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Venâncio Mondlane afirma-se disponivel para "pacificação do país"
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▲Venâncio Mondlane afirma-se disponivel para "pacificação do país"

EPA

▲Venâncio Mondlane afirma-se disponivel para "pacificação do país"

EPA

Moçambique. Quem é Venâncio Mondlane: herói ou "irresponsável"?

"Elétrico", aos 19 anos já lera a Bíblia 3 vezes e seguia o filósofo Sócrates. Entre rock e taekwondo, galvanizava o bairro. E ouvia cassetes de Machel. Agora, é herói para uns, vilão para outros.

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Quando chegavam aquelas noites, ela “sentia um aperto no estômago”. Lá fora, no escuro, os cinco irmãos lutavam. Não por raiva, mas por treino. O mais velho, que entretanto morreu, “tinha o hábito de endurecer os irmãos, alegando que não desejava ‘Mariazinhas’ em casa”, recorda uma irmã de Venâncio Mondlane, o homem que tem abanado Moçambique com uma revolta popular sem precedentes em que já morreram pelo menos 297 pessoas.

“E então, de vez em quando, por volta das 21h00, esse irmão mandava todos os meninos para o quintal e trancava a porta para impedir a intervenção da minha mãe. Eles corriam, batiam no saco de boxe e depois enfrentavam-se em lutas. O som era como de animais ferozes que se devoravam“, conta esta familiar do político pastor que na quinta-feira se autoproclamou Presidente de Moçambique no meio de uma multidão em êxtase.

“Nós, as meninas [quatro], apenas ouvíamos os sons que lembravam leões a devorarem-se, enquanto a minha mãe gritava para que o meu irmão mais novo, o Presidente, entrasse em casa. No entanto, eles continuavam com os treinos. Eu sei que, em determinado momento, o meu Presidente já não tinha mais permissão para entrar, tinha de aguentar o treino até ao fim. Eu ficava triste, pois ele era muito carinhoso, e não conseguia imaginar como suportava aquela luta entre ‘leões’ furiosos”, lembra.

"'Vena' comprava cassetes com discursos de Samora Machel, escutava-as repetidamente e imitava-o (...) talvez fizesse parte da sua busca por correntes filosóficas ou então era já um modo de manifestar insatisfação com o governo do momento [o de Joaquim Chissano], uma forma de fazer política sem o saber."
Irmã de Venâncio Mondlane

A irmã traz da memória este episódio para explicar o que terá levado Venâncio Mondlane — “Vena” para a família, “Venancito” ou “Venas” para os amigos, e “Veneno” para os irmãos rapazes quando o queriam provocar — a praticar artes marciais. Mas a imagem do leão tem sido usada recorrentemente pelos manifestantes, na sua maioria jovens, que lhe chamam VM7 (campeão como CR7, Cristiano Ronaldo), para não desistirem da luta contra os resultados eleitorais oficiais que deram a vitória a Daniel Chapo, da Frelimo (Frente de Libertação Nacional), partido no poder há praticamente 50 anos.

Vão buscar um ditado popular, muito citado pelo mítico Samora Machel, o primeiro Presidente moçambicano depois da independência de Portugal, em 1975, nos seus discursos: “Seguramos a cauda do leão. Se o largarmos, ele mata-nos”. Invocam o provérbio para “dizer que estão decididos a derrubar o regime, pois se com as manifestações a Frelimo está acuada, se os protestos recuarem a repressão violenta vai aumentar”, esclarece uma moçambicana sob anonimato.

Os jovens não devem saber, mas o herói pelo qual “estão dispostos a dar a vida”, nas palavras do investigador João Feijó, ouvia Samora Machel. “‘Vena’ comprava cassetes com os seus discursos, não sei como nem onde, pois nessa altura era informação classificada, escutava-as repetidamente e imitava-o”, revela a irmã.

Era muito jovem, “ninguém imaginava que seria político”. Talvez ouvir o mítico líder moçambicano fizesse parte da sua busca por correntes filosóficas ou então era já um modo de manifestar insatisfação com o governo do momento [o de Joaquim Chissano], uma forma de fazer política sem o saber”, tenta explicar.

"Venâncio Mondlane é um fenómeno nunca visto em Moçambique Afonso Dlakhama também o foi, mas ele é um caso diferente, tem muita energia, uma juventude marcante, uma dedicação e uma convicção extraordinárias."
Roberto Tibana

A família podia não o prever, “Vena” podia não o confessar, mas “já mostrava” com as suas atitudes que “seria um líder político”, diz Fernando Tinga, amigo da adolescência e colega da faculdade de Venâncio.

Pai frelimista, filho “insubordinado”

Na família não havia educação política, nem religiosa, garante a irmã. O pai (também Venâncio) era um frelimista convicto mas não doutrinava partidariamente os filhos. “Não discutia política dentro de casa. Dizia-nos apenas: ‘Vocês têm de apoiar a Frelimo, a Frelimo é que libertou o país’”, adianta a irmã de Venâncio Mondlane. O filho que agora está no epicentro do terramoto que abala Moçambique foi membro da OJM, a juventude da Frelimo, teve o cartão da organização mas a sua militância ficou por aí.

O grande incentivo que o pai dava aos filhos era outro. “Gostava de leitura, tinha muitos livros em casa, quase uma biblioteca e estimulava-os  a ler”, aponta Fernando Tinga, para quem “a grande paixão do amigo ‘Venas’ sempre foram as letras, os livros, a filosofia grega, onde aprendeu a democracia”.

E terá sido esse um dos factores que o levou à política, tornando-se “um fenómeno nunca visto em Moçambique”, como lhe chama Roberto Tibana. O reputado economista, que coordenou o manifesto eleitoral de Mondlane, mas de cujo movimento se afastou ainda antes da campanha eleitoral, compara-o mesmo a Afonso Dlakhama. O líder histórico da oposição moçambicana “também foi um fenómeno, mas VM é um caso diferente, tem muita energia, uma juventude marcante, uma dedicação e uma convicção extraordinárias”, diz ao Observador.

"Venâncio Mondlane é um fenómeno nunca visto em Moçambique Afonso Dlakhama também o foi, mas ele é um caso diferente, tem muita energia, uma juventude marcante, uma dedicação e uma convicção extraordinárias."
Roberto Tibana

Pode até ter introduzido uma forma nova de fazer oposição política em Moçambique — “uma certa autocracia” —, contrapõe outro intelectual moçambicano, e por isso “é uma pessoa muito perigosa para o futuro do país, e já sei que vou apanhar ‘pauladas’ por dizer isto”, contrapõe ao Observador Elísio Macamo, professor de sociologia e estudos africanos na Universidade da Basileia, na Suíça.

“É muito enérgico, muito vibrante e intenso, mas insubordinado, tem muita dificuldade em obedecer a regras e normas, tem traços de ditador”, acrescenta Dércio Alfazema, comentador político crítico de Mondlane. “É muito inteligente, talvez seja por isso que, acreditando muito nas suas ideias, se sinta oprimido quando tem de atuar em contextos em que tem de se subordinar”, defende.

