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Na semana passada, Pedro Nuno Santos reassumiu o lugar de deputado para o qual foi eleito em 2025 e prometeu juntar-se a Carneiro no combate contra a direita.
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Na semana passada, Pedro Nuno Santos reassumiu o lugar de deputado para o qual foi eleito em 2025 e prometeu juntar-se a Carneiro no combate contra a direita.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na semana passada, Pedro Nuno Santos reassumiu o lugar de deputado para o qual foi eleito em 2025 e prometeu juntar-se a Carneiro no combate contra a direita.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Novo partido à esquerda ou ilusão? Regresso de Pedro Nuno acende debate sobre Mélenchon à portuguesa

Com regresso em modo combativo de Pedro Nuno Santos, hipótese de novo partido de esquerda volta à discussão. O próprio nunca admitiu, Ferro diz que seria "tiro no pé" e Louçã considera "inviável".

O regresso de Pedro Nuno Santos ao Parlamento abriu o debate sobre as suas reais ambições políticas. Embora o antigo líder socialista assegure que regressa apenas para “ajudar a combater um Governo medíocre”, a sua postura incisiva — uma autêntica entrada a pés juntos sobre alguns socialistas — sugere pouco apetite pelo recato. Num cenário onde o regresso à liderança do PS parece um caminho bloqueado por más memórias ainda tão recentes, há quem lhe aponte a possibilidade de um projeto político próprio. Poderá a criação de um novo partido ser o próximo passo de quem tem especial apreço por este palco? Haverá espaço para isso à esquerda?

É, neste momento, uma ideia sobretudo hipotética, já que o próprio nunca falou dela e, quando foi questionado diretamente sobre isso, recusou-se a responder ao Observador. Quando se retirou do Parlamento, em outubro passado, para se dedicar à vida profissional na empresa da família, Pedro Nuno Santos não tinha nada disso na cabeça e era no PS que se enquadrava como político. Passados seis meses e o regresso ao Parlamento, onde reassumiu o seu lugar de deputado, um elemento próximo garante ao Observador que a ideia de o antigo líder do PS se aventurar com um novo partido “não está em cima da mesa”. A mesma fonte defende o regresso “legítimo” de Pedro Nuno a um lugar para o qual foi eleito há um ano e diz que o socialista regressa “livre” e com vontade de participar no combate à direita, mas no seu partido de sempre.

O próprio disse isto mesmo quando voltou ao Parlamento, mas nem por isso a ideia de uma nova força partidária saída das suas mãos deixou de ser falada. O ex-ministro da Cultura de António Costa, Pedro Adão e Silva escreveu um artigo no jornal Público, “O regresso estrondoso de Pedro Nuno Santos”, onde faz um exercício de antecipação política e diz que o próprio Pedro Nuno vai chegar à conclusão, “se for consequente com o que defende”, que o seu “posicionamento típico do populismo de esquerda”, o coloca perante um beco no PS em que a saída pode ser para outro lado.

“Um posicionamento típico do populismo de esquerda, como defendido por Pedro Nuno Santos e testado com insucesso noutras paragens” é “possível” e “viável” em Portugal, “mas não no espaço do PS, como demonstram os resultados com Pedro Nuno Santos ao leme.” Adão e Silva escreveu que “protagonizar esse espaço é politicamente viável, terá tração social e cultural, mas dificilmente poderá ser feito dentro do PS. Como Pedro Nuno Santos acabará por descobrir, se for consequente com o que defende estrategicamente”.

A ideia de um novo partido à esquerda do PS não tem, no entanto, tração entre antigos líderes e dirigentes da esquerda e especialistas ouvidos pelo Observador. “Julgo que nada disso faz sentido”, considera Eduardo Ferro Rodrigues. “Não tem viabilidade”, vaticina Francisco Louçã que usa a mesma formulação que José António Vieira da Silva na análise sobre a mesma possibilidade: “Não me parece nem que seja viável nem possível que outras forças venham a aparecer”.

“O país não ganhava nada com isso, já que em matérias essenciais seria um partido que estaria ao lado do PS”, considera o politólogo José Adelino Maltez que diz que o esquerdismo socialista teve sempre espaço dentro do próprio partido sem dramas . “O PS sempre teve memória jacobina e é melhor incluí-la no PS do que fazer experimentações, até porque não dá muitos votos”, argumenta em conversa com o Observador.

