Passados estes dias sobre a greve geral, podemos dizer que houve greve geral, sim, mas foi grave geral a mencionar a única forma de melhorar a vida dos trabalhadores portugueses. Serei então o fura-greves retardatário. A única forma de melhorar a vidas dos portugueses é — escutem isto, que não vão acreditar — havendo mais empresas. Ou há mais empresas, e portanto mais procura para o trabalho dos portugueses, fazendo subir os salários, ou não há melhores salários. Só que para isto acontecer era preciso termos por cá uns quantos Mileis em vez de inúmeros burocratas a embrulharem-nos em mil leis.
Não temos uns quantos Mileis, mas temos uma nova versão do clássico “dois pesos, duas medidas”, agora sob a forma “dois alegados pedófilos, duas factuais medidas”. Isto porque, depois daquele deputado municipal do Chega afastado por pedofilia — o primeiro alegado pedófilo —, foi agora detido, por suspeitas de abuso sexual e pornografia de menores, um adjunto da antiga ministra da Justiça do governo do PS — o segundo alegado pedófilo. Sendo que ao caso do primeiro alegado pedófilo foi dada uma cobertura mediática de fazer corar de inveja a cobertura mediática do Mundial de Futebol do Qatar, enquanto no caso do segundo alegado pedófilo, a sua ligação ao PS mereceu uma cobertura mediática ligeiramente menos reveladora do que uma burca de gola alta.
Burca de gola alta que arrisca passar a ser a primeira opção de vestimenta para os frequentadores da praia de Bondi, na Austrália. Isto depois de, no domingo, dois terroristas islâmicos terem chacinados 15 judeus que festejavam o Hanukkah, incluindo uma criança de 10 anos. Eh pá, mas calma: atenção à islamofobia! Até porque, imediatamente após mais esta matança, houve milhares e milhares de muçulmanos, por todo o ocidente, a manifestarem-se contra o radicalismo islâmico. Espera… Foram milhares e milhares ou foram zero e zero? Pois… peço desculpa, fiz confusão. Foram zero e zero, e zero e zero, e ainda zero, assim é que é. Ainda não foi desta que o mundo ocidental foi apresentado à esmagadora maioria de muçulmanos que preconiza o Islão da paz e do são convívio.
Mas isso não significa que não tenha havido manifestações de repúdio ao sucedido na Austrália. Por exemplo, em Amsterdão, menos de 12 horas após o ataque terrorista em Sidney, manifestantes pró-Palestina tentaram invadir um concerto realizado pela comunidade judaica enquanto gritavam “assassinos de crianças”, revelando evidente repúdio pelo que imagino terem considerado ser o número absolutamente residual de vítimas provocadas pelos dois assassinos de Bondi.
Dupla de assassinos que, se precisávamos de mais provas, apenas corrobora a certeza de que isto é malta a quem importam os valores humanos, muito especialmente os valores da família. Afinal, estivemos na presença de um pai e um filho, bem juntinhos a partilharem um típico programa de domingo e a criarem lindas memórias de confraternização enquanto se entretinham a caçar judeus.
Mas enfim, quem podia antecipar uma desgraça destas, não é? Não, não é. Uma vez que a resposta é a já costumeira e eternamente chocante “toda a gente”. Ou melhor, qualquer uma das pessoas que tinha obrigação de actuar em função do mais novo dos assassinos ser conhecido das autoridades por suspeitas de ligações ao ISIS. A não ser que o facínora tenha feito as ligações ao ISIS por engano, claro. Queria ligar para o número de telefone que acionava a bomba que colocou numa creche, enganou-se, e ligou antes ao ISIS. Quem nunca. É preciso é ter atenção à islamofobia!
Agora a sério: é isto uma estratégia meticulosa para aniquilar o ocidente e somos governados por efectivos belzebus? Ou é uma sucessão infinda de grotescas estupidezes e somos governados por absolutos mentecaptos? Esta é uma daquelas ocasiões em que recordo a máxima de não imputar à malícia o que pode ser explicado pela imbecilidade. É que a malícia necessária para levar a cabo a extinção do ocidente pressuporia estratégia, coordenação e eficácia, ou seja, complexidade. O que vai contra o princípio da navalha de Ockham, que sugere que a explicação mais simples é normalmente a correcta, dando força à opção “imbecilidade”. Em todo o caso, bom, bom, era resolvermos isto antes de estarmos com a navalha no pescoço.
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