Voltei, no passado sábado, do Vale do Loire, depois de uma semana de férias. Por hábito de quem aprecia a sua rotina, desfiz as malas na exacta noite do regresso, mas talvez devesse tê-las deixado intactas, como quem aprecia o prazer perverso de adiar regressos.

França tem os seus problemas, que não são poucos, mas tem sempre a grande vantagem de nos embebedar pela beleza, e não pelo tédio. Os franceses, não raras vezes, e talvez injustamente, acusados de arrogância e soberba, terão os seus defeitos comuns de civilização, mas possuem uma predisposição para o belo que apazigua. Ao invés, o nosso espaço público – e talvez também o espírito – é exclusivamente de uma sobrevivência funcional, nunca de um prazer ornamental. França faz das suas frustrações decoração; nós embrulhamo-las em papel de merceeiro. E adiante, antes que o leitor discuta – ou, pior, que se aborreça.

Ao fim de dois dias, esquecera-me a campanha eleitoral em que Portugal, mais uma vez, mergulhou. Recordei-a, com esforço, para participar num Contra-Corrente, da nossa rádio Observador. Tínhamos passado o pequeno-almoço a conversar, entre franceses, suíços e australianos, os problemas de cada uma das respectivas democracias. Entre problemas e desapontamentos idênticos, e sem que ninguém se assumisse de esquerda ou de direita, conservador ou progressista, globalista ou soberanista, lá fomos deixando soltar opiniões, quase sempre com medo injustificado de ferir susceptibilidades alheias. O resultado foi uma melancólica proclamação de afirmações de senso comum, de como ele parece fora de moda em quem nos deveria representar a todos, e um generalizado encolher de ombros de quem tem vontade de proclamar «é o que há, não é bom, mas que se há-de fazer?». Estando todos de acordo, acabámos a rir, quando um dos australianos, advogado como eu, contou o que disse a um dos filhos quando este lhe perguntou o que achava de seguir uma carreira jurídica: Son, do I look like a happy man? O rapaz reflectiu: He’s now a doctor. Subscrevi cinicamente a tese, abaixo o Direito, abaixo a Política, que ninguém é perfeito, engolimos mais um pedaço de pain au chocolat e fomos às nossas respectivas vidas, comigo já embrenhado, com esforço, em pensamentos sobre a nossa campanha eleitoral.

Mas qual campanha, santo Deus? Estamos em campanha, é um facto. Mas o país parece estar noutro momento político qualquer. Talvez o do vazio, resignado por ter de, novamente, votar onde sempre votou, mesmo que os rostos mudem e as cores partidárias se alterem. Quando não se muda de canal, assiste-se aos debates. Entre impostos baixos, reformas altas e proclamações várias, sobra um quadro político que parece viciado em «coisas boas», que todos merecemos, sem excepção. Nenhum dos candidatos parece acreditar no que diz — e nós acreditamos cada vez menos em quem diz seja o que for. Os debates são teatro de bonecos de corda, puxados por sondagens e alimentados a soundbites. E muitas «coisas boas», que as más não dão votos, dizem os especialistas. O que é que se propõe, afinal? Pouco. Como se propõe? Mal. A quem se propõe? A quem não muda de canal, de voto decidido não raras vezes há décadas. Os debates são um jogo de sombras num fundo de ecrã azul. Fala-se em impostos, em saúde, em educação, em habitação, como se estivessem a escolher pratos para um menu que ninguém vai cozinhar. Assisti, com dedicação, bravura e pouca glória a vários deles, indiferente, como quem revê um episódio de uma série que já cancelaram lá fora.

A última vez que senti que alguém dizia algo politicamente valioso em língua portuguesa foi quando li a entrevista de Maria João Avillez a Isabel Díaz Ayuso, e estava traduzida do castelhano. Parecia um milagre estar escrito em português, mas como era traduzido constatava-se que era bem real. Uma mulher viva, ordenadamente desordenada, livre. Alguém a falar com veemência, sem pedir desculpa, sem esperar aprovação. Presumo que tenha sido quase estrangeiro demais para ser publicado.

Talvez a culpa seja minha. Talvez esteja a pedir ao país um charme que ele nunca prometeu. Talvez espere uma política que não morre nos rodapés das televisões, na fila para votar ou no cheiro a carne assada partidária. Mas caramba — será pedir muito que alguma alma que ainda insiste na política portuguesa diga alguma coisa de novo? Que nos tratem como se ainda estivéssemos acordados?