As opiniões ouvidas pelo Observador dividem-se muito sobre o efeito que Mondlane tem no país, mas juntam-se num ponto: o candidato presidencial que se recusa a aceitar os resultados oficiais eleitorais de 9 de outubro é politicamente muito bem preparado. “E começou a preparar-se há muito tempo”, acredita João Feijó, coordenador do Observatório do Meio Rural, sociólogo com muita experiência no terreno. “Talvez desde a infância”, diz um amigo ao Observador.

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O “mano” que defendia dos gangues

Venâncio António Bila Mondlane nasceu no dia 17 de janeiro, três meses antes do 25 de Abril de 1974 em Portugal, revolução que derrubou o regime ditatorial e abriu portas para a independência de Moçambique no ano seguinte. A família é de Maputo, mas o quinto de nove filhos (dois já morreram) de Venâncio e Virgínia nasceu a 2.800 quilómetros, em Lichinga, no Niassa, no norte do país, quando ainda se chamava Vila Cabral. “O meu pai estava a trabalhar lá temporariamente”, esclarece a irmã.

O pai, um “assimilado” (designação dada no colonialismo aos nativos dos territórios que tinham acesso à cidadania portuguesa, deixando de ser “indígenas”, para serem “civilizados”, podiam ter emprego na administração colonial e frequentar as escolas) trabalhava então na Nestlé. Mas foi na maior seguradora estatal de Moçambique, a Emose, onde entrou para o departamento financeiro depois da independência, que fez um longo percurso profissional, chegando a diretor do conselho de administração, cargo que ocupou durante muitos anos até se reformar.

Se “tocarem” em Mondlane, “país incendeia-se”. Maputo em alta tensão à espera do regresso do “Presidente eleito pelo povo”

“Venancito” cresceu assim no bairro construído pelos portugueses, o Choupal, de casas grandes, que hoje se chama 25 de Junho, praticou artes marciais, leu e debateu muito. “Foi com ele que vi pela primeira vez um dicionário ilustrado, livros que não estavam acessíveis à maior parte dos moçambicanos, de que eu fazia parte; emprestava-nos livros, estava sempre a dizer para lermos”, conta o amigo Fernando.

Aliás, aos 14 anos, já dava explicações no quintal da casa, a crianças consideradas inaptas, a quem chamavam “burros”. Como gostava muito de desporto (para além de ser mestre de artes marciais, também tinha feito halterofilismo e acrobacia) criou uma espécie de ginásio onde primeiro fazia exercícios com os alunos. Depois desenhava no chão salas de aulas com pedras e dividia as criança e ensinava-as. Passados seis meses tinha filas de pais a agradecer porque os filhos se tinham tornado os melhores alunos na escola. Foi um embrião de um dos seus empregos: anos mais tarde, em 2002 deu aulas de Física, Matemática e Química (as disciplinas em que mais se chumbava em Moçambique).

GettyImages-2192706872 Supporters of Venancio Mondlane protest demanding the “restoration of electoral truth”, cutting off traffic at Ressano Garcia, the main border between Mozambique and South Africa, heavily guarded by dozens of soldiers and police, Mozambique, 14 November 2024. LUISA NHANTUMBO/LUSA

▲ A imagem de Venância aparece em vários formatos nos locais mais variados, desde espelhos de carros a t-shirts

AFP via Getty Images

Por um lado, era um “miúdo como qualquer outro, apesar de viver em melhores condições do que nós, sempre se misturou connosco, vinha para as nossas casas, bem inferiores à dele, e estava ali à-vontade, a diferença social nunca foi uma barreira”. Praticava taekwondo, gostava de rock, “era muito elétrico, quando dançava quase trepava as paredes, muito atlético, um sorriso rasgado, era muito fácil gostar dele”, acrescenta o amigo dos tempos do bairro que continuou a conviver com ele na Faculdade de Engenharia Florestal e Agronomia da Universidade Mondlane.

Por outro lado, “era diferente, especial” em vários aspetos. “Naqueles tempos de gangues, para passarmos de umas zonas para outras, precisávamos de autorização do respetivo chefe reinante, então tínhamos de ter mesmo alguém que nos protegesse, e ‘Venas’, mais novo do que eu quatro anos, mas com um porte atlético e muito corajoso, era o ‘mano’ que corria para me socorrer quando era molestado. Foi o ‘mano’ de muitos”, revela Fernando Tinga. “Sempre foi defensor de pessoas e de causas”, sublinha a irmã: “Ninguém nos fazia mal. ‘Estas são irmãs do Venâncio, não provoquem’, diziam quando nós passávamos”.

Daniel Chapo, o jornalista que entrevistou Mondlane no primeiro A Voz do Povo

“A sua grande paixão foi a filosofia, ‘devorava’ os clássicos gregos. Era apaixonado por Sócrates e, como ele, criava todas as condições para o debate, estava sempre a querer debater”, afirma Fernando. “Onde estava, debatia. Ou então arrastava-nos para irmos assistir a conferências, palestras. Se não provocava o debate, ia para o debate dos outros, era um grande fã de alguns pensadores moçambicanos, como o professor Lourenço Rosário”.  Venâncio “falava, falava, falava, tinha o fogo da discussão, para aprender com os outros, na lógica do ‘só sei que nada sei sei do Sócrates’, mas também era um professor, sempre acrescentava qualquer coisa ao nosso conhecimento, orientava-nos”.

A democracia “ainda estava embrionária, mas ‘Venas’ já discorria sobre experiências democráticas, como a da Grécia, a ética, a estética, a moral”, concretiza o colega.

Começou aí a criar oposição. “Como se interessava muito pelo conhecimento, e lia tudo o que encontrava, não lhe faltavam argumentos, apanhava-nos sempre desprevenidos”, acrescenta. “Na arena do debate acalorado criou muitas inimizades, quando perdiam argumentos, alguns, pouco lúcidos, cultivavam o antagonismo. Ele está sempre adiantado aos outros, e esta característica, que faz parte da sua natureza, traz-lhe inimigos”.

"Era o centro das atenções, dominava, era muito espaçoso. Por onde passou, comandou, até nas artes marciais foi campeão. Era já um líder, destacava-se em tudo, e ensinava-me que devíamos ser multifacetados, saber de várias coisas."
Fernando Tinga

Onde quer que estivesse, “era o centro das atenções, dominava, era muito espaçoso”, ri-se o engenheiro colega de Mondlane. “Por onde passou, comandou, até nas artes marciais foi campeão”. Fernando Tinga via “já um líder, destacava-se em tudo, e ensinava-me que devíamos ser multifacetados, saber de várias coisas”.

Venâncio Mondlane, que “é um homem das letras”, acabou por entrar na Faculdade de Engenharia Florestal (só porque, num ensino superior muito restrito era “onde havia mais vagas”, diz a irmã), deu aulas, trabalhou numa multinacional suíça, a Société Genérale de Surveillance como engenheiro florestal, numa agência bancária do Grupo Millennium bim, especializado em análise económico-financeira e gestor corporate de grandes empresas (de 2002 a 2020), foi colunista de várias publicações literário-culturais como a Lua Nova, da Associação de Escritores Moçambicanos, por exemplo, comentador de televisão, pastor evangélico e político em vários partidos.

