Tenho acompanhado opiniões cada vez mais diversas sobre o caso do bebé recém-nascido deixado no ecoponto. Há quem defenda que a mãe devia ser libertada por causa de toda a sua história de vida e há quem considere que esta mãe é um “monstro”, uma vez que não é natural deixar-se um filho tão frágil abandonado e ao frio à espera da morte.

É verdade, consigo ver o ponto de vista de cada uma destas opiniões. Passo a explicar:

A sociedade tem vindo a transformar a nossa forma de pensar em prol da “liberdade”. A liberdade é a justificação certa para que cada mulher, apesar de viver social e economicamente bem -no melhor dos casos -, possa matar um “aglomerado de células” (como alguns lhes chamam) porque assim o entende. A vaidade, o medo, a conveniência ou o desespero levam a sociedade a preocupar-se mais com o próprio EU do que com o EU dos outros. Desde que cada um esteja e se sinta bem, é o que interessa. Liberdade acima de tudo. (Quando é que acaba a minha liberdade e começa a liberdade do outro?)

Questiono-me: se o aborto é um período de tempo definido pela lei, que varia de país para país, quando começa, de facto, a vida? Quando a vemos? Pelo tamanho da barriga da mulher? Pela vontade que uma mãe tem em querer ficar e educar aquela criança? A sério, quando começa a vida? Em que dia?

Mas não quero dispersar-me ou fugir ao assunto…

Porque é que uma mãe que pode e tem o direito de matar o seu filho não desejado e que ainda não nasceu e portanto está escondido da sociedade, é diferente de uma mãe que quis resolver o problema do seu filho que também nunca desejou, de que apenas tomou  conhecimento nos últimos dois meses de gestação, mas que já nasceu e portanto já está exposto à sociedade? A forma como esta rapariga olhou o seu filho será semelhante à forma como a mãe grávida de 10 semanas olhou o seu filho. A diferença é que está longe do julgamento que nós, sociedade, fazemos.

Fazendo-me agora de “advogada do diabo”… Temos aqui o caso de uma mulher que vive na rua, talvez sem conhecimento e acesso aos recursos que o nosso país pode oferecer. Passa fome, frio e não tem qualquer rede de suporte a não ser um namorado com quem estava há quatro meses. Vive com medo. Medo deste país que a ignorou, medo deste país que a olhou de lado. Tudo o que esta mulher tem resume-se a uma tenda e ao amor que finalmente pôde receber de um namorado que nada lhe pediu em troca, quem sabe pela primeira vez na sua vida (que até isso ela tem medo de perder). O medo e o trauma leva-nos, por vezes, a não querer ou a não conseguir aceitar a ajuda de ninguém. A desconfiança passa a apoderar-se de nós. Se pensarmos bem, esta mãe tinha todos os pretextos e justificações para não conseguir cuidar deste bebé. Esta rapariga não vive, sobrevive.

Não defendo o ato terrível desta mulher, mas também não consigo defender aquilo que a sociedade nos tem feito. Fomos transformados. Falta-nos saber amar o outro, preocuparmo-nos com o outro. Vivemos na sociedade do EU. Eu posso, eu quero, eu faço porque só eu devo decidir sobre a minha vida, mesmo que isso inclua a vida de outro ser humano. Ah.. mas este é frágil, não tem voz, não tem autodeterminação. A única coisa que pede é que a mãe o ame, mas nem isso a mãe é capaz de fazer. Mas é natural… é difícil amar e deixar-se ser amado nos dias de hoje. Mas foi só esta mulher ou somos todos nós? Reparem, somos sempre os primeiros a julgar e a apontar o dedo.

Esta mulher deve ser julgada pelo que fez e este bebé deve ter o direito a uma vida digna, como todos, sendo amado e valorizado.

A sociedade transformou-nos. Quem somos nós agora? Para onde desejamos caminhar? Sejamos coerentes.