O artigo voltou a circular nas redes sociais nos últimos dias, atingindo 291 mil visualizações e 8200 partilhas em 24 horas. Trata-se de um texto originalmente publicado no blog “Além Douro Digital”, em maio de 2016, que tem como base um boato de 2010, segundo o qual há cães que são chacinados no Santuário de Fátima. Acompanhado de uma imagem de vários cães enjaulados, o artigo refere que os animais sofrem maus tratos durante semanas e, por fim, são levados para abate pela Câmara de Ourém. Mas a informação é falsa e a imagem não tem qualquer ligação ao recinto. Apesar de o santuário já ter esclarecido o assunto diversas vezes, o artigo continua a circular no Facebook.

Artigo do blogue “Além Douro Digital” foi publicado em maio de 2016

“As ordens partem da Reitoria do Santuário, para que todos os cães que aparecem por Fátima, quer sejam adultos ou cachorros, quer tenham donos ou não, são capturados pelos seguranças e colocados numa caixa. Caixa essa que está mesmo nas traseiras do santuário, no local das oficinas. Ali ficam os cães durante algumas semanas, ao frio e à chuva de Inverno, à chapa do sol, no Verão. Sem direito a comida ou água, num espaço mínimo onde a maioria nem se consegue colocar de pé…”, lê-se no primeiro parágrafo do texto, partilhado pela primeira vez no Facebook a 8 de outubro de 2016.

Segundo o autor da publicação, existem seguranças que levam os animais para casa ou arranjam quem os adote, mas “existem também dois seguranças que violentam cruelmente os cães, com foices de podar oliveiras”. Diz a mesma publicação que “esses cães são posteriormente levados para esta caixa, permanecendo até que a carrinha da Câmara de Ourém tenha tempo para os vir buscar. Lá, são colocados, já muito debilitados, para abate, e são-no todos num prazo de poucos dias”. Mas, prosseguem, alguns “desaparecem” antes da chegada da carrinha. “Pensamos que são abatidos por alguns trabalhadores do santuário, porque os cães ladram à noite e podem incomodar os turistas”, pode ler-se no texto.

Tal como o Santuário já esclareceu anteriormente, a notícia é falsa e resulta da republicação de um boato que circula na internet desde 2010. Nessa altura, a reitoria do Santuário de Fátima  emitiu um comunicado, no qual dizia estar a receber muitas acusações de maus tratos a animais e abate ilegal de cães. Citando um relatório da GNR, que recebeu uma denúncia sobre o caso, a reitoria adiantava que, em conclusão, “não foram descobertos nenhuns animais mortos, indícios de maus tratos ou atos que tipifiquem infração”.

No mesmo comunicado, os responsáveis pelo local esclarecem que, devido às queixas de animais abandonados no recinto, o Santuário procede à sua recolha e entrega no canil municipal de Ourém. Por fim, a reitoria “rejeita aquelas acusações e esclarece que as imagens publicadas que possam indiciar maus tratos ou abate de cães não são reconhecidas como tendo sido fotografadas no Santuário de Fátima.”

A imagem alegadamente tirada no santuário de Fátima

Ora, basta uma pesquisa no Google para encontrar a imagem que aparece no artigo em vários sites internacionais, nomeadamente em petições contra os maus tratos a animais em diversos países. É por isso falso que a imagem tenha sido recolhida em Fátima.

Em maio de 2016, depois de o artigo ser publicado no blog “Além Douro Digital”, a reitoria voltou a manifestar-se , admitindo a possibilidade de agir judicialmente contra aquilo que considera ser uma “campanha difamatória”.

“Nunca houve da parte do Santuário de Fátima qualquer iniciativa no sentido de maltratar ou abater animais”, assegura aquela entidade, que diz que “não toleraria que algum dos seus colaboradores, no exercício das suas funções, praticasse ações de maus tratos a animais”.

No comunicado assinado por Carmo Rodeia , diretora de comunicação, o Santuário de Fátima “rejeita liminarmente qualquer acusação de autoria material de maus tratos a animais e lamenta que esta campanha ponha em causa o bom nome da instituição, não enjeitando a possibilidade de recorrer à justiça para apurar responsabilidades sobre estas ações difamatórias”.

Conclusão

A informação tem vindo a ser disseminada na internet desde 2010. Pontualmente, o artigo volta a circular nas redes sociais, causando revolta e queixas contra o santuário. Mas é falso que existam cães a serem chacinados no recinto de Fátima. Nem o texto é verdadeiro, nem a imagem foi capturada no Santuário.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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