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Pragas de baratas estão a aumentar e sente-se mais nas cidades. Empresas de desinfestação lamentam más práticas das autarquias

De norte a sul do país, as queixas são constantes. No verão é comum estes insetos saírem das sombras para aparecerem nas ruas e dentro de casa, mas este ano o número é superior ao esperado.

Sente que as baratas estão por todo o lado — e talvez já lhe tenham entrado em casa? Não é impressão sua: ao Observador, o presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas confirma que “há uma maior proliferação de baratas” em ambiente urbano, destacando a região de Lisboa como o principal foco nacional. “Desde o Parque das Nações até à linha de Cascais”, João Leitão refere que as zonas mais afetadas da capital são as que se encontram mais próximas ao rio Tejo. O especialista acrescenta que esta realidade está a ser ampliada pelo turismo, através do “aumento do número de restaurantes no centro da cidade” e, também, com a maior atividade comercial e de transportes, que favorecem o desenvolvimento das pragas.

Nas redes sociais, sucedem-se os relatos além da capital. “Estamos entregues aos bichos”, escreve um utilizador nas redes sociais, que mostra imagens de dezenas de baratas encontradas numa rua em Vale de Figueira, no município de Almada. Em julho, a 240 km de distância, os moradores de Ermesinde denunciaram uma “praga” destes insetos por toda a freguesia. Tanto assim é que as baratas rastejaram até às campanhas eleitorais. Pedro Tomás, candidato pela AD à junta de freguesia de Corroios, destaca a “praga de baratas sem precedentes” como uma das bandeiras da sua candidatura. Na Maia, o liberal António Manuel Fonseca — aludindo à dita “praga de baratas” — diz que o concelho “não é a lixeira de ninguém”. E é certo que estes insetos surgem em peso principalmente quando falta a manutenção de higiene urbana, sendo mais visíveis em zonas de acumulação de resíduos orgânicos e esgotos.

O problema agudiza-se no verão, época de climas quentes e húmidos em que se reúnem as condições ideais para a proliferação de baratas, que se infiltram nos esgotos, em redes de tubagem e até mesmo nas casas das pessoas. Com a tendência de secura e de aumento das temperaturas que surgem com as alterações climáticas, especialistas ouvidos pelo Observador corroboram as perceções da população e dizem que houve um aumento da quantidade de baratas em território nacional face ao registo de 2024.

Porém, João Leitão sublinha que estes fatores “não estão a ser acompanhados” com a devida atenção pelas autarquias. Lamenta que, muitas vezes, os resultados dos concursos públicos de subcontratação de empresas de controlo de pragas só se baseiem no preço dos serviços oferecidos e que, por este motivo, a qualidade nem sempre é prioridade para algumas das Câmaras Municipais do país. “O próprio número de visitas, às vezes, não é em consideração às necessidades, mas sim àquilo que alguém acha ser suficiente“, conta o profissional do setor, mencionando que nestes casos, em vez de haver tratamentos de intervenção e acompanhamento, “as visitas acabam por ser de SOS, quando a situação já está muito avançada”.

Como esclarece o entomólogo José Grosso Silva, “onde há uma barata, há várias”, e numa altura do ano em que as condições são favoráveis ao seu desenvolvimento, é quando se atinge os níveis mais altos de populações de baratas — e também quando são mais visíveis. “Podem existir o ano todo, mas em números mais baixos. São mais recatadas, quando está mais frio e chuva, por isso esperam para que as condições sejam mais propícias e aí sim, espalham-se, andam pelas ruas e é mais fácil as pessoas avistarem-nas”, acrescenta o curador da coleção entomológica do Museu de História Natural e Ciência da Universidade do Porto.

Baratas exóticas que chegaram há centenas de anos são as mais problemáticas

Existem mais de 20 espécies de baratas em Portugal. Contudo, no meio urbano, o investigador José Grosso Silva diz que os portugueses veem apenas três delas nos ambientes citadinos, enquanto as restantes vivem afastadas da população no meio rural. “Nós temos seis vezes mais [espécies] nativas do que as exóticas, mas as exóticas é que são o problema, são a razão para quando as pessoas ouvem falar em baratas ficarem logo arrepiadas”, refere, explicando ao mesmo tempo que uma das mais comuns em território luso é a Blatella germanica (Barata germânica), que terá chegado à Península Ibérica já há centenas de anos, e que aparece frequentemente em casas, restaurantes e supermercados.