A veia política começou logo no bairro onde viviam, com a Associação dos Amigos do Choupal, que liderou. Mariza, nome fictício de uma moradora de um bairro vizinho, relata como, em 1999, por vezes se juntavam à sexta-feira à noite num bar, que tinha uma tela gigante e ficavam ali a discutir coisas do bairro. “Eu era mais nova e ficava atónita a ouvi-lo falar, tinhas umas ideias, umas certezas que nos interpelavam: ‘Este tio está a falar do quê?”

Depois, quando “Venancito” foi para a Universidade e chegou à “cidade”, no Alto Maié, a zona onde na quinta-feira teve um banho de multidão, destacou-se logo no prédio em que foi viver. Dedicou-se à questão do lixo, uma ‘guerra’ que tem marcado as ruas de Moçambique ultimamente como contestação de uma tarifa, e desde novembro como forma de protesto dos apoiantes de Mondlane que despejam detritos em várias instituições públicas.

Na década de 90, no pátio, havia “toneladas e toneladas de lixo, as pessoas jogavam-no para lá há anos, desde 1976, ninguém o podia usar, nem sequer estacionar”, descreve a irmã. E Venâncio começou a explicar que não podia ser. Criou uma associação, arranjou contribuições e removeram o lixo. O espaço foi limpo e ele eleito presidente do condomínio.

O grande passo para a política chega depois. Os textos que escrevia em vários jornais e revistas levam-no para a televisão e para a rádio e aí começa a ganhar visibilidade crescente. Pormenor: no primeiro episódio do programa A voz do povo, da TV Miramar, televisão privada da rede Record, Mondlane quem é entrevistado por Daniel Chapo, então jornalista e agora o candidato da Frelimo que toma posse esta quarta-feira como Presidente de Moçambique, lugar que Venâncio reivindica para si, desde 11 de outubro, dizendo que as eleições foram fraudulentas.

"A Frelimo chamou o meu pai, e ligava muitas vezes a ameaçar. O meu pai fez de tudo para o meu irmão parar. Começou por pedir para ele parar as críticas, depois ordenou, passou a chantagear, tentou tudo."
Irmã de Venâncio Mondlane

A pressão do pai Venâncio para deixar de criticar a Frelimo

Venâncio Mondlane destaca-se como comentador político em várias emissoras (TVM, a televisão estatal, mas também a STV, TIM, RDP-África, RTP-África). “Apresentou sempre o seu posicionamento de forma vibrante e sustentada”, escreveu Dércio Alfazema numa análise feita em agosto do percurso político dos candidatos presidenciais de 2024. As palavras incómodas para a Frelimo que vinha publicando em algumas colunas de jornais ganha outra dimensão e assusta o pai Venâncio.

“A Frelimo chamou o meu pai, e ligava muitas vezes a ameaçar. O meu pai fez de tudo para o meu irmão parar. Começou por pedir para ele parar as críticas, depois ordenou, passou a chantagear, tentou tudo”, relembra a irmã. Nada demoveu Venâncio. “Uma das caraterísticas do meu Presidente é ser muito fiel a ele mesmo, às suas convicções. Achava que alguém tinha de aparecer a dar uma opinião verdadeira acerca do que se passava no país e não uma repetição religiosa do que a Frelimo dizia”, justifica.

Ativista social  — em 2013 é convidado para o Leadership Program, iniciativa de Barack Obama, então Presidente dos Estados Unidos da América — e comentador, o passo seguinte foi natural. Entra ativamente na política. Primeiro a nível local, pela mão do MDM (Movimento Democrático de Moçambique, partido criado com dissidentes da Renamo, Resistência Nacional Moçambicana). É candidato a presidente do Conselho Municipal de Maputo e conseguiu, pela primeira vez, que a oposição ganhasse 42% dos lugares. E em 2015 chega à Assembleia da República como deputado do MDM, depois da Renamo.

▲ Venâncio Mondlane, de cabelo rapado, em 2013, na sua primeira campanha eleitoral, para a câmara de Maputo em que conseguiu um resultado histórico para o MDM

Foi no Parlamento que muitos académicos o conheceram de perto, realçando o nível de preparação de Venâncio Mondlane, praticamente inédito entre os deputados de então.

Como relator da Renamo,”confrontava assertivamente os ministros nas discussões de assuntos de desenvolvimento, do conflito em Cabo Delgado, etc.,” conta o coordenador do Observatório do Meio Rural, entidade que presta apoio a todos, governo, instituições, oposição, embaixadas, no seu intuito de influenciar políticas públicas. “VM7 era o que mais nos procurava para saber de estudos, de relatórios, que ele lia para sustentar as suas intervenções, embaraçando os ministros”.

A mesma experiência teve Egídio Chaimite, investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos. “Contactava as pessoas que tinham conhecimento dos processos, que o podiam ajudar a entender dossiês e isso no nosso contexto, em que os deputados são pouco informados, fazia a diferença”, diz ao Observador. E isso, adiciona, “trazia qualidade às suas intervenções”. Foi assim que as pessoas começaram a admirá-lo, continua João Feijó, porque conseguia “com substância, confrontar o governo”.

O economista Roberto Tibana, que o conheceu em 2015, por iniciativa de Venâncio, realça a “dedicação e o estudo extremos”. “Nunca vi político assim”, jura o académico com vasta experiência em vários países africanos.

O mistério dos “homens catana” : “O terror chegou aos bairros” de Moçambique, numa “agenda maquiavélica”

À eloquência, Venâncio Mondlane juntou ação. Desceu ao “caniço” (zona dos bairros de terra batida, por oposição à cidade do cimento, onde a camada mais privilegiada vivia) e a popularidade foi em crescendo. Não era uma estreia, não era um desconhecido.

As balas de esferas e a proteção das “mamanas”

“Certa vez, ele foi buscar-me à escola, eu com uns seis ou sete anos e ele com mais três. Como não havia transporte disponível, tivemos de voltar a pé. Passámos pelo aeroporto, em corta-mato, que na verdade nos levou à base aérea situada atrás do aeroporto. Os militares estavam em treinos e disparavam balas de esferas durante a noite”, recorda a irmã de Venâncio Mondlane.

“Essas balas são letais, e a cerca que delimita a base aérea é feita de uma rede de arame grosso (diferente da rede das capoeiras, que tem malhas menores). Quando os disparos começaram, o som do atrito do impacto das balas contra o arame soava como uma música chinesa. Nós, apenas duas crianças, não compreendíamos o que estava a acontecer. As mamanas [ou mamãs, como os moçambicanos chamam às vendedoras ambulantes da economia informal], que reconheciam o perigo, começaram a gritar e a correr, tentando proteger-nos como podiam”, lembra.

