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JOSÉ COELHO/LUSA

JOSÉ COELHO/LUSA

Odisseia 2021. Rio disposto a governar mesmo sem vencer eleições /premium

Bloco de direita tem condições para se entender, mas há muitos riscos e obstáculos a considerar. À cabeça, a grande desconfiança entre os diferentes líderes. Rui Rio quer juntar as peças. Conseguirá?

Rui Rio está disponível para liderar uma futura maioria de direita se esta vier a surgir no quadro de futuras eleições legislativas — mesmo que o PSD seja a segunda força mais votada. A convicção que existe no núcleo duro do líder social-democrata é de que António Costa escolheu um lado — o da esquerda — e que já não existem condições políticas para influenciar a governação socialista. Consciente de que a tendência registada nas sucessivas sondagens dá como improvável uma vitória do PSD sobre os socialistas a curto e médio prazo, o quartel-general de Rio já vai olhando para todas as opções — e repetir o que António Costa fez em 2015 não está, de todo, excluído.

“Há um antes e um depois dos Açores. A campanha infame que o PS fez contra nós… A relação política entre Rui Rio e António Costa mudou. O PS está em pré-campanha eleitoral e nós vamos estar prontos para isso”, diz ao Observador um alto dirigente social-democrata. “E ninguém deve esquecer: quanto mais pressionado se sente Rui Rio, mais o seu sentido político fica apurado.”

De outra forma, vão cenarizando os homens de Rui Rio, o PS seria eternizado no poder. Em 2018, quando enfrentou Pedro Santana Lopes pela liderança do PSD, Rio chegou a dizer, preto no branco, que jamais faria ao PS o que António Costa fez a Pedro Passos Coelho. Daí para cá, o líder social-democrata afirmou, por diversas vezes, que, na impossibilidade de ganhar, o grande objetivo do PSD teria de ser afastar Bloco de Esquerda e PCP da esfera do poder. A disponibilidade para negociar com o PS chegou a valer-lhe acusações de “muleta de Costa” para cima. No entanto, para a direção do PSD, é já por demais evidente que António Costa preferiu dinamitar qualquer ponte com o PSD a tentar desenhar ao centro reformas indispensáveis para o país. E Rui Rio foi obrigado a ajustar a estratégia. A disponibilidade para ser primeiro-ministro mesmo sem ganhar eleições não é uma incoerência face a posições anteriores; é uma evolução. E uma resposta ao mundo novo construído por António Costa.

Para já, todas as conjeturas são isso mesmo: conjeturas. Não existe uma única sondagem que dê maioria ao bloco das direitas, há uma grande imprevisibilidade em torno do calendário eleitoral e cada partido à sua maneira enfrenta dificuldades. O PSD continua sem descolar, o CDS arrisca-se a desaparecer, o Chega manifesta evidentes dores de crescimento e a Iniciativa Liberal mantém-se estável mas curta. Pior: todos desconfiam de todos. O PSD não compreende Francisco Rodrigues dos Santos e está escaldado com a sede de protagonismo de André Ventura. O CDS sente-se traído pela forma como Rui Rio entregou os pontos ao Chega nos Açores e despreza Ventura. O Chega quer crescer à custa de todos e a todo custo. A Iniciativa Liberal sente-se parte de outro filme, mas terá de desempenhar o papel que lhe for reservado. Apesar de tudo, a direita quer governar; mas estará pronta?

O calendário como vantagem

O plano de Rui Rio começou pouco antes das legislativas e estava a surtir efeitos na primeira fase desta legislatura — a pandemia, no entanto, obrigou a reorientar a estratégia. Em poucos meses, Rui Rio passou da guerrilha política — chumbo ao novo regime das Parcerias Público-Privadas (PPP), bloqueio do aeroporto do Montijo e braço de ferro no IVA da Luz — ao espírito de salvação nacional. O Orçamento do Estado para 2021, e o travão a novas injeções de capital no Novo Banco, marcou o regresso à estratégia definida no arranque da legislatura. Rio está a jogar ao ataque.

À direita, a convicção que existe é de que o castelo de cartas de António Costa está a ruir. Politicamente, a deserção do Bloco de Esquerda (palavras do primeiro-ministro) deixou a ‘geringonça’ ligada às máquinas; a pressão das autárquicas fará o resto junto do PCP, que não se pode dar ao luxo de perder mais câmaras e influência local para o PS. Bruxelas fechou os olhos às regras dos tratados europeus mas não é certo que o venha a fazer quando, em Portugal, começar a ser discutido o próximo Orçamento do Estado para 2022. Contas feitas, a folga que permitiu seduzir o PCP pode não existir no próximo ano. Na economia, os efeitos da segunda e, mais do que provável, terceira vaga serão dramáticos, e o Governo, acreditam os sociais-democratas, não desenhou um quadro de respostas à altura. Pior: vendeu o sonho da bazuca europeia como a bala de prata para a crise sabendo que demorará meses a surtir efeito.

