O Ministério da Educação tinha 11.500 professores convocados para classificar os exames nacionais de forma digital. Mas, esta quinta-feira, na véspera da data alternativa para as notas serem finalmente apresentadas aos alunos, Fernando Alexandre veio “pedir ajuda” para que os classificadores “continuem disponíveis” para corrigir os itens em falta e para que seja possível concluir o processo de avaliações. O ministro diz que não há professores para avaliar provas, e os professores respondem que o prazo expirou e, agora, colocam-se de fora alegando uma defesa do “rigor” das avaliações. O suposto último dia antes da divulgação das notas foi ainda marcado por informações prestadas pelo EduQA aos professores que acabaram desmentidas pelo Ministério sobre o acesso dos alunos às suas provas digitalizadas. Fernando Alexandre mantém a data de anúncio da data para divulgar as notas — mas afinal será só “à tarde”.
Em causa, no pedido de “ajuda” de Fernando Alexandre, ao início do dia desta quinta-feira, está o fim do prazo da convocatória dos docentes para as funções de classificadores. Um professor convocado para classificar um exame é legalmente obrigado a aceitar fazê-lo. Mas, quando o prazo dessa convocatória expira, pode recusar essa tarefa. É isso que estará agora a acontecer, explica a representante do movimento Missão Escola Pública (MEP), acrescentando que os docentes que se estão a excluir da correção de exames o fazem por quererem “salvaguardar o seu rigor e profissionalismo”.
Montenegro nega “caos” nos exames: “há problemas, que gostaríamos que não existissem”
“Não há professores [disponíveis] agora porque, neste momento, já terminou o prazo de classificação”, explica ao Observador Cristina Mota. “Esta falta de professores que o ministro alega diz respeito ao facto de ele estar a convocar professores fora do prazo”, pelo que não é possível que “coloque itens [na plataforma de correção] como fez até agora, porque os professores já terminaram o processo”.
Provas por avaliar são redistribuídas em caso de impedimento
De acordo com a representante do Movimento Escola Pública, as convocatórias são feitas por agrupamento. “Nas escolas, é pedido que se defina um representante de cada grupo disciplinar. Esse representante preenche um documento em que indica o nome dos professores e cada um deles é classificado com letras de A a C”, diz. Se tivermos como exemplo Matemática — que inclui os exames de Matemática A, Matemática B e Matemática Aplicada às Ciências Sociais —, a cada professor que leciona uma destas disciplinas será atribuída uma das seguintes letras:
- A — leciona a disciplina no corrente ano;
- B — lecionou nos últimos dois anos;
- C — lecionou há mais de três anos.
Depois, o representante deste grupo “envia a informação para os agrupamentos de exame, com a indicação também de professores que estejam de férias, baixa, ou afetos a outro serviço”, continua a dirigente do MEP.
Com base na lista entregue, os agrupamentos de exame convocam então os professores para serem classificadores, convocatória essa que “são sempre obrigados a aceitar”, até porque “a classificação tem serviços mínimos”. A única exceção, diz, é se for apresentada uma justificação de faltas, como é o caso de uma baixa médica ou da morte de um familiar.
E se um professor se mostrar incapaz de continuar a classificar a meio do processo? Nesse caso, os itens ainda por corrigir são “distribuídos” por outros classificadores. “Os itens que ficam pendentes são redistribuídos por outros professores. Temos relatos disso, de professores que receberam itens novos. Normalmente, os itens vão diretamente para um classificador [por exemplo, um suplente], mas quando não há classificadores disponíveis são redistribuídos por outros”, explica.
Cristina Mota diz saber ainda que alguns professores se recusaram a enviar classificações de itens que estão incompletos porque a folha de continuação não apareceu. Nesses casos, diz, “não sabemos se depois os itens foram distribuídos”.
Não fica claro, no entanto, quanto tempo pode levar a que um conjunto de itens entregues a um classificador lhe seja retirado, quando não há condições para avaliar essas provas, e seja depois distribuído por outro(s) professor(es).
Com as “condições oferecidas”, professores preferem “salvaguardar rigor” e recusam avaliar mais exames
Do total de convocatórias enviadas este ano — que se terá fixado em 11.500, divulgou o Ministério da Educação —, alguns dos professores terão ficado como suplentes, podendo ou não ser chamados a classificar provas. O processo, neste aspeto, é igual ao de anos anteriores.