“Ao longo destes anos em que regressávamos a pé para casa, um percurso longo, de mais de uma hora, as mamanas sempre nos protegeram”, assinala. “Creio que a ligação com elas vem desde essa altura, em todas as campanhas e ao longo da sua vida política ele sempre as defendeu e elas sempre o apoiaram”.

Há fotos no Facebook de Venâncio Mondlane a moer amendoim no alguidar com as “mamanas”, abraçando-as, brincando com elas ou lutando por elas, como foi o caso do mercado Nwakakana, em que o governo teve que as indemnizar (quando a construção de uma ponte acabou com o seu espaço de venda) graças à intervenção persistente de Mondlane.

Na verdade, nos protestos que começaram em outubro nas ruas, com as vendedoras a ficarem sem negócio vários dias face às greves e contestação agendadas por Venâncio Mondlane, ou perante a destruição das bancas por agentes das forças de segurança ou pessoas em fuga da polícia, por exemplo, nunca se ouviu uma reclamação das “mamanas”. Em muitas das suas lives (comunicações em vídeo em direto nas redes sociais) Mondlane diversas vezes dirigiu palavras a estas mulheres.

Mas a grande base de apoio do candidato independente está nos jovens, que o conhecem bem. Pelo menos desde “a guerra dos campos de futebol”, menciona Roberto Tibana. Quando empresas e “ricos” quiseram ocupar espaços de lazer dos jovens com lojas e outros empreendimentos, acabando com os campos de futebol, Mondlane fez várias petições e muitas intervenções nos concelhos municipais até conseguir que eles tivessem os seus campos de futebol.

"Mondlane usa técnicas de condicionamento e orientação de massas e processos de infantilização das multidões, que muitas vezes não têm capacidades ou instrumentos intelectuais para poder avaliar um discurso."
Regio Conrado

Um outro momento importante foi a sua ação durante as cheias. Desceu aos bairros pobres, com águas estagnadas e casas inundadas, mas não foi sozinho. Levou câmaras de filmar atrás que o mostraram nos becos alagados, com água pela cintura, a levar crianças ao colo de um lado para o outro.”Os vídeos de cinco minutos dele nos bairros a denunciar as condições desumanas em que as pessoas viviam, piores do que nos tempos coloniais, tornavam-se virais”, diz João Feijó.

Assim “ia crescendo a ideia de um campeão entre os jovens, era o único, um oásis numa oposição sonolenta”, salienta o investigador. “A população encontra nele o único discurso que atende às suas angústias, aos seus problemas reais e começa a olhar para ele como um herói”, frisa.

Por isso, quando em 2023 concorre à câmara de Maputo pela Renamo, “já tendo importado o estilo de pastor evangélico para a política (orava, rogava pragas) ganha, ninguém tem dúvidas de que venceu”, assevera João Feijó, apesar dos resultados oficiais terem dado o município à Frelimo. Mas essa é outra história.

Dizia-se então que ele era “um candidato urbano, que o campo não o conhecia”, afirma Roberto Tibana. Mas quando, na campanha de 2024, ele chega lá, “os camponeses seguiam-no numa explosão de alegria, o nome mítico de Venâncio tinha-se alastrado pelo país”, diz o economista. Uma posição para a qual “se anda a preparar há muito tempo”, afirma Egídio Chaimite. Desde a juventude.

▲ Venâncio Mondlane descia aos bairros onde pegava nas crianças nas cheias, moía amendoim com as "mamanas" ou dava kits de comida a famintos

Descrente na juventude, pastor no século XXI, e a profecia do avô espiritual

“Ele sempre foi muito detalhista, vai ao pormenor, nós líamos uma, duas páginas de um livro e cansávamo-nos, ele lia o livro todo. Prepara-se bem, tem causas, tem princípios, sabe argumentar, gosta do povo. Por isso, quando o vi na televisão, e mais tarde deputado na Assembleia da República, disse à minha mulher: vai ser Presidente”.

O amigo frisa que Venâncio sempre estudou muito. “Investigava e partilhava connosco. Sempre influenciou pessoas e isso vê-se agora, o pensar político de muita gente mudou de há três meses para cá em Moçambique”.

Egídio Chaimite vai mas longe. “O movimento criado por ele mudou de uma vez por todas o cenário político. Moçambique nunca mais será igual depois do que vivemos.” As pessoas estão “mais ousadas”, a “consciência política aumentou e o discurso de resignação” deu lugar ao discurso da reivindicação. Com o slogan “nós temos direitos”, o “nível de desafio às autoridades mudou”. O que pode ser libertador ou trágico num regime de violenta repressão policial. “Sem nada a perder, estes jovens perderam o medo”, alerta João Feijó.

O que para o amigo Fernando Tinga é uma qualidade, é um problema para Régio Conrado, politólogo moçambicano que acusa Mondlane de “usar técnicas de condicionamento e orientação de massas, usando processos de infantilização das multidões, que muitas vezes não têm capacidades ou instrumentos intelectuais para poder avaliar um discurso”.

"Venâncio Mondlane é a figura que traz um incómodo que já era necessário para o nosso sistema, e o próprio regime, se recompor. E é um problema para a Frelimo, sem paralelo."
Egídio Chaimite

A “crise social aguda que o país atravessa, com grupos populacionais na miséria, faz com que muitos sejam sensíveis aos discursos populistas, ficando como que hipnotizados” por quem lhes promete uma vida melhor, sustenta o analista político próximo da Frelimo.

Régio Conrado equipara o que se passa em Moçambique com Venâncio Mondlane aos cenários que levaram à popularidade de “partidos de extrema direita, como o Chega, em Portugal, ou a AfD, na Alemanha”. Por exemplo, “analisando a estrutura dos seus discursos, diz muitas vezes ‘o meu povo’, insiste em que ele é a solução para os problemas, de que ele é o que vai mudar tudo, na base da ideia, não nova, das correntes populistas, de que o povo é uma propriedade pertencente a uma pessoa particular ao mesmo tempo que o seu discurso de mobilização se centra na ideia de que o povo é a base da sua governação”.

Apontando para este “discurso messiânico”, Conrado fala numa dimensão “chefal, quase ditatorial, em que as ordens são dadas de forma vertical” e de um modo “manipulador”, onde “a religião é usada para produzir a ideia da construção de uma nova sociedade” e ao “instrumentalizar a sua posição de pastor para criar uma relação vertical com o povo”. Uma caraterística que lhe parece “profundamente perigosa”.

O momento em que Venâncio Mondlane se ajoelha quando sai do aeroporto “de forma apoteótica” na quinta-feira passada, depois de regressar ao país do exílio para onde foi por razões de segurança e faz uma oração, é também questionada por Conrado. “Não sei o que isso significa para uma república laica, com muitas religiões e onde o chefe de Estado não se pode posicionar a favor de uma religião.

“Aos 19, 20 anos, ‘Venas’ já tinha lido a Bíblia três vezes, do Génesis ao Apocalipse, quando nós, desse livro, só sabíamos o nome”, admira-se ainda hoje Fernando Tinga. Por isso, quando soube que o amigo se tinha tornado pastor evangélico da Igreja Ministério Divina Esperança, não ficou admirado. “Ninguém lê a Bíblia tantas vezes sem ser influenciado pelo seu conteúdo”, defende.

