Em 1997, Maria Filomena Mónica consagrou a expressão “filhos de Rousseau” num ensaio sobre a realização de exames ao longo do percurso escolar. Ao fazê-lo, remetia para a progressiva influência da visão rousseauniana na educação após o 25 de Abril. Mas que influência poderia ter um filósofo genebrino do século XVIII nas políticas educativas nacionais do século XX?

O atrativo de Jean-Jacques Rousseau resulta de ter legado um pensamento que combina, de forma harmoniosa, uma visão política com intuições antropológicas e pedagógicas. A sua primeira tese afirma que o desenvolvimento das ciências e das artes (o conhecimento) não torna os homens mais virtuosos – pelo contrário, torna as sociedades sempre moralmente piores (1.º Discurso). Isso acontece porque os homens são naturalmente dotados de uma sabedoria pré-racional que nos permite conhecer tudo o que verdadeiramente importa; no conhecimento científico há, pelo contrário, uma artificialidade que nos afasta do essencial. De acordo com Rousseau, a história do homem é, na verdade, a história da corrupção humana: o caminho histórico que percorremos de homens selvagens a povos civilizados significou o desenvolvimento de instituições sociais e políticas que nos retiraram a liberdade e a igualdade naturais (2.º Discurso). Enquanto vivemos isolados, éramos seres dotados de empatia natural, mas a convivência com os outros e a vivência em sociedade despertaram em nós os sentimentos negativos que identificamos no homem moderno. É, sobretudo, a comparação com os outros que transforma a nossa natureza benévola em seres competitivos, invejosos, ávidos de reconhecimento. Eis a teoria do bom selvagem: o homem nasceria bom e é a sociedade que o corrompe, pelo que Rousseau vai defender uma tese de educação negativa (Emílio ou da educação): não devemos sujeitar as crianças a uma cartilha de imposição e autoridade sociais; pelo contrário, devemos dar liberdade às crianças para serem o que autenticamente são e, com o tempo, deixar que desenvolvam mecanismos de adaptação à sociedade. Era a esta cartilha pedagógica que Maria Filomena Mónica se referia em 1997 e que foi progressivamente adotada no mundo ocidental na segunda metade do século XX.

Quais são as consequências políticas destas ideias? Elas encontram-se na obra O Contrato Social: naquele que será, provavelmente, o primeiro texto de cariz revolucionário da história da filosofia, Rousseau apresenta a sua proposta política como a única possibilidade de recuperarmos a liberdade e a igualdade perdidas. E será esta proposta política a principal influência do movimento que nasce nos anos 60 na academia norte-americana ligado às teorias de democracia participativa. De acordo com estas, para termos um sistema verdadeiramente democrático devemos afastar qualquer mecanismo de representação, pois a essência da democracia reside na participação direta dos membros da comunidade. Mais do que isso: a dinâmica democrática não se deve restringir ao espaço político, mas deve ser alargada a todas as esferas da vida humana: familiar, laboral, universitária, etc. Recuperando o espírito dos antigos, Rousseau não considerava a diferença entre esfera pública e esfera privada: tudo é política e, por isso, tudo é espaço de revolta.

Ora, foi esta filosofia da revolta que se foi infiltrando no mundo académico ao longo dos últimos 50 anos e é, nesse sentido, que podemos recuperar a expressão de Maria Filomena Mónica para compreender os acontecimentos atuais: vivemos hoje o tempo dos filhos de Rousseau na medida em que temos várias fornadas, em especial no mundo anglo-americano, daqueles que foram criados e formatados num ambiente académico embebido nessa filosofia da revolta. É isso que encontramos no movimento woke do politicamente correto; é isso que encontramos nos ataques à liberdade de expressão e nas ações de deplatforming; é isso que encontramos na censura a obras do passado e no derrube de estátuas; é isso que encontramos no novo entendimento da universidade como produtora de ativistas sociais; é isso que encontramos na recusa de que há esferas privadas e de intimidade em que o poder político não se deve imiscuir.

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Como em Rousseau, temos aqui a reivindicação de uma pureza interior e de uma moralidade superior que se traduz na desvalorização dos vários agentes e áreas do conhecimento. Por essa razão, não interessa se os filhos de Rousseau sabem pouco ou nada de história e filosofia, para além do que leram no número limitado de caracteres das redes sociais, ou se não leram nem um dos grandes clássicos da literatura: o que interessa é a certeza de sentirem que estão certos e poderem, por isso, reivindicar o direito a contestar e derrubar, ao estilo jacobino, todas as convenções sociais. Afinal, só há uma forma legítima de viver – e essa é a forma dos Social Justice Warriors: agir rápida e emotivamente em resposta a todos os impulsos imediatos. E se a maioria dos membros da comunidade não o faz, pior para ela. Os filhos de Rousseau não renunciarão a essa missão mesmo que a sua opinião seja amplamente minoritária.

Como quase sempre acontece nos movimentos políticos, também este foi desencadeado pelo instinto de criar uma sociedade mais justa. Mas o que temos assistido nos últimos anos são consequências que devemos questionar. Na verdade, a democracia radical assenta numa lógica muito pouco democrática, pela qual uma minoria reivindica um acesso privilegiado à verdade e à pureza moral e tenta impor essa verdade, silenciando todas as outras vozes. Jean-Jacques Rousseau é um dos filósofos mais apaixonantes e cativantes da história da filosofia, mas é, simultaneamente, assustador. Os seus filhos não o são menos.