Para que serve afinal a Amazónia? /premium

25 Agosto 2019433

Intensificação dos fogos veio redespertar a opinião pública para região que uns vêem como tesouro natural a preservar e outros como vasto potencial económico. Ensaio de José Carlos Fernandes.

A indignação zumbe nas redes (ditas) sociais de todo o mundo e partilham-se fotos de floresta tropical em chamas, acompanhadas de votos de amor à Mãe-Natureza e insultos a Jair Bolsonaro, mas quando chega a altura de o activismo sair do sofá para a rua, a adesão é escassa, como atestam as poucas “dezenas de pessoas, manifestantes e curiosos [que se concentraram no passado] sábado à tarde no Porto” e pode perguntar-se se chegariam a uma dezena se não fosse a aversão ao actual presidente brasileiro actuar como catalisador.

Os incêndios da Amazónia são um desastre que estava anunciado desde que Jair Bolsonaro se perfilou como favorito à vitória das eleições presidenciais de 2018: as suas bombásticas declarações pró-desenvolvimentistas e anti-conservacionistas e os apoios do sector do “agro-negócio” à sua campanha só poderiam conduzir a este desfecho, pelo que a maioria de eleitores brasileiros que votou em Bolsonaro não poderá alegar que foi ludibriada.

Vista aérea a desflorestação na região do Acre, no Brasil (LightRocket via Getty Images)

Uma vez no poder, Bolsonaro tomou as medidas que eram previsíveis: cortou recursos e retirou competências aos organismos da administração com responsabilidade na defesa do ambiente, demitiu ou forçou a demissão de experientes altos funcionários desses organismos e substitui-os por gente da sua confiança (ainda que sem preparação para o cargo), hostilizou as organizações ambientalistas internacionais, deu a entender ao “agro-negócio”, aos madeireiros e à indústria mineira que tinham carta branca para se lançarem sobre a cobiçada presa, tentou ocultar ou negar dados estatísticos reveladores do aumento da desflorestação (para, depois, admiti-los, mas atribuindo o descalabro não à sua política, mas à actuação criminosa de grupos ambientalistas a soldo de potências estrangeiras e apostados em desacreditá-lo) e acusou de “colonialismo” e ingerência nos assuntos internos de um país soberano os apelos dos líderes internacionais em prol da Amazónia, proclamando que “nenhum país do mundo tem autoridade moral para falar sobre a Amazónia”. E, claro, fez tudo isto no registo labrusco, brigão e vociferante que lhe é característico.

Macaco-uivador (Alouatta sp.), uma das espécies emblemáticas da Amazónia (Universal Images Group via Getty)

Afinal o que tem de especial a Amazónia para suscitar paixões tão intensas? É mesmo algo único no planeta ou é apenas uma floresta como as outras, só que maior? O que acontece na Amazónia só diz respeito aos brasileiros? É verdade que se for “desenvolvida” – queimada e convertida em pastagens e plantações de soja – poderá ser decisiva para fazer crescer o anémico PIB brasileiro e criar empregos e tirar dezenas de milhares de brasileiros da pobreza? E se se concluir que tentar desenvolver a Amazónia foi um erro pode voltar-se atrás?

(De Agostini via Getty Images)

Riqueza fabulosa no meio da penúria extrema

É fácil compreender o apetite do “agro-negócio” ou do mais humilde camponês sem-terra quando olha para uma floresta tropical: se aquele terreno é capaz, no estado selvagem e caótico, de sustentar aquela formidável profusão de plantas e animais “inúteis”, que produtos agrícolas proveitosos não será capaz de gerar quando gerido pela mão ordeira do homem, apoiada na ciência agronómica e na tecnologia?

É uma visão que assenta em equívocos graves e que alguns milénios de experiências com resultados desastrosos não conseguem abalar. É preciso perceber, antes de mais, que a floresta amazónica, como todas as florestas tropicais húmidas, é um paradoxo: toda aquela luxuriante riqueza biológica assenta em extrema pobreza geológica.

