Os tradicionais modelos de funcionamento da economia que organizam a sociedade entre a dicotomia fator capital e fator trabalho, têm-se vindo a revelar insuficientes para explicar grande parte do progresso e desenvolvimento económico. Desde os contributos propostos por Joseph Schumpeter, em 1934, com a Teoria da Destruição Criativa, o fator conhecimento e a inovação a ele associado, revelam-se conceitos centrais no desenvolvimento dos estados e das sociedades modernas.

Os resultados produzidos pela inovação criam ciclos de expansão económica, criando novas realidades, negócios e produtos, os quais correspondem a bem-estar social para além da criação de riqueza. Esta realidade justifica que os estados invistam na inovação, criando políticas públicas que favoreçam a criação de conhecimento e saber, o qual se possa traduzir em novos produtos com razão no mercado e na economia. É este o fundamento do investimento público na investigação e desenvolvimento, no empreendedorismo, na criação de parques de tecnologia, entre outros.

Até muito recentemente a inovação era vista como algo que era sempre positiva, a qual deveria ser acarinhada pela política, numa visão tão naïve quanto paternalista.

O referendo à permanência no Reino Unido na União Europeia, seguido das eleições Presidenciais Americanas de 2016, entre outros momentos eleitorais, vieram despertar consciências para uma nova realidade: o momento em que a inovação deixa de ser influenciada pela política e passa ela própria a influenciar os sistemas políticos. A empresa Cambridge Analytica apresentou um modelo inovador de campanhas eleitorais, o qual permitia influenciar milhões de cidadãos, disseminando mensagens dirigidas individualmente, considerando os perfis pessoais e de interesses revelados pelos cidadãos no facebook, os quais foram colecionados por esta empresa a fim de mobilizar os cidadãos, influenciando o seu voto. Este conhecimento existe e mais tarde ou mais cedo voltará a ser utilizado com estes propósitos.

Os sistemas políticos foram abalados por esta nova realidade, onde a inovação supera a política, influência os cidadãos conforme a agenda dos seus interesses, ou daqueles a quem fornece serviços, o que corrompe a confiança nos sistemas políticos e em particular nos sistemas democráticos. Os centros de decisão passam a sofrer influências por interesses exógenos aos dos próprios estados, desmaterializando o lugar da decisão de um espaço físico protegido por fronteiras terrestres, para um espaço virtual “desterritorializado”, onde, através das redes sociais é possível corromper o livre arbítrio dos cidadãos, abalando a confiança nos estados de forma mais perversa do que com as ameaças sinistras dos tempos da guerra fria.

É a consagração do “Data side of the force”, onde a capacidade de gerir os dados é de tal forma importante e valiosa que estes são já considerados o novo petróleo, onde estas tecnologias devolvem mais do que riqueza, poder a quem os considere e utilize.

Os processos políticos, de hoje em diante, não mais serão iguais por não serem imunes aos efeitos da inovação e da tecnologia e as sociedades terão forçosamente de ter que compreender esta realidade e saber lidar com ela, conhecendo as agendas ocultas de quem quer influencias os processos democráticos, seja pela utilização de fake news, pela sugestão de páginas que nos apresenta ou pelas mensagens com que capta a nossa atenção e mobiliza o nosso voto.

A criação de ferramentas institucionais e jurídicas como o RGPD – Regulamento Geral de Proteção de Dados, entre outros, procuram já responder a esta realidade mas são ainda muito insuficientes face à velocidade dos avanços destas inovações tecnológicas.

É por tudo isto fundamental advogar por mais literacia digital que permita aos cidadãos recuperarem o seu livre arbítrio, protegendo a nossa integridade democrática.