MÁRIO CRUZ/LUSA

O mesmo vale para o plano sanitário: a gestão de expectativas em relação à vacina, “como se tudo voltasse ao normal no momento em que chegar a primeira dose”, está a ser um “desastre”, critica um membro da direção do CDS. E, no plano social, é de esperar que as coisas se compliquem, até pela pressão das ruas — de sindicatos e movimentos inorgânicos, como aquele que se juntou às portas da Assembleia da República. Cereja no topo do bolo, enquanto enfrenta a crise dentro de portas, António Costa terá, até junho, a presidência da União Europeia nas mãos. “Já se sente um enorme desgaste no Governo. Faço ideia o que serão aqueles Conselhos de Ministros. Com o ‘chefe fora’ vai ser ainda pior”, completa ao Observador um alto dirigente social-democrata.

Autárquicas serão teste à unidade

Sente-se o cheiro a sangue na água. Ou o tal princípio de fim de ciclo socialista. E o líder do PSD sabe-o. Na última entrevista que deu, à TVI, Rui Rio assumiu, com uma clareza inédita, que não acreditava que o Governo fosse capaz de aguentar até ao final da legislatura e que se sentia mais perto de ser primeiro-ministro. 2021 é o ano de Rio. Assim espera, pelo menos, o núcleo duro do presidente social-democrata.

Na moção que levou ao congresso que o reconfirmou como líder, em janeiro de 2020, Rui Rio já era clarinho: “Se conseguirmos concretizar com sucesso as linhas estratégicas que acabámos de enunciar, poderemos assumir que a partir de 2021 o PSD estará em condições reforçadas para governar Portugal”. É certo que o contexto sonhado era muito diferente. Mas a ideia é a mesma. O quartel-general de Rio tem como adquirido que o desgaste de cinco anos de governação terá como pináculo as eleições autárquicas de 2021. Costa, tal como Guterres 20 anos antes, cairá com o choque; ou, no pior dos cenários, acentuará o seu declínio tal como Cavaco Silva, em 1993.

As autárquicas são, por isso, de vital importância para o PSD. Não é difícil explicar porquê: em 15 anos, os sociais-democratas perderam o controlo de quase 60 autarquias. Sem uma forte implementação local, onde se estabelecem vínculos sólidos entre eleitores e eleitos, onde se pode reconstruir uma identificação com o partido, pouco ou nada de estrutural pode mudar no xadrez político.

Rui Rio não se cansa de lembrar isso mesmo. Ainda assim, olhando para o mapa autárquico, não é fácil antecipar grandes transformações. Nos 25 concelhos mais populosos, o PSD apenas controla sete e é improvável que venha a conquistar mais bastiões. É pouco provável, para dizer o mínimo, que Lisboa (Fernando Medina), Sintra (Basílio Horta), Gaia (Eduardo Vítor Rodrigues), Porto (Rui Moreira) ou Matosinhos (Luísa Salgueiro), por exemplo, caiam para o lado social-democrata. Além disso, a grande maioria dos autarcas socialistas está a meio de um ciclo que começou em 2013, com António José Seguro, e em condições de se candidatar em 2021, o que torna ainda mais difícil a existência de grandes revoluções no mapa autárquico.

Mesmo moderando as expectativas — Rio já assumiu que o objetivo primeiro, mais do que ganhar as autárquicas, é crescer em número de mandatos –, os sociais-democratas sabem que precisam de ganhar tração. E vão dando sinais de querer forjar alianças, a nível local, com as outras forças à direita, CDS, Iniciativa Liberal e Chega. Se com os dois primeiros partidos não existem anticorpos de maior (no caso do CDS só mesmo os ‘irritantes’ de Lisboa e Porto, onde os dois partidos continuam a medir-se), o partido de André Ventura já merece alguma cautela.

