Lembra-se do que Primeiro-Ministro e Presidente da República lhe disseram há apenas dois meses, no fim de tarde de 17 de Junho? Eu recordo-lhe. Disseram que a realização da fase final da Champions League em Lisboa era “uma vitória antecipada de todos os portugueses”. Que os portugueses “demonstraram uma capacidade extraordinária de resistir e ultrapassar esta pandemia”, permitindo “diferenciar Portugal” e “controlar a pandemia”. Que a organização do evento havia reforçado o estatuto de Portugal no mundo, servindo de sinal de que, por cá, o combate à Covid-19 havia sido bem liderado. Que, “num momento em que todos os países disputam o regresso do turismo internacional”, ter sido “a marca Portugal aquela que vence e aquela que se vai afirmar em Agosto não tem preço”. Que “Portugal tem autoridade moral pela forma como conduzimos o combate à pandemia” e que, por isso, os portugueses merecem “o que vão ter em Agosto”.

Ora, Agosto chegou e a Champions já se joga em Lisboa. Mas a realidade encarregou-se de refutar todas as premissas e promessas que fizeram da realização do evento em Lisboa um acontecimento com “uma importância sem limites” – como, no anúncio de há dois meses, acrescentou o presidente da Câmara de Lisboa. O alegado milagre português no combate à Covid-19, que as autoridades públicas publicitaram amplamente, nunca passou de um logro, rapidamente desmentido pelos indicadores de contágio. A suposta autoridade moral dos portugueses no combate à pandemia soa hoje a anedota. A valorização internacional de Portugal simplesmente não aconteceu – e, de resto, para os milhões que seguem os jogos em estádios vazios pela televisão, só pode ser indiferente se as equipas estão em Lisboa ou em Moscovo. Por fim, a “marca Portugal” no turismo não ficou favorecida com o evento, até porque o país mostrou-se incapaz, no plano diplomático, de escapar às listas vermelhas, tendo, assim, ficado de fora dos destinos marcados como seguros para os visitantes.

É certo que o mais memorável do anúncio da realização da fase final da Champions League foi a equiparação do evento a um prémio para os profissionais de saúde – o que, sob qualquer ponto de vista, só poderia ser recebido como um insulto para quem trabalha muito e recebe pouco. Mas, dois meses depois, o balanço mostra como os profissionais de saúde não foram os únicos a ser gozados. Todos os portugueses o foram – porque lhes foi vendido um milagre que não existia, anunciada uma vitória que nunca aconteceu e prometidos benefícios que nunca chegaram. Como já então era previsível, e agora é indesmentível, o falhanço da estratégia foi total – com a eventual excepção de maior prestígio para a Federação Portuguesa de Futebol nos bastidores da UEFA.

A memória é importante. Sim, todos os dias somos inundados de informação e enquadrá-la devidamente no seu contexto é um exercício exigente. Mas a memória não serve somente para se ser o chato de serviço. Ela é condição imprescindível para a prestação de contas – para comparar as promessas com os resultados, para detectar anúncios repetidamente inconsequentes e para evitar que o esquecimento branqueie a incompetência. E, neste caso da Champions League, é politicamente relevante recordar como, num contexto excepcional e de emergência sanitária, as autoridades portuguesas aplicaram esforços num evento desportivo e glorificaram a escolha de Lisboa de uma forma insustentável perante os factos, com base em argumentos artificiais e benefícios improváveis – que obviamente não se verificaram.

Poderia ser só um episódio de inabilidade política? Poderia. Mas, quando se observam as actuais prioridades políticas, quando se constata o abandono dos lares, quando se verifica a falta de recursos para apoiar empresas, quando se olha para o afunilamento dos cuidados médicos, este episódio torna-se representativo de uma forma de fazer política. Aquela que explica o porquê de Portugal estar a ser sucessivamente ultrapassado pelos seus parceiros europeus: não se governa para o essencial na vida das pessoas, mas sim para as aparências. E enquanto a memória for escassa e a prestação de contas for frágil, assim continuará a ser.