1 Não me parece que seja como por “aí” se apregoa. Pelo contrário: não é Pedro Passos Coelho – sempre ele – que “não quer” ir dar uma mão a Marques Mendes numa semana crucial: é uma grande parte do PSD que desde há anos – imensos anos – não quer ouvir falar de Pedro Passos Coelho: pô-lo de parte. Ano após ano o seu legado ficou vazio – ou disfarçado como um embaraçoso constrangimento, talvez até como um pecado – quando Passos pegou Portugal de caras em 2011 e deixou-o, quatro anos depois, mais robusto de saúde nacional e internacional, mas eles não deram por isso. (E quem deu, não gostou e não esqueceu). Um inexplicável desrespeito pela herança deixada ao próprio PSD e à história do partido. Claro que o CDS fez parte da coligação que levou a troika às costas. Mas não esqueço um sempre (ou quase, quase sempre ) recalcitrante CDS, acolitado por centristas queixosos e demasiadas vezes acometidos de “estados de alma”: perguntem a Luís Montenegro, então (excepcional) líder parlamentar da bancada PSD/CDS o que passou com o parceiro, que ele lembra-se. (Eu também.)
De modo que nem Passos Coelho, nem o seu entendimento de “serviço”, nem a resiliência que mostrou até à “saída limpa” do processo de ajustamento, com Portugal a crescer desde o fim de 2013, interessaram por ali além aos barões do PSD. Até hoje. E a Belém ainda menos: o Palácio foi sempre uma máquina trituradora da governação 2011/2015 e mais tarde o “soprador” de falsas intenções atribuídas ao ex-primeiro ministro. Também até hoje. É obra.
To make a long story short: acusar Passos Coelho de reticências ou ausências da campanha de Marques Mendes releva da vergonha: então agora precisam dele, afinal precisam? Sejamos sérios. A História é o que foi e não uma conveniência para uso do dia ou da circunstância. O que parece – e isso sim, seria sério – é que o PSD tem de começar a olhar melhor para dentro de si mesmo. Há o início de um processo de decadência que não será invertido ao de leve, nem abrandado com inoperantes clichés do género “o partido sempre foi assim”.
Alguém será capaz de tal empreitada nos amanhãs não cantantes que se anunciam?
2 Não me parecia nada. Ou não parecia tanto: quem havia de dizer que um militar de boa aparência, formado numa escola que sempre se recomendou no país, seria capaz do indigesto espectáculo com várias sessões de insulto grátis? Gouveia e Melo aterrou como auto-impoluto “out-sider” na política portuguesa para a salvar – e nos salvar – de uma democracia suja e da poluição doentia do seu ar (as palavras são minhas). Fê-lo olhando para tudo e todos – da esquerda à direita – com uma pena autoritária e um gelado desdém que camuflava de confiança em si mesmo.
Quem diria que preferiria afinal a via do insulto, da suspeita, da difamação, da acusação? (Diz-me que via política escolhes, dir-te-ei quem és?)
Numa semana crucial, o tom de Gouveia e Melo tem subido como um febrão no termómetro do escárnio e mal dizer e Gil Vicente que me desculpe por sugerir uma comparação entre o génio que ele era e um candidato autoritariamente acusativo e acusador.
Não me é difícil imaginar a fúria homérica que, onde esteja, o dr. Soares deve ter tido ao ouvir-se invocado como modelo ou referência por este candidato; ou do sorriso de desgostada ironia de Sá Carneiro ao ver-se o inspirador de uma extraordinária frisa de apoiantes que o país ficou a conhecer um dia destes. Devem estar aflitos ou muito aflitos: só isso explica que não se tenham importado de parecer uns deserdados em vez dos herdeiros (?) inspirados que julgam ser, de duas figuras políticas excepcionais do passado recente. Que confusão, santo Deus.
3 Não tenho qualquer antipatia pelo cidadão António José Seguro. Conheço~o há muitos anos, somos vizinhos na minha segunda morada “oestina” que muito frequento (e sabe-se como ser “vizinhos” confere desde logo uma espécie de estatuto especial entre os próprios).