Ferro fala em “regresso diminuído” e no “tiro no pé” que seria fazer novo partido

O antigo líder socialista, Ferro Rodrigues, faz uma consideração crítica sobre o “regresso francamente diminuído” de Pedro Nuno Santos, considerando que nem isso “faz sentido”, “nem outro tiro no pé que seria tentar montar um novo partido. Para mim o populismo é da extrema direita, nunca de esquerda“, diz quando questionado sobre a existência de espaço para um novo partido à esquerda. Para Ferro, “o que se exige é firmeza nos princípios, causas e combates do PS pela democracia, o Estado de Direito, a desmontagem da aliança estratégica entre AD e Chega”.

Francisco Louçã, um dos fundadores do Bloco de Esquerda, rejeita o uso do termo “esquerda populista”, considerando a expressão “muito armadilhada”, já que “o único populismo realizado na Europa é o nazismo”. “O termo é armadilhado e é um perigo”, diz ao mesmo tempo que defende que “Pedro Nuno Santos nunca deu uma indicação nesse sentido” — da formação de uma nova força política. Quando confrontado com a ideia que está nas entrelinhas do artigo de opinião já citado, Louçã afirma que “mais parece uma estratégia adversarial em relação a ele [Pedro Nuno] dos seus opositores no PS”. Até porque, argumenta, “as suas declarações não suscitam essa ideia, mas o contrário: a convergência com José Luís Carneiro”.

De qualquer forma, também Louçã aparece pouco convencido sobre um partido nesta área política onde o único “sentimento” que diz verificar, nesta altura, é “para novas formas de convergência e dinâmicas novas” entre os partidos da esquerda que já existem. “Se alguém fundasse um novo partido seria facilmente visto como uma tentativa fútil”, argumenta acrescentando ainda a dimensão de impacto à esquerda: “Seria acrescentar fragmentação às dificuldades, acrescentar poeira” a esta área política.

Mas a ideia nem sequer é de hoje e já chegou a ser explorada, de certa maneira, por Daniel Oliveira, num artigo publicado no jornal Expresso em novembro do ano passado. Ainda que não fale num novo partido, o comentador antigo bloquista e fundador do Movimento 3D (que pretendia congregar a esquerda), aconselhou reflexão. “A erosão do PS apenas degradará o ambiente político para resistir. O futuro não é por aí. Nem Livre, nem PCP, nem BE, reduzidos a menos de 9%, estão, por si só, em condições de criar um polo popular que se bata pelo voto atraído pelo Chega”, escreveu o comentador que é próximo de Pedro Nuno Santos.

“Não sei, nem é isso que agora interessa, quem pode construir este polo e o papel de cada um destes partidos. Sei que não é partindo o PS ou unindo pequenas forças que lá chegam. É fazendo o que o Chega fez: ir para lá dessas contas, criando ‘novo’ eleitorado“, acrescentava, deixando no ar a necessidade de uma cartada fresca para salvar o campo da esquerda na sequência das perdas sofridas nos últimos atos eleitorais.

Semelhanças com Mélenchon, mas um choque decisivo com essa esquerda populista

O caso francês de Jean‑Luc Mélenchon, que rompeu com o PS francês em 2008 para fundar primeiro o Partido de Esquerda e mais tarde o movimento França Insubmissa, é por vezes citado como exemplo de uma fuga pela esquerda ao espaço socialista tradicional. E uma solução de refrescamento nesta área política. Mas o contexto francês – de um PS que estava em colapso – está longe da situação portuguesa, em que o PS continua a ser o núcleo da esquerda e, apesar da queda eleitoral estrondosa em 2025, segurou eleitorado nas autárquicas de 2025 e teve um antigo líder do partido eleito Presidente da República entretanto.

“A comparação com França é muito complicada“, avisa Louçã que detalha que Mélenchon “criou um partido radical num país radicalizado e quando havia um vazio do PS”. “Na altura em que a França Insubmissa se tornou a força mais importante da esquerda, o PS francês estava reduzido a 10%, não se compara com a dificuldade do PS em Portugal”, analisa num paralelismo direto entre as duas realidades.

epa11449063 Jean Luc Melenchon (LFI) speaks during the New Popular Front Rally after the first round of the early parliamentary elections at Place de la Republique in Paris, France, 30 June 2024. According to exit polls, France's far right National Rally has made significant gains in the first round of parliamentary elections. The second round of the elections for a new Parliament is to be held on 07 July 2024.  EPA/JULIEN MATTIA

