Uma das dúvidas lancinantes que sobrou das últimas autárquicas foi esta: afinal, o Chega ganhou ou perdeu as eleições? Se olharmos para o número de votos, obviamente ganhou, porque triplicou o resultado autárquico, passando de 208 mil para 654 mil votos; e, naturalmente, perdeu, porque em relação às legislativas desapareceram metade dos votos, passando de 1,4 milhões para 650 mil. Se olharmos para o número de câmaras, é claro que o Chega ganhou, porque passou de zero para três, mais do que o Bloco de Esquerda alguma vez teve; e é evidente que perdeu, porque ficou com metade das câmaras do defunto CDS, com um quarto das câmaras do dinossáurico PCP e com apenas mais uma do que o inexistente Nós, Cidadãos. Se olharmos para as margens dos resultados, visivelmente o Chega ganhou, porque, por exemplo, ficou a 631 votos de vencer a Câmara do Montijo; e manifestamente perdeu, porque só conseguiu ficar à frente do PCP em Lisboa por três votos.

Os números, como se sabe, dizem-nos tudo aquilo que quisermos, desde que os torturemos o suficiente. Por isso, não vale a pena insistir. A medida da vitória ou derrota do Chega nas autárquicas não está nos números — está na política. O grande problema de André Ventura é que nestas eleições, ao contrário do que aconteceu em todas as outras, o Chega não conseguiu criar, controlar e impor a narrativa política. Os eleitores de Lisboa discutiram o lixo. Os eleitores do Porto discutiram o Metrobus. E, mesmo as discussões sobre imigração e segurança nestes e noutros municípios, dispensaram os candidatos do Chega como motor e combustível, como vos poderá explicar Ricardo Leão. Noutras campanhas, o Chega foi grito e fúria; nesta campanha, foi ruído de fundo e música de elevador. Essa foi a verdadeira derrota de André Ventura. Um partido que pretende acabar com o sistema tem obrigatoriamente de andar de polémica em polémica, de escândalo em escândalo e de ruptura em ruptura. A monotonia política retira-lhe o oxigénio. Afinal, ninguém anseia pela Quarta República quando está a levar o lixo ao caixote.

Por isso, agora, André Ventura precisa mesmo que aconteçam duas coisas nas próximas eleições presidenciais. Primeiro, precisa de passar à segunda volta: só assim mostrará que é uma força incontornável na política portuguesa. Depois, precisa de perder na segunda volta: só assim provará que “o regime” está disposto a travá-lo mesmo que isso implique sacrificar as convicções ao oportunismo, numa união de contrários movida unicamente pela rejeição do Chega.

Sabendo disto, André Ventura já começou a campanha. Esta semana, numa entrevista à TVI e à CNN, tentou recuperar os temas que lhe deram votos e crescimento: falou sobre imigração e sobre corrupção; e falou sobre corrupção e sobre imigração. Focou-se nos temas e focou-se no adversário: para ele, Luís Marques Mendes é irrelevante e António José Seguro é insignificante. Nenhum deles lhe tirará um voto; nenhum deles lhe dará um voto. A preocupação única e exclusiva, como se percebeu, é Gouveia e Melo. André Ventura sabe, melhor do que qualquer um de nós, que nestas eleições presidenciais os eleitores do Chega estão genuinamente divididos entre ele e o almirante. Por isso, tem três meses para conseguir aplicar uma transfiguração a Gouveia e Melo. Para que o plano resulte, o militar que vem de fora do sistema deve passar a ser visto como um infiltrado do Partido Socialista e de António Costa. André Ventura irá seguramente lembrar que foi o primeiro-ministro Costa quem entregou a liderança do processo de vacinação ao almirante e quem depois o promoveu a chefe do Estado Maior da Armada, o que, insinuará, só pode ser a prova de que os dois se curvam perante a mesma linha política. Se conseguir fazer isso, André Ventura segura os seus eleitores; se falhar, perde-os. Se os perder, fica num sarilho porque passa a ter um adversário político que lhe faz concorrência. Estas são as eleições mais importantes da vida de André Ventura.