Pedro Nuno Santos e Inês Sousa Real, que inauguraram os debates deste sábado, discordaram em bastantes áreas dos seus programas eleitorais. Logo para começar, sobre a proposta de baixar o IRC, com o secretário geral do PS a dizer que não se devem premiar “transversalmente todas as empresas” nem “dar borlas fiscais” a “empresas que não precisam delas” e a falar dos “lucros recorde” da banca ou das energéticas. Um discurso que levou a líder do PAN a comentar que “parecia estar a debater com o Bloco de Esquerda”.

Divergências também ao nível dos impostos sobre os combustíveis, nos transportes e ainda sobre a habitação. Por muito que Pedro Nuno Santos fosse dizendo que estava com o PAN em certas medidas, Inês Sousa Real mostrava sempre o que os separava. O que o levou a fazer um novo apelo ao voto: “Quando ganhamos cumprimos mesmo, por isso é importante o PS ganhar estas eleições”.

Já no debate mais à esquerda, Paulo Raimundo começou por resumir de forma fácil o que iria acontecer nos 30 minutos de frente a frente com Mariana Mortágua: “Há mais em que temos estado de acordo do que em desacordo”. A coordenadora do Bloco respondeu-lhe no mesmo tom: “O adversário do Bloco é a direita e não o PCP”. Dado o tom, falaram de taxar os ricos, de habitação e rendas, imigração (e a ideologia vs as últimas polémicas) e defesa.

Depois veio a pergunta sobre entendimentos para a governabilidade, ao que Maria Mortágua respondeu “cá estamos”. Já Paulo Raimundo foi menos definitivo: “Estamos disponíveis para quem romper com as políticas que nos trouxeram até aqui”.

Este domingo há mais dois debates. Às 21h00, na SIC, Nuno Melo comparece pela segunda vez como representante da AD: desta vez o líder da CDS terá de enfrentar o PAN, que ainda não confirmou se manterá Inês Sousa Real ou enviará algum outro representante. Uma hora depois, na CNN, é a vez dos dois Rui’s, Rui Rocha (IL) e Rui Tavares (Livre) estarem frente a frente. Pode ver o calendário completo dos debates aqui.

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Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.

Pedro Nuno Santos (PS)-Inês Sousa Real (PAN)

Filomena Martins — Pedro Nuno Santos, este novo líder do PS mais moderado e simpático, focado em ganhar votos ao centro, começou logo por elogiar a compreensão de Inês Sousa Real, que aceitou debater com 300 kms pelo meio. Ela em Lisboa e ele no Porto. Valeu-lhe de pouco. Não tardou muito e a líder do PAN estava a dizer que lhe parecia estar a debater com alguém do Bloco de Esquerda a propósito do IRC e das “borlas fiscais” que ele não quer dar às “empresas com lucros recorde”. Mas não houve problema. A frase serviu até de bom pretexto para Pedro Nuno insistir que não era um “radical”. Os antigos amigos do Bloco não devem ter gostado. E foi assim o tempo todo. Pedro Nuno Santos defendeu o automóvel, que “ainda faz falta as famílias”, perante uma Inês Sousa Real que, com foco no ambiente, mexeria já de bom grado no ISP. O líder do PS teve aí a pilhéria do debate: lembrar que é preciso equilibrar a vontade daqueles que querem “evitar chegar ao fim do mundo com o dos outros, os que querem chegar ao fim do mês”.
Na habitação, na fiscalidade, o socialista teve sempre como preocupação falar para o eleitor moderado, aquele que, terá percebido finalmente agora, ganha eleições. Embalado pelas (duas) boas sondagens recentes, esteve liberto e sorridente, perante uma Sousa Real que usa e abusa, a propósito de tudo, de lembrar as numerosas iniciativas parlamentares do seu partido, de que é deputada-única. Pedro Nuno não ganhou por KO, mas mostrou que o partido à esquerda ali foi, é, o PAN. A ver se voltam os votos que em 2024 foram desaguar no PSD/AD.

Pedro Jorge Castro — O antigo ministro da TAP e da CP não quis ou não pôde dar-se ao desconforto de apanhar um avião ou um comboio para estar no mesmo estúdio que Inês Sousa Real e perdeu um bocadinho com isso, pese embora o seu ar compungido a agradecer a possibilidade de o duelo ser feito à distância. (Caramba, se estiveram os dois no Porto hoje mesmo, podiam ter combinado isto melhor e ter feito o debate na capital do norte, frente a frente.) Pedro Nuno Santos até largou uma frase bem ensaiada para este debate (sobre a necessidade de compatibilizar quem está preocupado com o fim do mundo com quem está preocupado em chegar ao fim do mês); e aproveitou para atacar as responsabilidades da AD no problema crescente da habitação; mas saiu-lhe mal a tirada de que se o país tivesse começado há 20 ou 30 anos a fazer o que começou há cinco a situação estaria melhor — ora, o PS governou em 20 dos últimos 30 anos. O líder socialista esteve menos bem do que nos debates anteriores, sofreu uma ligeira quebra da aura ascendente que estava a impulsioná-lo. Cumpriu os mínimos para vencer a líder do PAN, mas talvez não tenha sido tão proveitoso na caça aos indecisos. Ressurgiu com mais vigor a dúvida sobre o seu radicalismo, uma imagem que ele devia ter tentado contrariar melhor — ainda por cima quando tinha à sua frente uma das líderes políticas com propostas mais radicais, algo que Pedro Nuno Santos nem se deu ao trabalho de explorar. Fez mal.
Inês Sousa Real passou muito melhor pelo teste do que seria de esperar, foi eficaz a dar o golpe de encostar o adversário à extrema esquerda na diabolização das empresas e do lucro. Baralhou-se no desporto com a frase sobre marcar golo e atirar à tabela, pelo que podemos dizer que marcou cestos de longe que produziram belo efeito para manter a claque a bater palmas, mas não foram suficientes para vencer no final.