Os solos da floresta amazónica são antigos (alguns formaram-se ainda no Terciário), ácidos (pH 4.5-5.5) e muito pobres. Estes solos, dominantes nos trópicos e conhecidos como laterites, são constituídos essencialmente por óxidos de ferro (que lhes dão a cor avermelhada) e de alumínio e têm teores muito baixos de nutrientes e de matéria orgânica. Na verdade, as laterites são tão duras e compactas que há quem prefira classificá-las como rochas do que como solos e, na prática, costumam ser cortadas sob a forma de tijolos e empregues na construção.

Exploração de laterite, Hanói, Vietname, em 2016 (AFP/Getty Images)

Pode então perguntar-se onde vai a gigantesca massa vegetal buscar os nutrientes de que necessita? A si própria, promovendo uma reciclagem com uma eficiência e taxa de rotação sem paralelo em qualquer outro ecossistema terrestre. Sobre as laterites existe uma fina camada de matéria orgânica, resultante da queda de folhas (ao ritmo diário de 4.5-12.6 g/m2) e da decomposição de casca e troncos, que, nas condições reinantes de temperatura e humidade elevadas, é rapidamente mineralizada. É esta camada superficial que as plantas exploram através de um sistema radicular extremamente denso e eficaz, frequentemente em associação simbiótica com fungos (micorrizas). Quando vemos as árvores majestosas e centenárias cujas copas dominam a floresta tropical húmida, a 50-55 metros de altura, somos levados a imaginar que as suas raízes tenham desenvolvimento proporcional, mas 21-47% da massa de raízes concentra-se nos primeiros 10 cm de solo e apenas 5-6% se distribui entre os 1.3-2.5 metros de profundidade – as raízes não descem porque lá em baixo não há nutrientes e porque a água não é um bem escasso (chove quase diariamente). Este enraizamento superficial cria, todavia, um problema de estabilidade, que as árvores tropicais de grande porte “resolveram” com o desenvolvimento de “contrafortes” no tronco.

A produtividade não é tão elevada como poderia esperar-se, pois a temperatura elevada dos trópicos fomenta a respiração das plantas e esta consome boa parte do que a fotossíntese produz.

O sistema de reciclagem de nutrientes é tão eficiente que, apesar de a chuva nestes climas ser por vezes muito intensa, as águas que drenam para os rios têm baixos teores de nutrientes e matéria orgânica – nalguns casos, como o Rio Negro, as águas são escuras, mas são transparentes (como num chá forte), pois a sua cor não resulta de matéria em suspensão mas de taninos formados nos processos de decomposição da matéria orgânica em solos ensopados em água.

A recirculação de nutrientes permite manter uma massa vegetal viva (fitomassa) de cerca de 350-450 toneladas por hectare, mas, num estado de equilíbrio, a produtividade não é tão elevada como poderia esperar-se, pois a temperatura elevada dos trópicos fomenta a respiração das plantas e esta consome boa parte do que a fotossíntese produz, do que resulta que a produtividade líquida acabe por não diferir significativamente da de uma floresta das regiões temperadas, cuja fitomassa é várias vezes inferior.

(Universal Images Group via Getty)

Um caminho sem retorno

Quando o homem abate a floresta tropical para instalar uma plantação de, por exemplo, soja, irá ver as suas perspectivas de colheitas abundantes desfeiteadas: poderá obter bons resultados no primeiro e segundo anos, mas serão seguidas por um rápido declínio. Como a “fertilidade” dos terrenos provinha não do solo mas do sistema de reciclagem da floresta, desaparecida esta, as plantas da soja rapidamente esgotam os nutrientes da fina camada superficial do solo (a que poderão, eventualmente, ter-se somado os contidos nas cinzas resultantes da queima da floresta).