A sua conversão cristã aconteceu muito mais tarde, já VM era bem adulto, teria uns quarenta anos, assegura a irmã. “Em jovem foi um total descrente em Deus, não queria saber nada de igrejas”. Isto apesar de em criança, ter ido a uma igreja católica próxima de casa, chegando a ser ajudante de catequista. “Lia então a Bíblia por interesse intelectual. Na sua fase da leitura dos filósofos gregos como Sócrates, Séneca, Platão — período em que passou a desaprovar romances, preferia aprofundar correntes didáticas, filosóficas e de investigação — começou a interessar-se pela filosofia bíblica, considerando Jesus Cristo um filósofo”, discorre a irmã. Ainda tem presente que, nas “brincadeiras em casa, mencionava muito Pôncio Pilatos”. Só depois do primeiro casamento, de que tem uma filha, já neste século (tem mais dois filhos do segundo matrimónio), terá descoberto verdadeiramente Deus.

Passou uma fase “desregrada, turbulenta, de muitas noitadas, más companhias, bebedeiras”, lamenta a irmã que chegou, junto com as outras irmãs, a ir para a discoteca Scala à sexta-feira à noite com Venâncio, que “dançava muito, fazia muitas macacadas”, para que o irmão “se sentisse abraçado, acompanhado”. E respirou de alívio quando, um ano depois, em 2012, soube que ele frequentava a Igreja Ministério Divina Esperança, de que se tornou pastor em 2015, quando já era deputado pelo MDM.

Esta igreja é liderada “pelo apóstolo Luís Fole”, “pai” espiritual de Mondlane (que o atual Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, chamou no auge dos protestos à Ponta Vermelha, sede da presidência) e seguidor do “profeta nigeriano Joshua Ingila”. Foi o “avô” espiritual de Venâncio quem fez uma profecia em outubro de 2022, num momento, no mínimo, exuberante, captado em vídeo. De fato claro e gravata amarela em cima de uma passadeira laranja, o nigeriano grita para o radiante político moçambicano que Venâncio “tinha nascido para dirigir”, no que é visto por alguns apoiantes como ter sido destinado à Presidência de Moçambique.

No ano a seguir, parecia que o caminho era para a câmara de Maputo, e não já para o palácio da Ponta Vermelha. Porém, isso não aconteceu e abriu uma convulsão (mais uma) na Renamo, de que alguns analistas responsabilizam Venâncio. Como se o homem seguidor de Sócrates, primeiro, e de Jesus Cristo, depois, fosse um furacão político que arrasa os partidos por onde passa.

Um “disruptor” ousado ou um “pesadelo para o país”

Venâncio Mondlane “é, sim, um fenómeno, um caso inusitado “, considera Egídio Chaimite, que tem estudado processos eleitorais. “Demonstra desde os seus tempos de deputado uma ousadia e coragem que não se enquadra em nenhuma das formações partidárias moçambicanas. Ele está para além delas, pela forma como faz política, sem bater as palmas e sem seguir o chefe. É um disruptor no nosso sistema”, qualifica o professor. “É a figura que traz um incómodo que já era necessário para o nosso sistema, e o próprio regime, se recompor”. Sendo que “é um problema para a Frelimo, sem paralelo”, alerta.

É “um problema para o país”, contrapõe o catedrático Elísio Macamo que sustenta que Mondlane está a introduzir uma forma nova de fazer política na oposição em Moçambique, que não é original, é a descrita por Anne Applebaum como “autocracia limitada, que usa o populismo e o polarismo para vencer”. Se bem que Dlakhama já a tivesse utilizado, “agora está a ser usada com sucesso pela oposição e a mobilizar muita gente, sobretudo os descontentes”.  Macamo compara Mondlane a “Jair Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA, Viktor Orbán na Hungria, ou Narendra Modi na Índia“.

"Se Venâncio subisse ao poder não ia mudar nada, até porque o que apontava à Frelimo, a intolerância à crítica, por exemplo, o movimento dele manifestou-a, atacando quem ousou criticá-los ou discordar."
Elísio Macamo

Está a dar-se uma “emocionalização muito grande de assuntos que, neste momento, precisam de uma reflexão crítica”: “Atravessamos um momento difícil em Moçambique e precisamos, de facto, de vozes políticas mais moderadas, mais calmas, mais frias, que olhem para os verdadeiros problemas de Moçambique. Que não são a Frelimo, nem a Renamo, nem Mondlane, é um problema da desfuncionalidade do sistema”.

“Quem tem acesso aos recursos do Estado tem tudo, ganhou na lotaria. E isso a Frelimo sempre teve, garantiu esse controle para a reprodução do seu próprio poder”, analisa. “E isso cria vícios, cria aquilo que se vê agora com muita clareza, que é a criminalização do Estado. As coisas sempre são feitas não no interesse do bem comum, mas sempre no interesse da acomodação daqueles que se apartaram do poder.”

O dia do regresso de Venâncio a Moçambique, o país que vai ter “dois presidentes”

No entanto, Macama não vê em Mondlane as condições para alterar este panorama.”Se, como está, com a Frelimo, não está bem, se como vai ficar, com a Frelimo, também não vai ficar bem (porque foi a gestão do poder político de Filipe Nyusi que nos trouxe até aqui), agora vai ser um pesadelo”. Esperar-se-ia “de uma oposição que fizesse as coisas de forma diferente, mas não, a alternativa parece até pior”.

Se Venâncio “subisse ao poder não ia mudar, até porque tudo o que criticava na Frelimo, a intolerância à crítica, por exemplo, o movimento dele manifestou-a, atacando quem ousou criticá-los”, refere o professor em Basileia. “Não traz um factor de mudança. As suas ações não se orientaram pelo respeito dos direitos fundamentais nos protestos, por exemplo. Marcou a contestação sem se preocupar com os direitos dos outros de irem à escola, ao trabalho, ao hospital, de fazerem os exames. Nunca se pronunciou claramente, de certa forma, direta, em relação aos excessos das pessoas que o apoiam, só como nota de rodapé. Se o tivesse feito, teria sido uma lufada de ar fresco de que o país precisa”, critica.

Venâncio Mondlane (C), candidato da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) para a cidade de Maputo, Moçambique, 12 de outubro de 2023. Milhares de pessoas, entre simpatizantes da Renamo e vendedores informais, saíram hoje à rua para reclamar “vitória” do candidato do principal partido de oposição nas eleições autárquicas na cidade de Maputo, embora sem confirmação da Comissão Nacional de Eleições (CNE). LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

▲ VM na campanha de 2023 pela Renamo. Ganhou Maputo mas um acordo entre o seu partido e a Frelimo deitou tudo a perder

LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

O sociólogo vai buscar a mais recente rutura de Mondlane com um partido para dar mais um exemplo, o Podemos (Partido Otimista para o Desenvolvimento de Moçambique) que o apoiou na candidatura presidencial e do qual se afastou depois de o líder ter dito que os seus 43 deputados eleitos iriam tomar posse. A decisão foi vista como uma traição de Albino Forquilha pelos apoiantes de Mondlane, e houve acusações mútuas dos dois líderes de terem violado o acordo pré-eleitoral. Forquilha disse em conferência de imprensa na semana passada que desde então os elementos do Podemos têm sido ameaçados pelos apoiantes de Mondlane. “Queixou-se de um terror enorme nas suas fileiras e não veio condenar essas atitudes, o que devia ter feito”.