“É pequenina e cor de palha, com dois risquinhos na parte da frente do corpo”, descreve o entomólogo. Devido às suas reduzidas dimensões, conseguem esconder-se e alojar-se em qualquer espaço que seja mais estreito, seja atrás de um móvel numa cozinha ou mesmo num gargalo de uma torneira na casa de banho. “São oportunistas, aproveitam restos de comida, do ambiente que lhes é dado pelas nossas construções“, acrescenta José Grosso Silva. Contudo, quando começam a baixar as temperaturas, esta espécie tem dificuldade em adaptar-se ao inverno português e, como tal, o tempo de vida natural não excede “dois meses”.

Existe uma outra barata de tamanho relativamente maior que a germânica e que vive até seis meses, mas que não representa uma ameaça tão grande aos lares das pessoas — até porque existe em menores quantidades em Portugal. Os machos da espécie Blatta orientalis (barata oriental) voam curtas distâncias e, na sua generalidade, têm uma maior afinidade por ambientes húmidos e escuros. Chegam a receber a cunhagem de “waterbugs” pelo seu habitat de eleição. Assim, diferem da barata germânica precisamente porque não costumam ser avistadas dentro de casa ou em estabelecimentos muito movimentados, preferindo movimentar-se entre as sombras de resíduos orgânicos e esgotos.

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    Blatta orientalis (barata oriental)
    dpa/picture alliance via Getty I
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    Periplaneta americana (barata americana)
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É também nestes meios que se insere a terceira espécie, de maiores dimensões: a barata americana (Periplaneta americana). “São muito adaptáveis” e as “maiores” de todas as baratas, com até cinco centímetros e, como tal, são as que recebem uma maior reação da população. Ou seja, “conseguem viver um pouco por todo o mundo”. O entomólogo José Grosso Silva explica que “desde que encontrem os sítios com proteção e o alimento que, por despreocupação ou falta de higiene estejam disponíveis”, as “gigantes” vão ser vistas perto de esgotos, na rua, a subir muros, paredes e edifícios.

Segundo o presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas João Leitão, a “invasão” de baratas americanas já começou há algumas décadas, notando que lida com esta espécie desde que começou a exercer no setor. Ainda assim, garante que “de ano para ano tem piorado”, especialmente na última década. João Leitão explica que historicamente, a região do Algarve e a ilha da Madeira, com os seus climas “mais quentes e tropicais”, têm servido de casa para as americanas. Agora, é Lisboa que recebe o maior número de queixas e pedidos de desinfestação.

Questionada pelo Observador sobre as medidas tomadas para abordar esta maior presença de baratas na capital, a Câmara Municipal de Lisboa não respondeu em tempo útil.

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Das alterações climáticas ao aumento do turismo: porque é que há mais baratas?

Em termos de riscos de saúde pública, José Grosso Silva diz que não existem “grandes distinções” entre as três espécies exóticas. “Elas podem transmitir [bactérias ou fungos] ao deslocarem-se entre esgotos e o interior de habitações ou locais onde é armazenada comida”, explica o especialista, referindo que apesar de não existir muita informação sobre a transmissão de bactérias patogénicas para os seres humanos, “o impacto em termos de saúde pública será mais pela deterioração dos alimentos“.

“Normalmente, o grande problema é mesmo incómodo em termos de as pessoas sentirem a presença delas e pelo número”, continua. Raramente se encontra uma barata isolada. Agregam-se onde as condições são mais favoráveis e, nestes locais escuros, húmidos e quentes, reproduzem-se e aumentam as quantidades. Não existe um conceito de colónia ou comunidade de baratas, “não têm estrutura, nem cooperam”. Desta forma, é difícil estimar um número médio destes insetos por agregado. Numa secção de um esgoto, tanto podem existir algumas dezenas como milhares, não existe forma de contabilizar nem de apurar o número de habitantes de uma determinada região.

Inicialmente, as baratas das três espécies apareceram por importação. O aumento do comércio e do transporte internacional abriu portas não só às pessoas, mas também a milhares de diferentes espécies de insetos que vêm atrelados às mercadorias. O mesmo verifica-se para as baratas. Confirmadas as primeiras baratas em território nacional, ao passarem despercebidas por quem recebe estes produtos em território nacional, a multiplicação é inevitável. Apesar de ocorrer em maior volume durante o final da primavera e verão, os especialistas explicam ao Observador que o processo é contínuo ao longo de todo o ano e, por isso, a população alastra-se.

