável com uma linguagem mais agressiva. Agora, volta a falar-se nisso. A IL precisa sempre de ir em busca disso, de chocar, de ter uma linguagem mais radical, na defesa do liberalismo?
Aquilo que António Costa, na altura, disse foi uma tentativa de nos provocar, mais agressiva, colar-nos ao Chega. Não creio que seja isso que esteja em causa. Aquilo que, na altura, João Cotrim Figueiredo disse foi que era necessária uma linguagem mais popular. E aí, eu continuo a achar que é verdade.

Mas acha que a IL conseguiu isso com o Rui Rocha?
Iniciou um caminho. Há muito mais a ser feito, mas não depende apenas do seu líder. Temos de conseguir comunicar para todos, dizer que as nossas ideias são boas para todos os portugueses, de norte a sul, do interior ao litoral. Seja um agricultor, seja um pescador, seja um cozinheiro, um esteticista… O partido nasceu como um partido de nicho, um segmento de pessoas mais urbanas, com mais qualificações, que percebiam a nossa linguagem. Isso foi importante para crescermos e para termos uma posição no espaço político. Mas, a partir de agora, se queremos ser mais abrangentes, temos de ter essa tal comunicação popular, terra a terra, próxima das pessoas. Esse caminho foi iniciado, mas ainda há muito a fazer e não se podia esperar que um líder apenas – no caso, Rui Rocha – o conseguisse fazer. O próprio João [Cotrim Figueiredo] também não tinha uma linguagem propriamente muito hermética, muito distanciada do português comum. Mas, seja como for, ainda há um caminho a percorrer e temos de ser capazes de comunicar com todos e explicar também o impacto das nossas medidas do ponto de vista social. A única forma de combater a pobreza é criando riqueza. E temos falado muito de criar riqueza, mas temos agora de explicar que isto é bom para todos e que a nossa principal preocupação é, precisamente, não deixar ninguém para trás. Sim, um país mais próspero, mas termos todos juntos neste desiderato, neste desígnio que temos de ter. E isso é um processo em curso e que terá de continuar, seja com o novo líder, seja com os líderes que acabaram de surgir.

Rui Rocha anunciou, no último programa eleitoral da IL, que a proposta “era moderada relativamente a alguns posicionamentos que a Iniciativa Liberal teve até nas legislativas de 2024”. Durante a campanha promoveu uma espécie de casamento pós-eleitoral com a AD, que acabou por não acontecer devido aos resultados eleitorais. Rui Rocha era mais moderado do que Mariana Leitão será?
Isso estamos a especular. Não sei se era mais moderado. As circunstâncias eram diferentes, sim, mas as circunstâncias são diferentes e as circunstâncias acabam por condicionar aquilo que é a posição do partido num determinado momento. Já partilhei isto, em privado e em público, que nós temos de manter sempre aqui uma matriz irreverente. Irreverente no sentido de não nos podermos acostumar ao sistema como ele está, porque o sistema não está bem. Em nenhuma área da economia as coisas estão bem.

E Rui Rocha não conseguiu ser irreverente?
Conheço o Rui Rocha há muitos anos e ele sempre teve essa característica de ser muito irreverente. Tem um humor desarmante. Na figura de presidente – e disse-lhe isto algumas vezes – eu gostaria que ele tivesse usado mais essa característica.

"Na figura de presidente – e disse-lhe isto algumas vezes – gostaria que Rui Rocha tivesse usado mais a irreverência e humor desarmante"

Não conseguiu passar a irreverência do Twitter para as ruas.
Mas é isso, é que ele é irreverente, e não sei se foi por ter assumido o papel que é um papel institucional de presidente do partido, que isso o possa ter condicionado. É difícil falar sem estar a calçar os sapatos. Se calhar qualquer um de nós, naquelas circunstâncias, também acaba por se condicionar um pouco, porque tem receio do impacto que aquilo pode ter. Mas o Rui é de natureza alguém que tem esse traço também irreverente. A Mariana também tem esse traço irreverente, e eu creio que a maior parte das pessoas no partido, tem esse traço de irreverência. Se nós não formos irreverentes, estamos a acrescentar pouco neste panorama político, porque temos partidos situacionistas, o PS e o PSD, temos um partido que já proclamou a 4ª República, portanto, o fim da 3ª República. No fundo são os cavaleiros do apocalipse, são o partido da destruição, a ovelha tresmalhada, o falso profeta. Portanto, vêm cá para destruir, não estão propriamente interessados em reformar. E alguém tem de ser uma voz de mudança, que consiga despertar almas e criar aqui um aggiornamento, um sentimento genuíno de mudança. E isso tem de acontecer, seja com que líder for.