Esta zanga com o Podemos reacendeu a ideia de que Mondlane não sabe viver dentro dos partidos. Dércio Alfazema invoca uma “personalidade narcisista, que não pode ter alguém acima de si”, revendo todos os casos anteriores. Em junho de 2018, quando era relator da bancada do MDM, abandonou o mandato “alegando incompatibilidades e constrangimentos que lhe foram impostos para prosseguir com as suas funções”. Depois zangou-se com a Renamo. “Vibrante, pela sua forma de fazer política as pessoas ligam-se a ele e causa razia aos partidos quando sai, tendo levado a Renamo para uma crise profunda”.

"O seu caráter faz com que não tenha muitos amigos na política. Tem um discurso de integridade. Os nossos políticos pensam no estômago, ele persegue a ideia de pátria e de amor pelo próximo e não amor pelo umbigo."
Fernando Tinga

Há uma outra leitura dos factos. “Mondlane tentou modernizar a Renamo, fazer dela um partido parlamentar, uma alternativa à Renamo militar ancorada na Gorongosa, usando as instituições para fazer luta política”, comenta João Feijó. Depois houve o contencioso eleitoral em 2023, em que Mondlane ganhou Maputo, a Frelimo disse que não, um tribunal deu-lhe razão em Xamanculo anulando as eleições, o Conselho Constitucional reverteu a decisão e, num acordo entre a Frelimo e a Renamo, perdeu Maputo. “Percebendo que pelas instituições não conseguia justiça, radicaliza-se nas ruas: houve protestos durante um mês quase todos os dias, não se viam molduras humanas assim desde Samora Machel”, recorda Feijó. Sentindo-se traído, tentou a direção do partido, foi impedido, contestou judicialmente as deliberações, o partido marcou um congresso no Alto Molocué, na Zambézia e Mondlane tenta concorrer aí à presidência da Renamo mas não o deixam entrar.

"Não temos dinheiro, não temos recursos, não temos carros. Só temos o povo e a nossa vontade."
Venâncio Mondlane

“Os comentadores deram-no como politicamente morto”, lembra Feijó, o que na verdade aconteceu várias vezes,  mas Mondlane “renasce sempre das cinzas, mais forte, qual fénix política, a população olha para ele como um Messias, tem um grande carinho por ele”, diz o coordenador do Observatório do Meio Rural.

“Só temos o povo e a vontade”

Cremildo Chichongue nunca se vai esquecer daquela reunião num café num hotel em Maputo. Conhecia Venâncio Mondlane há algum tempo, fazia parte da “task force que não concordava com as injustiças da Renamo” e há muito que insistia para que criasse um partido recebendo sempre como resposta um “não”. Naquela tarde, quando Mondlane desce derrotado da Zambézia, do congresso da Renamo de onde é excluido, aceita finalmente avançar.

Estavam em maio de 2024, as eleições eram dali a quase cinco meses. “Não temos dinheiro, não temos recursos, não temos carros. Só temos o povo e a nossa vontade”, disse Mondlane. Começou a recrutar pessoas. “A maioria não era política, eram pessoas inteligentes, não precisavam de ser licenciadas, tinham de ter vontade de trabalhar e correr o tempo necessário”, revela Chichongo. Não tinham tempo para criar um partido, mas precisavam de um para concorrer,  não queriam “assentos parlamentares, nada, só queríamos que o aceitassem como candidato e a possibilidade de influenciar esse partido com a linha política da candidatura”. Conseguiram o apoio da Coligação Aliança Democrática, mas a Comissão Nacional de Eleições recusou a candidatura por razões processuais.

Venâncio Mondlane, candidato presidencial moçambicano às eleições de 09 de outubro, durante a manifestação pacífica contra a exclusão da Coligação Aliança Democrática (CAD) da votação, em Maputo, Moçambique, 07 de agosto de 2024. Pouco mais de duas dezenas de pessoas reuniram-se hoje em Maputo com luvas pretas e mãos pintadas de preto para se manifestar contra a exclusão da CAD das eleições. LUÍSA NHANTUMBO/LUSA epa11650573 Presidential candidate Venancio Mondlane (C), supported by Podemos, shows his inked finger after casting his vote at a polling station in Maputo, Mozambique, 09 October 2024. More than 17.1 million Mozambican voters will choose the President of the Republic, provincial assemblies and their governors, and 250 members of the Assembly of the Republic. The National Elections Commission (CNE) approved lists of 35 political parties running for the Assembly of the Republic and 14 political parties and groups of citizen voters for provincial assemblies.  EPA/LUISA NHANTUMBO

▲ Venâncio Mondlane no protesto pela exclusão da CAD às eleições e depois de votar a 9 de outubro, apoiado pelo Podemos

LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

Nova busca por um partido enquanto Roberto Tibana, que se oferecera para colaborar no Manifesto eleitoral, avança no documento. Conseguem o apoio do Podemos. Mas Tibana abandona a equipa, não concorda com declarações de Forquilha que menorizam as mulheres nem com a pena de morte do manifesto do partido. Afinal, o acordo, confidencial, previa que o Manifesto seria o do candidato e não o do Podemos, mas Tibana não volta a integrar a equipa.

Se para uns este percurso mostra resiliência e perseverança, para outros mostra “ambição de poder, desejo de ser Presidente custe o que custar”, diz Dércio Alfazema. “De outubro de 2023 até junho de 2024, em menos de um ano, Venâncio concorreu para o cargo de Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, pretendia disputar o cargo de Presidente da Renamo e concorre para o cargo de Presidente da República. Desde 2013 nunca completou um ciclo político num partido e nem mandato para um órgão eleito. Tem-se mostrado pouco paciente nos processos dentro da linhagem de partidos conservadores como a Renamo ou mais liberais, como o MDM. O seu percurso é intenso e volátil”, escreveu no Policy Brief de agosto de 2024.

Venâncio Mondlane: “Disposto a morrer? Não vou ficar no exílio para sempre”

Depois de ter “sido uma desgraça para a Renamo, e já sem ninguém acima de si, já não leva ao caos nenhum partido, mas sim o país, com as suas ideias trágicas por conta do radicalismo na maneira de fazer política”, diz ao Observador Dércio Alfazema.

“É verdade que há uma grande ambição de poder e Venâncio acha que é melhor político do que os outros todos — e é”, admite João Feijó. “Tem noção do seu valor e da mediocridade dos outros, que têm problemas profundos com quem tem um estilo frontal, se alguém se insurge contra o chefe é afastado. Quem trabalha com ele diz que lhe falta algum cinismo necessário para singrar num partido”, afirma o investigador.

