Rádio Observador

caderno de apontamentos

Educação: entre o luto e o futuro /premium

Autor
  • Alexandre Henriques
202

É imperativo colocar os professores no centro das políticas educativas, em parceria com os alunos. Os professores não podem continuar a ser desvalorizados social e financeiramente. Batemos no fundo!

Enquanto professor, seria muito cómodo para mim aproveitar este artigo para massacrar o Ministério da Educação e respetivo Governo, pela gestão desastrosa da recuperação do tempo de serviço docente. Independentemente do que foi feito e falta fazer, o Ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues será para sempre lembrado como um inapto para o cargo, distante, incapaz de se impor no Governo de António Costa. A frase “defenderei radicalmente os professores”, sabemos agora, não passou de bluff de um infeliz soundbyte.

Os professores estão de luto, existe um sentimento de esgotamento emocional sem paralelo na recente história educativa. A indignação levou à resignação, fruto de uma luta contínua de mais de uma década. A saturação é total. Sindicatos e Ministério da Educação precisam de estabelecer pontes que iniciem um processo de recuperação da sua imagem, mas principalmente da alma de se ser professor. Estamos num momento decisivo e brevemente a falta de professores será algo regular e uma consequência direta de políticas educativas que de forma contínua desvalorizaram a docência.

Dói quando constatamos que um professor é agredido e da Tutela apenas temos um silêncio ensurdecedor, dói quando assistimos ao nosso Primeiro-Ministro criar uma crise política fictícia, ao mesmo tempo que atira milhões para a banca ou permite que o vencimento de juízes seja superior ao seu. Faltou critério e honestidade intelectual para com os professores, para com os portugueses e isso não irei esquecer e não estou preparado para perdoar tão cedo.

Agora que o mandato está a terminar, é importante olhar para trás e ter a capacidade de ser imparcial e reconhecer que este Ministério da Educação também fez coisas boas e que merecem ser realçadas, tais como: o fim dos abusos nos contratos de associação; a maior liberdade e autonomia dada às escolas; a permeabilidade entre os cursos profissionais e ensino regular; a gratuitidade de quase todos os manuais escolares; a redução do número de alunos por turma; a valorização da cidadania; uma maior igualdade entre as disciplinas, acabando com o “monopólio” da Matemática e Português; a redução da norma travão; a regulação dos intervalos do 1º ciclo; a eliminação da PACC e da Bolsa de Recrutamento; etc.

A marca maior é naturalmente a flexibilização curricular e a inclusão. Boas ideias, com bons princípios, mas a sua aplicação careceu de pilares essenciais para um sucesso consensual. Faltou acreditar que esta reforma era a verdadeira reforma, pois não existiu um compromisso entre os diferentes partidos políticos. Faltou formação (apesar dos 19 milhões de euros investidos) transversal e prática sobre a aplicação da flexibilização e inclusão. Permanecem as carências graves ao nível das condições dadas aos professores para a sua implementação, nomeadamente a falta de horas para o trabalho colaborativo e a falta de condições ao nível das infraestruturas. Faltou demasiado para um objetivo tão ambicioso.

Passados 4 anos, assistimos a uma mutação vincada na educação, onde a memorização, os resultados, os exames eram a essência do ensino, para agora constatarmos um sucesso constante – os alunos podem estar em diferentes níveis de aprendizagem e, apesar da escala de avaliação contemplar as negativas, ao estarem em desenvolvimento não podem ter qualquer negativa. O que agora interessa são os processos, os testes tornaram-se mesmo persona non grata e o sucesso é aquilo que se quiser, apesar da chapada de realidade que continuam a ser os exames nacionais.

Caímos num extremo, onde as pressões para certificarmos a incompetência estão bem presentes, onde o insucesso do aluno (quando este não cumpre com os seus deveres) é desculpado pela incapacidade do professor de implementar diferentes estratégias. Um verdadeiro absurdo e um caminho extremamente perigoso e com graves custos a médio prazo. Como se costuma dizer, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O sucesso depende do professor, mas depende e muito do aluno e, já agora, do seu encarregado de educação.

E agora, que futuro para a Educação?

É imperativo afastar qualquer ideia de facilitismo. É imperativo assumir o problema da indisciplina escolar e dotar as escolas que precisem de horas para a implementação de equipas multidisciplinares. É imperativo reduzir de forma drástica a burocracia escolar. É imperativo alterar o modelo de gestão, dando maior democracia às escolas, até para evitar a contaminação da municipalização escolar. É imperativo colocar os professores no centro das políticas educativas, em parceria com os seus alunos. Os professores não podem continuar a ser desvalorizados social e financeiramente. Batemos no fundo!

Por fim, e não menos importante, um pedido para os principais sindicatos e futuro Ministério da Educação. Não tornem as lutas políticas em lutas pessoais. Percebam que o país real precisa de seriedade, honestidade e transparência nos argumentos. Estamos todos fartos de política, é urgente haver educação na Educação!

Pai, professor do 3.º ciclo e do ensino secundário e autor do blogue ComRegras.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
caderno de apontamentos

Educar mesmo /premium

Miguel Abranches Pinto
187

O debate sobre a educação cairá sempre na necessidade de uma presença adulta, sendo aqui que se joga o diálogo da família com a escola, para que o jovem possa crescer e afirmar a sua personalidade.

caderno de apontamentos

Educar para o futuro /premium

Eduardo Marçal Grilo
716

Os jovens portugueses nada devem temer na sua comparação com os de países mais avançados tecnologicamente, mas para poderem “voar” têm que ganhar mundo, ser pró-ativos e não ter medo do futuro.

Ministério da Educação

Um mau serviço à Educação

Carlos Fiolhais
115

Os governantes que na prática fecharam o Colégio da Imaculada Conceição, prestando um mau serviço à educação, desconhecem provavelmente os contributos dos Jesuítas para o ensino, a ciência e a cultura

Economia

Liderança: um diálogo pai-filho /premium

José Crespo de Carvalho

Podes ter a melhor das intenções, as características pessoais que achas apropriadas ou mais valorizas, a visão e a estratégia para o exercício da liderança. Mas a cultura, se não ajudar, estás morto.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)