"O Chega é o partido da destruição, a ovelha tresmalhada, o falso profeta"

“O resultado foi curto, mas não pode ser imputado [ao namoro ao PSD]”

E depois de um resultado eleitoral que ficou longe das ambições da IL, considera que foi um erro de estratégia essa colagem ao PSD?
Tenho sérias dúvidas. Sinceramente não sei, porque eu também ouvi muita gente, durante a campanha, dizer que votava em nós porque sabia que se fosse necessário faríamos parte de uma solução de governo e que não deixaríamos que uma geringonça 2.0 chegasse ao governo. E, portanto, isto é algo em sinal contrário. Até nos diz que estarmos disponíveis para fazer uma solução de governo não afastou alguns votos.

Também não deu muito mais. Deu mais um deputado à IL, longe da ambição que estava definida.
O resultado foi curto, sim, claramente. Quer dizer, crescemos em número de votos, crescemos em número de deputados, mas somos um partido com uma enorme ambição para o país, e, portanto, temos de ser ambiciosos connosco também. E daí que nós tivéssemos achado – e o Rui à cabeça – que foi um resultado curto, que nós aspirávamos a mais. Agora, não sei se o resultado pode ser imputado a essa colagem, nem acho que, na verdade, tenha sido uma colagem tão grande. Não foi uma colagem de programa, de todo. Pode ter sido uma disponibilidade para fazermos parte de uma solução governativa.

Mas foi uma colagem de linguagem durante a campanha eleitoral.
Quem vota em nós, vota na esperança e na convicção que seja um voto consequente em que estejamos disponíveis para assumir poder e a influenciar a vida das pessoas e melhorar o país. Não podemos ser apenas um partido de ideias, porque senão somos um think tank, somos uma montra de ideias, mas para isso fazemos depois conferências e não somos um partido político. Se nós, de facto, queremos colocar as ideias em ação, se queremos executar, precisamos de estar em situação.

"Não podemos ser apenas um partido de ideias, porque senão somos um think tank"

Para isso bastava o Instituto +Liberdade, não é?
Ou outros. Sei que muitas vezes é feita a colagem entre os dois, mas o Instituto Mais Liberdade é uma estrutura autónoma e tem toda a sua autonomia e ainda bem que assim é. Mas poderia ser outro think tank qualquer. A verdade é que nós somos um partido político. Temos de ser capazes de executar essas ideias, temos de estar disponíveis para o fazer, senão as pessoas questionam-se “para que é o meu voto”.

O Governo tem sido acusado de demasiada proximidade com o Chega no tema da imigração. A IL acabou por se abster na Lei de Estrangeiros, mas justificou-se com o processo em si. O Governo está a avançar demasiado rápido? Ou era mesmo preciso dar esta resposta e agir de imediato?
Que era preciso fazer alguma coisa, eu acho que é por demais evidente. Veja-se que no outro dia, na televisão, até o Rui Tavares teve o topete de dizer que todos os partidos estavam de acordo e era necessário regular a imigração, o que é uma mudança de 180 graus em relação àquilo que os partidos de esquerda sempre disseram. Quando entra um milhão de pessoas em seis anos e a população imigrante está nos 15% da população, isto cria desafios. Desafios ao estado social, do ponto de vista da habitação, da educação, onde é que colocamos estas crianças todas, do ponto de vista do acesso à saúde. E, portanto, era necessário fazer alguma coisa. A manifestação de interesse, aliás, deu azo à criação de redes de tráfico, a situações degradantes e desumanas, como termos 40 e 50 pessoas a viver num apartamento. Alguma coisa tinha de ser feita. Percebeu-se que o Governo tinha aqui uma ânsia de mostrar o que consegue fazer, para tentar secar o discurso do Chega, mas fez isto atropelando o processo legislativo, porque não foram ouvidas as entidades, foi tudo feito num processo de urgência. A justificação era que, se isto não fosse rápido, iria fazer aqui um efeito de antecipação, portanto, mais gente iria tentar obter os documentos para iniciar o processo, e como isto não tem efeito retroativo, tinha mesmo de ser expedito. Mas por muito urgente que tenha de ser, vivemos num Estado de Direito e há a cautelar os processos legislativos, daí que nós não tivéssemos votado a favor e nos tivéssemos abstido.