Desta convocatória que os professores recebem consta “a data limite” do seu serviço, data essa que foi entretanto estendida até à passada terça-feira pelo Ministério da Educação. A partir daí, os professores podem escolher classificar ou não mais itens.
O problema, diz a dirigente da Missão Escola Pública, é que, “tendo em conta as condições oferecidas” aos professores nesta fase do processo — nomeadamente, poderem receber “centenas de itens” para corrigir em menos de 24 horas —, os classificadores acabam por recusar a tarefa. Porque, justifica Cristina Mota, “querem salvaguardar o seu rigor e profissionalismo”.
Na opinião da líder do movimento cívico, agora “há falta de classificadores porque o processo não foi devidamente preparado”, concretamente porque os itens não foram distribuídos todos ao mesmo tempo, mas sim a “conta-gotas”, aponta Cristina Mota. Face aos problemas técnicos que se registaram nas duas plataformas de digitalização e correção dos exames, foi necessário corrigir vários erros nas provas ao longo deste processo, o que atrasou a distribuição dos itens por todos os professores. A consequência é clara: quando o prazo inicial da correção estava a chegar ao fim, ainda sobravam itens por corrigir.
Até porque, ressalva a dirigente do MEP, “alguns dos itens agora distribuídos foram digitalizados há pouco tempo”. Para Cristina Mota, na base dos problemas das últimas horas está a “falta de planeamento” de todo o processo. E há ainda um outro detalhe, acrescenta Cristina Mota: “Mesmo os professores que aceitam [continuar a classificar] estão com constrangimentos a aceder à plataforma. Receberam ontem [quarta-feira] à noite mais itens e hoje de manhã [esta quinta] não conseguiam aceder.”
E mesmo a falta de professores que se fez sentir ao longo do ano letivo agravou a necessidade de classificadores para os exames nacionais, considera ainda a também professora de Matemática. Relembrando que o Ministério da Educação continua, até agora, sem conseguir adiantar quantos alunos ficaram sem professor a pelo menos uma disciplina no último ano, Cristina Mota considera “óbvio que a falta de professores” se reflita agora “em várias vertentes”. “Até porque a prioridade é escolher aqueles que têm mais experiência a lecionar, pelo que os recém-chegados ao ensino ficam de fora destas convocatórias”, conclui.
Ministério “não consegue monitorizar” progresso dos professores
Há cerca de uma semana, o ministro da Educação anunciou que os professores classificadores seriam monitorizados, com o objetivo de o EduQA e o Júri Nacional de Exame poderem acompanhar o progresso de trabalho de cada docente. Questionada sobre se esta monitorização está também a influenciar a distribuição de mais itens por certos professores que, por exemplo, tenham concluído de forma mais célere a correção dos itens que lhes tinham sido entregues, a representante do MEP nega.
Até porque, “na prática”, o Ministério da Educação “não consegue” monitorizar nenhum progresso, já que “a plataforma permite ao professor fazer o download dos itens a corrigir e classificar em papel”, justifica.
“O facto de o professor não estar ligado online não quer dizer que não esteja a trabalhar”, diz Cristina Mota, destacando que “há professores que optaram” por corrigir tudo à mão e dá como exemplo a composição do exame nacional de Português. O professor “tem de contar as palavras e os erros e é mais fácil corrigir à mão, para ir apontando e no final contabilizar”.
Ministério acabou a contradizer EduQA sobre acesso dos alunos às provas digitalizadas
Depois de as provas estarem corrigidas, as notas deverão ser afixadas nas escolas. Ao mesmo tempo, nesta sexta-feira, se os prazos forem cumpridos, os encarregados de educação deverão receber um email com o link a que podem aceder para consultar os exames realizados pelos alunos — era isso, pelo menos, que estava previsto e tinha sido anunciado pelo Ministério da Educação. O próprio primeiro-ministro defendeu, esta quinta-feira, no debate do Estado da Nação, a “transparência” de todo o processo de avaliações, recusando a ideia de “caos” nos exames. A confusão instalou-se pouco depois.