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▲ Foram maioritariamente jovens que foram receber Mondlane no seu regresso ao país

AFP via Getty Images

“No MDM havia discordâncias profundas entre o que os colegas defendiam e o que ele defendia como pessoa”, diz Cremildo Chichongue, que é o responsável de marketing do que se auto intitula “Presidente Eleito do Povo”. “Infelizmente, os partidos estão mergulhados numa promiscuidade muito forte com a Frelimo, fazem muitas negociatas entre eles”. Venâncio “é muito honesto e transparente, por isso é que é difícil a Frelimo encontrar na sua ficha um pingo de desonestidade”.

Para Fernando Tinga, tudo se explica “com o caráter peculiar de alguém íntegro e honesto que persegue aquilo em que acredita até ao fim e gasta aí as suas energias”.

O amigo da infância e faculdade de Mondlane defende que “o seu caráter faz com que não tenha muitos amigos na política”: “Tem um discurso de integridade. Os nossos políticos pensam no estômago, ele persegue a ideia de pátria e de amor pelo próximo e não amor pelo umbigo”. Assim, “vai sempre ter problemas”, sublinha, antes de fazer a pergunta retórica que justifica a dissidência de Mondlane dos partidos: “Vale a pena permanecer num barco com ideias antagónicas? Não, tem de se rodear de quem persegue a mesma luta que ele, a dos desfavorecidos”. Agora, avisa o amigo: “Nem sempre as pessoas que secundam estão preparados para a pedalada dele”.

“Ele não dorme” e a zanga de alguns por falta de telefonemas

Quando os outros irmãos a iam buscar à escola, “era uma tortura”. Não tinham paciência para os passos lentos da criança de seis ou sete anos. Mas quando essa responsabilidade tocava a “Vena”, “era uma alegria, porque ele é paciente, meigo, muito especial”, recorda ao Observador uma das irmãs do político.

Se Venâncio Mondlane conseguia em meados dos anos 80 respeitar o ritmo da irmã mais nova do que ele três anos, hoje tem outra urgência. Luta para aceitar o “ritmo mais lento de alguns elementos da sua equipa”, refere ao Observador Roberto Tibana. “Ele tem uma pedalada difícil de acompanhar e tem consciência disso”. Este pode ser um aspeto menos positivo do homem que galvaniza multidões nas ruas de Maputo (e não só) — “não há personalidade sem defeitos, mas não é relevante no contexto atual, não lhe tira nenhum mérito”, ressalva o académico.

"É inconsequente, irresponsável, não mede o poder que as suas palavras têm e pode levar à destruição do país."
Dercio Alfazema

Trabalhar com Mondlane pode não ser simples. Quando Tibana se ofereceu para o ajudar no Manifesto eleitoral, esteve várias semanas sem resposta. Depois, um dia, às quatro da manhã, sem antes falar com ele, recebeu uma mensagem a nomeá-lo coordenador do Manifesto, coisa que o economista não pedira. Depois veio o diálogo: “Olha, mestre, eu tenho um problema. Estou habituado a trabalhar sozinho, a minha equipa é muito pequena, muito jovem, muito inexperiente, estou acostumado a tomar as decisões sozinho”, disse Mondlane a Tibana. E a seguir, veio o pedido: “Ajuda-me a aprender a trabalhar em equipa, preciso de trabalhar mais em coletivo”.

O economista conta esta conversa ao Observador para acentuar que “ficou espantado”:  “Tem perfeita noção das suas limitações, tanto das pessoais como dos seus recursos”. Os últimos meses, em que, em parte incerta, primeiro no estrangeiro, desde quinta-feira no próprio país, talvez o tenham ensinado a depender mais da equipa. Mas talvez não o suficiente. Não discutiu com os colaboradores se devia voltar a Moçambique ou não. Segundo Tibana, uns dias antes de anunciar ao mundo que no dia 9 aterraria em Maputo, informou-os: “Vou voltar e já marquei o avião”.

Os hábitos de trabalho e a energia de jovem mantêm-se neste homem de 50 anos, alto e de cabelo farto: “Ele não dorme, passa a maior parte da noite a trabalhar, sempre com calhamaços, liga para todo o mundo, é muito dedicado”, descreve Cremildo Chichongue.

Supporters of presidential candidate Venâncio Mondlane, backed by the People's Democratic Party of Mozambique (PODEMOS), during a campaign event in Chimoio in Maputo, 02 October 2024. Mozambique is holding its seventh presidential elections on 9 October, in which the current head of state, Filipe Nyusi, who has reached the constitutional limit of two terms, is no longer running, at the same time as the seventh legislative elections and the fourth elections for provincial assemblies and governors.  JOSÉ COELHO/LUSA

JOSÉ COELHO/LUSA

Numa fase inicial da pré-campanha eleitoral, ligava para todos da equipa para saber como estavam. Porém, quando as horas do dia deixaram de ser suficientes para a campanha, por vezes com cinco comícios em 24 horas e uma agenda draconiana, deixou de telefonar. “E houve elementos da equipa que se zangaram, pediram uma reunião para falar disso, queixando-se de que já não era a mesma coisa, já não os saudava todos os dias”, conta este conselheiro (o mais jovem, de 31 anos) de Venâncio.

“É muito exigente, se alguém não cumprir as suas tarefas, ele não deixa passar em branco, pergunta como está o assunto e o que é preciso para o resolver”, salvaguarda ainda Cremildo.

Nesse tempo da campanha, ainda não tinha uma assistente pessoal. Chichongue, que é psicólogo de formação, insistia: “Senhor, a questão do sono é importante, se continuar a dormir, duas ou três horas isso vai ter sequelas”. Uma vez, tiveram de lhe tirar os telemóveis das mãos e obrigá-lo a dormir num sofá do escritório da campanha: quando ele acordou tinha mais de mil mensagens no WhatsApp só desse dia. “Aceitou ter uma secretária e começámos a filtrar as mensagens, ele via tudo, respondia a todos, atendia todos, não descartava ninguém, com esta obsessão de ser um livro aberto”.

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Mondlane empurrado para a radicalização, perdeu o discernimento

Para os críticos, como Regio Conrado, isto só mostra uma personalidade centrada. “É a cultura do chefe, do líder, do ‘só eu é que sei’. Não há trabalho de equipa, está tudo concentrado nele e há uma tendência para um discurso ditatorial, só ele é que aparece do movimento, tudo é feito para construir a imagem do Chefe”.

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▲ Chegada de Mondlane ao aeroporto de Maputo, na quinta-feira, dia 9 de janeiro

AFP via Getty Images

Dércio Alfazema carrega na mesma tecla: “É um quadro político insubordinável, fez acordos com o Podemos e não obedecia ao estipulado, Forquilha tinha de esperar pelas lives para saber o que ia acontecer, é uma pessoa difícil de assessorar”. Em suma, conclui o analista, “parece ser uma pessoa perigosa para a democracia, pois toma medidas sem medir bem as consequências, e depois assusta-se.”