"Rui Tavares teve o topete de dizer que todos os partidos estavam de acordo e era necessário regular a imigração"

Mas a questão é só de procedimentos? Faz sentido, por exemplo, misturar no mesmo debate propostas para regular a imigração e a questão da lei da nacionalidade?
São dois temas distintos, de acordo. Não foram misturados no debate, foram misturados neste processo de urgência, mas não no debate. Eu acho que são questões completamente distintas. Nós precisamos de imigração, é factual, nós olhamos para a indústria, para a hotelaria, para a restauração, para os serviços, e o país pararia sem imigração. Mas a verdade é que, em resultado da manifestação de interesse, sobretudo a seguir à pandemia, houve uma entrada completamente descontrolada, no sentido em que não havia uma agência de Estado, o SEF foi desmantelado, a AIMA não tinha capacidade de execução, não foi verificado o registo criminal, e isso naturalmente levanta problemas. Isso tinha de ser resolvido. Depois a questão da nacionalidade é outra discussão relevante, porque houve muita gente a tentar obter acesso rápido à nacionalidade, até como porta para entrar na União Europeia e depois ir para outros países, porque Portugal tinha um regime bastante acessível. Mas a questão da nacionalidade não é apenas de permanência em território, nós temos de partilhar aqui um chão comum, tem de haver aqui um sentimento de pertença, e isso decorre também da nossa capacidade de integrar verdadeiramente estes imigrantes. Esta lógica adotada na Europa, não de interculturalismo, mas de multiculturalismo, ou seja, de nós termos culturas diferentes a viver em bolhas de forma isolada e que às vezes até não comunicam entre si, depois podem ser de facto uma fonte de problemas e isso deve-nos preocupar, nós temos de garantir esta integração, e essa integração faz-se com o tempo, e faz-se garantindo que há aqui este tal chão comum.

A questão das quotas, que é uma sugestão neste momento do Chega, faz assim tanto comichão à IL? Há vários países liberais que têm quotas para imigrantes.
Faz bastante comichão porque as quotas partem do pressuposto de que há um Estado planificador capaz de olhar para a economia e dizer “precisamos de 5 mil engenheiros informáticos, precisamos de 10 mil engenheiros civis, precisamos de 5 mil arquitetos” e o Estado não tem essa capacidade, não consegue recolher essa informação toda. E, portanto, aquilo que achamos que faz sentido é que haja um contrato de trabalho, uma necessidade real do mercado de trabalho e isso sim é um indicador claro de que há uma necessidade de termos alguém a desempenhar aquele trabalho. E até digo mais, eu acho que uma das responsabilidades das empresas que contratam imigrantes, para além de assegurar o contrato de trabalho, é garantir, precisamente, que vivem em Portugal em condições dignas, que têm um sítio onde viver e, portanto, que não estão algures acumulados num apartamento entre 40 a 50 pessoas. Sim, isso deve ser uma responsabilidade de uma empresa que contrata um imigrante e que vem de propósito viver para Portugal. Portanto, a questão das quotas acaba por limitar, vai sempre estrangular alguns setores porque o Estado vai demorar a reagir, porque não tem visibilidade sobre as reais necessidades e, portanto, não é a solução correta. Não precisamos de quotas, nem o Estado a planificar a imigração.

"Não precisamos de quotas, nem do Estado a planificar a imigração."

“O que foi feito em IRS é que quem ganha 1200 euros vai ter mais quatro euros no final do mês”

Mesmo sem a Iniciativa Liberal a influenciar, o Governo acabou por anunciar uma descida no IRS e ontem outra no IRC. Um partido como a Iniciativa Liberal, que tem estes temas como bandeira, fica com a vida complicada quando estas abordagens vêm por parte de um Governo em funções?
Ficaríamos com a vida complicada se o Governo fizesse aquilo que é necessário fazer, que é uma redução substantiva do IRS. Aquilo que foi feito em matéria de IRS foi que quem ganha 1.200 euros vai ter mais 4 euros ao final do mês. Ontem, aliás, numa intervenção parlamentar, quantifiquei isto em laranjas: estamos a falar de 2 kg de laranja. Se for num café, estamos a falar de um sumo de laranja, enfim, sumo e meio de laranja por mês. É esta a proposta do PSD. Lá está, não é ambiciosa. Não é isto que vai mudar a agulha. Não é isto que vai fazer diferença no bolso dos portugueses. Portanto, nessa matéria está muito, muito, muito aquém daquilo que nós necessitamos.