Esta quinta-feira, na primeira sessão de esclarecimento que manteve (às 14h30) com os diretores escolares sobre a próxima fase das avaliações (precisamente, o acesso às notas e folhas de exame), o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) referiu que o acesso às provas só será facultado após pedido apresentado pelos alunos (ou encarregados de educação).
“Estava convencido de que enviaríamos para todos”, disse logo o presidente da ANDAEP à Agência Lusa sobre a disponibilização das provas. Ao Observador, Filinto Lima já tinha dado essa garantia. “O ministro disse-nos isso na reunião que tivemos na segunda-feira. Só vamos precisar do email do encarregado de educação e do número convencional e introduzimos isso na plataforma e a prova vai diretamente para o email do pai do aluno.”
Mas duas horas depois, na segunda sessão de esclarecimento, a informação mudou e já ficava ao critério das escolas se o acesso às provas digitalizadas era ou não geral. Ao Observador, o Ministério da Educação indicou o seguinte ao fim da tarde de quinta-feira: “Os alunos vão ter acesso à sua prova digitalizada em PDF, através das escolas. Esse envio pode ser por iniciativa da escola ou a pedido do aluno, conforme se explicou na segunda sessão informativa do EduQA hoje realizada, às 16h00. A mesma informação será explicitada no envio que o EduQA fará às escolas, com o guião de utilização da plataforma.”
Cerca das 20 horas, esse guião ainda não tinha chegado às escolas.
Diretores e Escola Pública pedem adiamento do calendário
No final do debate sobre o estado da Nação, o ministro Fernando Alexandre mostrava-se confiante de que as notas dos exames do secundário serão mesmo dadas a conhecer esta sexta-feira. À hora a que o ministro falou, já perto das 21h, os portões já estavam fechados e os professores e pessoal técnico já tinham abandonado as escolas e seguido para casa. No Parlamento, o ministro insistia: as notas serão divulgadas dia 17 — mas já só da parte da tarde.
“Tivemos uma excelente recetividade [dos professores], as avaliações estão a decorrer e estamos muito confiantes que amanhã [sexta-feira] à tarde publicaremos as notas de todas as disciplinas”, disse o responsável pela Educação, numa declaração brevíssima e sem respostas aos jornalistas que o questionavam sobre um eventual “plano B” para a eventual não divulgação de notas. Fernando Alexandre ficou em silêncio e abandonou os Passos Perdidos.
Mas há quem defenda que o ministro volte a olhar para o calendário e que tome uma decisão. Desde que os primeiros constrangimentos se registaram, a Missão Escola Pública tem insistido na necessidade de serem adiados todos os prazos que constavam no plano (já não inicial, mas a segunda versão). Agora, em declarações à Rádio Observador, volta a fazê-lo — e propõe até que essa alteração tenha reflexos na candidatura ao Ensino Superior.
“O mais prudente seria adiarmos o prazo da afixação das pautas”, começa por dizer Cristina Mota, referindo-se a esta sexta-feira, 17 de julho. Um prazo que o ministro da Educação já assumiu que pode não conseguir cumprir, pelos “riscos” de a fase de avaliações não ficar concluída a tempo. Cristina Mota propõe também “adiarmos o prazo da segunda fase e adiarmos, até, o calendário de acesso ao Ensino Superior, para que esta primeira fase se concluísse de uma forma menos prejudicial a todo o processo”.
Já o representante dos diretores, Filinto Lima, pede que “esta pressão que está a ser feita aos professores” garanta obrigatoriamente “a qualidade da classificação” dos exames. Caso contrário, é melhor adotar outras medidas.
“Se [o ministro da Educação] garantir a qualidade da classificação com as pautas afixadas amanhã, que o faça. Se não, que adie mais algum tempo [a afixação das pautas] e não vem mal nenhum ao mundo”, afirmou o diretor da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas.
Ao que o Observador apurou, esta quinta-feira algumas provas chegaram às escolas: é o caso das de Geometria Descritiva A e de Desenho A, que foram realizadas nas antigas folhas de resposta e, por isso, não passaram pelo processo de digitalização. Foi, por isso, fácil desfazer-lhes o anonimato e preparar as notas, mas faltam todas as outras. Até cerca das 20 horas, as escolas não sabiam o que fazer quanto a um dos dias mais esperados pelos estudantes, o da afixação das notas nas vitrines. O que se segue, ainda é incerto.
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