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Tecnologia pós-Covid: homem versus máquina?

A maior distância física imposta pela pandemia levou-nos a depender, ainda mais, das novas tecnologias. Mas isso é bom ou mau? Tudo dependerá do que fizermos com elas, dizem os especialistas.

De repente, todos nos demos conta que, sem acesso às novas tecnologias de informação e comunicação, a vida levada durante o confinamento imposto pela Covid-19 seria muito mais complexa e limitada. Desde logo, porque nos poderia excluir do mercado de trabalho, da possibilidade de acompanhar aulas, de nos deixar sem cuidados de saúde ou, até, sem poder ver familiares e amigos. Para refletir sobre este aumento exponencial de dependência tecnológica falámos com um filósofo da tecnologia, com um especialista em cibersegurança e com uma médica que já passou por Silicon Valley. Todos acreditam que é o uso que fazemos da tecnologia que determina os seus riscos e benefícios e para isso muito contribui a literacia digital de cada um e da sociedade como um todo.

Digitalização, automação e perda de privacidade são apenas algumas das tendências que há muito se vinham a revelar na vida de todos nós e que, com a pandemia, parecem ter-se instalado definitivamente. De acordo com Sofia Couto da Rocha, elemento do Conselho Nacional para as Tecnologias de Informática na Saúde da Ordem dos Médicos e Chief Transformation Officer no grupo Lusíadas Saúde, durante a pandemia, “a premência de solucionar problemas promoveu a inovação pela necessidade”. Como consequência, “encontraram-se soluções para o vasto tecido de bloqueios ao uso de novas tecnologias, quer fossem relacionados com o ecossistema – como a interoperabilidade, a interconectividade e a maturidade dos sistemas – quer fossem de cariz legal, de validação ou de literacia”.

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Para a médica, que entre muitas outras coisas esteve em Silicon Valley ao abrigo de um programa de incubação e aceleração a desenvolver uma startup na área da dermatologia e inteligência artificial, “viver uma pandemia com obrigatoriedade de confinamento é viver uma espécie de laboratório de inovação e transformação in vivo, onde há uma potenciação de criar no online os hábitos e as necessidades do offline”. E isto foi possível porque “houve tempo por parte de muitas pessoas para aprender a interagir com novas ferramentas”. Como resultado, “a necessidade de ter vida social, de trabalhar, de ter mundo, promoveram as plataformas de reuniões, a visita virtual entre pessoas e a locais, e mesmo a telemedicina na sua versão mais simples”.

“viver uma pandemia com obrigatoriedade de confinamento é viver uma espécie de laboratório de inovação e transformação in vivo, onde há uma potenciação de criar no online os hábitos e as necessidades do offline”
Sofia Couto da Rocha, elemento do Conselho Nacional para as Tecnologias de Informática na Saúde da Ordem dos Médicos e Chief Transformation Officer no grupo Lusíadas Saúde

“Um experimento social de larga escala” é também como Tiago Mesquita Carvalho, filósofo da tecnologia e investigador no CoLABOR – Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social, define o que aconteceu durante o isolamento. Nas suas palavras, “as circunstâncias propiciaram um terreno fértil para que um sucedâneo de continuidade em certos contextos laborais pudesse ser instalado e se concretizassem latências tecnológicas associadas sobretudo à digitalização do quotidiano e da sociabilidade”. Essa continuidade em relação à situação que se vivia pré-pandemia verificou-se, por exemplo, no ensino, na saúde e noutros sectores, mas, no seu entender, “por vezes com transformações deletérias da própria natureza do trabalho”. Já noutros contextos laborais, “sobretudo aqueles ligados aos sectores primário e secundário ou que não se baseiam na gestão e criação de informação, não houve quaisquer tecnologias que permitissem assegurar continuidade”, conclui.

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A Covid-19 como um ensaio do futuro

Para Sofia Couto da Rocha, que é também presidente da Comissão de Tecnologias de Informação em Saúde do Health Parliament Portugal, “o confinamento veio acelerar a transformação tecnológica e veio pôr em evidência dois aspectos: o quanto se pode fazer com a conjugação de tecnologia existente e o quanto devemos testar e regular a utilização da mesma”.

Nesse sentido, Tiago Mesquita Carvalho acredita que “o período de confinamento e o de defeso que se lhe seguiu estará sujeito à avaliação pelo Estado, pelas autarquias e pelas empresas, de forma a que possa ser visto não como algo excecional, mas como um ensaio para a normalidade de um futuro próximo”. Na sua perspetiva, “importa a estas instituições capitalizar a pandemia e reconduzir-nos a um percurso de rotina, passando a imagem segura de que estão novamente ao leme dos acontecimentos”, sendo que “as tecnologias adquirem uma importância estratégica nessa tentativa de adaptação ao desconhecido”.