A forma como o líder do Chega geriu todo o dossiê dos Açores embaraçou e irritou a direção do PSD, que se viu forçada a explicar várias vezes e a várias vozes que não havia acordo nacional entre os dois partidos. Existe, por esta altura, a noção exata do carácter imprevisível de André Ventura e a certeza de que o líder do Chega vai aproveitar todas as janelas de oportunidade para fazer croquetes — para tentar crescer à custa do PSD, leia-se. O próximo ano, até às autárquicas, e as eventuais coligações pós-eleitorais que daí resultem serão testes ao espírito de compromisso de André Ventura.

PCP: um fator imprevisível

Nesse sentido, a aliança nos Açores, mesmo sendo irrepetível nos termos em que foi desenhada, teve, pelo menos, uma vantagem: ajudou a tornar mais claro o tabuleiro político. Resta saber se essa clarificação trouxe mais vantagens do que riscos.

Os sinais que saíram do Congresso do PCP apontam mais para segunda hipótese: os comunistas estão conscientes de que a queda do PS pode significar, tal como em 2011, a ascensão de uma maioria de direita; e manifestaram vontade de continuar a fazer parte de uma solução de poder. O Bloco, apesar do evidente divórcio com o PS, já vai ensaiando essa mesma narrativa. António Costa, por sua vez, está a aproveitar todos os intervalos entre os pingos da chuva para dizer ‘ou nós ou o caos à direita’. Se derrubar Pedro Passos Coelho foi o cimento que uniu a esquerda em 2015, neutralizar André Ventura pode ser a cola para uma qualquer forma de geringonça 3.0.

O statement de Jerónimo de Sousa acabou por baralhar as contas do PSD, que contava que os comunistas se pusessem ao “fresco” tal como o Bloco de Esquerda (novamente, palavras de António Costa) à primeira oportunidade. A lealdade do PCP pode atirar a crise política para lá de 2021, mas, mesmo entres os sociais-democratas mais pessimistas, há quem não subestime o lado tático de António Costa: “Já o tentou com a crise dos professores, ainda no verão ameaçou que se demitia… Se se sentir bloqueado, é o próprio que vai precipitar uma crise política. Com ou sem o PCP no barco.”

Aos olhos de alguns responsáveis do CDS e Iniciativa Liberal, a facilidade com que Rui Rio abraçou o Chega também causou desconforto. “Mesmo que indevida e até injusta, a colagem ao Chega pode provocar estragos. A forma como [a ‘geringonça’ açoriana’] foi comunicada, com avanços e recuos, de forma pouco clara, dá ideia de que é um passo completamente natural para o PSD. E isso é um erro”, lamenta um dirigente do CDS ao Observador. “Em política, a perceção é tudo. E há uma parte do eleitorado que pode fugir se perceber que estamos todos alegremente no mesmo barco. Não estamos”, completa fonte da Iniciativa Liberal.

Se derrubar Pedro Passos Coelho foi o cimento que uniu a esquerda em 2015, neutralizar André Ventura pode ser a cola para uma qualquer forma de geringonça 3.0.

Perder o centro não é hipótese

Esse é, de facto, o maior risco que o PSD enfrenta. Rui Rio afirmou-se como o líder que queria devolver o partido ao centro onde, até prova em contrário, se conquistam eleições. O crescimento de partidos à direita não só não preocupava como era visto como vantajoso pela direção social-democrata: com o PSD disposto a disputar o centro (e até o centro-esquerda) com o PS, era vantajoso que os restantes partidos conquistassem votos à direita, um campeonato em que o PSD não queria (nem quer) concorrer.

A verdade é que a aliança nos Açores veio dificultar a transmissão da mensagem. À esquerda, a dramatização é brutal e Rui Rio tem centrado as suas últimas intervenções públicas a explicar que uma coisa é seguir a agenda do Chega outra é aceitar medidas do Chega que são convergentes com a agenda do PSD. “Reconhecemos o risco e sabemos que a máquina de comunicação socialista é brutal. Mas não nos mexemos um centímetro em relação à nossa matriz”, assegura ao Observador fonte da direção social-democrata. Ninguém ignora, no entanto, que este será um tema difícil para gerir até à campanha e durante a corrida eleitoral.

Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, também está em francas dificuldades. Nas penúltimas legislativas a que foi a votos sozinho, em 2011, o partido era particularmente forte entre o eleitorado urbano, jovem e instruído. Essa vantagem esfumou-se, como comprova o estudo conduzido pelos investigadores Pedro Magalhães, Jorge Fernandes, Mafalda Pratas Fernandes, Bruno Martins e Miguel Monteiro, publicado no Expresso, onde se notava outra dinâmica evidente: o CDS registou maiores perdas nos concelhos onde a Iniciativa Liberal foi mais forte.