Mesmo em matéria de IRC?
No IRC, o Governo anunciou. Fez um anúncio, que iria reduzir até 2027 ou 2028. Mas esses anúncios, nós já os ouvimos muitas vezes no passado. Da última vez, não aconteceu porque foi o PS que rasgou um acordo que era do interesse do país e dos portugueses, mas como não era do interesse de António Costa internamente, pôs em causa os interesses do país e colocou os interesses do PS à frente. Foi um erro. Não pode ser assacado ao PSD, mas foi um erro.

Retomar a ideia é ir no bom caminho, é isso?
Retomar a redução do IRC é claramente ir no bom caminho. Nós temos de ter aqui um desígnio que nos deve unir a todos. Claro que um partido de esquerda e um partido de direita teriam diferentes entendimentos do que é que deve ser feito, mas temos de ter um desígnio que Portugal tem de crescer. Tem de ter mais crescimento económico, porque só isso é que vai aumentar os salários, vai aumentar as pensões e trazer prosperidade. E no nosso entendimento, uma das formas de conseguir crescer é atrair investimento direto estrangeiro. E nós não vamos conseguir fazê-lo na quantidade e qualidade de que necessitamos se tivermos a segunda taxa estatutária de IRC mais elevada da Europa, que é o caso. Portugal já não é competitivo a nível da justiça, os processos arrastam-se. Não é competitivo em termos de escala, é um mercado pequeno e ainda por cima do ponto de vista fiscal, é altamente penalizador. E já para não falar da burocracia a que as empresas estão sujeitas. Temos de ter aqui um fator de atratividade, não é? Daí a importância do IRC.

A taxa também não é aplicada a muitas das empresas e muitas delas nem sequer pagam IRC.
Sim, mas as que pagam melhores salários, pagam mais IRC e pagam derrama estadual, pagam IRC progressivo. Ou seja, nós estamos a dizer às empresas que têm sucesso que vão pagar mais. É como dizer a um aluno que tem 18 valores que a partir do próximo ano vai pagar mais propinas. Não faz qualquer sentido.

Há outros que significam não menos impostos, mas mais despesa do Estado, como um suplemento extraordinário para as pensões. Faz sentido esse suplemento que o Governo anunciou?
São brioches. É o Governo a distribuir brioches pela população.

Mas há um intuito eleitoralista?
Com certeza, temos as autárquicas aqui à porta.

E não incomoda, tendo a Iniciativa Liberal 14 coligações com a AD, que esteja também a beneficiar desse eleitoralismo?
Nós não vamos deixar de criticar as medidas eleitoralistas, não obstante ser importante para os pensionistas. As pensões são baixas em Portugal, é verdade. Mas estes aumentos extraordinários à porta de eleições são isso mesmo: eleitoralismo. Mesmo que em alguma coligação isso nos pudesse beneficiar, nós não vamos deixar de dizer que são brioches, ou seja, é uma medida eleitoralista. É dar um bocadinho, umas migalhas, a ver se dali depois há algum resultado eleitoral. Estas medidas se forem incorporadas num pacote maior, tudo bem. É como há a negociação das carreiras da função pública. Já que tardava, para conseguirmos ter boas pessoas no Estado e motivadas, nós temos de lhes pagar bem. E isso integrado num pacote maior, com reformas profundas, a 5 a 10 anos, e que digam claramente para onde é que nós devemos caminhar, para onde é que o país deve ir e onde é que nós queremos estar daqui a 5 ou 10 anos, compreende-se. Nós também temos de ter medidas de curto prazo. Não vamos apenas dizer aos portugueses, vamos fazer aqui umas reformas e daqui a 5 anos vão colher os frutos dessas reformas. Até lá temos, naturalmente, de melhorar a vida das pessoas. Essas medidas, isoladamente, não são um problema. São um problema quando são o destaque do debate do Estado da Nação e não estão acompanhadas dessa tal reforma, desse tal plano maior para Portugal.