Aprecio – já as conhecia – as boas maneiras que pratica, uma natural moderação, uma natural afabilidade, o modo discreto como saiu de cena após ter sido, sem sombra de razão política, enxotado publicamente por António Costa que não via outro modo de “lá” chegar. E que mais? É que nunca a figura de António José Seguro me surgiu com a indiscutibilidade de um líder: aquela inconfundível capacidade – misto de energia política, autoridade própria, poder de decisão, rumo, agilidade tática, visão estratégica – que fazem um líder, interpelam os povos e conduzem os países. Talvez os seus votantes achem que não tem muita importância, a Presidência não tem responsabilidades executivas, Seguro se for eleito ouvirá, fará pontes, construirá consensos, tem bom presença. Os serviços mínimos, portanto.
E se forem precisos os máximos? Haverá discernimento, conhecimento, resiliência? E se aquela parte do PS que lhe quer a pele, mesmo dando hoje (fictícios) “ares” de família unida, decidir fazer-lhe a vida negra, seja de que modo for e há muitos modos ? E se – caso vença – a relação do “seu” PS consigo vier a ser impositiva, demasiado exigente?
Ter um socialista em Belém é a última das últimas boias do PS: o partido não lhe perdoaria se a boia não fosse dar a lado nenhum.
Mais “ses” assaz plausíveis: se a relação com o governo lhe reclamar mais que fazer pontes e pôr litigantes face a face, Seguro-Presidente será capaz de mediar, decidir, usar de autoridade institucional? Se face à Europa e ao Mundo de hoje, Portugal tiver que ter um verbo, um gesto, uma intervenção, forte ou muito forte e as opiniões públicas e publicadas entrarem em transe, o que soará com Seguro em Belém? Por menos, já o vimos recuar politicamente.
Alguns amigos meus de centro-direita e de direita andam enlevados. Não é preciso justificarem-se, era só tomarem nota de que nunca por nunca ser a esquerda seria capaz do anúncio público da sua mudança de território.
Cá estarei para com eco e contrição reconhecer o engano. Mas não me parece que.
4 E o resto? Ah, o resto. Ou fica para depois ou não valia a pena ter escrito nada.
5 Mudando de assunto: deixo notícia de um grande acontecimento e não penso estar a ser excessiva: no próxima semana (terça-feira) a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e o Conselho Português de Igreja Cristãs (COPIC) farão uma conferência de imprensa apresentada pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério.
O pretexto é sólido e bom – o lançamento em Portugal da “Charta Oecuménica 2025” – e o tema, aliciante: saber as igrejas cristãs em diálogo ecuménico.
A própria apresentação da “Charta Œcumenica” devidamente atualizada é um momento relevantíssimo – e oh quão amparador – na incerteza sofrida dos dias de hoje e na sombra que os cobre: reunir Igrejas cristãs de toda a Europa num compromisso comum pela unidade, a paz, a dignidade humana não é todos os dias mas foi admirável.
A Charta de que falo (também tive que me informar…) é o fruto de um amplo, longo, maturado, processo de consulta ecuménica no termo do qual as assinaturas postas no documento final falam pelo seu valor intrínseco: a do Council of European Bishops’ Conferences e a da Conference of European Churches. Ou seja: o padrão de um imenso acontecimento, um marco histórico no dialogo entre Igrejas.
Posso também sublinhar – como me fizeram a mim – o especial significado deste texto por surgir ele no ano dos 1700 anos do Concílio de Niceia, evocando as raízes comuns da fé cristã e o apelo atual à comunhão vivida: “Num contexto europeu marcado por guerra, migrações, fragmentação social e desafios éticos ligados às novas tecnologias, o documento oferece uma leitura cristã conjunta sobre temas tão centrais da nossa atualidade.”
Uma luminosa oportunidade. Poder testemunhar um acontecimento que ultrapassa o âmbito religioso, oferecendo matéria de reflexão cultural, social e política sobre o futuro da Europa –e o nosso –é uma oportunidade, quem sabe se única. Por outras palavras: vai ser preciso fazer caso dela e bom uso das suas páginas.