A última sondagem dava 1% ao CDS. As anteriores, mesmo sendo ligeiramente mais simpáticas, estavam em linha com os piores resultados de sempre do partido. Ensanduichado entre a agenda liberal da Iniciativa e a agenda mais musculada do Chega, o partido continua em aparente agonia. E, tal como Rio, Rodrigues dos Santos é sucessivamente obrigado a vir a jogo explicar o que o distingue de André Ventura. O tema queima.

O partido de João Cotrim Figueiredo mantém a estratégia traçada desde o minuto zero. Nas próximas legislativas, vai procurar consolidar a posição nos dois maiores círculos eleitorais — Lisboa e Porto — e tentar reforçar a penetração noutros distritos como Braga, Aveiro, Setúbal e Coimbra. “A estratégia é solidez. Não entrar em corridas desenfreadas ou oportunismos. Estamos há meses consecutivos acima dos 2% nas sondagens, dentro do que era expectável. Um crescimento sustentável, à semelhança do que tiveram o Bloco de Esquerda e o PAN”, nota ao Observador fonte da Iniciativa Liberal.

O objetivo assumido é eleger um grupo parlamentar com três ou mais deputados. Com uma vantagem decisiva face a PSD e a CDS, acreditam os estrategos da Iniciativa Liberal: ao contrário do que acontece com os dois partidos tradicionais de direita, não há confusões sobre o espaço que o partido quer ocupar e o que não quer ocupar — o do Chega não é seguramente. Mas a estratégia, por mais sustentável que pretenda ser, tem riscos. Num quadro de uma maioria de direita, o peso relativo de cada partido será fundamental para condicionar a governação. Sem relevância aritmética, pode criar-se a perceção de que o voto no partido é um voto perdido.

O caso de André Ventura é diferente. O líder do Chega, como se viu na mais recente entrevista ao Público/Rádio Renascença, está apostado em tornar-se a maior força política à direita em oito anos. Particularmente atrativo para os eleitores na faixa etária dos 25 aos 44 anos, com forte presença entre os mais instruídos, e relativamente transversal — conseguiu os melhores resultados em regiões de baixa densidade populacional, especialmente no Alentejo, mas também em grandes urbes, nomeadamente nos subúrbios de Lisboa –, dispõe de margem para crescer e prova disso são as sondagens. A última, da Aximage/JN, dava o Chega com 7,5%, a única força à direita a crescer face ao último barómetro.

De todo o modo, nem André Ventura, o líder que diz querer romper com o sistema, se livra dos vícios que identifica no sistema — como se viu nos Açores, aliás. Assim que se tornou evidente que o partido tinha uma oportunidade para fazer parte do poder no arquipélago, as garantias de Ventura de que o partido estava indisponível para apoiar aquela solução quase fizeram implodir o Chega/Açores. Só um recuo do líder em toda a linha evitou a demissão dos deputados eleitos na região. Ventura está a conduzir o seu one man show e isso tem, até ver, cumprido os seus intentos. Mas a máquina do Chega está a ficar pesada.

Obrigado, PSD!

Para os dirigentes da Iniciativa Liberal e, em particular, do Chega a aliança nos Açores trouxe uma novidade que pode ser um game changer para os dois partidos: se se tornou evidente para todos que o PSD não hesitará em governar com o apoio da direita, o efeito do voto útil pode diluir-se. De uma forma ou de outra, pode instalar-se a perceção de que o voto nos outros partidos à direita não é um voto desperdiçado — no final do dia, a direita acabará por se entender e juntar os trapinhos para governar.

Se a Iniciativa e o Chega ganharam estatuto de parceiros viáveis, o CDS perdeu o estatuto de parceiro único à direita — o que, num momento de crise de identidade, pode acentuar ainda mais o declínio do partido. Basta ver o que aconteceu nos Açores: ao contrário dos outros dois partidos, o CDS, mesmo sob a ameaça teórica da extinção, conseguiu sobreviver e faz agora parte do governo; mas poucos se lembram disso. À direita do CDS, como sempre sonhou Paulo Portas, deixou de existir apenas uma parede. E isso tem um preço.