As espécies agrícolas não dispõem de um sistema radicular tão eficiente na absorção de nutrientes como o da floresta e oferecem escassa protecção contra a erosão do solo. Nos climas tropicais a chuva não só é abundante como tende a ocorrer de forma concentrada, mas as várias camadas de folhagem – tão densas que a luminosidade ao nível do solo é, em média, de 0.5-1% (nalguns casos, apenas 0.1%) da que é medida no topo das árvores – amortecem completamente o seu impacto, fazendo com que a água chegue ao solo suavemente. O facto de a chuva ter de atravessar vários estratos de floresta faz com que esta continue a gotejar muitos minutos depois de o aguaceiro ter caído – ou seja, há, em termos de drenagem, uma dilatação temporal dos fenómenos de precipitação intensa, tornando-os menos concentrados.

Quando os aguaceiros tropicais se abatem sobre numa plantação de soja a chuva impacta directamente a fina camada de solo fértil, desagrega-a e arrasta-a para os cursos de água e lixivia os nutrientes para longe do alcance das raízes das plantas.

Erosão do solo em zona desmatada na Amazónia, nas vizinhanças do Rio Branco, Brasil (Universal Images Group via Getty)

Em pouco tempo, a camada fértil de solo terá desaparecido e as plantas de soja não terão outro suporte e sustento do que as laterites. Entretanto, os sedimentos arrastados para os rios irão causar danos nos ecossistemas ribeirinhos e assorear barragens e canais de navegação, enquanto os nutrientes lixiviados irão favorecer o crescimento explosivo de microalgas nos trechos mais lentos dos rios ou nas zonas costeiras perto da respectiva foz, criando problemas de eutrofização.

Desiludidos com as magras colheitas, com as ravinas que a erosão abre nos campos agrícolas e com o dinheiro gasto em vão em adubação química que as chuvadas arrastam num ápice, muitos agricultores abandonarão os terrenos nos quais depositavam tão elevadas expectativas – iremos então assistir ao lento regresso da floresta tropical húmida ao terreno que era o seu?

A idade média das árvores de grande porte da floresta tropical húmida ronda os duzentos anos, mas duzentos anos não bastarão para se regressar à situação original. Na verdade, não é nada que o tempo possa resolver. Nas áreas agrícolas abandonadas pode instalar-se, pouco a pouco, uma “floresta secundária”, mas que está longe de ter a pujança e a diversidade de espécies da floresta original, pois os nutrientes que a sustentavam foram levados pela água e os que restaram só dão para uma floresta “de segunda categoria”. Por vezes, a degradação dos solos é tal que estes apenas são capazes de sustentar uma vegetação do tipo savana, com algumas árvores num mar de planta herbáceas.

“Corte e queima” na região do Rio Branco, no Brasil (Universal Images Group via Getty Images)

Há muito que o homem pratica o sistema de “corte e queima” (“slash-and-burn”), que assenta do corte e queima de floresta, seguida de cultivo agrícola até à exaustão dos solos e de migração para uma zona limítrofe, onde se repete o procedimento. Portanto, não faltam exemplos de áreas de floresta tropical húmida que foram alvo desse processo e que, muitos séculos depois de abandonadas, continuam a exibir um coberto vegetal que é uma pálida sombra do original. Quando o povoamento humano tem muito baixa densidade, a agricultura por “corte e queima” pode não produzir danos graves no ecossistema, mas quando surgem civilizações sofisticadas e se torna necessário alimentar cidades de milhares de habitantes, os requisitos em termos de solos crescem e, após uns séculos de “corte e queima”, deixa de haver floresta virgem para cortar e queimar.

“Corte e queima” em Chiang Mai, na Tailândia (Wikimedia)

A civilização maia recorreu a esta prática e há autores – como Jared Diamond, que aborda o tema em Colapso: Ascensão e queda das sociedades humanas – que vêem no uso extensivo da agricultura de “corte e queima”, associada eventualmente a alterações climáticas, a causa de um período de seca na Península de Yucatán que terá causado o declínio da civilização maia clássica, que feneceu por volta do ano 900.

Atestando a incompreensão do funcionamento da natureza e a obtusidade do “apego à tradição”, no século XXI, os agricultores do Yucatán, que descendem da outrora pujante civilização maia, continuam a praticar o “corte e queima” e a insurgir-se contra quem os tenta dissuadir de tão destrutiva prática.