Miguel Santos Carrapatoso — O debate menos conseguido de Pedro Nuno Santos nesta temporada. Não que tenha cometido erros flagrantes contra a adversária, mas porque não foi tão acutilante e seguro como tem sido — o facto de ter estado à distância não ajudou, seguramente. Ainda assim, para os eleitores que podem estar indecisos entre votar PS e PAN, e num momento de especial pressão sobre os rendimentos das famílias e de enorme incerteza mundial, o líder socialista deixou uma frase de belo efeito e que de resto já tinha usado na apresentação do programa do PS: “É fundamental que se consiga conciliar quem está preocupado com o fim do mundo com quem quer chegar ao fim do mês”. No final do dia, é isso que conta para a grande maioria dos eleitores — o tal centrão que o socialista quer conquistar. Inês Sousa Real foi marcando alguns pontos, sobretudo quando colou, por duas vezes, PS a PSD, dizendo que ambos os partidos prometem muito em campanha e fazem pouco quando chegam ao poder. Mas Sousa Real sofre de um problema de forma: é uma imparável “picareta falante”. Fala tanto e de tanta coisa ao mesmo tempo que é quase impossível fixar uma ideia distintiva do PAN. Menos seria mais. Bem mais.

Rui Pedro Antunes — Há um ano, Pedro Nuno Santos atacou Inês Sousa Real por não ser de esquerda nem de direita. Agora não o fez porque estrategicamente — ainda para mais em canal aberto — quer ser visto como figura do centrão moderado. Mas isso não lhe correu bem. Não era o debate ideal para o líder do PS brilhar e, de facto, não brilhou. Foi o pior dos três debates que fez e que lhe estavam a correr lindamente. Sousa Real foi eficaz a destruir a ideia do Pedro Nuno centrista, ao obrigá-lo a dizer que era contra o IRC e a falar em “borlas fiscais” para as grandes empresas. E atirou onde mais doía a quem quer passar como moderado: “Pensei que estava a debater com o BE e não o PS, porque está a diabolizar as empresas”. Pedro Nuno ainda tentou rebater apelando ao bolso, com a proposta do IVA zero em bens essenciais. Problema: o PAN já o tinha proposto e o PS votou contra. Passou como plagiador programático e incoerente. Mas se a estratégia de recentramento não correu bem, a de segurar o eleitorado que já reconquistou ao Bloco de Esquerda também falhou. Sousa Real forçou Pedro Nuno a defender o carro e, não sendo um negacionista ambiental, mostrou a imagem de alguém que está muito aquém das ambições dos jovens sonhadores que querem salvar o mundo. Esses, os anti-fósseis, ambientalistas, e afins preferirão agora votar no PAN ou no BE do que em Pedro Nuno. O novo PNS (Pedro Nuno dos Soundbites) ainda tentou salvar o momento com uma frase marcante (“estamos preocupados com o equilíbrio entre o fim do mês e o fim do mundo”), mas também não resultou. Além disso, Pedro Nuno é um animal político. Ganha sempre em estar presente num estúdio e usar a sua ginga e experiência política. Ao não estar, perdeu. Sousa Real poderá não ter ganho muitos votos, mas foi competente.

Mariana Mortágua (Bloco)-Paulo Raimundo (CDU)