A nova correlação de forças preocupa o PSD. Apesar das diferenças, no estilo e na estratégia, Rui Rio não ignora que o CDS é o parceiro de sempre dos sociais-democratas, um aliado de confiança e estável. E uma coisa é liderar uma maioria com o CDS sólido e os outros dois partidos a amadurecer; outra muito diferente é controlar um bloco com um Chega musculado, uma Iniciativa Liberal a fazer prova de força e um CDS moribundo. No núcleo duro de Rio, no entanto, assume-se a impotência: a afirmação do CDS depende de Francisco Rodrigues dos Santos e não de Rui Rio.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A vertigem de Ventura

A direita está, por isso, a medir-se. Rui Rio, que é quem tem a chave de qualquer maioria nesse espaço político, já definiu as regras do jogo: “Nunca um Governo meu estará nas mãos do Chega“. Os sociais-democratas não descartam contar com o apoio parlamentar do partido de André ventura, sempre que for possível convergir; mas nunca para integrar um Executivo social-democrata.

André Ventura não se ficou. Em entrevista ao Público/Renascença, o líder do Chega subiu a parada e exigiu fazer formalmente parte de qualquer governo de direita. “A nível nacional ouvi Rui Rio dizer: comigo o Chega não entrará no governo. Então, se o Chega não entrará no governo de Rui Rio, Rui Rio nunca será primeiro-ministro de Portugal“, atirou.

Ora, o salto em frente de Ventura pode inviabilizar qualquer solução à direita — além de Rio, CDS e Iniciativa Liberal já deram provas de que não estão dispostos a fazer parte de um governo alargado com o Chega. Tudo dependerá, mais uma vez, da aritmética parlamentar — e da segurança do bluff de cada um.

A vez de Marcelo

O segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa é, apesar de todas as cautelas que a personalidade política do antigo líder do PSD inspira, um fator que vai entrando na equação dos partidos mais à direita. A expectativa é a de que depois de um primeiro mandato marcado pela alegre coabitação com António Costa, o Presidente da República tenha um segundo mandato mais duro e exigente para com o Governo socialista — como tem acontecido nos segundos mandatos presidenciais.

Ninguém, nem mesmo entre o Chega, espera que Marcelo derive para uma estratégia de oposição aberta ao Governo socialista a partir de janeiro. Mas uma nova atitude do Chefe de Estado perante António Costa pode ajudar a tornar mais evidentes as falhas do Governo. E ser o combustível que a direita precisa para virar o tabuleiro a seu favor.

Os sinais que Marcelo vai deixando nas conversas com os partidos à direita apontam para uma descrença em relação à capacidade de resiliência de António Costa. A legislatura pode estar perto do fim e há vontade de agarrar a oportunidade. Como?

Uma agenda comum, mas insuficiente

Numa análise rápida dos programas eleitorais dos quatro partidos, para lá das diferenças que existem, há quatro prioridades que são comuns: a redução da carga fiscal, um outro olhar para o papel das empresas na economia, a reforma da Administração Pública e o combate à corrupção. Um terreno partilhado que pode permitir à direita construir os alicerces de um projeto comum.

Uma agenda assente nestes eixos pode, no entanto, não ser suficiente para convencer, por si só, os eleitores. Nos estudos de opinião que têm sido realizados, o combate à corrupção e o estado da Saúde surgem, de forma sistemática, como os temas que mais preocupam os portugueses. A redução dos impostos, apesar de ser a grande bandeira dos partidos mais à direita, não era, pelo menos até à crise pandémica, a grande prioridade dos eleitores. Não que este aparente desencontro seja uma drama: historicamente, os portugueses decidem com base nas avaliações que fazem do Governo, na simpatia que nutrem por um determinado líder e com base no estado da Economia. Ou, como vem simplificando Rui Rio, “as eleições não se ganham; perdem-se”.

Ainda assim, mesmo entre os homens do líder social-democrata existe o entendimento de que é preciso convencer uma parte do eleitorado que deixou de confiar no PSD: os mais velhos e pensionistas. É também por aqui que se explica a grande fixação de Rui Rio de falar para o “centro” e de insistir na tese de que o partido não é de direita. Romper com o legado de Pedro Passos Coelho foi, mais do que um ato de profunda convicção, um movimento tático.

Percebe-se porquê. De acordo com a investigação “As Bases Sociais dos Partidos Portugueses”, de João Cancela e Pedro Magalhães, “em, 2015 e 2019, observa-se um claro enfraquecimento da posição relativa dos partidos de centro-direita junto do eleitorado [mais velho]. É difícil não atribuir essa mudança a uma reação negativa destes eleitores às medidas adotadas durante a aplicação do plano de ajustamento nos anos, 2011-2014”.