Quando mataram o seu advogado e amigo com 25 balas, Elvino Dias, num dos momentos mais duros deste protestos para Venâncio, anunciou “25 dias de terror, criou o pânico na sociedade” e depois “não aceitou que tivesse lançado o terror”, irrita-se Alfazema. Diz ao “povo que o poder é do povo e depois há população a tomar a propriedade dos outros”, queixa-se o académico. “É inconsequente, irresponsável, não mede o poder que as suas palavras têm e pode levar à destruição do país”, adverte.

João Feijó acredita que Mondlane foi empurrado para a radicalização nas ruas, como de alguma forma a Renamo foi empurada pela Frelimo para a luta armada. Com a certeza de que ganhou as eleições, “entrou no estilo Trump, criou vários tipos de protestos, de limitações e atiçou a população”. Em outubro vai a Nampula onde tem uma grande manifestação que é proibida e ele desafia a polícia, cita a Constituição da República, suscitando a admiração dos apoiantes: “‘Este é um bravo!, dizem’”.

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Roberto Tibana tenta uma mediação entre a Frelimo e Mondlane. E enquanto este, que demora cinco horas a chegar ao esconderijo que o economista arranjou, porque tinha a casa cercada de blindados e polícias, “e andou a saltar muros e a fugir para chegar ao local de encontro”, está disponível para um diálogo, com várias cedências da sua parte, aceitando mesmo que a Frelimo governasse mediante certas condições, da outra parte o processo não avançou, revelou o economista publicamente no Facebook e recordou agora ao Observador.

“Fiquei impressionado com a devoção profunda em pensar primeiro nos interesses dos moçambicanos e em Moçambique, a convicção que tinha na sua mente e no seu coração”, sublinha o economista.

No dia seguinte ao encontro deu-se o grande choque.  Elvino Dias, o seu advogado, e Paulo Guambe, porta-voz do Podemos, são assassinados. Dois dias depois é Mondlane que é atacado com gás lacrimogéneo durante uma conferência de imprensa. “A mensagem da Frelimo é clara”, nota João Feijó, e ele sai do país, comanda os protestos através das lives, enquanto muda de lugar e de país com frequência.

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E, para João Feijó, vai perdendo algum discernimento, tal é a pressão a que está sujeito, “atiçando a população para a desobediência civil”, criando “um caos instrumentalizado” no país à espera, talvez, que os militares tomem a dianteira. O que não acontece. “Tem todo o sistema contra ele, apenas o povo sem armas do seu lado, isolado, com uma equipa pequena, inexperiente, politicamente e emotiva”. E vai “subindo a fasquia, percebe que consegue paralisar o país e começa a mostrar tiques autoritários”, entende João Feijó.

Comete então “erros políticos, como a tentativa de sabotagem da economia” e o pior chega com a fase TurboV8 em “que passa vários limites”. Entrega a ignição à presidente do Conselho Constitucional que teria de validar ou não as eleições. Seria dela o fósforo da TurboV8, se validasse as eleições iria incendiar o país. Lúcia Ribeiro avança para reconhecer a vitória da Frelimo e Daniel Chapo no dia 23 de dezembro, véspera de Natal, e os ânimos explodem. Há pilhagens, saques, destruição (provocada por manifestantes uma vezes, incentivada pelas autoridades, outras vezes). “Os dias 24 e 25 são de descontrolo e Mondlane em silêncio, aparecendo só quando os presos saem das cadeias”.

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Roberto Tibana não poderia estar mais em desacordo com os que adivinham traços de ditador em Venâncio Mondlane e incapacidade de trabalhar com quem pensa de forma diferente. Pelo contrário. Conta como, no seu encontro em outubro, Mondlane estava aberto a trabalhar com todos. “Não era nós e os outros, era todos juntos”. Ou como, antes, quando preparavam o manifesto, Venâncio lhe chegava com ideias muito diferentes. “Onde é que foste buscar isso?”, perguntava-lhe. A resposta surpreendia-o: “Eram contributos dos críticos dele, que o odiavam, mas a quem ele ia ouvir”. O professor revela ainda que enquanto ele não estava muito disponível para integrar num futuro governo membros de alguns dos outros partidos, Mondlane dizia que queria governar com todos, queria ter elementos da Renamo, da Frelimo, do MDM, por exemplo. “Eu vou ter os mais competentes, os mais patriotas”, prometia, segundo Tibana.

Domingo era para curar feridas, mas foi dia de caça às bruxas. Moçambique à espera de mais violência

Apesar de essas palavras terem sido ditas antes das centenas de mortes na repressão policial de manifestações pacíficas, Tibana acredita que o mesmo espírito congregador se mantém em Mondlane. Elísio Macama não tem essa fé: “A polarização é constante, a forma como se fala dos adversários políticos, tratados como criminosos, como inimigos, não é edificante. Justamente nesse momento em que parece haver uma oportunidade de podermos acertar um passo político eu esperaria que, de facto, o tom fosse diferente. E não é. Até chego a recear que, se um dia eles chegarem ao poder, haja uma caça às bruxas”.

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▲ Manifestantes pacíficos foram dispersos com gás lacrimogéneo em outubro em Maxaquene, subúrbio de Maputo

AFP via Getty Images

Fernando Tinga não partilha desse receio. Nem a irmã de Venâncio com quem o Observador falou. “O meu irmão sempre foi de causas e de proteger pessoas”, repete. “O foco dele são os mais vulneráveis, os que precisam de ajuda”. Um dia, recorda, estava na paragem do autocarro para regressar a casa, com “Vena”, que a tinha ido buscar à escola, quando viram o pai, de carro, deixar alguém do outro lado da estrada a quem tinha dado boleia. Correram os dois, quase foram atropelados, mas no momento em que chegavam perto, o pai arrancou sem os ver e seguiu o seu caminho. “Corremos atrás do carro um bom bocado, aquilo tinha uma inclinação, com os filhos a gritar atrás “Papá! Papá”. Em vão. Estavam a três horas a pé de casa. Nesses longos regressos a casa, perguntava à irmã se estava cansada. “Se eu dissesse que sim, ele dizia de 15 em 15 minutos para ter calma, que já estávamos a chegar. Se eu dizia que tinha sede, ele dizia para eu engolir a saliva de 15 em 15 minutos”.

Um novo caminho se estende agora para o pastor político. Este domingo chegava a notícia de que os deputados eleitos da oposição, com excepção do Podemos que o apoiou, não iriam tomar posse esta segunda-feira. Renamo e MDM, os partidos que deixou, parecem colocar-se do seu lado. Venâncio Mondlane voltou a marcar três dias de greve até ao dia da posse do seu rival político e no domingo mostrou-se disponível para “pacificação nacional” exigindo medidas concretas para isso. Será que ainda tem a cassete em que Samora dizia, “o poder não se conquista, arranca-se?”. Ou terá fixado a frase de Dlakhama, com quem se fez fotografar em 2018 na Gorongosa, “a Frelimo só aprende à porrada?”

Mariza não perdeu a fé. “Habituou-nos a golpes de génio”. Por isso confia no “tio” que a fascinava com “ideias fora da caixa” do bar do Choupal.

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