A Iniciativa Liberal também já fechou algumas coligações, a mais relevante é em Lisboa. Não há aqui o risco de ser vista como uma muleta do PSD?
Em todas as nossas coligações, o que nós colocámos logo à partida na discussão foi o nosso caderno de encargos, as nossas ideias. Aquilo que nós queremos fazer em cada um dos concelhos. De que forma é que nós queremos melhorar a vida das pessoas que vivem neste concelho.

Coligação em Lisboa. "Até podemos ficar um lugar atrás se, na hora da verdade, conseguimos executar aquelas ideias"

Não choca, então, que o CDS possa estar à frente da Iniciativa Liberal na lista da vereação?
A nossa preocupação eram as ideias. Claro que nós, para executarmos as ideias, precisamos ter pessoas. O CDS ficou muito melindrado com essa situação. A nossa preocupação é com aquilo que nós conseguimos executar. Portanto, até podemos ficar um lugar atrás, na hora da verdade, se conseguimos executar aquelas ideias, e se tivermos as pessoas competentes para executar aquelas ideias, é isso que verdadeiramente interessa para a vida dos lisboetas. Eu creio que ninguém vai estar a comparar a lista, o que vão avaliar ao final do dia é o que é que cada um dos vereadores da Iniciativa Liberal fez, cada um dos autarcas fez, e isso sim é que é relevante. E essa sempre foi a nossa maior preocupação: garantir que as nossas ideias são implementadas. E mais do que isso, nós temos de ser o verdadeiro garante, primeiro, da estabilidade financeira de todos os concelhos. Não vai haver cá endividamentos, não pode haver despesas injustificadas. E não pode haver nomeações apenas com base em cartões partidários, ou seja, nomeações puramente políticas. Não estamos a dizer que não possa existir alguém de um partido a ser nomeado, obviamente, há cargos de confiança política, mas esse não pode ser o único critério. Portanto, a IL será, em cada uma destas coligações, um fiel da balança, um garante de estabilidade naquele município, desde que as suas ideias sejam acauteladas e, portanto, não somos de todo uma muleta.

“Iniciativa Liberal está aqui numa maratona, não está num sprint”

A Iniciativa Liberal tem a sua Convenção neste fim de semana e vai escolher o quinto líder em seis anos de partido, depois de ter falhado vários resultados eleitorais e ter prometido um salto eleitoral que nunca aconteceu. O que é que tem faltado?
Não sei se tem faltado alguma coisa. A Iniciativa Liberal está aqui numa maratona, não está aqui num sprint. A lógica de sprint é a do Chega, que é mais imediatista. A nossa lógica é uma lógica que requer mais tempo. Requer mais tempo as pessoas compreenderem as nossas ideias, porque nós as temos de facto. Nós não fazemos política apenas com os casos do dia, que é aquilo que, por exemplo, o Chega faz. Todas as intervenções no Parlamento pegam no caso do dia. Numa notícia de algo que aconteceu, usa aquilo para indignação geral, culpabiliza o grupo A, B ou C e está a política feita. Nós, de facto, fazemos aqui um investimento grande do ponto de vista das ideias, porque é isso que vai transformar Portugal. A indignação não vai transformar Portugal. A indignação pode ser importante para pressionar, para resolver os problemas, mas não é isso que vai trazer as soluções. E nós temos aqui essa preocupação. É um caminho que se vai fazendo e nós estamos, naturalmente, a ir ajustando. E, como disse no início, se calhar temos que ter também aqui a tal comunicação mais abrangente, mais térrea, mais chão a chão com as pessoas, para comunicarmos as nossas ideias de forma mais simples.

