Podem ficar descansados porque a culpa, no fundo, não é nossa. Como Nostradamus poderia explicar, não há nada que um povo possa fazer para impedir a concretização triunfal de uma profecia antiga. Há muitos, muitos anos, quando ainda vivíamos em ditadura, dois jovens sobredotados começaram a construir uma bonita amizade. Segundo a biografia de um deles, escrita décadas mais tarde, “saíam juntos com as respectivas namoradas, iam à missa juntos, tocavam em campainhas à noite e depois fugiam” — e “chegaram a fazer uma corrida de carros à volta da Praça de Espanha com dois dedos de fora da janela a fazer corninhos um ao outro”. Um dia, estes dois amigos inseparáveis fizeram “um pacto”: quando Portugal fosse finalmente uma democracia, ambos chegariam ao cargo de primeiro-ministro, presume-se que à vez.
Não foi exatamente assim. Foi melhor — ou, se pensarmos bem, foi pior. Um, de facto, chegou a primeiro-ministro e, mais tarde, ao estratosférico cargo de secretário-geral das Nações Unidas. O outro tornou-se Presidente da República, ainda por cima durante dois intermináveis mandatos. Esta semana, reencontraram-se num discurso. No púlpito solene da Assembleia Geral da ONU, Marcelo Rebelo de Sousa falou assim sobre o seu velho amigo António Guterres: “É um orgulho para mim ter um português como secretário-geral da ONU, alguém que projeta uma forma portuguesa de estar nas relações internacionais. Ele contará sempre com o apoio de Portugal. Tenho de lhe dar os parabéns pelo seu discurso porque ele disse: ‘Eu nunca desistirei’. E, desde que éramos adolescentes, ele nunca desistiu.”
Tudo isto podia ser comovente, mas, infelizmente, é apenas constrangedor. A dupla “Marcelo-Guterres, Guterres-Marcelo” foi o presente que os portugueses conseguiram, esforçadamente, dar ao mundo. Não é brilhante, mas, como o socialista gostava de repetir num lamento que se tornou célebre, “é a vida”. No tempo em que António Guterres passeava a sua genialidade por entre os nativos pátrios, ficou conhecido como “picareta falante” pela sua recorrente capacidade de perorar interminavelmente sobre políticas públicas, sobre passarinhos ou sobre o artigo terceiro da Lei Geral Tributária. Tomado por frémitos, durante a sua liderança do PS trocou o punho do símbolo do partido por um coração. Inconscientemente, promoveu José Sócrates, dando-lhe palco, microfone e claque. E, no final, quando todos estávamos extenuados e exangues com tanta incompetência virtuosa, abandonou o poder para evitar o “pântano” que nos consumiu a todos — mas não a ele.
Depois disso, finalmente livre dos constrangimentos desta pequena e insignificante nação, Guterres tornou-se Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e, a seguir, secretário-geral da ONU, onde aplicou o seu estilo mole de liderança. Esta semana, um embaixador britânico que passou pelas Nações Unidas escreveu na Spectator que Guterres “destruiu a organização” e descreveu-o com impressionante pontaria: “Apresenta-se como um estadista, mas na verdade é apenas um socialista europeu à moda antiga”.
O outro elemento da dupla visitou-o esta semana em Nova Iorque. Marcelo passou dez anos no Palácio de Belém e, há dias, cometeu (penso ser o verbo adequado) o seu derradeiro discurso nas Nações Unidas como chefe de Estado. Foi um espetáculo desolador. Julgando-se no posto de turismo de Monte Gordo, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu, por razões misteriosas, falar em quatro línguas: em português, em inglês (mais ou menos), em espanhol (por assim dizer) e em francês (ou algo parecido). Também nas Nações Unidas, numa entrevista ao programa “ONU News”, conduzida pela brasileira Monica Grayley, Marcelo juntou a este exibicionismo poliglota o português falado no Brasil, ao afirmar que é contra “o adiá, o deixá pá dépois”.
No seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa vangloriou-se dos feitos de Portugal com a CPLP, onde convivemos com regimes corruptos, ditatoriais ou simplesmente sanguinários, como é o caso da Guiné Equatorial (mas não nos falem é de Israel). Na entrevista, confidenciou que pretende entrar na posteridade como o “político dos sem abrigo, não só dos partidos”. É interessante, tendo em conta que, em 2019, Marcelo prometeu que iria acabar com os sem-abrigo até 2023, depois o número de pessoas na rua aumentou e em 2022 prometeu o mesmo, mas agora adiando a concretização desse feito para um misterioso e distante “prazo razoável”. Talvez fosse a isto que se referia quando falava sobre “o adiá, o deixá pá dépois”.
Na mesma entrevista na ONU, o Presidente da República fez um balanço sucinto do seu mandato: “Entrei como era, fui como era e saio como era”. Aparentemente, não percebeu que esse foi o seu principal problema. Até porque insistiu que quer ser lembrado como “o mesmo Marcelo de sempre”. Ele sempre foi assim e Guterres também sempre foi assim. Seriam os dois convidados perfeitos para o programa de Daniel Oliveira na SIC. Olhando diretamente para a câmara, proclamariam: “Estou como sou no Alta Definição”. E, depois, chorariam copiosamente. E nós com eles.