A vegetação envolve um templo maia em Tulun, no Yucatán, numa litografia a partir de desenho de Frederick Catherwood (Wikimedia)

A prática do “corte e queima” não é exclusivo das regiões tropicais, mas é nelas que tem efeitos mais graves e prolongados. Quando a Noruega decidiu suspender o apoio de 35 milhões de euros ao Fundo Amazónia, um fundo internacional para a preservação da floresta amazónica que tem como maiores contribuintes a Alemanha e a Noruega, Jair Bolsonaro reagiu com sarcasmo: “Pega na grana e ajude a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha”. A reacção, para lá de grosseira e petulante, revela pouco conhecimento sobre o assunto. O presidente francês Emmanuel Macron, que tem sido um dos mais vigorosos críticos da política de ambiente de Bolsonaro, veio, no dia 24 de Agosto, exortar o Brasil “a lutar contra os incêndios e investir na reflorestação”. Na Alemanha ou em França é possível, no período de uma geração ou duas, através de práticas adequadas, voltar a fazer crescer uma floresta onde em tempos se plantou trigo. Mas na Amazónia não é possível fazer voltar a crescer floresta tropical húmida no lugar das plantações de soja.

“Corte e queima” na Finlândia, num quadro de 1893 por Eero Järnefelt (Wikimedia)

Perturbações no ciclo hidrológico

A floresta tropical húmida não só providencia a esmagadora maioria dos nutrientes de que necessita como também contribui para 50-75% das suas necessidades em água. A maior parte da água da chuva é absorvida pelas plantas e reinjectada na atmosfera sob a forma de vapor de água, através do processo de transpiração.

Amazónia, perto de Manaus, 2011: Boa parte das nuvens que salpicam os céus da bacia amazónica são de “fabrico próprio” (Wikimedia)

Quando a floresta é removida, a parcela da precipitação que era transpirada pelas plantas converte-se em escoamento superficial e vai engrossar o caudal dos rios – aumentando o risco de inundações a jusante. Uma vez que esse volume de água deixa de ser reinjectado na atmosfera, a precipitação na região irá diminuir e tornar-se mais irregular. Com um clima genericamente mais seco e o aparecimento de períodos de seca, deixa de haver condições para que as espécies típicas da floresta tropical húmida sobrevivam ou que se desenvolvam plenamente.

Convém aqui fazer uma distinção: na linguagem corrente, o termo “floresta tropical” é utilizado de forma genérica para designar realidades diferenciadas. Por um lado temos as florestas tropicais húmidas, em que não só a quantidade total de precipitação é elevada (acima de 2000 mm/ano), como a sua distribuição é homogénea e não desce abaixo dos 100 mm/mês, havendo também escassa diferença na temperatura, quer ao longo do ano quer ao longo do dia. É uma categoria que abrange quase toda a bacia do Amazonas, parte da bacia do Congo, a Indonésia e tem manifestações residuais na Índia. As suas árvores são, salvo raras excepções, de folha perene.

Distribuição mundial das florestas tropicais húmidas (Wikimedia)

Por outro lado temos as florestas tropicais secas, em que, embora a quantidade total de precipitação ao longo do ano possa ser elevada, não tem distribuição homogénea e existe uma estação seca de vários meses. A fim de resistir a este período seco, muitas espécies são de folha caduca. É uma floresta menos densa, de menor altura e com menor diversidade de espécies.

Claro que nesta distinção há que atender a que, na prática, existe um gradiente contínuo entre os dois tipos e a desflorestação e as mudanças climáticas dela decorrente podem converter, pouco a pouco, áreas de floresta tropical húmida em seca.

Distribuição mundial das florestas tropicais secas (Wikimedia)

Ninguém é capaz de prever que resultados advirão da alteração da hidrologia da bacia amazónica em resultado da desflorestação maciça, nem que efeitos poderá exercer sobre o clima de outras regiões do continente americano, mas é bom lembrar que onde hoje existe o deserto do Sahara, existiam, há 7500 anos, hipopótamos e crocodilos.

