A imprensa financeira internacional tem chamado à atenção para o dilema que os gestores dos grandes bancos internacionais enfrentam, na construção das suas mensagens, numa conjuntura de abrandamento da economia. Podíamos substituir gestores por governantes ou banqueiros centrais que estamos perante o mesmo problema.

O problema é este: se derem demasiado destaque ao abrandamento ou mesmo se usarem a palavra começada por “R” (de Recessão) correm o risco de precipitarem a crise pela falta de confiança que vão gerar, por via de adiamentos de consumos e especialmente investimentos. Se não falarem do abrandamento da economia, que está a afectar especialmente a Europa e os Estados Unidos, vão parecer idiotas e metidos numa bolha fora da realidade, assustando igualmente as pessoas.

Todas as palavras terão de ser bem medidas, pelos governantes e personalidades com responsabilidades na política económica, assim como pelos gestores dos bancos e banqueiros centrais.

Essa prudência leva-nos às previsões do FMI e às mensagens prudentes que foi deixando. No seu World Economic Outlook deste Abril de 2019 aponta para o abrandamento da economia mundial, com especial relevo para a Europa e Estados Unidos. Aquilo que no final do ano foi sendo classificado como um abrandamento temporário, passou a abrandamento mais duradouro para neste momento começarmos já a ver cenários de riscos de recessão – não do FMI mas de analistas e economistas. Estamos na fase dos “se’s”: se o Reino Unido – cujo arrastado Brexit foi apenas adiado para Outubro – sair de forma ordenada; se a administração Trump não voltar a ter ataques de proteccionismo; se o abrandamento na Alemanha tiver sido apenas temporário, e fruto dos atrasos que a aplicação de novos critérios técnicos provocou nas exportação de automóveis; se a Itália conseguir gerir o seu problemas de contas públicas e na banca; se a China conseguir reanimar… Então vamos estar a recuperar já com maior solidez na segunda metade do ano. Caso contrário podemos estar perante uma nova recessão.

Há vários problemas que se levantam com uma recessão a curto prazo. Para alguns países europeus, designadamente para Portugal, é prematura. Existem demasiados problemas financeiros, herdados da crise, ainda por resolver. É o caso de dívidas ainda muito elevadas – no caso português, públicas e privadas –, o crédito malparado ainda muito alto nos bancos e um elevado peso que os bancos têm de dívida pública – um problema que Portugal também enfrenta.

Usando mais uma vez os documentos do FMI, vale a pena visitar o Fiscal Monitor (pág. 10), onde se pode ver que Portugal faz parte do grupo de países com maiores necessidade de financiamento das suas contas públicas entre 2019 e 2021 – é o quarto nesse conjunto de países. O que coloca Portugal numa situação vulnerável a qualquer tempestade financeira, que leve a maiores dificuldades de acesso a crédito nos mercados internacionais.

Uma tempestade financeira que reduza o acesso de Portugal aos mercados financeiros terá igualmente um impacto muito significativo nos bancos, porque têm nos seus activos muita dívida pública. É isso mesmo que se pode ler num outro relatório do FMI, o “Global Financial Stability Report”.

“A carteira de títulos de dívida pública é elevada quando comparada com o total dos activos em vários países, particularmente na Bélgica, Itália, Portugal e Espanha”, pode ler-se nesse relatório do FMI (pág. 23). E logo a seguir afirma-se que “uma subida significativa das taxas de juro de dívida pública vai gerar perdas significativas em bancos europeus, designadamente em Itália, Portugal e Espanha”.

Ou seja, estas ótimas notícias que temos dado, sobre as taxas de juro historicamente baixas a que o Estado tem sido capaz de se financiar, podem transformar-se em perdas volumosas para os bancos que têm esses títulos em carteira se, de repente, se desencadear uma crise financeira.

Verdadeiramente não sabemos se o que se está a aproximar é um abrandamento económico temporário ou uma recessão. Menos ainda conseguimos adivinhar – que é disso que se trata – o momento em que os investidores se tornam desconfiados e começam a considerar alguns países como Portugal arriscados. Lembremo-nos como, de um momento para o outro, a crise de 2007, que parecia ser um simples problema de liquidez, se transformou na maior crise financeira, económica e social desde a segunda guerra mundial.

Os governantes vão tentar que essas nuvens no horizonte não se transformem em tempestade, por acção do pessimismo de cada um de nós. Os discursos serão mais optimistas do que a realidade que tentam retratar, sem caírem no ridículo. Cada um vai tentar resolver da melhor forma esse dilema, entre o realismo e o optimismo moderado. Mas perante o que vemos – e sem que aqui se tivessem integrado as variáveis políticas que podem ser determinantes –, cada um de nós precisa de estar preparado para a possibilidade de perder de novo rendimento.