Filomena Martins — Era o debate dos radicais. Os tais da esquerda que, segundo as sondagens, estão a ver o seu eleitorado escorregar, devagarinho, para Rui Tavares. E o líder do Livre, que não é distraído, deve ter assistido de balde de pipocas na mão. Porque entre Mariana Mortágua e Paulo Raimundo houve mais tentativas de marcar posição do que propriamente vontade de esfaquear o camarada do lado. Mariana até se esqueceu de apresentar a Ucrânia como uma divergência. Ainda assim, sobraram cortes — finos, ideológicos e certeiros. Mortágua foi direta ao que separa o BE da CDU: não se esqueceu da eutanásia. Sobre a geringonça e falar com o PS, Mortágua foi direta com o seu “no dia seguinte cá estaremos” e Raimundo tergiversou com as políticas e não respondeu. Depois, voltaram à mesma pista. Na economia, ambos a falar claro: é preciso taxar os ricos. Mariana até quantificou, deixou os nomes e teve aquele momento clássico de esquerda urbana e indignada, a dizer que os impostos são todos ideológicos — como quem explica o mundo num cartaz de protesto. Raimundo, surpreendentemente mais estruturado, foi à raiz das contas públicas e defendeu contas certas, mas “em função das necessidades do povo”. Estaline sorriu algures. Na habitação, também sintonia. Teto às rendas? Sim. Construir? Também. Combater o alojamento local e os hotéis de luxo? Claro. Mas Mortágua foi mais emocional: lembrou que quem ganha mil euros hoje nem aluga, nem compra, nem respira. E respondeu a Pedro Nuno Santos com recado incluído: “É deixar tudo andar, não há nada a fazer? Não pode ser!” Raimundo puxou pela lei dos solos e culpou, sem hesitação, a banca e os fundos imobiliários. Dois caminhos diferentes para a mesma casa — ambos com telhado e crítica à especulação. E depois, o SEF. Tema sensível, onde Mortágua subiu o tom e disse que o PSD se está a aproximar do Chega, com o PS atrás, em modo reboque. Raimundo, mais contido, apontou o dedo à extinção do SEF, dizendo que não resolveu nada e até piorou. Mas nenhum caiu na armadilha do populismo. Imigrantes, para os dois, são essenciais — e dizer o contrário é ceder ao discurso tóxico da direita. Já a ética de Luís Montenegro mereceu um quase acordo de silêncio. Ambos disseram o essencial: criticar sem se demorar. Foi daqueles momentos em que se percebe que o tema incomoda, mas ninguém quer parecer justiceiro de horário nobre.

Miguel Santos Carrapatoso — Num debate entre dois adversários que assumiram, abertamente e logo à partida, que é muito mais aquilo que os une do que aquilo que os separa, era ainda mais importante o factor “eficácia”. E Mariana Mortágua foi largamente mais eficaz em explicar as propostas do Bloco de Esquerda do que Paulo Raimundo a falar sobre as ideias do PCP. Aliás, o líder comunista, não só se enrolou nas habituais frases redondas, sem qualquer concretização prática e programática, como andou quase sempre a reboque da coordenadora bloquista, que foi desfiando com clareza as propostas que o partido tem e que devem ser julgadas pelos eleitores. Em cima de tudo isto, Mariana Mortágua conseguiu por duas ou três vezes ao longo do debate atacar Pedro Nuno Santos, em particular na questão da Habitação. Os dois partidos, que, além de atravessarem uma crise de identidade, são recorrentemente vítimas do efeito do voto útil no PS, tinham aqui uma oportunidade de provar quem tem a estamina necessária para ser uma alternativa e, mais tarde, influenciar Pedro Nuno Santos à esquerda. Raimundo esqueceu-se de ir a jogo; Mortágua fez prova de vida. E a diferença só não foi maior porque a bloquista poupou o adversário-aliado. Resta saber se não se arrependerá no futuro de não ter feito hoje uma verdadeira demonstração de força. Estava claramente ao seu alcance.

Ricardo Conceição — Os debates sobre o ananás na pizza são mais acesos do que este embate entre o secretário-geral do PCP e a coordenadora do BE. Em determinados momentos, Paulo Raimundo e Mariana Mortágua terminaram as frases um do outro. Ambos assumiram que estão separados pelo peso da História e em matérias a que podemos considerar mais ou menos fracturantes, como a lei da paridade ou da eutanásia. Terá sido a prestação menos conseguida de Paulo Raimundo, que estava a melhorar. Mariana Mortágua não foi particularmente agressiva e talvez, também por isso, não derrotou Raimundo por K.O. A coordenadora do BE ganha nos pontos, porque esteve um pedacinho melhor. Teve boas frases e consegue falar melhor ao eleitorado jovem. Paulo Raimundo voltou à bobina de fita magnética. Sim, essa que era usada antes das cassetes. Para partidos que precisam de votos e muitos, ambos ficaram aquém das necessidades.

Sara Antunes de Oliveira — Mariana Mortágua (quase) abriu o debate com Paulo Raimundo a dizer que “todos os impostos são ideológicos” e chegámos ao fim com a sensação de que, nas propostas do Bloco de Esquerda e do PCP, as medidas parecem ser mesmo todas ideológicas — do corte no dinheiro pago às PPP rodoviárias (como se depois não fosse preciso construir e manter as autoestradas…) ao imposto sobre os mais ricos. Como ambos reconheceram logo no início, é pouco o que os separa. Talvez por isso, o debate quase tenha sido mais contra o PS (que fugiu para a direita) e contra o Governo (por causa de Luís Montenegro) do que um contra o outro. A grande perplexidade, porém, é que falaram ambos para o próprio eleitorado — uma estratégia arriscada, tendo em conta os resultados que têm tido em sucessivas eleições.

Recorde aqui as notas dos debates:

Luís Montenegro-Paulo Raimundo e André Ventura-Inês Sousa Real

Pedro Nuno Santos-Mariana Mortágua e André Ventura-Rui Tavares

Paulo Raimundo-Rui Tavares

Pedro Nuno Santos-Rui Rocha e Mariana Mortágua-Inês Sousa Real

Nuno Melo-Isabel Mendes Lopes e Rui Rocha-Paulo Raimundo