Ao longo dos últimos anos, a tendência tem sido temperaturas geralmente mais altas e com maiores períodos de seca. 2025 não tem fugido à regra e, com dias muito quentes e pouca chuva, "tem sido um ambiente propício para o desenvolvimento das baratas"

A partir daí, o transporte até diferentes regiões do país vai desde o mesmo registo de transporte comercial intercidades, mas também desde um supermercado até casa. “Uma barata pode vir num saco de compras”, exemplifica José Grosso Silva, admitindo que enquanto a pessoa retira os conteúdos do saco, “se essa barata for uma fêmea e tivesse sido fecundada, vai iniciar no local um processo que parece uma infestação”. Só não se trata de uma infestação pela definição tradicional, mas a verdade é que o processo de multiplicação é “tão simples” como explicado. Para se tratar de uma infestação, seria preciso encontrar as diferentes fases de desenvolvimentos no mesmo local.

Sendo este o trajeto natural de qualquer inseto e, neste caso das baratas, o que justifica o aumento significativo que se tem verificado das populações destas espécies? Questionado pelo Observador, o presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas refere que as alterações das condições climatéricas são possivelmente o principal fator. “Com um clima mais seco, elas reproduzem-se muito mais, ao ponto de começarem a ser mais vistas”, explica João Leitão.

Ao longo dos últimos anos, a tendência tem sido temperaturas geralmente mais altas e com maiores períodos de seca. 2025 não tem fugido à regra e, com dias muito quentes e pouca chuva, “tem sido um ambiente propício para o desenvolvimento das baratas”. João Leitão acrescenta que as baratas americanas têm origem tropical, uma vez que o clima em Portugal se está a aproximar dos trópicos, as condições reúnem-se para elas se multiplicarem no nosso país. O mesmo fenómeno verifica-se em Espanha e Itália, por exemplo, com o sul da Europa a ser o mais afetado pelo crescimento destas baratas “gigantes”.

Em paralelo, além do crescimento das temperaturas nestas regiões, o turismo também está em reta ascendente. Apesar de ser mais improvável as pessoas trazerem as baratas consigo quando fazem travessias internacionais, a construção de cada vez mais infraestruturas no centro das cidades acaba por ser também vantajoso para as baratas. “Quando se faz um restaurante ou um hotel, nunca se pensa propriamente nas pragas. Só se lembram depois, quando é preciso resolver o problema”, refere ainda o especialista.

Isolar esgotos e usar bioácidos durante o tempo que for preciso. Como se acaba com as baratas

Seja porque avistaram dezenas de baratas a circular numa determinada localidade ou meramente uma barata morta num local isolado, é sempre recomendado contactar uma equipa de controlo de pragas. João Leitão recorda múltiplos casos em que pessoas requisitam os seus serviços “porque viram uma barata americana e acham logo que é uma infestação”. Independentemente dos pedidos, os profissionais deslocam-se ao local para identificar “a fonte do problema”.

Na maioria dos casos, quando chegam a casa das pessoas não diagnosticam um foco de infestação dentro das residências, mas sim com origem nos esgotos. “Nestas ocasiões, recomendamos sempre o cliente a isolar os esgotos tanto quanto possível”, explica, referindo que quando se trata de controlo de pragas, não se pode “tratar superficialmente” do problema, sendo necessário ir à raiz. “Há situações que se conseguem controlar, outras demoram algum tempo até resolver”, acrescenta, referindo que depende de vários fatores como a “questão da higiene e do tipo de limpeza que fazem”.

Recomendando uma limpeza assídua e um acompanhamento constante destes locais de maior perigo para o aparecimento destes insetos, João Leitão diz que não basta matar individualmente as baratas que vão aparecendo em casa — referindo que isso, em alguns casos, é a prática de empresas subcontratadas pelas autarquias, que atuam apenas em casos “SOS”.

“Nos esgotos é por utilização de bioácidos ou por aplicação de gel”, esclarece o presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas. O segundo funciona como “um isco”, que é aplicado nas tampas dos esgotos, e atrai as baratas que saem das galerias para se alimentarem. “Elas comem e acabam por morrer”. Apesar de as baratas americanas serem as mais resistentes à mudança de condições, a eficácia destes produtos dependem também da forma como são aplicados.

Segundo João Leitão, o gel e os bioácidos funcionam apenas se forem acompanhados de visitas de reforço e de acompanhamento regular. “Os produtos funcionam, mas tem que haver acompanhamento. Sempre que há um problema detetado, devem ser realizadas visitas de acompanhamento até ter a certeza que o problema está resolvido”, acrescenta o especialista.

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