No acima mencionado Colapso, após assinalar que o período de seca no Yucatán com início por volta de ano 760 e pico em 800 (e que foi o mais severo nos 7.000 anos precedentes) coincide com o colapso do período Maia Clássico, Jared Diamond aponta outras “coincidências suspeitas” entre secas e colapsos civilizacionais: o do Império Acádio por volta de 2170 a.C.; o da civilização Moche IV, no litoral peruano, por volta de 600; e o da civilização de Tiwanaku, nos Andes, por volta de 1100.

Perturbações no ciclo do carbono

A Amazónia é, por vezes, designada como o “pulmão do mundo”, mas a verdade é que, numa situação de equilíbrio, a floresta amazónica – como qualquer outra floresta – é neutra em relação ao ciclo do oxigénio e ao ciclo do carbono, já que a quantidade de CO2 que fixa através da fotossíntese iguala aproximadamente a quantidade de CO2 que liberta pela respiração.

Queimada na floresta amazónica, estado de Acre, Brasil, 2014 (LightRocket via Getty Images)

Porém, a desflorestação altera essa neutralidade e se, no limite, os actuais 5.5 milhões de Km2 da Amazónia (80% da sua área original) fossem integralmente desmatados e queimados, os seus 390 mil milhões de árvores libertariam para a atmosfera 86 gigatoneladas de carbono (GtC), o que equivale a quase nove vezes a presente emissão anual de carbono com origem nos combustíveis fósseis.

(convém ter em atenção quando se comparam estatísticas sobre o ciclo do carbono que, por vezes, os valores são expressos em gigatoneladas (mil milhões de toneladas) de carbono (GtC) e outras vezes em gigatoneladas de dióxido de carbono (GtCO2) e que 1 GtC = 3.67 GtCO2)

Quem terá saudades de uma rã venenosa?

As estatísticas sobre a biodiversidade da Amazónia são impressionantes: a região alberga 5.5 milhões de espécies de insectos, 40.000 de plantas (das quais 16.000 de árvores), 5600 espécies de peixes, 1300 espécies de aves, 1000 de anfíbios, 400 de mamíferos e 400 de répteis. A diversidade de espécies é tal que muitas – sobretudo entre os insectos – estão ainda por identificar, pelo que alguns dos números acima são estimativas: uma missão na Amazónia do World Wildlife Fund e do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá em 2014/15 descobriu 381 novas espécies em apenas dois anos de trabalho de campo – o que representa uma nova espécie a cada dois dias.

Na floresta virgem da Amazónia, seja qual for a espécie de árvore que se tome, poderá ser tarefa árdua localizar a sua irmã mais próxima.

Estes números ganham ainda mais relevo quando colocados em confronto com a biodiversidade das outras regiões: uma em cada cinco das espécies de aves do mundo e um em cada cinco espécies das espécies de  peixes de água doce do mundo ocorrem na Amazónia.

Apesar de, aos nossos olhos, aquela massa compacta de verde parecer homogénea, a sua composição nada tem a ver com a de uma floresta das regiões temperadas da Europa, onde meia dúzia de espécies arbóreas representam a esmagadora maioria da biomassa (já não falando nas “florestas” de produção, onde impera uma única espécie). Na floresta virgem da Amazónia, seja qual for a espécie de árvore que se tome, poderá ser tarefa árdua localizar a sua irmã mais próxima. Numa área de apenas um hectare podem ocorrer 40-100 espécies de árvore diferentes e um estudo numa área de 0.25 Km2 de floresta amazónica no Equador identificou 1100 espécies de árvores diferentes.