Analisando a forma como algumas tecnologias foram usadas nesta fase, Tiago Mesquita Carvalho refere que “o teletrabalho, por exemplo, recebeu um impulso inegável, obrigando a novas formas de gerir o tempo e o espaço domésticos”. Da mesma forma, “alguns troços de ruas foram readaptados para receber formas de mobilidade ativa, podendo catapultar uma mudança modal no uso da bicicleta em meio urbano”. Já a telemedicina suscita-lhe algumas dúvidas: “Parece-me ser um substituto de todo insuficiente quando comparada com uma consulta onde sucede um encontro entre médico e paciente. Não só ao nível da profundidade e exaustão do diagnóstico, mas à relação de confiança que se tece entre ambos os protagonistas.” O investigador vai mais longe e sublinha que “existe o risco de a telemedicina poder tornar-se numa forma alegadamente adequada de suprir a falta de cobertura de médicos em diversos concelhos do país”.

“existe o risco de a telemedicina poder tornar-se numa forma alegadamente adequada de suprir a falta de cobertura de médicos em diversos concelhos do país”.
Tiago Mesquita Carvalho, filósofo da tecnologia e investigador no CoLABOR - Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social

Passamos a dar mais valor à relação humana?

Mas, afinal, toda a conectividade ampliada pelo confinamento vai aproximar-nos mais fisicamente uns dos outros ou aprofundar ainda mais a distância que já se vinha a verificar? De acordo com Sofia Couto da Rocha, “o impacto das mudanças não vai ser sentido já, sê-lo-á em fases e com impacto distinto para as diferentes gerações”. “Numa fase de rebound, no início todos queremos voltar ao abraço físico e à restante panóplia de hábitos prévios, mas com o avançar do tempo, e à semelhança de outras transformações na história, acredito que algumas das nossas ações venham a sofrer alterações, nomeadamente nas compras online, na forma e frequência como falamos com familiares à distância, no modo como interagimos com a saúde ou como valorizamos uma boa conexão de Internet”, explica a médica, para quem “o novo normal será identificado passo a passo, na forma como a realidade e a interação com a mesma ganhou touchpoints digitais, mas ensinou-nos a valorizar outros totalmente offline”. Em suma, considera que “não sabemos por quanto tempo vamos mudar os nossos hábitos, isso vai estar diretamente relacionado com a penetração das novas soluções na nossa vida”.

Para Tiago Mesquita Carvalho, “a questão de se saber o que será do futuro, se será melhor ou pior, se terá mais ou menos conectividade, solidariedade ou virtualidade é ela própria filha da era tecnológica em que estamos mergulhados” e frisa que “somos nós, de facto, que criamos o futuro, embora não saibamos inteiramente como”.

A verdade é que “as pessoas foram levadas, pela suspensão abrupta do seu mundo, isto é, do seu contexto de familiaridade, a questionar de onde vem e para que serve tudo o que antes compunha o seu quotidiano e quão realmente necessárias são as suas relações com as coisas ou como são as relações com os outros moldadas pelas tecnologias”. Dando exemplos concretos, o investigador lembra que “a sociabilidade presencial foi suspensa, mas prolongou-se através das redes sociais e telemóveis”. Por outro lado, “não só como exercício teórico, mas por prudência, recordámo-nos que a comida afinal não vem das prateleiras dos supermercados”.

Mas outras questões que, na sua opinião, devem ser alvo de reflexão prendem-se ainda com “a exclusão e o acesso a serviços básicos, já que há uma literacia digital emergente que ameaça tornar-se predominante”. Mas será que a literacia digital existente atualmente na população portuguesa é suficiente para abarcar a repentina mudança?

Mais atenção à cibersegurança

Os receios relacionados com a privacidade, o anonimato e a cibersegurança têm aumentado nos últimos meses. De acordo com um relatório do Gabinete de Cibercrime do Ministério Público, até 31 de maio foram recebidas 268 denúncias de cibercrime, das quais 56 foram encaminhadas para inquérito, tendo ultrapassado todos os registos de 2019, ano em que foram reportados 193 crimes online. Segundo Miguel Pupo Correia, professor no Instituto Superior Técnico e investigador no INESC-ID com experiência nas áreas de cibersegurança e privacidade, “os hackers ou cibercriminosos viram a pandemia como uma grande oportunidade para beneficiarem financeiramente”. “Não surgiram propriamente novos tipos de ciberataques ou violações de cibersegurança relacionados com a pandemia”, refere, explicando que esta situação “por um lado, serviu de leitmotiv para enganar um maior número de vítimas, por outro o número de certos tipos de ataques cresceu significativamente”.

