O cabeçalho deste artigo não é inocente nem sequer foi escolhido ao acaso. E ainda que possa parecer um título de uma crónica social sobre a vida dos petro-milionários e novos ricos venezuelanos no Bairro de Salamanca de Madrid, aviso que não é. Trata-se antes de um título mais apropriado para um policial onde crime e castigo dormem tranquilamente.

De um lado, 19.130 vítimas mortais (até ao momento em que escrevo)  e umas das maiores taxas de mortos do Mundo por cada milhão de habitantes, e do outro um Governo irresponsável e incompetente liderado pelo duo Sánchez-Iglesias. Uma dupla de fanáticos ortodoxos com um único objectivo: continuarem a ocupar o Palácio da Moncloa, custe o que custar.

Como escrevi no meu último artigo no Observador, no início de Março, as atenções e intenções do Governo Espanhol estavam todas canalizadas para as manifestações feministas do 8-M, Dia Internacional da Mulher. Nesse dia já existiam 673 casos de pessoas infectadas com a Covid-19 e vários mortos. Contudo, e com pouco sentido comum, o Governo de Sánchez-Iglesias preferiu ignorar todos os avisos e alertas nacionais e internacionais, incluindo da Organização Mundial de Saúde e da União Europeia, e seguir avante com as referidas manifestações. Hoje sabemos que se tais concentrações não tivessem tido lugar, 62,7% dos actuais infectados estariam saudáveis. O número resulta de um estudo da Fundación de Estudios de Economía Aplicada, da qual faz parte o Banco de Espanha.

É portanto inegável a (ir)responsabilidade da dupla Sánchez-Iglesias na desastrosa gestão da actual crise. Como escreveu a Cayetana Álvarez de Toledo num artigo assinado no El País no passado Domingo, “el feminismo fue la religión en cuyo altar se sacrificó la ciencia y la razón”.

Em Março o país entra em lockdown/shutdown e número de mortos não parou de subir. Em Abril o cenário não melhorou. Optámos por olhar para curvas, picos e estatísticas como bálsamo para a desgraça humana. (Algo igualmente humano). São centenas de mortos por dia. Cadáveres acumulados em morgues e centros crematórios improvisados num compasso de espera a solo. Ora, perante uma realidade dantesca o que é que o Governo Sánchez-Iglesias fez?

Primeiro, apressou-se a comprar testes de despiste e diagnóstico para o novo coronavírus. O beneficiário foi uma empresa chinesa não certificada pelo Governo de Pequim e sem qualquer tipo de credenciais para a venda dos tais testes. O negócio, feito por ajuste directo, resultou num pagamento de centenas de milhões de euros ao tal “distribuidor” chinês que ainda hoje não sabemos o nome. Ora, o avião de carga que trazia os tais testes de despiste e diagnóstico lá aterrou em Barajas. Horas depois verificou-se que a eficácia destes mesmos testes não ultrapassava os 30% e que portanto não serviam para qualquer tipo de despiste e/ou diagnóstico da Covid-19.

Segundo: depois de trapalhada atrás de trapalhada, a dupla Sánchez-Iglesias, ao melhor estilo Chavista decidiu que as conferências de imprensa do Governo e da Direcção-Geral de Saúde Espanhóis passariam a ser sem imprensa (?). Confuso? Espere que melhora. Os jornalistas passaram a enviar as suas perguntas para uma espécie de Ministro da Propaganda, ou na versão Sánchez-Iglesias, Ministro da Verdade, e o Governo escolhia as perguntas a que respondia. Uma encenação ao melhor estilo bolchevique. Contudo, e como (ainda) vivemos numa Democracia Constitucional e num Estado de Direito, vários meios de comunicação social, entre eles o El Mundo e o ABC, boicotaram as ditas “conferências de imprensa”, e o Governo, encostado às cordas, recuou.

Terceiro: com a imprensa livre “à solta”, o Governo de Sánchez-Iglesias decidiu então injectar, a fundo perdido, 15 milhões de euros em certos meios de comunicação social afectos e próximos ao regime. Por um lado, a televisão pública que, apesar da sua obrigação de serviço público aos espanhóis, é hoje uma espécie de tempo de antena permanente do PSOE e do Unidas Podemos. E por outro lado a Sexta, um canal de televisão privado que junta ao mesmo tempo todos os amigos do regime. Uma espécie de seita que, durante o telejornal apresenta os números dramáticos da Covid-19 em Espanha com imagens de Mariano Rajoy de fundo. Se isto não é propaganda, o que será.

Quarto: perante as perguntas e críticas legítimas da oposição, o duo Sánchez-Iglesias apela a um “grande pacto de regime” com todos os partidos “interessados”, whatever that means. (Qual meio para diluir a sua culpa na gestão da pandemia e atirar “à falta de patriotismo” da oposição.) Mas urge perguntar: como é que é possível fazer um “grande pacto de regime” quando o Unidas Podemos de Pablo Iglesias é contra a actual forma de Estado (Monarquia Constitucional), é contra a União Europeia e a NATO, tem “profundas reservas” sobre a economia livre e de mercado (o actual ministro do Consumo do Governo Espanhol, Alberto Garzón, também ele membro do Unidas Podemos, escreveu no Twitter que o seu modelo de país é Cuba), e, sobretudo, dorme mal com uma imprensa livre. Ora, Pedro Sánchez sabe de tudo isto, mas mesmo assim prefere continuar a dormir com Pablo Iglesias no conforto da Moncloa.

Quinto (e para já último): numa sondagem publicada esta semana pelo Centro de Investigaciones Sociológicas, uma espécie de centro de sondagens do regime, o socialista “sociólogo” José Félix Tezanos, faz perguntas como as seguintes: (1) “Concorda que o Governo deva proibir qualquer tipo de informação publicada por meios não oficiais?”, ou (2) “Acha que a críticas dos partidos da oposição são um sinal de falta de patriotismo?”. E poderia continuar mas o decoro e a vergonha alheia não me permitem.

No final de Março escrevi que, uma vez terminada a crise sanitária, o Governo de Sánchez-Iglesias teria que prestar contas aos espanhóis pela forma desastrosa como tem gerido a actual crise. Hoje, em Abril, tenho poucas dúvidas que o actual Governo Espanhol aguente muito mais tempo no poder. E bem. Porque com Caracas no poder é a Democracia que está em jogo.