Floresta amazónica, Reserva de Mamirauá, estado de Amazonas, Brasil (EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Mas usar como argumento o impressionante número de espécies da floresta amazónica poderá revelar-se contraproducente junto de quem não tenha grande sensibilidade ecológica. Afinal, se a Amazónia tem 5.5 milhões de espécies de insectos, se se extinguirem uns milhares, ou até mesmo um ou dois milhões de espécies, quem dará por isso? O cidadão comum dificilmente será capaz de nomear uma vintena de espécies de insectos e conceber 5.5 milhões de variantes de escaravelhos, bichos-de-conta, borboletas, moscas e mosquitos ultrapassa o poder da imaginação. A ameaça de extinção de uma ignota espécie de escaravelho com seis pintas brancas no dorso suscitará escassa comoção num urbanita, sobretudo se se souber que existe uma espécie rigorosamente idêntica, excepto pela ocorrência de oito pintas brancas no dorso e que alguns entomólogos até defendem que se trata de uma variante da mesma espécie. No que diz respeito a insectos, a maioria das pessoas até achará que o Criador (ou a Natureza) se excedeu em minúcia e que uma centena de espécies seria mais do que suficiente para todo o planeta.

Há quem assuma perante a biodiversidade uma posição estritamente cínica, antropocêntrica e utilitarista e pergunte: o que mudará na vida de um habitante da Reboleira, Dortmund ou Vladivostok se uma espécie de rã azul venenosa exclusiva da Amazónia se extinguir?

Dendrobates azureus, uma rã venenosa conhecida no Brasil como sapo-boi-azul (Wikimedia)

O mais provável é que apenas uma pessoa em um milhão saiba da sua existência e que, mesmo entre esses, poucos lamentem a sua eventual extinção. Na verdade, se araras com cores garridas e macacos com bigodes patuscos podem despertar simpatia generalizada entre os humanos, há espécies, como é o caso de répteis venenosos ou piranhas, cuja extinção até seria encarada com alívio.

Mais remotas ainda nas preocupações do cidadão comum estão as espécies desconhecidas da ciência – como valorizar a perda de uma coisa que não sabíamos que existia?

Alguns defensores da preservação da Amazónia apostam em apelar ao antropocentrismo e em realçar o valor económico potencial dessas espécies para a humanidade: algumas árvores de fruto poderão ser “domesticadas” e enriquecer a nossa dieta, outras poderão produzir substâncias com aplicações farmacêuticas (o que abre a perspectiva da Amazónia como “o maior armário de medicamentos do mundo”). Mas perante tão grande número de espécies, quantos séculos de investigação científica serão necessários para identificar, catalogar e testar as potenciais aplicações comerciais e medicinais das plantas da Amazónia? Valerá a pena poupar a Amazónia em troca da remota possibilidade de um das suas plantas poder contribuir para combater o cancro ou a doença de Alzheimer?

A Condrodendrum tomentosum é uma liana da floresta tropical sul-americana e a principal fonte do curare, o veneno usado pelos ameríndios para envenenar os seus dardos (Wikimedia)

Por outro lado, o argumento do “potencial valor económico” também poderá revelar-se contraproducente: deverá presumir-se que a extinção de espécies a que não seja possível atribuir um “valor de mercado” significativo – a grande maioria delas – não deverá incomodar-nos?

Atribuir um valor comercial à biodiversidade é um exercício tão especulativo, vão e falacioso como os estudos que atribuem um valor de mercado à “cultura” ou à “língua”. Para mais, esta contabilidade rudimentar não toma em consideração que as espécies não existem isoladas e que não é possível discernir todos os papéis e interligações de uma espécie na complexíssima teia de relações do ecossistema amazónico. Quem nos garante que uma dada espécie de roedor aparentemente “descartável” ou “redundante” não é afinal o único responsável pela disseminação das sementes de uma dada árvore com “valor comercial”? Ou que uma espécie de abelha não é a única polinizadora de uma espécie de planta cuja casca é eficaz no tratamento da artrite? Ou que uma espécie de vespa parasita não assegura o controlo das populações de um escaravelho que é uma praga do açaizeiro?

Exploração mineira na Floresta Nacional de Bom Futuro, estado de Rondônia, Brasil: Será este o típico panorama da Amazónia num “mau” futuro não muito distante? (Mario Tama/Getty Images)

Porém, numa era em que tudo é obsessivamente quantificado e reduzido a valor de mercado, é difícil convencer as massas de que há valores, como a biodiversidade, que devem ser defendidos por si mesmos e que todas as espécies, por humildes que possam parecer, desempenham um papel na teia da vida.

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