Os tipos de ciberataques mais frequentes

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Segundo Miguel Pupo Correia, os ataques mais frequentes relacionados com a pandemia tiveram três objetivos: infetar os dispositivos das vítimas com software malicioso (malware ou ransomware) que cifra os ficheiros e exige o pagamento de um resgate para os devolver; roubo de dados pessoais e ainda fraude com vista à obtenção de fundos, por exemplo, através de falsas campanhas de apoio às vítimas de Covid-19, a profissionais de saúde, entre outros.

Numa altura em que o teletrabalho foi imposto como regra nas situações em que tal é possível, tornou-se crucial para as empresas, instituições e organismos públicos em geral pensarem na segurança das suas redes. De acordo com Miguel Pupo Correia, “as empresas não precisam propriamente de ficar preocupadas quando mandam os seus colaboradores trabalhar a partir de casa, mas têm de tomar as medidas de cibersegurança necessárias”. Na sua perspetiva, a cibersegurança “é o maior risco que as empresas enfrentam hoje em dia”, tendo em conta que “o nível de ameaça é elevado, o nível de preparação em média é insuficiente e o impacto no negócio pode ser terrível”. Em concreto, o especialista diz temer sobretudo pela segurança das pequenas e médias empresas, já que estas “podem não se aperceber que se os computadores ficarem desligados durante alguns dias, o impacto é desastroso; se os dados que estão nesses computadores desaparecerem ou forem seletivamente corrompidos, ainda pior”. As consequências podem mesmo ser terríveis, com o docente a lembrar os casos de falências associadas a este tipo de crime, bem como as muitas empresas que “sofreram prejuízos milionários, até em Portugal”.

“as empresas não precisam propriamente de ficar preocupadas quando mandam os seus colaboradores trabalhar a partir de casa, mas têm de tomar as medidas de cibersegurança necessárias”
Miguel Pupo Correia, professor no Instituto Superior Técnico e investigador no INESC-ID

Também preocupada com a cibersegurança está Sofia Couto da Rocha, mas sobretudo “pela baixa cultura e literacia de segurança digital que no geral existe, ou seja, o baixo cuidado que temos com as nossas passwords, por exemplo”, o que permite fácil acesso aos piratas informáticos.

50% temem fraudes informáticas nas empresas

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Um aumento de ciberataques e de fraudes informáticas como resultado da mudança das formas de trabalhar é o receio de 50% dos gestores de risco inquiridos para um relatório do Fórum Económico Mundial sobre os principais riscos da pandemia – COVID-19 Risks Outlook: A Preliminary Mapping and its Implications  . Por outro lado, os autores do documento constatam que a aceleração de novas soluções tecnológicas desenvolvidas para responder à crise vieram aumentar outros riscos, como a fragmentação e a desigualdade social, assim como a violação de privacidade, criando fricção em termos de governança.

Aplicações para rastreamento de Covid-19: sim ou não?

Outra das questões que mais preocupa atualmente passa por saber até que ponto as aplicações desenvolvidas para prevenir a disseminação da Covid-19 são seguras e garantem a privacidade dos cidadãos. Para Miguel Pupo Correia, “mais preocupante é a forma como se diz que o rastreamento está a ser feito hoje em Portugal”, pois “quando o SNS deteta que uma pessoa está infetada, pergunta-lhe com quem esteve em contacto e são feitos telefonemas a essas pessoas”. O investigador admite que este método de rastreamento “é essencial e tem permitido evitar uma propagação ainda maior da doença”, mas deixa claro que a app permite fazer muito melhor, de forma mais eficiente e com melhores garantias de privacidade”. Dando como exemplo a aplicação portuguesa StayAway Covid, considera que esta “de certo modo faz a mesma coisa, mas com diversas vantagens”. “A minha previsão é que as apps de rastreamento descentralizadas [como a StayAway Covid], ganhem aceitação e as outras a vão perdendo”, diz, acrescentando que “quanto à possibilidade de abusos por parte de governos e empresas, esta existe evidentemente, mas não me parece que venham a ter grande aceitação em estados democráticos como o nosso”.

A Covid-19 veio salvar o planeta ou nem por isso?

De igual forma, Tiago Mesquita Carvalho não levanta grandes questionamentos a esta : “A aplicação portuguesa StayAway Covid é de uso voluntário e julgo ter sido escrutinada judiciosamente por diversas instituições.” Quanto ao uso menos próprio dos dados recolhidos, afirma que “é sempre tentador para um regime ou para um tiranete que não confia no bom senso das pessoas instalar uma qualquer eficácia governativa através do cumprimento obrigatório de regras”, mas entende que “no caso de Portugal a questão não se coloca, porque além de ilegítima em termos legais, não teríamos recursos nem meios para tamanha fiscalização”.

Saiba mais em https://observador.pt/seccao/olhos-no-futuro/

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