JULIEN MATTIA/EPA

José Adelino Maltez recua às origens para dizer que o “PS português não tem nada a ver com o francês, que quando se fundou implicou uma aliança entre vários socialismos”. “Em Portugal, Mário Soares era à esquerda às segundas, quartas e sextas e social-democrata às terças, quintas e sábados. Ele próprio exercia essa duplicidade, sem ela o PS não é o PS”, diz para sublinhar a importância da coexistência dentro do PS de uma ala mais à esquerda e de uma mais centrista. Além disso, o espaço à esquerda do PS parece já ocupado, em Portugal. “Espaço há sempre, mas essa função tem sido desempenhada pelo Bloco de Esquerda e por Rui Tavares, que também entrou nesta mesma zona”, refere o politólogo. “A natureza do PS sempre foi desta dinâmica interna e sofreu quando essa função começou a ser desempenhada pelo BE. Faz parte do jogo esta dialética no PS mas ninguém se aventura a uma dissidência”, acredita.

Quanto a eventuais semelhanças de perfil entre Pedro Nuno e Mélenchon, elas existem, mas também chocam e em pontos importantes, desde logo no posicionamento face à União Europeia. Os dois têm um estilo de intervenção direto e polarizador muito semelhante, ambos contestam uma esquerda morna e mais centrista e os dois protagonizaram (em escalas diferentes) frentes de esquerda: no caso de Pedro Nuno foi o pivot da “geringonça” de António Costa e Mélenchon enfrentou Macron, em 2022 e em 2024, com alianças que contribuíram para o sucesso da reafirmação da esquerda em França, através da Nova União Popular Ecológica e Social (que juntou a França Insubmissa, o PS, os comunistas e os verdes) — cujo porta-voz, na altura, até disse ter sido inspirada na “geringonça”.

Se há coisa que Pedro Nuno Santos reafirmou neste regresso — e agora que está solto de amarras eleitorais e da necessidade de passar um perfil mais controlado — é o posicionamento crítico face a um PS instalado no centrão. Mas mostrou-se conformado com essa diferença face ao líder que está em funções, quando sublinhou o que os separa e se afirmou “um social-democrata de esquerda, que defende um Estado forte. Não sou adepto, e nunca serei adepto, de nenhuma estratégia centrista”. E, ao mesmo tempo, revelou-se também confortável dentro do PS, partido em que milita desde a juventude (e no qual já ocupou praticamente todos os cargos) e onde sempre manteve um forte entrosamento com o aparelho. Logo aqui bem distante da ideia anti-sistema que Mélenchon cultivou para cortar com os socialistas, em 2008. Um mais rebelde, mas dentro das instituições, o outro contra as mesmas instituições.

Mas a distância maior está nos conteúdos em relação à União Europeia e mesmo à NATO. Mélenchon já defendeu a saída da França da NATO e é um crítico feroz da União Europeia. O líder da esquerda radical francesa é contra uma Europa “neoliberal” e os tratados orçamentais que impõem regras as estados-membros, defendendo até a desobediência. Já Pedro Nuno é um crítico de políticas concretas, mas parte de uma adesão estrutural ao projeto europeu — já lá vai o tempo em que, entre 2011 e 2012, assumia posições mais duras no PS contra as regras e as condições impostas pela troika e pelos credores europeus.

E a questão europeia não é de somenos em Portugal, “país fortemente crente nas virtudes da União Europeia”, como descreve Vieira da Silva que aponta este como um dos fatores que dificultam o aparecimento de uma frente de esquerda populista no país. “É um facto reconhecido que existe uma crise na metade da esquerda na generalidade dos países europeus e há sempre a possibilidade e outro tipo de alinhamento”, reconhece o socialista. “Mas em Portugal, pela importância do projeto europeu e do enraizamento local, não me parece que seja viável nem possível que outras forças venham a aparecer”, acrescenta.

A questão do “enraizamento local”, referido por Vieira da Silva, é a força autárquica do PS, um capital importante e a preservar. “A base territorial é um sustentáculo muito forte” para um partido, assinala o socialista. “Dá uma capacidade de atração muito difícil de contrariar”, diz. Esse poder implantado no terreno, a rede de lealdades e recursos, torna menos apelativa qualquer aventura de rutura. Até porque essa malha de autarcas e estruturas de base ajuda a fixar eleitores e quadros e dificulta o aparecimento de uma nova força, pelo menos, com escala nacional. José Adelino Maltez também aponta o mesmo fator de “representação no terreno” como dissuasor de uma rutura no PS. “Não me parece que em Portugal exista espaço” para a esquerda populista. Mas também avisa para a condição que pode abrir esse espaço: “Só se o PS falhar.”

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

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