É hoje mesmo que se celebram dez anos sobre um facto aparentemente insignificante que acabaria por se tornar num marco da indústria. O dia 29 de Junho de 2007 foi, simbolicamente o dia em que um homem, um representante de uma corporação, teve a coragem de dizer ao mundo “Vocês estão todos enganados só que ainda não o sabem”.

E não sabíamos mesmo. Ou por outra, trilhávamos um caminho que tínhamos como certo e ele e a marca cuja camisola vestia tinham outra opinião. Mas não foi obviamente naquele dia em que Steve Jobs apresentou o modelo original de iPhone que o nosso mundo começou a ser redefinido. (Redefinido foi o termo mais carinhoso que encontrei para substituir com sucesso outras palavras como “despedaçado” ou mesmo “desconstruído”).

Eu sei que não é verdade, mas todos nós nos lembramos de onde estávamos em 2007. Possivelmente todos ligeiramente inclinados para um dos lados do nosso corpo, aquele que segurava um telefone pesadíssimo, que até estabelecia comunicações e que nos fazia fingir que trabalhávamos. Trabalhar no sentido de produzir com ele alguma coisa de verdadeiramente valioso… Pagávamos fortunas por telefones ditos “Smart” que hoje nos fazem rir a bandeiras despregadas, pelo menos até nos lembrarmos de quanto custaram. E éramos aparentemente felizes com o facto de os principais fabricantes nos convencerem que só dominaríamos o hardware se ele estivesse munido de uma caneta plástica com o qual picávamos os ecrãs. Céus, isto foi só há dez anos e parece que estou a recordar os tempos de James Watt e de máquinas a vapor.

Naquele dia em Janeiro de 2007 (o telefone só estaria disponível em Junho desse ano), Steve Jobs subiu ao palco para desdizer toda a gente e matar de um só golpe a indústria de canetas de plástico. E alguns egos. “A única coisa de que vão precisar para manusear este telefone, já dispomos dela, é um dedo”. O clamor foi geral, a plateia ficou suspensa porque não é todos os dias que assistimos à História a ser escrita desta forma simples, tão simples que chegou a parecer desfaçatez.

Ali estava um tipo, que mesmo aos meus olhos de alma convertida, me fazia pensar sempre duas ou três vezes enquanto consumidor. Senti-me, diria, algo violentado. Estava ali um sistema multi-touch que, se por acaso vingasse, podia virar a sorte do jogo. E virou. Parece-nos que foi desde sempre mas só passaram dez anos.

Mas também não foi exatamente naquele dia que a História mudou de faixa. É hoje público que Steve Jobs teve de ser convencido de que o futuro passava efetivamente pelo ecrã tátil. Foi em 2004 que um pequeno grupo de investigação e pesquisa construiu um protótipo multi-touch de um ecrã que hoje sabemos ter dimensões aproximadas às de um tablet, demonstrado como um sistema de manuseamento de ficheiros e pastas.

Foi um pequeno grupo de executivos da Apple que apoiava a ideia base de Jobs de criar um tablet que assistiu a esta demonstração. Que aparentemente não o conseguiu convencer, ao contrário de Jony Yve, o responsável do Design Apple, que ficou entusiasmado com o conceito (haveria mais tarde de publicamente testemunhar que ecrãs táteis de pequena dimensão em câmaras fotográficas foram o seu primeiro pensamento em termos de aplicação).

Jobs queria um tablet, mas pouco impressionado com a demo, quis até arquivar o projeto. Foi aparentemente Yve e outros que o convenceram a entregar a Tony Faddel (um dos pais do iPod) a possibilidade de adaptar um ecrã multi toque a um telefone. O resto vai estar um dia nos livros de História.

O iPhone haveria de nascer ainda antes do primeiro tablet, trilhando um caminho de sucesso que está ainda longe de se esbater, arrastando consigo toda a indústria e cavando standards que só dificilmente outro homem, um destes dias, subindo a um palco, gelará a plateia dizendo que estamos todos errados e que o caminho não é por onde todos circulamos confortavelmente.

Não é de todo impossível não venha a suceder. O que me incomoda é que abalem os fundamentos da minha vida tecnológica a cada 10 anos. Ou menos. É aborrecido para o meu ego e para as minhas convicções. Mas também mostra que a indústria de paradigmas é um mercado instável que pode ferver a qualquer momento.

Pedro Aniceto é consultor na área das Tecnologias de Informação.