Uma questão filosófica perene, do oriente ao ocidente, é saber se o Céu pode castigar as pessoas, os povos ou até a humanidade inteira pelas suas imoralidades e perversões e se, de facto, o faz de vez em quando. Na tradição chinesa a resposta é claramente que sim: tanto o Confucionismo, como o Daoísmo, advertem que a vida moralmente reta—a conformidade com o Dao 道— é não só necessária para o florescimento e felicidade de indivíduos e povos mas também para evitar castigos do Céu—tianfa 天罰—na forma de doenças, guerras ou cataclismos e essencial para o soberano manter o mandato do Céu—tianming 天命.

No ocidente a resposta é mais matizada. Para começar temos os ateus[1], que não só opinam que Deus não existe como até que nem tem músculo para fazer nada. Mas mesmo entre os cristãos há várias opiniões. Há quem ache que não, como parece ser o caso dos srs. bispos[2] católicos alemães que vieram dizer recentemente que, como cristãos, estão profundamente convictos que a doença[3] não é castigo de Deus. Sua Santidade, por seu lado, está persuadido que as pandemias, incêndios, inundações e dissolução de glaciares que ultimamente nos têm visitado são, senão “vingança”, pelo menos “resposta da natureza” aos abusos que esta tem sofrido de nós homens.

A atribuição por Sua Santidade do castigo, ou “resposta”, à natureza em vez de a Deus não deixou de suscitar reparos a ecólogos e teólogos vários. Uns, porque ressentiram a sugestão que Gaia possa ser entidade vingadora em vez de sofrida e ternurenta mãe. Os outros, porque lhes pareceu que Sua Santidade errou trocando Deus por uma natureza senão divinizada, pelo menos personalizada. Ambos estão enganados. Uns porque Gaia não é mãe, os outros pelo seguinte motivo.

A filosofia cristã distingue, desde o seu início, entre causalidade primária e secundária. Deus, a causa não causada, é a primeira causa que criou todas as coisas. Não só criou todas as coisas mas também, nas sua infinita sabedoria e providência, deu-lhes o poder de causar. Por isso as criaturas são causas secundárias. Isto é, têm um poder recebido de Deus para causar, e Deus pode operar na natureza e governar a história através da atividade destas causas secundárias, sejam elas criaturas racionais com livre arbítrio ou criaturas não racionais. Assim é perfeitamente ortodoxo dizer que a natureza responde à atividade humana de acordo com as leis estabelecidas por Deus na sua infinita bondade. Por exemplo, é sabido que quando se dá um passo para fora de uma janela a natureza responde com a lei da gravitação universal. Deste modo, a opinião de Sua Santidade enquadra-se perfeitamente na ortodoxia católica.

Será então que Deus nos está a castigar com esta pestilência que estamos a sofrer em Portugal? Um sr. ministro[4] alemão, ao contrário de um sr. bispo, responderá que sim. O sr. ministro dirá que é um castigo divino porque acredita na causalidade. E acreditando que Deus existe, e é a causa última de todas as causas, parecer-lhe-á evidente que terá sido Ele que, na sua sabedoria, terá estabelecido desde toda a eternidade as coisas para que o PS perdesse as eleições em 2015 sem que a coligação Portugal à Frente obtivesse a maioria absoluta. Para isso bastou-Lhe ordenar, através de outras causas secundárias, os afazeres e preferências de 44% dos eleitores para que não fossem votar, bem como infetar 32% dos votantes com o vírus socialista e outros 18% com uma bactéria marxista resistente a toda a evidência histórica. Embora esta calamidade nacional, que são os governos do sr. eng. Costa, tenha tido como causa próxima estas doenças ideológicas, de caracter endémico no nosso país, um crente estará consciente que a sua causa última é Deus Nosso Senhor, que opera por causas quer aparentes quer misteriosas.

Por seu lado, um sr. bispo alemão, que não acredite que Deus pode castigar pela doença, também não aceitará que seja a mão divina que está por detrás desta pandemia que tomou solenemente posse de nós a 26 de Novembro de 2015. Pode ser que a causa da sua recusa seja não acreditar que Deus existe. Ou acreditando que existe, pode achar que Ele se está a marimbar para este mundo. Finalmente, pode-se dar ainda o caso do sr. bispo não perceber que tudo na providência divina, incluindo os governos socialistas, é para o nosso bem.

Como pode um governo do sr. eng. Costa, ou um desastre de Pedrogão Grande, ou uma doença ser para o bem de quem os sofre? O pior mal que nos pode acontecer é esquecermo-nos que, quando violamos certos princípios morais, de algum modo nos estamos a destruir a nós próprios. Todas as calamidades, por maiores que sejam, incluindo este governo constitucional, são abanões carinhosos que Deus Nosso Senhor nos dá quando nos desviamos dos seus caminhos, para nos chamar a atenção de que estamos a ser palermas e nos estamos a causar mal. Um castigo, sendo uma correção, é prova de amor de um pai preocupado com o bem-estar do seu filho. Por isso, como explicava J. R. R. Tolkien (1892—1973), “um ‘castigo’ divino é também um ‘dom’ divino, se aceite, pois o seu objetivo é uma bênção superior”.

Portanto, apesar de ser um castigo, o governo do PS é também uma graça divina que nos chama ao arrependimento e à mudança de vida. Se aceite, será para nosso bem. Se ignorado, mais não será que um prenúncio de desastres piores que estão para vir… como um governo, tão implausível como horrível, do sr. eng. Rio.

U avtor não segve a graphya du nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nein a do antygo. Escreue coumu qver & lhe apetece.

[1] Ateu: pessoa que não acredita em Deus mas presta culto a demónios[5], tal como ti Jerónimo de Sousa na sua devoção a Cunhal e Estaline; aquele que tem fé no ateísmo[6].
[2] Bispo: peça de xadrez, com valor aproximado ao de um cavalo, que se move obliquamente podendo, ao longo de várias jogadas, avançar e recuar aos ziguezagues; dignatário eclesiástico, com valor aproximado ao de um ministro, que se move obliquamente podendo, ao longo de várias jogadas, avançar e recuar aos ziguezagues.
[3] Doença: sistema de segurança social para médicos, enfermeiros e farmacêuticos.
[4] Ministro: malfeitor; feitor de uma organização política numa quinta ou quintinha; feitor de uma autoridade superior com responsabilidade inferior e nomeado pelas suas qualificações, a principal das quais é um grau plausível de inveracidade; título honorífico atribuído a membro de quadrilha quando esta sucede no seu assalto ao estado; peça no tabuleiro político, correspondente ao cavalo no xadrez, que pode avançar, recuar ou mover-se lateralmente, mas sempre em movimentos não retilíneos.
[5] Demónio: criminoso cujas mortandades, crueldades e esbulhos são encomiadas na comunicação social subsidiada pelo governo.
[6] Ateísmo: crença na inexistência de uma causa primeira compatível com fé no atuar de causas segundas; conjunto de seitas religiosas de adoradores fideístas do deus que não existe—mas com profundas divergências entre si em relação a outros dogmas; proselitismo do inexistencial.