Ainda nas autárquicas, na moção de estratégia global, diz que a IL quer criar laboratórios de governação liberal. Na prática, o que é que isto significa e que objetivos é que estão definidos para as eleições autárquicas?
Isso significa que, se tudo correr bem, vamos ter a oportunidade de facto de estar ali e de executar as políticas no âmbito local. E isso vai ser um processo importante para vermos o que é que funciona bem e o que é que funciona muito bem. E depois conseguirmos, de certa forma, criar aqui um conjunto de ideias que percebemos que poderão ter um impacto positivo em todos os concelhos. E isso, uma vez mais, é um trabalho que se faz executando as ideias, estando lá, estando no terreno da importância de fazer parte da solução governativa, porque senão iríamos ficar apenas a assistir, ou então apenas nas assembleias municipais que têm um impacto muito, muito, muito limitado pela forma como existem. O poder local está montado em Portugal. E, portanto, este laboratório de ideias, no fundo, é isso. Nós sermos capazes de, em diferentes concelhos, implementar diferentes medidas, medir o impacto dessas medidas e depois perceber o que é que deverá ser feito.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Mariana Leitão não pode ser culpada por associação”

Mariana Leitão tem um passado ligado à Puaça, empresa da Sonangol, com ligações a Manuel Vicente. O passado da nova líder pode vir a ser um problema?
Vamos só desconstruir aqui essa ligação. Mariana Leitão trabalhou numa empresa, a Puaça, onde trabalhou nomeadamente o Manuel Vicente, mas os dois não têm qualquer relação. Alguém que tenha trabalhado no BES, não é por Ricardo Salgado ser condenado que essa pessoa será corrupta ou será eticamente atacável se não estiver envolvida em absolutamente nada e se não souber nada. E a mesma coisa, por exemplo, com José Sócrates, se José Sócrates for condenado, isso não faz dos militantes do PS todos inaptos para poderem exercer política, ou seja, ninguém é culpado por associação. A Mariana Leitão já esclareceu que trabalhou numa área completamente distinta e que nunca respondeu diretamente a Manuel Vicente e, portanto, não pode ser culpada por associação, nem acho que faça qualquer sentido estar a lançar insídias apenas com base no facto dela ter trabalhado numa mesma empresa, onde houve alguém que esteve envolvido em casos de corrupção. Parece-me que é um assunto que fica resolvido e encerrado aí.

Não cria fragilidades para o futuro?
Se houvesse aqui alguma evidência – que não é conhecida, e que eu sinceramente não acredito genuinamente que exista – que não a que sabemos até agora, obviamente teríamos de repensar.

Mariana Leitão deu esclarecimentos internos mais detalhados do que publicamente aos membros da IL?
Disse exatamente aquilo que se sabe. A Mariana é uma pessoa extremamente inteligente, ela sabe perfeitamente que se houvesse aqui alguma situação que fosse dúbia, que isso iria naturalmente pôr em causa o próprio partido, ela jamais avançaria.

"Se houvesse aqui alguma evidência – que não é conhecida, e que eu sinceramente não acredito genuinamente que exista – que não a que sabemos até agora, obviamente teríamos de repensar."

Eticamente não é reprovável o ter estado a trabalhar 13 anos numa empresa com ligações à Sonangol?
Não, o que seria reprovável é se tivesse estado envolvida em algum caso, não esteve.

Por isso é que pergunto eticamente e não criminalmente.
Vamos imaginar que, aqui no Observador, há um caso de corrupção…

Se eu trabalhasse agora mesmo a Gazprom, isso não seria suficiente para estar em causa?
Bom, a Gazprom…

A Sonangol naquela altura também não era um local frequentável.
Mas isto não era a Sonangol, é uma empresa, é verdade que é subsidiária da Sonangol, mas não é a Sonangol. É uma empresa, aliás, de natureza jurídica portuguesa, está instalada em Portugal. E o trabalho da Mariana não tinha nada a ver com o trabalho da Sonangol. Ela geria as bolsas de alunos angolanos que vinham para cá estudar. Qual é a repreensão ética que nós podemos fazer a isso?

Como Mariana Leitão disse, também acha que há um estigma por ela ter trabalhado na Sonangol.
Não sei se é estigma. A questão é, ninguém é culpado por associação. Não há nenhuma evidência. Ela não esteve envolvida em nenhum dos casos que pendem sobre a empresa, e no caso sobre o Manuel Vicente, portanto é uma não questão. Ninguém é culpado por associação.

Ainda assim, esta é uma liderança que pode ser considerada transição até Bernardo Blanco se cansar do privado?
A Mariana tem todas as características que um grande líder deve ter. É uma mulher combativa, assertiva, com energia, com rasgo. Portanto, eu espero que seja uma liderança por muitos e bons anos. Não obstante, claro, os naturais ensejos e ambições do Bernardo, que também seria alguém com excelentes características de líder. Mas não creio que isso seja colocado nesses termos, porque a Mariana tem mesmo as características para ser uma excelente líder de IL.

