Ciência

Mulheres na Ciência: precisamos de todos os talentos

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Não nos podemos dar ao luxo de prescindir do contributo das mulheres. Em particular na investigação, ciência e inovação. É preciso dar resposta ao fosso salarial entre géneros ainda nesta geração.

Hoje, dia 11, celebramos o «Dia Internacional das Mulheres na Ciência», instituído pelas Nações Unidas.

Faz agora vinte anos que a Comissão Europeia apresentou a sua primeira agenda política para promover uma maior participação das mulheres na ciência.

Já percorremos um longo caminho desde os dias de mulheres cientistas pioneiras como Marie Sklodowska-Curie, Rita Levi-Montalcini ou Branca Edmée Marques e Adelaide Cabete em Portugal.

Atualmente há mais mulheres que homens nas universidades europeias e o número de jovens mulheres que opta pela ciência, engenharia, tecnologia e matemática está a aumentar gradualmente.

Ainda assim, continuam consideravelmente sub-representadas e o seu potencial não é suficientemente reconhecido, valorizado e desenvolvido.

Afinal, como é que podemos enfrentar juntos desafios comuns como as alterações climáticas se metade dos nossos talentos científicos forem excluídos do debate? Como é que vamos desenvolver uma inteligência artificial para toda a humanidade se as mulheres não participarem no processo?

Em março de 2019, a Comissão Europeia publicará o relatório ‘Shefigures’ sobre o estado atual da igualdade de género na investigação e inovação, do qual podemos já antecipar uma melhoria do panorama global. Por exemplo, praticamente alcançámos o equilíbrio de géneros em número de doutorados.

No entanto, se considerarmos a progressão profissional, apesar da evolução positiva, o género predominante continua a ser o masculino. Apenas um terço dos investigadores na Europa são mulheres, ocupando apenas um quarto dos cargos académicos mais elevados.

Estamos por isso a progredir positivamente, mas muito lentamente. Se continuarmos a este ritmo, alcançaremos a igualdade de género na investigação em 2060 e no topo dos postos académicos em 2067. Quanto ao fosso salarial entre os géneros, será colmatado no ano 2149. Ou seja, daqui a 130 anos!

A realidade é claramente mais complexa que estes cálculos simples. Porém, uma coisa é certa: os avanços nesta área não surgem de forma espontânea. São precisas medidas positivas que permitam recuperar o atraso acumulado.

Até agora, os planos de ação em matéria de igualdade entre homens e mulheres têm-se focado no aconselhamento, treino e preparação de mulheres para enfrentar o sistema científico. O foco tem sido as mulheres e não as estruturas. Embora esta abordagem tenha alcançado algum sucesso, temos que focar-nos mais em corrigir o sistema. Como?

Em primeiro lugar, temos de definir metas claras. Sob o atual programa europeu de investigação e inovação, o Horizonte 2020, que tenho a honra de gerir, definimos uma meta ambiciosa de incluir pelo menos 40% de mulheres nos órgãos de decisão. Orgulho-me de já termos alcançado esta meta. Também apoiamos o desenvolvimento de estratégias para promover a igualdade de géneros nas universidades e nos centros de investigação. Em alguns casos, estas medidas de caráter voluntário já apresentaram resultados. Mas quando as medidas voluntárias não resolvem a situação, acho que estará na hora de considerarmos seriamente um sistema de quotas nas universidades e nos centros de investigação.

Em segundo lugar, não podemos pensar que uma interrupção de carreira (ex. licença de parto) é uma quebra definitiva na carreira. A nível Europeu, existe financiamento específico para apoiar a mobilidade de investigadores que tenham feito uma pausa na carreira. Ao contrário do que normalmente se pensa, as nossas avaliações mostram que estas investigadoras conseguem ser mais bem-sucedidas nas candidaturas a bolsas Marie Sklodowska-Curie quando comparadas com outros candidatos. Elas são, simplesmente, melhores.

Em terceiro lugar, é preciso ter consciência dos nossos preconceitos. As nossas bases de dados estão inundadas de estudos que indicam que estes preconceitos existem – como currículos idênticos avaliados de formas diferentes quando se muda o género do candidato; publicações elaboradas por mulheres menos citadas apesar de serem de qualidade igualmente elevada; e revisões e recomendações escritas com uma linguagem menos positiva quando se referem a artigos escritos por mulheres.

A consciencialização do problema é o primeiro passo na sua resolução, e a ação afirmativa, o segundo.

Não nos podemos dar ao luxo de prescindir do contributo das mulheres. Em particular na investigação, ciência e inovação. É preciso dar resposta ao fosso salarial entre géneros ainda nesta geração.

Comissário Europeu para a Investigação Ciência e Inovação

Agora que entramos em 2019...

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