Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Entre outras consequências devastadoras da nossa organização social e económica, a pandemia Covid-19 provocada por uma nova espécie de Coronavírus, o SARS-CoV-2, obrigou ao cancelamento de milhões de consultas, exames complementares de diagnóstico e intervenções cirúrgicas pelos sistemas de saúde de todo o mundo. Dois fatores, com pesos relativos variáveis, contribuíram para esta situação: a indisponibilidade de recursos humanos e materiais nas unidades prestadoras de cuidados de saúde, alocados à resposta aos doentes Covid-19 – e o receio do risco de infeção por Covid-19 em doentes com outras patologias, sentido pelos prestadores e pelos próprios doentes.

A obesidade, classificada há mais de 20 anos pela Organização Mundial de Saúde como doença (e não um mero estado de risco ou de “pré-doença”) e também como pandemia (WHO technical report series; 894: Obesity: Preventing And Managing The Global Epidemic. Geneva 2000), tem sido uma das patologias mais afetadas pela suspensão da prestação de cuidados a doentes não-Covid. Por exemplo, as nossas unidades de tratamento da obesidade no Hospital CUF Tejo, nos primeiros meses da pandemia, alinhadas com as restantes atividades do Hospital, ajustaram a sua resposta a situações urgentes e importantes.

A obesidade é uma doença grave, global, que, em números absolutos e dada a sua elevada prevalência, mata mais do que o cancro e do que a própria Covid-19. Em Portugal e de acordo com um estudo de 2015 do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 38.9% da população adulta (25-74 anos) tem excesso de peso e 28.7% tem obesidade. Ou seja, um quarto a um terço da população portuguesa sofre de obesidade.

Além de se tratar de um poderoso fator de risco para um conjunto de outras doenças graves – como sejam a diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doença cardíaca coronária, osteoartroses diversas, alguns tipos de cancro (como cancro da mama e cancro do útero) e problemas de fertilidade feminina – a obesidade é, muito provavelmente, o maior fator de agravamento no caso de infeção pelo SARS-CoV-2.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Por outro lado, o contexto de confinamento prolongado em que temos vivido nos últimos meses contribui para o agravamento do problema do excesso de peso e da obesidade. Com as pessoas confinadas em casa num ambiente de stress e ansiedade (insegurança laboral/económica e isolamento social), é de prever um descontrolo dos hábitos alimentares; acresce o sedentarismo forçado, com menos crianças a brincar ao ar livre, ginásios fechados e maior dificuldade em geral para a prática da atividade desportiva.

Com o tempo que levamos de pandemia, estamos longe de saber tudo mas aprendemos muito. A adoção generalizada dos cuidados básicos de uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento social pela população é uma realidade. As unidades prestadoras de cuidados de saúde adotaram, por seu lado, medidas de segurança robustas e efetivas na luta contra a infeção – o que se tem traduzido, não apenas na redução da transmissão da infeção Covid-19 para níveis negligenciáveis nestas unidades, mas também na redução da infeção hospitalar em geral, Covid e não-Covid (que sempre existiu), para valores inferiores aos que se observavam antes da pandemia. Finalmente, a vacina apareceu, o processo de vacinação começou e progride.

Em relação às medidas adotadas pelas unidades prestadoras de cuidados de saúde e à retoma da cirurgia da obesidade em particular, foi publicado em julho de 2020 na revista Obesity Surgery um conjunto de recomendações de segurança emanadas de um consenso (no qual participámos) obtido entre 44 peritos internacionais de 23 países. Estas recomendações são hoje rigorosamente observadas com excelentes resultados.

De entre as recomendações emitidas para a retoma da cirurgia da obesidade, para além dos protocolos gerais de higienização e distanciamento já adotados pelos hospitais, destacam-se as seguintes: a decisão de retoma deve ser adaptada às circunstâncias locais (nacionais, regionais e da instituição) e reavaliada mensalmente; deve ser garantida a disponibilidade de Equipamento de Proteção Individual (EPI) adequado; a cirurgia deve realizar-se num sector ou ala do hospital não alocada ao tratamento de doentes Covid-19; os doentes devem realizar um teste Covid-19 24 a 72 horas antes da intervenção cirúrgica; deve ser minimizado o número de pessoas na sala durante a operação; na fase inicial após a retoma, as operações devem ser realizadas por um cirurgião bariátrico sénior; os doentes devem isolar-se em casa com a família por duas semanas após a operação e devem ser instruídos a procurar atendimento médico urgente se desenvolverem sintomas incomuns, como tosse persistente, febre ou vómitos; deve ser disponibilizado um acesso fácil e direto à equipa médica.

Quanto à evidência disponível sobre a segurança dos procedimentos em ambiente hospitalar, em novembro de 2020 foi publicado um estudo (onde também colaborámos) na revista The Lancet – Diabetes & Endocrinology, que incluiu 2116 doentes de 133 hospitais, em 38 países, operados entre maio e julho de 2020, no qual se concluiu que a morbilidade e a mortalidade nos 30 dias subsequentes a uma intervenção cirúrgica para tratar obesidade mórbida durante a pandemia Covid-19 foram similares aos níveis que se observavam antes da pandemia.

Desta forma e com o que sabemos hoje, não faz mais qualquer sentido continuar a adiar os tratamentos da obesidade e do excesso de peso. Os programas de perda de peso devem ser retomados e os constrangimentos associados ao confinamento devem ser ultrapassados com vontade e imaginação. No caso dos doentes com obesidade severa ou mórbida, os programas de cirurgia metabólica e bariátrica, na medida das disponibilidades dos hospitais, devem ser recuperados e prosseguidos.

Na priorização da retoma global dos cuidados de saúde, os doentes com obesidade, portadores de uma doença grave e que constitui um dos maiores fatores de agravamento em caso de infeção por Covid-19, não podem, nem devem, ser estigmatizados. Por fim, os próprios doentes não devem ter receio de recorrer às unidades prestadores de cuidados de saúde, que, do ponto de vista do controlo de infeção, são hoje mais seguras do que nunca.