Não acreditam que o reconhecimento do Estado da Palestina pela França, Inglaterra e Portugal é um prémio ao Hamas? Então, vejam como o Hamas festejou a notícia: para os terroristas, foi a justificação do massacre de 7 de Outubro e da catástrofe a que depois sujeitaram a população de Gaza, ao usá-la como escudo humano. Valeu a pena matarem judeus, valeu a pena esconderem-se atrás de mulheres e crianças.

Os governos francês, inglês e português não percebem isto? Exaspera-os o arrastamento da guerra em Gaza? Mas a guerra acabaria numa hora se o Hamas anunciasse que ia soltar os reféns e entregar as armas. É provável? Talvez. Israel eliminou a maior parte da direcção do Hamas. Venceu e humilhou o Irão e o Hezbollah. Dispunha-se a alargar as suas operações terrestres. Talvez o Hamas, isolado e sem saída, acabasse por admitir que falhara. Agora, não. Agora, sabe que se retiver os reféns e continuar armado nos túneis debaixo de escolas e hospitais, o prolongamento da guerra aumentará o alvoroço contra Israel. Não haja ilusões: se Israel tiver de desistir de anular militarmente o Hamas, o Hamas, por mais debilitado, declarará vitória, e muita gente no Médio Oriente e entre a imigração árabe e muçulmana na Europa acreditará outra vez, como no tempo do Estado Islâmico, que o terrorismo fará vergar um Ocidente fraco e cobarde.

Israel enfurece os radicais islâmicos do Hamas, não por causa dos árabes palestinianos, mas porque Israel representa, no Médio Oriente, a ordem mundial tutelada pelo Ocidente. É essa ordem mundial que pretendem destruir, começando por devastar Israel. Uma Palestina em paz com Israel não lhes serve para nada. Eis porque um Estado palestiniano, com o Hamas a mandar no todo ou em parte, não é viável: nunca será mais do que uma base de ataque contra Israel, e a sua população um viveiro de mártires à força.

No caso português, algum provincianismo ansioso por se sentar no Conselho de Segurança talvez explique muita coisa. Mas mesmo essa mesquinha razão é significativa. O Ocidente está sozinho num mundo onde a maioria dos Estados são tiranias de famílias, seitas ou partidos, e onde as instituições internacionais, como a ONU, se reduziram a condutas de manipulação e chantagem dessas tiranias. Assim desafiados, os Estados ocidentais encontram-se numa fraqueza de que eles próprios são culpados. Políticas demagógicas carregaram-nos de dívidas à escala das dívidas deixadas pelas guerras mundiais do século XX. Histerias regulatórias e ideologias energéticas estropiaram-lhes a economia. O wokismo deixou-os insensatos e menos livres. As migrações descontroladas encheram os países ocidentais de populações que não conseguem integrar e que se vão convertendo em causa de desagregação social e massa de manobra de movimentos e poderes hostis. Tudo isso e mais um desarmamento imprudente tiraram-lhes força para dissuadir provocações como as de Putin e até para preservar, dentro de casa, os seus valores mais elementares: eis como o anti-semitismo está a voltar a ser normal no Ocidente.

O reconhecimento de um Estado que não existe é apenas o reconhecimento por Paris e Londres de que o seu poder para terem uma política externa de acordo com os seus interesses e valores também não existe. Ao darem uma vitória ao Hamas, esperam talvez acalmar a agitação de rua do radicalismo islâmico aliado ao esquerdismo anti-capitalista. Provavelmente, apenas lhes abriram o apetite para mais. Diziam os antigos: os deuses cegam aqueles a quem querem perder. Aqui, não são precisos os deuses. Os que estão a perder cegam-se a si mesmos.