Desde as últimas eleições legislativas que um dos temas ao qual se dedica mais tempo de debate tem sido o de discutir qual o papel da direita portuguesa e qual o seu futuro. Inúmeros artigos, debates e discussões encheram todos os órgãos de comunicação social. Uns afirmam que a direita está morta, outros – mais românticos – preferem pensar que está apenas adormecida. Qual deles terá razão? Uma pergunta difícil, que, ao dia de hoje, tende a dar mais razão àqueles que acreditam estar morta. Se está apenas adormecida, então, nesse caso, que acorde o quanto antes. Antes que seja tarde de mais.

O próximo desafio é já em janeiro e não poderia vir em pior momento. A direita parte já em desvantagem para as próximas presidenciais. Sejamos sinceros, por muito que custe a alguns: que candidato representa o eleitorado de direita português?

Será Marcelo Rebelo de Sousa? Não me parece que seja uma resposta fácil. Ultimamente tem afastado (ainda mais) aqueles que votaram nele em 2016. No último mandato não se limitou a ser uma muleta do Governo do PS, como deixou bem claro que, enquanto se aproximava cada vez mais do eleitorado de esquerda, não via no eleitorado de direita uma preocupação a ter em consideração. Afinal de contas, o seu objetivo – como várias vezes o disse – era a união, o equilíbrio e a estabilidade política. Mas até que ponto? Nos verdadeiros momentos, em que se pedia uma atitude dura e merecedora de coragem, Marcelo acabava a vacilar. Voltou-se a dizer (e bem) que “quem se mete com o PS leva”, mas para isso acontecer é porque Marcelo o permite. Nada faz, nada diz, à exceção da constante proteção a António Costa. O mandato de Marcelo pode resumir-se a uma espécie de “vitória de mural” quando, na realidade, o resultado prático é bastante negativo.

Será André Ventura? Parece-me lógico que não. “Dizer as verdades”, como alguns invocam, não é suficiente. Se assim fosse, Ana Gomes não precisava de ir a eleições – até porque ambos utilizam a mesma estratégia do populismo, dos chavões e do ver quem fala mais alto. André Ventura não é um candidato para a direita moderada. Servirá, certamente, para uma franja desta que, descontente com a postura de Marcelo, acaba por ver em André Ventura uma espécie de salvador da pátria. Caso Marcelo Rebelo de Sousa não tivesse sido uma muleta do PS, poderia não haver espaço para uma candidatura presidencial de André Ventura – envolto em polémicas para todos os gostos. Só isso, a acrescentar às dezenas de situações lamentáveis em que André Ventura está, é suficiente para afastar a direita moderada do seu eleitorado.

Será Tiago Mayan? Poderia ter sido, mas também não é. Pouco se sabe sobre o que defende, pouco se ouve sobre o que diz, e, arriscar-me-ia a dizer que, os menos atentos poderão até nem reconhecer uma cara.  A culpa, aqui, talvez não seja tanto do candidato, mas sim do partido que este representa. A Iniciativa Liberal finalmente mostrou uma fraqueza e das grandes. A comunicação, que costumava ser o ponto forte da IL, desta vez, não está a resultar. Algo que não deveria estar a acontecer numa fase tão crucial para o partido, que podia, nestas eleições, elevar-se a um grande partido de direita. A IL quis jogar no campeonato dos grandes, mas, para já, não está a correr como esperado.

Chegados aqui, pouco nos resta em quem votar. Um candidato, Presidente em funções, que já gastou demasiadas oportunidades de redenção; um candidato a viver no seu próprio reality-show, que já deu demasiadas evidências que não é uma solução credível e moderada; e um candidato, que não passa disso, de um candidato desconhecido.

No início do texto, expus as duas análises correntes do atual estado da direita: a direita que está morta e a direita que está adormecida. Romântico, também eu me confesso, ao ser daqueles que acha que este é um sono passageiro da direita e que não tardará a acordar. Mas há um problema: para as próximas eleições presidenciais, a direita deixou-se dormir e agora já não acorda a tempo.

Resta-nos o futuro que aí vem.