E Mário Amorim Lopes também tinha? Confirma que houve negociações nesse sentido, entre os dois?
Não, eu não negociei nada com ninguém.

Conversas, vá.
Não, nunca houve qualquer conversa, até porque se eu tivesse essa ambição, eu não vou ao beija mão a ninguém. Eu não peço permissão para entrar. Eu anunciava e seguia o meu caminho. A verdade é que eu não tenho essa ambição. Tenho uma grande ambição para Portugal, é verdade.

Mas sabe que havia dois nomes nessa ponderação, que era o seu e o de Mariana Leitão.
Sim, sei. E a verdade é que eu fiquei muito surpreendido e até sensibilizado com a manifestação de apoio que recebi. Não estava à espera, mas se calhar não estava à espera porque eu nunca namorei esta ideia. Se tivesse há muitos anos a pensar e tivesse isto como um grande objetivo, ser líder de Iniciativa Liberal, se calhar não ficava tão surpreendido.

Hipótese para a liderança? "Fiquei muito surpreendido e até sensibilizado com a manifestação de apoio que recebi. Não estava à espera, mas se calhar não estava à espera porque eu nunca namorei esta ideia."

E agora fica aí a semente para o futuro?
Não, não tenho isso minimamente nos meus planos. Nunca pensei sobre isso. A minha ambição é para o país. Nunca passou por ser para a liderança da IL. Mas uma coisa eu posso dizer: tudo farei para que a Mariana esteja muitos e bons anos à frente da IL e seja capaz de atingir excelentes resultados.

"Espero que Mariana Leitão tenha uma liderança por muitos e bons anos"

De preferência não interromper um mandato como os anteriores?
Não, que possa continuar e que possa fazer a IL crescer. Do que de mim depender, tudo farei para que isso possa acontecer.

A iniciativa liberal pode vir a apoiar um candidato como Marques Mendes?
Como Marques Mendes parece muito pouco provável.

Tem de ter um candidato próprio?
Neste momento ainda não temos, a Mariana teve de sair da corrida pelas circunstâncias óbvias, mas ainda não discutimos essa questão.

Mas é mais provável que tenha um candidato próprio?
Não, neste momento ainda temos de analisar bem a situação.

Há um timing para isso? Quando é que pretendem tomar essa decisão?
Não podemos tomar essa decisão com uma comissão executiva que está em fim de mandato, com um presidente demissionário, antes de elegermos a nova comissão executiva.

Certo, mas este fim de semana há a convenção, portanto as coisas ficam organizadas internamente para esse passo.
E a seguir teremos de analisar.

Não vão anunciar na convenção, não?
Se fossemos anunciar na convenção, eu não vos iria anunciar aqui.

“O Rui tem um humor lancinante e acho que faz um excelente trabalho nas redes sociais”

Vamos passar ao segmento do Carne ou Peixe, onde tem de escolher uma de duas opções. Quem é que levava para uma cerveja liberal, Henrique Gouveia e Melo ou Marques Mendes?
Talvez Gouveia e Melo, porque apesar de tudo eu conheço o pensamento político de Marques Mendes, não conheço o pensamento político de Gouveia e Melo e portanto, acompanhado de umas boas cervejas, gostaria de ficar a conhecer. Por curiosidade.

E quem é que gostava de ter ao seu lado, numa daquelas noites em que mete música: André Ventura ou Mariana Mortágua?
Não sei, eu acho que poria os dois, lado a lado, ouvirem muita música.

A quem dava a sua conta de Twitter por um dia: Rui Rocha ou Mariana Leitão?
Ao Rui Rocha. Porque eu acho que o Rui tem um humor lancinante e acho que faz um excelente trabalho nas redes sociais. Aliás, ele na Iniciativa Liberal começou precisamente por aí, por estar nas redes sociais.

Quem convidava para comer um prato cozinhado por si; Rui Tavares ou Paulo Raimundo?
Convidaria eventualmente Paulo Raimundo, porque sendo ele comunista, geralmente os pratos em países comunistas são pratos com pouca comida, e portanto eu poderia servir ali uma refeição mais abundante.

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