Além de serem tendencialmente menos abstencionistas, o seu peso eleitoral é cada vez maior: “Em 2002, existiam em Portugal 3,4 pessoas ativas por cada pensionista ou reformado; em, 2018 esse rácio tinha baixado para 2,6”. Não será por acaso que, nas últimas legislativas, a vantagem do PS aumentou nos concelhos mais envelhecidos e com maiores percentagens de reformados ou pensionistas.

Em contrapartida, e este é um dado importante para os partidos à direita, em particular para o PSD, os concelhos em que o PS menos cresceu nas últimas legislativas foram aqueles em que a abstenção mais aumentou. Abstencionistas, mais velhos e moderados — será sempre este o mantra do PSD de Rui Rio.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

E se…?

As estratégias dos quartos partidos comportam riscos. Os mais imediatos, ainda assim, são aqueles que vêm de dentro. Se o calendário não se precipitar, isto é, se as eleições legislativas se realizarem apenas em 2023, Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos enfrentarão eleições internas ainda antes de irem a votos. Cotrim Figueiredo já recebeu um cartão amarelo que causou algum desconforto. E André Ventura teve dificuldades em controlar um congresso mesmo num partido que vive à custa da sua imagem.

Rio, ainda assim, está numa posição mais confortável. O líder social-democrata perdeu duas eleições (por resultados históricos e redondos) e conseguiu, mesmo assim, neutralizar a oposição interna. O surgimento de qualquer adversário interno digno desse nome é atirado para o plano do improvável. Mas as autárquicas são e foram sempre ‘a’ aposta desta liderança. Se essas eleições forem um flop será difícil encontrar uma narrativa vencedora.

Rodrigues dos Santos poderá não ter a mesma sorte. O líder do CDS é um alvo da oposição desde o minuto zero. As dificuldades de afirmação e as lutas que tem comprado internamente tem dado armas aos seus adversários. Para já, só João Gonçalves Pereira, líder da distrital do CDS/Lisboa, veio a público pedir a cabeça do líder e sugerir uma alternativa — a deputada Cecília Meireles. Para lá disso, todas as manobras têm sido inconsequentes. Até quando?

De acordo com a investigação “As Bases Sociais dos Partidos Portugueses”, de João Cancela e Pedro Magalhães, “em, 2015 e 2019, observa-se um claro enfraquecimento da posição relativa dos partidos de centro-direita junto do eleitorado [mais velho]. É difícil não atribuir essa mudança a uma reação negativa destes eleitores às medidas adotadas durante a aplicação do plano de ajustamento nos anos, 2011-2014”.

Num partido que com três anos de vida vai no seu terceiro líder, Cotrim Figueiredo parece ter atingido uma estabilidade invejável. Mas, para os mais atentos, os sinais de alguma tensão interna são para levar a sério. Em maio, Carlos Guimarães Pinto, ex-presidente da Iniciativa, lançou Adolfo Mesquita Nunes (CDS) como hipotético candidato presidencial, ao arrepio da vontade de Cotrim, que queria um candidato próprio —  e assim foi.

A propósito do acordo nos Açores, o desencontro entre os dois foi ainda mais evidente. Guimarães Pinto, em declarações ao Observador, carregou nas tintas: “A IL não se sentou à mesa com o Chega, nem irá governar com o seu apoio e nunca o deveria fazer. [Se algum o dia o fizer] terá que prestar contas aos seus membros e eleitores. Eu seria o primeiro a pedir desculpa a quem votou em outubro de 2019 e a desfiliar-me. Há valores com os quais não se pode brincar e que valem mais do que qualquer calculismo eleitoral”, avisou. A frase foi devidamente anotada.

E, por fim, Ventura. Além da quase-rebelião nos Açores e do psicodrama do congresso, o líder do Chega tem nas mãos um partido construido a partir de várias sensibilidades e origens políticas, e onde coabitam dissidentes do PSD e CDS, mas também antigos membros de partidos como o PNR e de movimentos de extrema-direita, ultrarradicais e violentos. À medida que o Chega cresce, sucedem-se as notícias sobre militantes pouco com passados recomendáveis e a abertura de inquéritos para perceber quem pode ou não ser expulso. Se a direita já cheira o poder, o Chega, por maioria de razão, já vai salivando. E proximidade face ao poder pode tornar ainda mais evidentes as fraturas latentes no partido.

A barreira psicológica da grande aliança à direita parece estar ultrapassada depois dos Açores. As estratégias de cada partido estão definidas. Mas há variáveis, internas e externas, que nenhum dos quatro líderes controla. Do aparente caos pode surgir uma maioria sólida?

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