No passado verão em Tóquio registaram-se temperaturas excecionalmente altas. No próximo ano, por aquelas bandas e no mesmo período, decorrem os Jogos Olímpicos 2020, onde os atletas podem contar com temperaturas acima dos 30 graus, combinadas com humidade elevada. Este problema acresce se tivermos em conta o facto de os atletas chegarem à aldeia olímpica vários dias antes da sua competição, ficando imediatamente expostos ao ambiente quente e húmido. E estende-se também aos atletas que têm as suas provas em ambientes fechados onde a sua recuperação e preparação é igualmente afetada. O impacto que as condições ambientais têm no rendimento desportivo são muito elevadas e não devem ser negligenciadas, basta lembrar as dificuldades físicas que a seleção de futebol sentiu no jogo em Manaus no Mundial de 2014.

Competir no calor provoca elevação da temperatura interna e da pele, elevação da frequência cardíaca, maior perda de água, dificuldade em manter o fluxo sanguíneo para os músculos, diminuição na capacidade de produzir força e maior sensação de fadiga. Nos desportos individuais, o calor afeta principalmente as competições com durações superiores a 3 minutos, onde podem ocorrer reduções de 3% na performance. Atletas como Fernando Pimenta pode piorar 6 segundos no K1 1000 metros e João Pereira mais de 3 minutos no Triatlo, podendo implicar de forma decisiva a não conquista de uma medalha olímpica. No Rio de Janeiro em 2016, por exemplo, ficaram a 4 e a 52 segundos da medalha de ouro, respetivamente.

Não obstante, existem estratégias de aclimatação prévias à competição desportiva que podem ajudar os atletas de alto rendimento. A investigação científica demonstrou que estratégias passivas como a realização de sauna, banhos quentes ou exposição a temperaturas elevadas após uma sessão de treino, ou ativas, como a realização de 8 a 14 dias de treino em ambientes com temperaturas elevadas, promovem uma melhor adaptação ao ambiente a encontrar em Tóquio 2020. Nos dias da competição, o pré-arrefecimento com ingestão de gelo ou banhos frios pode também ajudar. É decisivo encontrar a estratégia que melhor favoreça a performance dos atletas.

A menos de 500 dias para Tóquio é determinante testarem-se procedimentos e estratégias individualizadas para cada atleta que otimizem a sua aclimatação ao contexto competitivo. Nada é mais importante que a qualidade dos atletas, mas a capacidade de adaptação a estes ambientes extremos vai decidir medalhas.

Professora Auxiliar da Faculdade de Ciências da Saúde e Desporto da Universidade Europeia